O sorriso do diabo

Rgine Deforges

A BICICLETA AZUL-3

Traduo de
LIGIA GUTERRES

EDITORA BEST SELLER

Resumo dos volumes anteriores

No INCIO do outono de 1939, Pierre e Isabeile Delmas vivem felizes em Montillac, sua propriedade na regio vinhateira de Bordus, junto s trs filhas - Franoise, La e Laure - e ainda Ruth, a governanta fiel. La tem, ento, dezessete anos.
Dotada de grande beleza, herdou do pai o amor pela terra e pelos vinhedos, no meio dos quais cresceu. Mathias Fayard, filho do encarregado das adegas, foi o seu companheiro de infncia e agora ama a jovem em segredo.

1 de setembro de 1939. Em Roches-Blanches, propriedade dos d'Argilat, amigos da famlia Delmas, festeja-se o noivado de Laurent d'Argilat com sua prima Camilie. Acompanhados dos respectivos filhos, encontram-se presentes os tios e a tia de La: o advogado Luc Delmas com Philippe, Corinne e Pierre; Bernadette Bouchardeau e Lucien, seu filho, alm de
Adrien Delmas, dominicano, considerado o revolucionrio da famlia.
Compareceram tambm  festa os admiradores de La, Jean e Raul Lefvre. Mas a jovem no compartilha da alegria geral enamorou-se de Laurent e no suporta a idia de seu noivado. Nesse momento conhece Franois Tavernier, homem elegante, cnico, ambguo e seguro de si. Despeitada com Laurent, La fica noiva de
Claude d'Argilat, irmo de Camilie. A guerra eclode nesse mesmo dia -  a mobilizao geral.
Desesperada, La assiste ao casamento de Laurent com Camilie.
Adoece,  tratada pelo mdico da famlia, o Dr. Blanchard, e adia a data do prprio casamento. O noivo morre, porm, nos primeiros combates.
La passa alguns dias em Paris, em casa das tias-avs, Lisa e Albertine de Montpleynet. Na capital, volta a encontrar
Camilie e Franois Tavernier, por quem nutre um misto de dio e de atrao. Conhece tambm Raphel Mahl, escritor homossexual oportunista e inquietante, assim como Sarah Muistein, jovem judia alem que fugiu dos nazistas.
Laurent parte para a frente de combate e La assume diante dele o compromisso de cuidar de Camilie, que espera um filho e cuja sade inspira srias apreenses. Apesar disso as duas devem fugir da Ocupao. Percorrem, ento, as estradas do xodo em condies dramticas, sob bombardeios. Durante a fuga, La, desvairada, encontra-se por acaso com Mathias
Fayard, que lhe proporciona um momento de ternura, e tambm com Franois Tavernier, com quem descobre o prazer sexual. A assinatura do armistcio possibilita s duas jovens chegarem a Bordus, onde Camille d  luz o filho, Charles, assistida por Frdric Hanke, um oficial alemo.
O dia do regresso, porm, ser dia de luto: Isabeile, me de La, morreu durante um bombardeio. Depois disso, o pai mergulha lentamente na loucura, enquanto, na propriedade, requisitada pelos ocupantes, a vida  precria, feita de privaes e de dificuldades.
La, Camilie e o pequeno Charles vo visitar Laurent, escondido em casa do casal Debray, desde a sua fuga da Alemanha.
Laurent entrar em seguida na clandestinidade.
Entre os habitantes das aldeias e no seio das famlias vai-se estabelecendo a clivagem de seus membros - petainistas convictos contra partidrios da luta pela liberdade. Instintivamente, La adere a esta ltima categoria. Inconsciente do perigo, comea a servir de correio para os combatentes clandestinos. Quanto a Franoise, a irm, apaixona-se por um ocupante, o tenente Kramer.
Mathias Fayard mantm com La uma ligao difcil, agravada pelo fato de seu pai cobiar a propriedade dos Delmas.
Repelido por La, Mathias parte para a Alemanha como trabalhador voluntrio.
Esgotada pelo peso das responsabilidades, La volta a Paris, instalando-se por algum tempo em casa das tias, Lisa e
Albertine de Montpleynet. Divide o tempo entre a transmisso de mensagens clandestinas e a vida mundana da Paris da Ocupao. Procura esquecer a guerra na companhia de Franois
Tavernier, freqentando o Maxim's, o L'Ami Louis ou o pequeno restaurante clandestino do casal Andrieu.
Reencontra Sarah Mulstein que lhe abre os olhos a respeito dos campos de concentrao, e com Raphal
Mahl, que se entrega a um colaboracionismo abjeto.
Apazigua a nsia de viver nos braos de Franois Tavernier. Mas Montillac requer sua presena.  obrigada a assumir sozinha as responsabilidades, devido  falta de dinheiro,  cobia de Fayard,  deficiente sade mental do pai e s ameaas que pesam sobre a famlia d'Argilat.
Graas a Adrien Delmas, o tio dominicano, encontra-se com Laurent nos subterrneos de Toulouse e se entrega a ele. Na volta,  interrogada pelo tenente Dohse e pelo comissrio Poinsot. Libertam-na devido  interveno do tio Luc.
Franoise foge de casa depois que o pai se ope a seu casamento com o tenente Kramer. O golpe  rude demais para Pierre Delmas, que  encontrado morto. Adrien, Luc, Laurent e Franois Tavernier renem-se por breves momentos durante o funeral. E, aps um ltimo contato ntimo com Tavernier, em comunho com o perfume da terra de Montillac, La fica s com Camilie, Charles e a velha Ruth, diante das contingncias do destino.
Na noite de 20 para 21 de setembro de 1942, em pleno perodo de ocupao alem, setenta membros da
Resistncia aguardam a morte nas celas do forte de H, perto de Bordus. Pouco depois, durante uma manh chuvosa, diante do peloto de execuo entoam pela ltima vez a Marselhesa.
A vida  dura em Montillac, a despeito dos esforos de Camilie, que procura compor a situao diante de
Fayard, o feitor que sonha apropriar-se das terras.
Em Paris, La est uma vez mais em casa das senhoras de Montpleynet. Volta a encontrar o escritor judeu
Raphal Mahl, informante da Gestapo, assim como o enigmtico Franois Tavernier, por quem continua a sentir uma espcie de paixo agitada. Atordoa-se freqentando restaurantes clandestinos e assiste impotente  deteno de Sarah Mulstein pela Gestapo. Sarah ser torturada mas, graas  ajuda de Raphal Mahl, conseguir fugir. Antes de lhe darem a fuga de Paris, La e Franois Tavernier a escondem na casa das senhoras de Montpleynet.
Enquanto Laurent  ptocurado pela polcia nazi, Camilie  presa.
Encerrada no forte de H e depois no campo de Mrignac, acaba por adoecer. De volta a Montillac, La tudo faz para libert-la.
Sem nada obter de Camilie, a Gestapo acaba por solt-la.
Entre Mathias Fayard, amigo de infncia, que optou pela Alemanha e os irmos Lefevre elementos da Resistncia, tal como ela mesma, Lea descobre uma triste realidade: a do horror e da tortura. . . O Mathias de sua adolescncia morre para La num hotel srdido mantido por uma prostituta imunda.
Em seu lugar existe agora um homem brutal que a assusta.
Muitos jovens da regio de Bordus trabalham para a Gestapo.
Uma atmosfera de dio divide as pessoas. Nesse clima deprimente,
La espera por Franois Tavernier, que chega, enfim, a Montillac, onde participa do almoo oferecido em homenagem a um jovem francs colaborador da Gestapo, que Laure, a ingnua irm caula de La, havia conhecido. Todos se deixam iludir; mas,  tarde, o
Dr. Blanchard  abatido por esse mesmo jovem. Laurent d'Argilat e Franois Tavernier encontram-se face a face, pela primeira vez aps trs anos de afastamento. De comum acordo, decidem enviar para
Paris as moradoras de Montillac.
Os franceses recomearam a ler, mas as livrarias esto vazias.  a poca dos jovens excntricos, do quilo de manteiga a trezentos e cinqenta francos e do caf de mil a dois mil francos. Os alemes recuam na frente oriental. Assaltada pelo frenesi do prazer, La diverte-se para no pensar nos amigos mortos ou desaparecidos.
Pouco tempo depois, toma novamente o trem para Bordus.
Raphal Mahl, renegado pelos amigos da Gestapo, transformou-se no prisioneiro nmero 9793 de uma das celas do forte de H. A, contudo, no deixa de recolher informaes, sobretudo acerca da presena de pilotos ingleses no identificados pelos alemes. Fria mente vai-lhes fornecendo nomes.
Certa noite, porm, o cadver de Raphal Mahl, horrorosamente mutilado pelos companheiros de cela,  atirado numa fossa e coberto de imundcies.
Franois Tavernier encontra-se com La em Montillac, mas volta a partir quase em seguida. La fica s.

"Eis que o tempo faz a sua obra - as lgrimas secaro, o dio se extinguir, os tmulos desaparecero. A Frana, porm, continuar a existir".
Charles de Gaulie
Memrias de Guerra - "A Salvao"

Captulo 1

PARA LA comeou, ento, uma longa espera.
Os dias doces e chuvosos desse incio de 1944 midaram bruscamente na manh de 14 de fevereiro e a temperatura baixou at cinco graus negativos. Durante quinze dias, o vento Norte lutou contra a neve. Por fim, em meados de maro, o tempo se aqueceu novamente, anunciando que a primavera se aproximava.
Em Montillac, Fayard, inquieto, observava o cu - nem uma nuvem, e h muito que no chovia. Aquela seca desesperava os agricultores, que no sabiam como alimentar o gado e comprometia a prxima colheita de forragem.
As relaes entre os moradores do "castelo" e Fayard, o encarregado das adegas, chegaram ao ponto de ruptura depois que um contador examinou os livros da propriedade. Fayard viu-se forado a reconhecer as vendas de vinho para as autoridades da Ocupao, no obstante La o tivesse proibido e, antes dela, o pai. Em sua defesa, o homem alegou que seriam os nicos proprietrios da regio a no comercializar vinho com os alemes; a quem, alis, j vendiam desde muito antes da guerra, e a maior parte dos boches responsveis daquela regio era de importantes negociantes de vinhos na Alemanha; tinham mesmo agentes em Bordus h mais de vinte anos. Alguns desses agentes eram conhecimentos de longa data. La no se lembrava daquele velho amigo do senhor d'Argilat que os visitara durante as vindimas de 1940?
A jovem recordava-se perfeitamente. Mas lembrava-se tambm de que seu pai e o senhor d'Argilat haviam pedido ao honesto comerciante de Munique, nessa poca oficial da Wehrmacht, para no voltar a procur-los enquanto perdurasse a guerra.
Fayard reconheceu ter "posto de lado" as quantias provenientes dessas transaes, pois, sabendo das idias da senhorita. . .
Garantiu, porm, que tencionava devolv-las, De qualquer maneira, parte dessa quantia fora empregada na manuteno e na substituio de material agrcola. A senhorita no tinha idia do custo do barril mais insignificante!
Mas La sabia, se sabia! O cheque generoso enviado por Franois Tavernier fora acolhido com um suspiro de alivio pelo velho banqueiro de Bordus. Ele se sentia mal em pressionar a filha de seu antigo companheiro do Liceu Michel Montaigne por causa de cheques sem fundos e letras por liquidar. Infelizmente, as telhas da ala direita da casa tinham voado durante uma noite de temporal e a conta bancria da propriedade estava novamente devedora, O tcnico mandado por Tavernier fizera um adiantamento, pensando ser reembolsado dentro de pouco tempo, mas nem ele nem La recebiam notcias de
Franois desde meados de janeiro. Logo chegaria o final de maro.
O contador terminou seu trabalho e diante dessa situao aconselhou-a que negociasse com Fayard ou que apresentasse queixa por desvio de fundos, La recusou as duas sugestes.
Sem o pequeno Charles, que, com seus gritos e brincadeiras, trazia um pouco de alegria, a atmosfera de Montillac estaria sinistra. Cada uma das mulheres, porm, fazia o maior esforo para esconder das outras a prpria angstia. Somente
Bernadette Bouchardeau, por vezes, deixava que uma lgrima lhe deslizasse pelo rosto magro. Camilie d'Argilat vivia em suspense, dia e noite, na escuta das mensagens da Rdio-Londres, esperando um sinal de Laurent. Depois da morte do Dr.
Blanchard, Sidonie enfraquecera muito, e vivia entre a cama e a poltrona instalada diante da porta. Desse posto, seu olhar abarcava todo o domnio e a extensa plancie de onde subiam as fumaas das chamins de Saint-Macaire e de Langon. A passagem dos trens que atravessavam o Garonne marcava o compasso das interminveis horas solitrias e silenciosas.
A antiga cozinheira preferira regressar a Bellevue e todos os dias Ruth levava-lhe comida. Tambm La, Camille e
Bernadette passavam algum tempo com ela. A doente resmungava, dizendo que perdiam tempo com visitas quando tinham coisa melhor para fazer do que se ocupar com uma velha imprestvel.
A prpria Ruth, to calma, tambm se sentia afetada por esse clima de tristeza e de angstia. A dvida assaltava-a pela primeira vez desde o comeo da guerra. O temor de ver surgir a Gestapo ou a milcia impedia que a slida alsaciana dormisse.
Para matar o tempo, La empenhava-se em revolver a terra da horta e em arrancar as ervas daninhas que cresciam junto das cepas. Quando tal exerccio era insuficiente para cansar-lhe o corpo e entorpecer-lhe o esprito, pedalava durante quilmetros, percorrendo os campos acidentados. De regresso a casa, deixava-se cair no div do escritrio do pai, mergulhando num sono agitado e pouco reparador. Quando despertava, quase sempre Camilie estava a seu lado, com um copo de leite ou um prato de sopa nas mos. Trocavam ento um sorriso e ficavam caladas durante um longo tempo, olhando o fogo da lareira. Quando o silncio se tornava pesado demais, uma delas ligava o rdio sobre a cmoda perto do div, procurando captar a emissora londrina. Mas, devido a interferncias, cada dia se tornava mais difcil ouvir com clareza aquelas vozes, agora to preciosas, que lhes falavam de liberdade.
Honra e Ptria. Um prisioneiro fugido dos stalags, membro do comit diretor da Junta dos Prisioneiros de
Guerra Franceses, Franois Morland lhes fala.
Prisioneiros de guerra repatriados e fugitivos, meus camaradas dos grupos de Resistncia: em primeiro lugar, quero lhes repetir a boa nova..
Um crepitar abafou a voz do orador.
- Sempre a mesma coisa! Nunca saberemos que boa nova  essa - exclamou La, desferindo grandes murros no aparelho.
- Espere. Sabe que isso no serve para nada - disse Camilie, afastando a amiga com suavidade.
Ligou e desligou o aparelho por diversas vezes. Estava quase desistindo quando a mesma voz prosseguiu:
Em vosso nome, falei ao general De Gaulle da f que nos anima. Tambm em vosso nome, disse ao comissrio Frenay, fugitivo, como ns, tudo aquilo que constitui a nossa razo de viver. Mas esses homens, cujo mrito consiste em acreditar no futuro, j haviam compreendido a esperana que acalentamos.
A volta das interferncias permitiu que se ouvisse apenas alguns retalhos de frases; depois cessaram bruscamente:
Mas o que eles exigem  mais amplo e mais generoso. Nos campos e nos comandos aprenderam a se reconhecer, por isso, desejam agora uma ptria livre das marcas do cansao e do envelhecimento. E, porque se reencontraram, querem uma ptria onde as classes, as categorias, os escales se confundam numa justia mais forte ,que a caridade. E, porque, nas cidades e nos campos do exlio, partilharam a mesma misria com homens de todas as raas e de todas as naes, aspiram a dividir com eles os benefcios da vida futura.
Sim, camaradas!,  por todos que combatemos e  por tudo isso que escolhemos a luta. Recordemos o juramento feito no instante da partida, ao deixar para trs os nossos. Eles nos diziam: "Acima de tudo no nos atraioem, acima de tudo digam  Frana que venha ao nosso encontro com o seu mais belo rosto".
Fugitivos, repatriados, os dos centros de auxlio mtuo, os dos grupos clandestinos isolados, chegou o momento de cumprir essa promessa!
- Mais um idealista! - comentou La. - Ah, como  belo o rosto da Frana! Esse tal Morland que venha ver aqui como  o rosto da Frana: inchado de medo, de dio e de cobia, o olhar velhaco, a boca vomitando calnias e denncias.
- Acalme-se, La! Voc sabe muito bem que a Frana no  s isso, mas tambm mulheres e homens como
Laurent, como Franois, como Lucien, como a senhora Lafourcade.
- Pouco me importa! - gritou La. - Essas ou j morreram ou vo morrer e s os outros restaro.
Camilie empalideceu.
- Oh, cale-se! No diga uma coisa dessa.
- Oua! As mensagens pessoais.
Aproximaram-se tanto do aparelho que as duas cabeas tocavam na madeira envernizada.
Tudo se encarnia contra mim, tudo me assedia, tudo me tenta. Repito: tudo se encarnia contra mim, tudo me assedia, tudo me tenta. Os patos de Ginetie chegaram bem. Repito: os patos de Ginette chegaram bem. A cadela de Brbara vai ter trs cachorros. Repito: a cadela de Brbara vai ter trs cachorrinhos. Laurent bebeu o copo de leite. Repito:
- Ouviu?
Laurent bebeu o copo de leite.
- Est vivo! Est vivo!
Rindo e chorando, lanaram-se nos braos uma da outra. Laurent d'Argilat estava bem. Era uma das mensagens combinadas, informando-as de que no deveriam se preocupar.
Nessa noite, tanto La como Camilie dormiram tranqilas.
Uma semana depois da Pscoa, um amigo comum, o aougueiro de Saint-Macaire, que ajudara Adrien Delmas a fugir, veio visit-las em sua camioneta. O veculo fazia tanto barulho que as pessoas sabiam da sua chegada com alguns minutos de antecedncia. Quando o veculo entrou na propriedade, Camilie e La j se encontravam no limiar da porta da cozinha.
Com um amplo sorriso, Albert encaminhou-se para as duas jovens, transportando um embrulho envolto num pano muito branco.
- Bom-dia, senhora d'Argilat. Bom-dia, La.
- Bom-dia, Albert. Que prazer em v-lo! H quase um ms que o senhor no aparecia.
Oh!, dona Camille, hoje em dia no se faz o que se quer. Posso entrar? Trouxe um belo assado e fgado de vitela para o pequeno. Mireille acrescentou uma terrina de coelho. Depois me diro se gostaram.
- Obrigada, Albert. Sem o senhor, quase no comeramos carne aqui em casa. Como est seu filho?
- Est bem, dona Camille. Ele disse que tem sido um pouco duro e que sofreu muito devido s frieiras. Mas agora est melhor.
- Bom-dia, Albert. Quer uma xcara de caf? - ofereceu a governanta
- Bom-dia, senhorita Ruth. Sim, com muito prazer. Caf de verdade?
- Quase - respondeu, pegando a cafeteira que se conservava quente em cima do fogo.
O aougueiro sorveu um gole e limpou os lbios com as costas da mo.
- Tem razo,  quase autntico - admitiu ele. - Venham aqui. Tenho coisas importantes para lhes dizer. Ontem recebi um recado do padre Adrien:  possvel que logo o vejamos por estas bandas.
Quando?
- Isso no sei. Conseguiram que os irmos Lefvre fugissem do hospital.
- Como esto eles?
- Esto sendo cuidados por um mdico das redondezas de Dax. Assim que se restabeleam, iro se reunir ao grupo de Dd, o Basco. Lembram-se de Stanislas?
- Stanislas? - perguntou La.
- Aristide, se preferir.
- Sim, claro que me lembro.
- Voltou  regio para reorganizar uma rede clandestina e punir traidores que denunciaram camaradas.
- Trabalha com ele?
- No, trabalho com os de La Role. Mas como estamos no limite dos dois setores, funciono como intermedirio entre ele e
Hilaire.  preciso que uma de vocs v avisar a Senhora Lefvre que seus filhos esto bem.
- Eu fao isso - prontificou-se La. - Estou to feliz por eles! Foi muito difcil a fuga?
- No, no foi. Tnhamos cmplices dentro do hospital e os policiais de vigia eram homens de Lancelot. Ouviram ontem a mensagem de Laurent na emissora de Londres?
- Ouvimos. Depois de tantos dias de angstia, parece que as boas notcias chegam todas ao mesmo tempo.
- Apenas para algumas pessoas. No consigo deixar de pensar nos dezessete rapazes de Maurice Bourgeois que esses bandidos fuzilaram em 27 de janeiro.
Todos se lembraram da edio do La Petite Gironde de 20 de fevereiro, que anunciava: Execuo de Terroristas em
Bordus.
- Conhecia-os, Albert? - perguntou Camilie em voz entrecortada.
- Conheci alguns deles. Naquela poca prestvamos servios uns aos outros embora sejamos gaulistas e eles comunistas.
Gostava bastante de um deles em particular, de Serge Arnaud. Tinha a mesma idade de meu filho.  triste morrer aos dezenove anos.
- Quando tudo isto vai acabar? - suspirou Ruth, enxugando os olhos.
- Espero que logo.  que ns no somos muitos. E os da Gestapo so espertos. Depois das prises, das deportaes e das execues no Gironde, Aristide e os outros tm muita dificuldade para encontrar voluntrios.
A campainha de uma bicicleta o interrompeu. A porta abriu-se e surgiu Armand, o carteiro.
- Bom-dia, minhas senhoras. Uma carta para voc, senhorita La. Espero que seja bem mais agradvel do que a que entreguei a Fayard.
- Mais uma carta do banco... - suspirou a jovem.
- Sabe o que havia dentro da outra? - prosseguiu Armand. - No tente adivinhar que no acerta. Uma urna.
As trs mulheres exclamaram ao mesmo tempo.
- Uma urna?!
-  como lhes digo... uma pequena urna preta recortada num carto. E acho que vi inscrito nela o nome de Fayard - declarou o carteiro.
- Mas por qu? - Camilie se surpreendeu.
- Ora, todos aqueles que colaboram com os boches tm recebido a mesma coisa, avisando-os de que vo lhes arrancar a pele quando a guerra terminar.
- E isso por algumas garrafas de vinho - comentou Camilie com desprezo.
- No s pelas garrafas, dona Camille - disse o aougueiro secamente.
Que quer dizer com isso, Albert? - perguntou La.
- No h certeza, mas Fayard foi visto saindo da Kommandatur de Langon pelo menos por duas vezes.
- Todos j fomos at l por algum motivo.
- Claro, dona Camille. Mas os boatos correm e, alm disso, h o filho. Quando penso que o conheci garoto! Parece que ainda vejo vocs dois correndo um atrs do outro pelo meio das vinhas, lambuzados de uvas. Lembra-se, La?
- Se me lembro! Mas parece que foi h muito tempo...
- Isso no vai contribuir para melhorar o humor de Fayard
- interveio Ruth, oferecendo um copo de vinho ao carteiro.
- Claro que no. Fayard ficou muito vermelho e depois empalideceu, ao descobrir o que havia dentro do envelope. Sa sem dizer nada e me safei dali.
Num s gole, ele esvaziou seu copo:
- Isso no  tudo. . . Fico falando, fico falando. . . e ainda no terminei a minha volta. Bem, at depois a todos. At a prxima.
- At logo, Armand.
- Preciso ir tambm - disse Albert,
La acompanhou-o at o veculo.
- Dentro de alguns dias vo chegar armas em pra-quedas. Poderia verificar se o esconderijo do Calvrio no foi descoberto? Deve haver uma caixa de cargas e outra de granadas.
- Irei amanh.
- Se tudo estiver em ordem, trace uma cruz com giz branco na grade em volta do anjo da encruzilhada - recomendou Albert.
- Combinado.
- Seja prudente. Seu tio no me perdoaria se alguma coisa lhe acontecesse. E no confie em Fayard.
Tudo parecia normal na capela da encruzilhada; os caixotes estavam intatos. Apesar do bom tempo, o Calvrio estava deserto.
Na noite de 15 para 16 de abril, a chuva, caindo abundantemente, abrira sulcos pelos caminhos em declive, acumulando nas zonas baixas montinhos de detritos que escorregavam sob os ps.
Quando voltava para casa, La passou pelo cemitrio. Deteve-se um pouco junto ao jazigo dos pais, onde arrancou as ervas daninhas que escaparam aos cuidados de Ruth. No se via ningum. Crianas gritavam por perto. "Hora do recreio", pensou empurrando a porta da baslica. Estremeceu na umidade glacial do interior.
Trs velhinhas que rezavam voltaram a cabea  sua entrada.
Mas o que estava fazendo ali? Sainte Exuprance em seu relicrio tinha, mais que nunca, o aspecto daquilo que era na verdade - uma grande boneca de cera vestida com trajes empoeirados. Onde estaria a emoo de sua infncia? Onde estaria a maravilhosa imagem da pequena santa cujo nome ela mesma havia adotado? Tudo aquilo estava se tornando ridculo e perigoso.
Um crescente mau humor a invadia. Uma vontade de mandar tudo para o ar, de estar na Avenida Saint-Michel ou nos
Campos Elsios com Laure e seus amigos excntricos, bebendo coquetis de nomes e cores estranhos, danando nos bailes clandestinos ou ouvindo discos americanos proibidos, em vez de ficar pedalando pelos campos e vinhedos para levar mensagens ou granadas, de conferir contas e de aguardar, plantada diante do telefone, notcias de Franois, de Laurent, ou do improvvel desembarque dos Aliados. Estava farta de viver no medo constante da chegada da Gestapo ou da polcia, da volta de Mathias e da falta de dinheiro. Franois Tavernier deveria estar morto para no ter mantido sua promessa. Esse pensamento quase a fez cair de joelhos. "Isso no, meu Deus!" Acabrunhada, La saiu da igreja.
Uma enorme lassido se apoderara dela. Seus sapatos de m qualidade, com solas de madeira, pareciam pesar como chumbo. Quando passou diante da ltima casa da aldeia, alguns ces magros seguiram-na por instantes, latindo, e depois, tranqilizados, voltaram para seus abrigos.
Na encruzilhada do anjo, La certificou-se de que no havia ningum por perto e marcou a grade enferrujada com uma cruz branca. Soaram seis horas da tarde no campanrio de Verdelais. Densas nuvens escuras varriam o cu.
Teria sido o apelo do vasto cu atormentado? Fosse o que fosse, La se viu no caminho que conduzia  casa de Sidonie.
Suas dimenses mnimas eram irrisrias diante da imensido da paisagem. Como a velhinha teve razo ao querer voltar para
Believue! Ali a alma se evolava para a longnqua Landes, at o oceano ou perdia-se pelos cus infinitos. Naquele ambiente familiar, La sempre experimentava a mesma sensao de paz, um desejo de repouso, de sonho, de meditao, como teria dito Adrien Delmas.
Um gemido veio arranc-la desses pensamentos. Bela, a cachorrinha de Sidonie, gemia baixinho, colada  porta. A jovem estendeu a mo para o animal, que se ps em p, rosnando.
- Ento, que  isso? No me reconhece?
Ao ouvir a voz familiar, o bicho se aproximou da recm-chegada e deitou-se a seus ps. Depois uivou sinistramente.
Subitamente inquieta, La empurrou a porta, entrando na casa.
No interior, reinava uma desordem incrvel, como se um furaco tivesse passado por ali, derrubando mveis, quebrando loua e dispersando a roupa e os papis. Os lenis arrancados do leito e o colcho virado indicavam uma busca insistente.
Quem teria se arremessado dessa maneira contra os mseros pertences de uma velha enferma? La sabia a resposta, mas recusava-se a formul-la.
- Sidonie! Sidonie! - chamou
A cadela, agachada debaixo da cama, latia de mansinho. A velha Sidonie jazia inconsciente, entalada entre a parede e a madeira do leito. La conseguiu i-la a custo e estend-la em cima do colcho. Tinha no rosto uma palidez terrosa, escorria-lhe da narina direita um fio de sangue e na face esquerda havia um hematoma azulado.
La inclinou-se sobre ela. Da boca entreaberta saa um sopro hesitante. Sob o decote da camisola de algodo branco viam-se marcas de dedos na pele flcida do pescoo.
Bestificada, a jovem fitou o corpo estendido da mulher que, outrora, tantas vezes lhe servira de consolo e lhe dera guloseimas escondido, quando a me ou Ruth a castigavam. A lembrana dos momentos de carinho que ela lhe dispensara no grande sof do vestbulo da cozinha de Montillac fez La soluar, ao mesmo tempo que gritava em voz subitamente infantil:
- Donie! Donie! Responda!
Lutando contra o entorpecimento mortal que a avassalava, a velhinha descerrou as plpebras. La atirou-se sobre ela.
- Por favor, Sidonie, fale comigo!
A mulher ergueu o brao lentamente e pousou a mo sobre a cabea inclinada. Seus lbios abriam e fechavam sem emitirem nenhum som.
Faa um esforo - La insistiu. - Diga-me quem fez isto.
A mo da velha tornou-se mais pesada. A jovem colou o ouvido aos lbios da moribunda.
- Fu... fu... fuja.
Depois a mo pesou ainda mais. La procurou libertar-se com suavidade, murmurando:
- O que quer dizer?
Como que a contragosto, os dedos da mulher abandonaram a farta cabeleira e o brao escorregou de repente, indo bater contra a madeira do leito com um barulho oco. Bela recomeou a uivar diante da morte.
La parou de chorar. Incrdula, perscrutava o velho rosto to querido, transformado repentinamente numa imagem estranha e hostil.
No podia ser verdade! Ainda momentos antes sentira contra a face o hlito morno e agora. . . agora. . . restava dela apenas um vulto impudico, com a camisola erguida.
Com raiva, La recomps a roupa. Ah, quem faria Bela se calar? Por que uivava dessa maneira? Imbecil. Estaria chorando?
Ouviu um rudo atrs de si e voltou-se de repente. Havia um homem no limiar da porta, petrificando-a de terror. O que ele fazia naquela casa devastada, junto de um cadver ainda morno? De sbito, pensou ter encontrado a resposta. Um temor abjecto varreu para longe toda a sua coragem.
- Por favor, por favor, no me faa mal! - suplicou.
Mas Mathias Fayard j deixara de olh-la. Com a mo, afastou-a do caminho e, plido, de punhos cerrados, dirigiu-se at o leito.
- Como se atreveram.
Com ternura, uniu as mos deformadas e fechou as plpebras da mulher a quem ele, quando criana, tratava por "Mame
Sidonie e que to bem sabia como faz-lo escapar dos sopapos do pai. Ajoelhou-se ao p da cama, no para rezar uma prece, h muito esquecida, mas vergado pelo sofrimento.
La fitava-o, receosa. Quando, porm, Mathias virou para ela o rosto desfeito, devastado pelo pranto, correu at ele e caiu em seus braos, chorando tambm.
Quanto tempo teriam assim ficado de joelhos, agarrados um ao outro, diante daqueles despojos mortais que levavam consigo para o frio do tmulo tudo o que lhe restava da infncia?
Bela, empoleirada na cama, gemia, lambendo os ps da dona.
Mathias foi o primeiro a recompor-se.
- Voc precisa ir embora - disse.
La no reagiu, porm. O rapaz tirou do bolso um leno de aspecto duvidoso, e enxugou os olhos da amiga, limpando os dele em seguida. Inconsciente, La no se movia. Mathias sacudiu-a ento suavemente, de incio, e, depois, quase com brutalidade.
- Oua o que lhe digo, La. Precisa deixar Montillac. Algum denunciou voc e Camilie.
Diante da falta de reao de La, Mathias sentiu vontade de esbofete-la.
- Deus do Cu! No ouve? - gritou - Os homens de Dohse e da polcia viro at aqui para prend-la!
Enfim ela pareceu compreend-lo, v-lo! O desgosto e o abatimento estampados em seu rosto, pouco a pouco davam lugar a uma expresso de horror incrdulo.
- E  voc quem me avisa isso?!
Essa exclamao o fez abaixar a cabea.
- Ouvi Denan dar ordens a Falux, a Guilbeau e a Lacouture
- esclareceu o rapaz.
- Pensei que voc trabalhasse para eles - observou La. - Ela havia recuperado bruscamente sua energia e seu desprezo.
-  isso. Mas, seja o que for que voc pense de mim, no quero que lhe ponham a mo.
-  bem verdade que voc conhece os seus mtodos.
Mathias ergueu-se e olhou o cadver de Sidonie.
- Pensei que os conhecesse... - murmurou.
Seguindo o seu olhar, La levantou-se por sua vez, os olhos novamente marejados de lgrimas.
- Mas por que ela?
- Ouvi Falux comentar que, por carta, algum acusara Sidonie de esconder seu primo Lucien e de saber onde esto os irmos
Lefvre. Mas nunca imaginei que viriam interrog-la. S pensei em voc, em avis-la. Mas o que no compreendo  por que no passaram no "castelo" depois.
- Como sabe?
- Cortei pelas vinhas para chegar at aqui e teria visto ou ouvido os carros deles, - explicou Mathias. - S se estavam escondidos no bosque de pinheiros.
Passei por l na volta de Verdelais e no notei nada de anormal.
- Venha. Vamos embora daqui.
- Mas no devemos deixar Sidonie assim.
- No podemos fazer mais nada por ela. Quando a noite cair avisarei o padre. Apresse-se.
La beijou pela ltima vez a face j fria, e deixou a cadela, que no parava de gemer, velando o corpo.
L fora, tambm o cu parecia cheio de ameaas.
Na base do terrao, Mathias interrompeu a caminhada.
- Espere-me aqui - ordenou. - Vou ver se tem algum.
- No. Vou com voc.
O rapaz encolheu os ombros e ajudou-a a subir a ladeira. Tudo parecia calmo. Agora estava to escuro que mal se distinguia a fachada do edifcio.
La observou que Mathias avanava encostado  folhagem ainda rala do caramancho, para ficar fora da vista dos anexos da fazenda e das cocheiras. No queria ser descoberto pelos pais.
Um facho de luz filtrava-se sob a porta-balco que dava para o ptio. Certamente Camilie estava espreitando do interior, pois a porta se abriu de repente sobre a jovem, que vestia um casaco azul- marinho, como se estivesse preparada para sair.
- At que enfim voc apareceu! - exclamou.
La empurrou-a ao entrar em casa.
- Sidonie morreu - informou.
- O qu?
- Os amigos dele foram 'interrog-la".
Apertando as mos sobre o peito, Camilie fitava Mathias com expresso de incredulidade.
- No olhe para mim dessa maneira, senhora d'Argilat - disse o rapaz. - No se sabe ao certo o que aconteceu.
- Est ouvindo? "No se sabe ao certo o que aconteceu." Pensa que somos idiotas? Sabemos muito bem o que aconteceu.
Quer que lhe diga o que foi?
- No  necessrio nem iria mudar o que est feito. H coisas mais urgentes. Voc tm de sair daqui.
- E quem nos garante que isso no  uma armadilha e que voc no ir nos levar diretamente aos seus amigos da Gestapo?
Mathias, de maxilares cerrados, avanou para La erguendo o punho.
- Isso! Vamos, bata! Pode comear a tarefa deles!  do que voc gosta. . . de bater.
- Faa-a calar-se, Senhora D'Argilat. O tempo que perdemos aqui...
- Mas como saber que podemos confiar em voc? - perguntou Camilie.
- De fato, no podem. Mas a senhora, que ama o seu marido, no acreditar em mim se lhe jurar que amo La e que, apesar de tudo o que nos separa, apesar de tudo o que eu possa ter feito, estou disposto a morrer para que nada lhe acontea?
Camilie pousou a mo no brao do rapaz.
- Sim, acredito. Mas, e eu, por que motivo procura me salvar?
- La nunca me perdoaria se a senhora fosse presa - respondeu Mathias.
Nesse instante, Ruth entrou, trazendo uma sacola repleta que entregou a La.
- Pegue. Coloquei alguns agasalhos, uma lanterna e dois frascos de conserva. Agora, vo embora.
- Embora.., embora... - cantarolava o pequeno Charles, o gorro enterrado na cabea at as orelhas.
- Vamos, apressem-se! - Ruth insistiu, empurrando-as para a porta.
- Mas voc vem conosco!
- No, no vou. Algum ter de ficar para receb-los quando vierem.
- No quero que fique! - Depois do que fizeram a Sidonie.
- A Sidonie?!
- Eles a torturaram e a mataram.
- Meu Deus! - exclamou a governanta, benzendo-se.
- Ento, dona Ruth, decida-se - interveio Mathias. - Vem ou no vem conosco?

28

- No, eu fico. No posso abandonar a casa do Sr. Delmas. No se preocupem. Saberei lidar com eles. S uma coisa me importa.
- Se ns duas estivermos aqui ser mais fcil faz-los acreditar que vocs foram a Paris - disse Bernadette Bouchardeau, que acabara de entrar.
- Sua tia tem razo. A presena delas far sua ausncia parecer mais natural - disse Mathias.
- Mas elas se arriscam a serem mortas!
- O risco no  maior do que se vocs estiverem aqui.
- Isso  verdade - apoiou Ruth. - Agora, vo embora. J anoiteceu. Voc se responsabiliza por elas, Mathias?
- Eu j lhe menti alguma vez?
- O que pretende fazer?
- Lev-las at a casa de Albert para que ele arranje um esconderijo.
- Por que a casa dele? - perguntou La, quase gritando.
- Porque pertence a Resistncia e saber o que fazer com vocs.
- Por que voc diz isso?
- Pare de me achar imbecil! Sei h muito que Albert esconde aviadores ingleses, que conhece os locais dos pra-quedas e que participou na fuga dos irmos Lefvre.
- E no o denunciou?
- No faz parte dos meus planos denunciar ningum.
- Ento voc no deve estar sendo bem-visto por seus patres.
- Chega! - exclamou Camille secamente. - Ajustem contas mais tarde, O que importa, agora,  no estarmos aqui quando eles aparecerem. A senhora e Ruth tm certeza de que no querem vir conosco?
- Absoluta, Camille. Devo ficar, para o caso de Lucien ou de meu irmo precisarem de mim. E, alm do mais, estou muito velha para andar por a correndo pelos caminhos e dormindo ao relento. Mas vocs deviam deixar o pequeno Charles conosco. Sabemos como cuidar dele.
- Agradeo-lhe muito, dona Bernadette. Mas fico mais tranqila com ele por perto.
- Vou at a casa de meus pais para evitar que eles vejam vocs sarem - disse Mathias. - Nos encontramos em Montonoire dentro de quinze minutos, O carro est l.
Saiu pela cozinha.
As duas jovens e a criana engoliram a sopa, abotoaram os casacos e saram para a noite depois de mais uma vez beijarem
Ruth e Bernadette Bouchardeau.
Escondidas perto do carro preto, elas j esperavam por Mathias h quase vinte minutos.
- Ele no vem. Garanto que ele no vem!
- Claro que sim. Fique quieta. Escute... Vem vindo algum pela estrada.
Camilie, agachada ao lado do veculo, apertou o filho contra si. A noite estava to escura que a silhueta do homem se confundia com o cu.
- Sou eu, La - anunciou Mathias.
Voc demorou tanto!.
Eu no conseguia interromper os gritos de meu pai e as lamentaes de minha me. Praticamente tive de fugir. Entrem logo.
Charles, segurando contra o corpo o urso de pelcia de La, encontrado e consertado pela governanta, entrou, rindo, no carro. Era o nico a achar a situao divertida.
Nunca as ruelas da pequena cidade medieval de Saint-Macaire lhes pareceram to estreitas e to escuras. A claridade azulada dos faris camuflados no bastava para gui-los. Finalmente chegaram diante da casa do aougueiro.
Mathias desligou o motor. Nenhuma luz, nenhum rudo; apenas o silncio opressivo da noite opaca que parecia infindvel.
No interior do carro, perscrutando as trevas, todos sustinham a respirao, at mesmo Charles, o rosto enfiado no pescoo da me. Um estalido assustou La - Mathias engatilhou a pistola.
-  melhor que voc v ver - ele cochichou a seu ouvido.
Com agilidade, a jovem deslizou para fora do veculo e foi bater  porta.  quinta pancada, uma voz abafada perguntou:
- Quem ?
- Sou eu. . . La.
- Quem?
- La Delmas.
A porta abriu-se, e surgiu a mulher do aougueiro, de camisola, o xale atirado aos ombros e uma lanterna na mo.
- Entre depressa, senhorita, Voc me deu um susto! Pensei que tivesse acontecido alguma coisa a Albert.
- Ele no est?
- No. Foi a Saint-Jean de Blaignac para buscar uma carga que chega de pra-quedas. . . Mas o que a traz aqui?
- A Gestapo. Estou com Camille d'Argilat e o filho dela. Foi Mathias Fayard quem nos trouxe.
- Mathias Fayard aqui?! Aqui?! - exclamou a mulher. - Estamos perdidos!
Nesse instante, empurrando Camille e a criana  sua frente, Mathias entrou na casa e fechou a porta.
- No tenha medo, Mireille. Se eu quisesse denunci-los, j o teria feito h muito tempo. Tudo o que peo, a Albert e aos camaradas,  que as escondam. Nem quero saber onde, at o momento em que se encontre outra soluo.
- No confio em voc. Todo mundo sabe que trabalha para eles.
- No me importa o que voc sabe ou no. No se trata de mim, mas delas. E se isso servir para tranquilizar Albert e os amigos, ento que prendam meus pais como refns.
Canalha! - Mireille murmurou com desprezo. Mathias encolheu os ombros, respondendo:
- Tanto faz o que pensa de mim. O importante  que a Gestapo no as pegue. Se Albert quiser falar comigo, que deixe recado no Lion d'Or, em Langon. Irei encontr-lo onde disser. E agora tenho que ir.
Quando Mathias se aproximou, La voltou-lhe as costas. Apenas Camille apiedou-se dele ao ver o sofrimento estampado em seu rosto.
- Obrigada, Mathias.
As trs mulheres continuaram imveis na entrada da cozinha at o barulho do motor se perder na distncia. Perto da lareira apagada, o pequeno Charles adormeceu sobre uma cadeira, sem largar o seu ursinho de pelcia.
Eram trs horas da madrugada quando Albert voltou. Acompanhavam-no o soldado Riri, o garagista Dupeyron e o cantoneiro Cazenave. Todos traziam metralhadoras ao ombro.
- La... Senhora d'Argilat! - exclamou o dono do aougue admirado. - Mas o que est acontecendo?
- A Gestapo est  procura delas.
Os trs homens ficaram tensos.
- E ainda no  tudo - prosseguiu Mireilie em voz cada vez mais aguda. - Eles assassinaram Sidonie e foi o filho dos Fayard quem as trouxe para que voc as esconda.
- O filho da puta! - trovejou o garagista.
- Vai nos denunciar - balbuciou o soldado.
- No creio - murmurou o aougueiro com ar pensativo.
- Mathias disse que, caso no confiassem nele, prendessem os pais como refns - explicou Mireilie atabalhoadamente.
Camilie sentiu que era o momento de intervir na conversa.
- Tenho certeza de que Mathias no trair ningum.
-  possvel, senhora d'Argilat, mas no podemos correr nenhum risco. Acho, minha boa Mireilie, que temos de desaparecer
- disse Albert.
- Nem pense nisso! E a loja? E o nosso filho? E se ele precisar de ns e nos procurar? V, se quiser. Eu fico.
- Mas, Mir...
- No insista. J decidi.
- Nesse caso, tambm fico.
Chorosa, Mireille atirou-se ao pescoo do marido, que a atraiu para si, tentando esconder a emoo.
- Ento. . . ento. . . - disse ele. - Pensa que estou matando o boi da senhora Lcuyer?
Esse comentrio os fez sorrir.
- Isso no resolve o caso. O que vamos fazer com elas? - perguntou o soldado mostrando La e Camilie.
Albert levou os amigos para o outro lado da cozinha, onde cochicharam durante alguns instantes. Em seguida, Riri e
Dupeyron desapareceram.
- Se tudo correr bem, partiremos quando os dois voltarem - esclareceu Albert. - Vamos lev-las at a casa de amigos fiis, onde podero ficar por uns dias. Depois, vamos ver. Muitas coisas vo depender do que Mathias me disser quando o encontrar. Ele virou- se para a mulher.
- Prepare um cesto bem recheado, Mireille.
- No  preciso - disse Camille. - Trouxemos o necessrio.
- No, senhora. No se sabe durante quanto tempo tero de ficar escondidas.
O garagista voltou.
- Podemos ir - informou ele. - Tudo calmo. Riri ficou l fora de vigia.
- Muito bem. Ento vamos. No fique preocupada se eu no estiver de volta antes do final da noite, Mireille. Eu levo o pequeno. Cazenave levar o cesto. Vamos, despeam-se.
A camioneta no era um veculo dos mais confortveis e saltava sobre os sulcos do caminho.
- Ainda fica longe? - resmungou La.
- No muito.  um pouco depois de Villandraut. A regio  segura. So camaradas nossos que esto na Resistncia nesta zona. Seu tio os conhece muito bem.
Acha que vamos ficar l durante muito tempo?
- No sei. Depois veremos. Depende da conversa com Mathias. Olhe, estamos chegando!
Aps uma rpida travessia por entre construes baixas, o veculo parou em frente de uma casa um pouco afastada. Um co ladrou e a porta se abriu. Aproximou-se deles um indivduo armado de espingarda.
-  voc, Albert? - perguntou o desconhecido em voz baixa.
- Sim. Estou trazendo umas pessoas amigas em dificuldades.
- Podia ter avisado.
No foi possvel. Tem lugar agora?
- Esto com sorte. Os ingleses foram embora ontem  noite.  para muito tempo?
- Ainda no sei.
- Mulheres e uma criana! - resmungou o homem. - No me agrada nem um pouco. Tem sempre encheo de saco quando essas malditas fmeas esto metidas na histria.
- Muito amvel! - comentou La entre dentes.
- No ligue - interveio Albert. - Lon est sempre resmungando, mas no h homem com melhor pontaria nem com melhor corao em toda a Landes.
- No fiquem a fora. Os vizinhos so gente nossa mas, hoje em dia, no  difcil que um lobo se meta no meio do rebanho.
Entraram num compartimento comprido e baixo, com cho de terra batida. No interior, havia trs camas grandes e altas envoltas em cortinas de um vermelho desbotado, pendentes dos caibros do teto e divididas por arcas de madeira trabalhada.
A mesa enorme estava atulhada de armadilhas, de cartuchos azuis e vermelhos, de uma metralhadora desmontada sobre um jornal, de loua suja e de trapos velhos. Cadeiras desemparelhadas e um fogo escurecido por muitos anos de uso constituam o restante do mobilirio.
No parapeito da lareira de imponentes dimenses havia as inevitveis cpsulas de obus gravadas, da Primeira Guerra
Mundial. Por cima da pia de pedra muito gasta, pendiam alguns calendrios amarelado e sujos de cagadinhas de mosca. O de 1944, onde figurava uma ninhada de gatinhos, com suas cores berrantes, nada tinha a ver com aquele ambiente, iluminado pela claridade baa do candeeiro de querosene, suspenso do teto.
Tamanha rusticidade, aliada ao odor forte dos ramos de folhas de tabaco pendentes dos caibros, fez com que as duas jovens se imobilizassem na soleira da porta.
- No esperava to cedo a chegada de novos hspedes. Ainda nem tive tempo de arrumar as camas - esclareceu Lon, retirando alguns lenis de dentro de uma das arcas.
- No h mais nenhuma pea? - La quis saber, falando em voz baixa a Albert.
- No, nenhuma - respondeu o anfitrio, cujo ouvido era muito apurado. -  tudo o que posso lhe oferecer, minha menina.
Ajude-me a fazer as camas. Ver como so confortveis. Colches de autnticas penas de ganso. Quando se deita nelas, no se quer sair mais.
Os lenis eram de tecido spero mas rescendiam deliciosamente a ervas aromticas.
- A privada  l fora, atrs da casa. Espao no falta - acrescentou o homem em tom malicioso.
- E para nos lavarmos?
- H uma pia l fora, e o poo no fica longe.
A expresso de La devia ser cmica, pois Camille, apesar de moda de cansao, deu uma gargalhada.
- Vamos estar muito bem! Vai ver - garantiu ela. - Deixeme ajud-la.
O pequeno Charles no acordou nem mesmo quando a me o despiu e colocou na cama.

Captulo 2

H MUITO TEMPO que La e Camille no dormiam to bem. Mesmo a criana, habitualmente a primeira a levantar-se, dormia ainda, apesar do adiantado da hora.
Atravs do cortinado vermelho, filtrava-se uma luz suave e rosada. Adivinhava-se l fora um belo dia. A porta devia estar aberta e chegavam at elas os pacficos rudos da fazenda: galinhas cacarejando, o ranger da corrente do poo, o balde batendo nas bordas, rolas arrulhando, um relincho longnquo e uma voz infantil chamando pela me. Parecia que nada poderia perturbar aquela paz.
Algum entrou na sala e colocou carvo no fogo. Pouco depois, espalhava-se pelo ar um delicioso cheiro de caf. Como se o aroma as chamasse, Camille e La afastaram ao mesmo tempo os cortinados de suas camas.  vista das duas cabeas despenteadas, Lon emitiu um grunhido semelhante a uma risada.
- Ora muito bem, minhas filhas!  preciso recorrer a grandes meios para faz-las saltar da cama. . . nada mais nada menos que caf colombiano puro.
La apressou-se, e quase caiu da cama, pois se esquecera de como era alta. Pegou a vasilha que Lon lhe estendia. Levou-a s narinas, aspirando com volpia o excelente aroma do caf.
- Pus dois cubos de acar. Espero que no seja demais.
- Dois cubos de acar! Est ouvindo, Camille?
- Ouvi, ouvi - respondeu, aproximando-se tambm.
A camisola branca e comprida no corpo franzino dava-lhe um ar de colegial. Lon ofereceu-lhe outra caneca de caf, feliz com o contentamento de ambas.
- Como tem tudo isso?
- Os ingleses deixaram-me um pacote de caf quando foram embora. E ainda no  tudo
Da arca que devia servir de guarda-comida, Lon retirou um po enorme.
Depois me diro se gostam ou no. Verdadeiro po branco!
Tirou a navalha do bolso, abriu-a devagar e cortou trs bons pedaos. La enfiou o nariz no miolo espesso e fofo, aspirando-lhe o cheiro com avidez, como se receasse que o seu pedao fosse desaparecer de sbito e para sempre. Camille contemplava a fatia que lhe coubera, com o mesmo ar srio que costumava ter em tudo o que fazia.
- Po... po...
De p na cama, Charles estendia as mozinhas. Lon o pegou, sentou-o nos joelhos e cortou mais um pedao.
-  demais para ele, senhor. - No conseguir comer tudo.
- Um rapago como ele? Eu me admiraria muito. Vamos, bebam o caf, seno esfria.
Tal como o velho lands dissera, Charles comeu todo o seu po.
Passaram-se trs dias buclicos, O tempo estava bom, embora um pouco frio.
Na noite do dia 21, Albert apareceu de novo. Encontrara-se com Mathias em Langon. O rapaz concordara em acompanhlo de olhos vendados e de mos atadas, escondido no porta-malas de um automvel, at uma base de resistentes perto de
Mauriac. Ao chegar, respondera sem reticncias s perguntas do aougueiro e de seus camaradas. Satisfeito com as respostas, Albert o deixara  noite prximo da estao de La Role.
- A Gestapo foi at minha casa? - La quis saber.
- A Gestapo no. Os homens do comissrio Penot.
- Maurice Fiaux estava com eles?
- No.
- O que aconteceu? Como esto Ruth e minha tia?
- Esto bem. Segundo Ruth, eles as interrogaram com delicadeza, mas sem escutarem de fato as respostas.
- O que queriam saber?
- Se tinham recebido notcias do padre Adrien. Nada falaram sobre voc ou sobre a senhora d'Argilat.
- Que coisa mais estranha! Por que Sidonie, antes de morrer, me disse para fugir? E por que Mathias pensou que seramos presas?
- Porque, segundo nos disse, surpreendeu uma conversa entre Fiaux e um dos chefes da polcia, na qual comentavam que vocs deveriam conhecer detalhes sobre a fuga dos irmos Lefvre e o local onde seu primo Lucien e o padre Delmas esto.
- Nesse caso, por que passaram primeiro por Bellevue?
- A polcia recebeu uma carta afirmando que Sidonie escondia resistentes. E eu j imagino quem seja o remetente - garantiu
Albert.
- Mas por que Mathias no nos avisou com mais antecedncia?
- Talvez Denan o tenha retido por muitas horas em seu gabinete.
Mas, afinal, quem  Denan?
- Um canalha, esse Lucien Denan. Chegou a Bordus com os refugiados. At 1942, foi vendedor na Dames de France, na seo de armarinho e de malharia. Mal terminava o servio, dirigia-se  sede do M.S.R., onde preenchia fichas com todos os dados recolhidos sobre empregados da loja. Em breve se transformou no agente nmero um deles. Depois, deixou a Dames de France e foi nomeado inspetor-adjunto dos Assuntos Judaicos e, em seguida, inspetor regional. Quando se criou a milcia em Bordus, Denan tornou-se chefe do 2 Servio. Diz-se que tambm trabalha para os servios de informao alemes, sob o nome de "Sr. Henri". E  assim o nosso homem. Mas, voltando ao caso do Fayard filho: logo que pde sair do gabinete de Denan, apanhou uma viatura de servio e foi at a casa de Sidonie. Mas, infelizmente para ela, chegou tarde demais. Enterraram a pobre velha hoje de manh e seu funeral no foi l muito concorrido.
La no conseguiu reter as lgrimas.
- Ruth cuidou de tudo - prosseguiu Albert. Levei Bela para minha casa. Mas temo que o pobre animal logo ir se reunir  sua dona.
- Afinal, esto ou no  nossa procura? - perguntou Camilie.
- Oficialmente no, segundo Mathias. Mas isso no quer dizer nada. Ele acha que devem ficar escondidas por algum tempo.
- E Mathias sabe onde estamos?
- Claro que no! A nossa confiana nele no chega a tanto. Combinamos de nos encontrar no dia 24, em Bordus, na estao de Saint-Jean. Tentarei voltar aqui amanh. At l, no se mostrem muito por a.
O dia estava quente e esplndido, embora durante a manh tivesse feito muito frio. Enebriadas pelo odor do mar e dos pinheiros, La e Camille tinham a sensao de estarem em frias. Sentiam o corpo e a mente mergulhados em torpor, mas no procuravam furtar-se a esse entorpecimento. Os dias passados na floresta, fazendo piquenique sob as rvores, dormindo numa reentrncia do terreno arenoso ou brincando de esconde-esconde com Charles, faziam com que esquecessem a realidade.
Mas essa realidade atingiu-as de forma brutal quando um resistente veio anunciar a Lon a priso de Albert e da mulher.
Mireille estava detida no forte de H; quanto ao marido, fora levado ao nmero 197 da Estrada de Mdoc (rebatizada com o nome de Avenida Marechal Ptain) para ser interrogado.
Camille empalideceu ao recordar os dias horrveis passados nos subterrneos daquela construo sinistra e os gritos dos torturados.
- Quando ele foi preso?
- Quando ia se encontrar com o Fayard filho, na estao de Saint-Jean.
Mathias o denunciou! - gritou La.
- No pensamos que tenha sido ele. Como medida de precauo, tnhamos avisado Aristide. Ele ps dois homens vigiando as imediaes da estao e um outro  espera de Mathias Fayard perto do local do encontro. Tudo parecia normal. Cheguei l com Albert e Riri cinco minutos antes da hora prevista. Mas fomos separados pela multido que descia do trem vindo de
Paris. Eu e Riri vimos Mathias aproximar-se e pareceu que vinha s. Depois ns nos viramos. A uns dez metros estava
Albert, rodeado por um oficial e dois soldados alemes e trs franceses  paisana. Ns o ouvimos dizer:
"O senhor est enganado". Camilie emocionou-se ao ouvi-lo narrar aquelas cenas. - Diante do agrupamento, a multido se afastou e foi assim, segundo creio, que Mathias percebeu o que acontecia.
Ficou plido, deu alguns passos em direo ao grupo, mas depois parou. Eu estava perto dele.
- Canalha! Vamos te arrancar a pele! - disse-lhe.
Olhou com ar de quem no compreendia.
- No tenho nada a ver com isto. No estou entendendo. Foi coincidncia,
- Vai pagar caro essa coincidncia.
- Deixe de bobagem! Ningum alm de mim sabia que eu vinha me encontrar com ele.
E isso no  uma prova?
- Pense o que quiser. Vamos segui-los. Quero saber para onde o levam. Venha comigo.
- Para voc fazer com que me prendam tambm?
- Olhe, pegue a minha pistola! Se achar que vou tra-lo, basta me matar.
E Mathias estendeu-me a arma, assim, sem mais nem menos, sem sequer procurar escond-la. Toda a gente podia nos ver.
Tirei a pistola de sua mo, dizendo:
- Est louco?!
Verifiquei se estava carregada e a coloquei no bolso, e nos dirigimos para a sada. Riri veio ao nosso encontro. Por sua expresso, temi que fosse abater Mathias ali mesmo.
- Explique-lhe - disse Mathias com calma, encaminhando-se para o carro estacionado sob as escadas.
Entretanto, a poucos metros de ns, Albert era arrastado para um Citroem 15 com chapa alem. Entrei ao lado de Mathias, enquanto Riri se afastava.
- Ele no vem? - perguntou Mathias.
- No confia em voc e vai nos seguir com alguns companheiros que temos na regio.
- Nesse caso, que se apressem - disse ele> arrancando atrs do veculo alemo.
Tirei do bolso a pistola e a apontei para Mathias, disposto a mat-lo a menor dvida. Virei-me para trs por diversas vezes, perguntando a mim mesmo como Riri e os companheiros iriam nos seguir. Diante de ns, o carro dos boches estava em boa velocidade.
- Merda! - exclamou Mathias. - No vo pela estrada do Chapeau-Rouge.
- O que h na estrada do Chapeau-Rouge?
- Um dos gabinetes de Poinsot.
- E que tem isso?
- Significa que vo entreg-lo aos alemes e que ser mais difcil escapar das patas deles do que das da polcia francesa.
Na Aristide-Bruand, viramos. Imaginei que o levavam ao forte de Il. Mas no; continuaram. Passamos ao lado da cadeia.
Na rua Abb-de-L'Epe, Mathias me perguntou se meus companheiros vinham atrs de ns. Alm de algumas bicicletas e de um caminho do Exrcito alemo, no havia mais nenhum veculo. S na Rua Croix-de-Seguey percebi para onde se dirigiam. Numa barreira em Mdoc, a polcia alem nos mandou parar. Voltei a colocar a pistola no bolso, morrendo de medo. Mathias exibiu um carto e nos fizeram um sinal para prosseguir. No havia quase ningum nas ruas de Bouscat e nenhum carro, Mathias diminuiu a marcha para aumentar a distncia entre os dois carros.
Continuava sem vestgios dos camaradas. Quando o veculo da frente parou, paramos tambm a uns cem metros dele.
Vimos que empurravam Albert para onde sabamos que era o centro de interrogatrios da Gestapo. J no havia nada a fazer. Olhei para Mathias. . . Continuava muito plido e suas mos, crispadas em volta do volante, pareciam feitas de cera.
Tive vontade de mat-lo ali mesmo. Ele adivinhou, pois disse:
- Apenas serviria para fazer com que o prendessem tambm.  necessrio avisar sua mulher e os outros. Juro que no tra ningum. H traidores entre vocs.
Deixei-o arrancar. Passamos em marcha lenta diante do nmero 224, a manso onde vive o comandante Luther, quase em frente do nmero 197. Tudo estava calmo.
O homem engoliu o copo de vinho que Lon lhe servira.
- E depois? - perguntou La.
- Voltamos  estao de Saint-Jean, para ver se os outros estariam l. Depois de inspecionarmos a estao, Mathias disse:
- No vamos ficar aqui; acabaremos por chamar a ateno. Vamos a Saint-Macaire avisar Mireille.
Subimos a margem do Garonne. Um pouco antes de Rions, fomos parados por policiais que procuravam os responsveis por uma sabotagem ocorrida na vspera. Na sada de Saint-Maixant, novo controle, desta vez por alemes. Quando enfim, chegamos a
Saint-Macaire, mais de trs horas j haviam se passado desde a priso de Albert.
-  melhor passarmos pelo porto - disse Mathias.
Parou o carro junto das runas do antigo castelo, escondendo-o numa gruta que serve de armazm aos destiladores.
Saltamos a grade, e logo estvamos nos fundos da igreja.
- No faa barulho - ele recomendou, parecendo no notar a pistola que eu continuava lhe apontando.
No havia ningum nas ruelas e, apesar do bom tempo, quase todas as janelas estavam fechadas. Dois disparos ecoaram pelas ruas.
- O som vem do lado da casa de Albert - Mathias gritou.
Escondidos atrs de um porto, assistimos  deteno de Mireille, que um suboficial alemo empurrava para dentro de uma viatura. Diante do aougue, um co se esvaa em sangue. Rindo, um dos soldados desferiu um pontap no cadver do animal, que foi arremessado para perto de ns. Ouvi Mathias murmurar:
- Bela. . . mataram Bela.
- A cadela de Sidonie! - exclamou La. - Coitada!
- E depois, o que vocs fizeram? - inquiriu o dono da casa.
- Obriguei-o a voltar e a me levar at perto de Bazas, onde o entreguei aos homens de Georges, enquanto no se toma uma deciso.
- Como soube do lugar para onde levaram Mireille?
- Quando chegamos na casa de Georges, um camarada nosso, policial em Bordus, acabava de inform-lo da dupla deteno e do local para onde haviam sido conduzidos - esclareceu o homem.
Tristonhos, todos permaneceram silenciosos. Lon foi o primeiro a retomar a palavra, dirigindo-se s duas jovens que apertavam entre elas o pequeno Charles, cujos olhos inquietos iam de uma para outra:
- Aqui vocs j no esto em segurana.
- Por que diz isso? Albert nunca nos trair assegurou La com otimismo.
- Resistir enquanto puder, estou certo disso. Mas no devemos nos arriscar. No se esquea de que a mulher dele tambm foi presa. Se a torturarem diante dele, ele falar.
- Tem razo.
Num gesto imprevisto, Lon retirou a espingarda do gancho onde a pendurara, espingarda que habitualmente conservava escondida na cama, e apontou-a para a porta. Todos se calaram. Ouviu-se um arranhar na madeira e depois a porta se abriu, surgindo diante deles um homem de japona.
- My goodness, Lon, no me reconhece?
O velho baixou a arma, murmurando:
- No  prudente entrar na casa de algum assim, Aristide.
- Tem razo. Bom-dia, La. Lembra-se de mim? - perguntou o recm-chegado.
- Muito bem.  um prazer rev-lo.
-  a Sra. d'Argilat, sem dvida - disse Aristide, virando-se para Camille.
- Sim, bom-dia.
- Trago-lhe boas notcias. Seu marido deixou o Marrocos incorporado na diviso criada pelo general Leclerc para um desembarque. Chegou na Inglaterra no dia 21 de abril, no porto de Swansea, ao Sul do Pas de Gales. O prprio general foi esper-lo.
A alegria transfigurava Camille. "Como est linda" pensou La. Beijou-a num impulso afetuoso. Como lhe parecia distante o tempo em que ela odiava a mulher daquele que acreditara amar e que fora seu amante durante uma noite nos subterrneos de tijolo rosado em Toulouse! Sem segundas intenes La compartilhava da felicidade daquela que se tornara sua amiga.
- Muito obrigada pela boa notcia, Sr. Aristide - Camille agradeceu.
- Creio que posso dizer que logo receber outras. Mas, enquanto esperam,  necessrio sarem daqui. Eu as levaria at a casa de uma amiga em Souprosses, mas tenho a impresso de que est sendo vigiada pelos homens de Grand-Clment, que me procuram.
- E se voltssemos a Montillac, j que no estamos sendo procuradas?
- No sabemos de nada.  melhor no arriscar.
- Poderiam ir para o pombal por alguns dias - sugeriu Lon. -  impossvel ach-lo na floresta. No  muito confortvel, mas. .
- A vida vale muito mais que o conforto - disse Aristide.
- Tragam roupas e provises para alguns dias, Vamos partir imediatamente. L tem cobertores, Lon?
- Acho que sim. Mas vou buscar um limpo para o menino.
- Que vo fazer a Mathias? - perguntou La ao agente ingls.
- Se dependesse s de mim, mandava-o para o inferno - resmungou Lon.
- No podemos elimin-lo sem mais nem menos; temos que interrog-lo. Eu, que desconfio de todo mundo, tendo a acreditar que seja inocente dessas detenes.
- O que no o impede de trabalhar para eles.
- Ora, no  o nico! Mas, at prova em contrrio, ele, pelo menos, no matou ningum.
- Estamos prontas, Sr. Aristide - anunciou Camille, aproximando-se com uma sacola de viagem na mo.
O coronel Claude Bonnier, delegado militar regional, conhecido pela alcunha de Hipotenusa, tinha sido enviado  Frana pela Comisso Central de Informao e Ao (B.C.R.A.), em novembro de 1943, com a tarefa de reorganizar a Resistncia na Aquitnia aps a traio de Grand-Clment.
Foi aprisionado pela Gestapo em fevereiro de 1944, em Bordus, na Rua Galard, junto a seu rdio, no momento em que transmitia uma mensagem para Londres (detido em conseqncia de denncia, o operador, por sua vez, denunciara o
Hipotenusa, que cara na armadilha organizada pelo tenente Kunesch).
Conduzido a Bouscat, na estrada de Mdoc, foi interrogado s dezoito horas pelo prprio Dohse. Recusou-se obstinadamente a reconhecer ter sido enviado por Londres, chamar-se Claude Bonnier ou Bordin (embora identificado por
Toussaint, pelos irmos Lespine, por Durand e por Grolleau) e ter ordenado a execuo do coronel Camplan, suspeito de traio.
Depois de vinte minutos, Dohse, irritado, ordenou que o jogassem num calabouo; recomearia o interrogatrio depois de jantar.
Heri da guerra de 1914, Eugene Camplan bem cedo entrou para a Resistncia. Em outubro de 1943, foi incumbido pelo coronel Touny de coordenar, como chefe da subdiviso sul da regio B2, a ao das Foras Francesas do Interior na rea de
Bordus, que compreendia cinco departamentos. Acusado de traio (encontros com Dohse e com Grand-Clment) por
Bonier, foi colocado na cela sem lhe retirarem as algemas. Com a noite bastante adiantada, foram procurar Dohse  mesa dos oficiais
- aconteciam coisas estranhas na cela de Hipotenusa.
Quando o oficial alemo chegou ao poro do n 197 da estrada de Mdoc que funcionava como priso, Bonnier jazia no solo, emitia dbeis gemidos, sacudido por convulses, a boca espumando, o rosto e os lbios sujos de p. O chefe dos guardas, debruado sobre o corpo do infeliz, levantou-se e falou em alemo:
- Ele se envenenou com cianeto.
- Estou vendo, imbecil. No o revistaram?
- Claro que sim, meu tenente. Com certeza ele escondeu a cpsula na dobra do casaco
- Como conseguiu peg-la com as mos algemadas?
- Deve ter apanhado a cpsula com os dentes, mas ela deve ter cado e ele deitou-se no cho para lamber o lquido. Isso explica a poeira em seu rosto e o fato de que no tenha morrido instantaneamente.
- Chamem um mdico, rpido!
- Sim, meu tenente
O chefe dos guardas saiu, gritando:
- Um mdico, depressa, um mdico!
Em vo os detidos das celas vizinhas tapavam as orelhas para no ouvirem os gritos e os gemidos. Sentiriam remorsos esses jovens resistentes de 20 anos, manipulados por Dohse, diante do sofrimento do homem que haviam denunciado? Sem dvida que no. Parecia-lhes justo que aquele que mandara matar seu chefe, o coronel Camplan, o pagasse com a prpria vida.
Claude Bonnier morreu ao romper do dia sem ter falado.
Profundamente impressionado, Frederick Dohse murmurava:
- Essa gente de Londres no  como os outros.
Paradoxalmente, essa morte terrvel, que poderia ter paralisado todas as energias, galvanizou os combatentes e reavivou suas foras.
cepulutado por homens deste Itimo em janeiro de 1944, prximo de Ruffec, nas matas de Linaux. Depois da guerra, aps um longo inqurito, o coronel Camplan, "vtima de trgico equvoco", foi oficialmente reconhecido como tendo "morrido pela
Frana".

E o mesmo aconteceu quando Albert desapareceu.
O aougueiro tambm no era um homem como os outros. Seu engajamento nas fileiras da Resistncia provinha da sua profunda convico de que os alemes nada tinham a fazer na
Frana e de que homens como ele deveriam fazer tudo para expuls-los, se no quisessem um dia se envergonhar diante dos filhos.
Descendente de militar que combatera em Verdum e morrera em conseqncia dos ferimentos recebidos, Albert fizera sua uma das frases preferidas do pai. Quando passeava pelas colinas de Piau. de onde se avistava a regio, o antigo soldado detinha-se para contemplar aquela terra to bela e to rica, comentando com calma:
- A Frana bem merece que se morra por ela.
Albert no possua nenhuma cpsula de cianeto e Dohse no se interps entre ele e os carrascos de Poinsot. Torturaram-no com requintes de crueldade, servindo-se de facas. . . de aougueiro.
No incio, Albert procurara gracejar:
- No  que Deus quer me castigar por ter matado animais!
Retalharam-no ento e encheram-lhe os cortes com dentes de alho.
Um verdadeiro carneiro de Pscoa!
Em seguida, polvilharam com sal e pimenta os msculos expostos do peito e amarraram-no como uma pea de carne para assar.
Quando se fartaram de "preparar e temperar aquela carne", transformada em massa inerte mas da qual no haviam conseguido extrair uma nica palavra, fizeram o corpo rolar pelas escadas do poro e fecharam-no na cela em que Bonnier havia morrido. Albert recobrou os sentidos para ouvir torturadores dizerem, com um riso torpe:
- Se amanh no falar, esquartejaremos a aougueira diante dele.
"Falarei", disse Albert a si mesmo.
No decurso da noite interminvel, o mais simples movimento provocava-lhe dores de tal forma violentas que no conseguia reprimir os gritos. Durante horas e horas, roeu o pedao de corda que lhe imobilizava a parte superior do brao. Apesar do frio mido do subterraneo, estava alagado de suor. Pouco antes da aurora, a corda cedeu. Mas o esforo excessivo esgotaralhe a carne torturada. Albert desmaiou.
Quando recobrou os sentidos o dia j clareava. Tentou ento libertar-se das amarras enterradas na carne e a ela coladas com sangue. Por instantes, aquele novo tormento suplantou-lhe as energias. Chorou como nunca fizera desde a morte do pai, quando ele estava com 9 anos. Eram grandes soluos ruidosos e ridculos que sacudiam seu corpo de homem forte, Cado no cho sujo, atingiu o fundo do desespero.
Provavelmente teria confessado tudo se os carrascos voltassem nesse exato momento para novo interrogatrio. As lgrimas formavam duas poas de gua em sua face, onde se misturavam  poesia do cho. Seus dedos amassavam a lama assim constituda. "Terra E foi dessa terra que Albert extraiu a fora e a raiva necessrias para acabar de se libertar das amarras.
Pelo respiradouro mal tapado, penetrava na cela uma tnue claridade. Prximo da abertura havia uma grossa argola que
Albert alcanou levantando o brao. O encanamento seguia ao longo da parede; utilizando-o como degrau, atou  argola uma das extremidades da corda. Na outra ponta fez um n corredio que passou em volta do pescoo.
Depois, deixou-se cair. . . Seus ps se agitaram. . . Num derradeiro instinto de sobrevivncia ele tentou ainda alcanar o apoio do tubo. Mas a corda delgada penetrou-lhe na carne do pescoo, esmagando aos poucos a laringe e provocando-lhe demorada agonia.
Na cela vizinha, dois resistentes de um ncleo das F.T.P. de Sainte-Foy-la-Grande entoavam em voz comovida e cada vez mais forte:
Amigo, quando cais Logo outro da sombra sai Em teu lugar.
Amanha, em pleno sol
Sangue negro
Secar pelos caminhos
Assobjai, companheiros
Que na noite
A liberdade nos escuta.*
A mulher e os companheiros de Albert s souberam do seu horrvel fim no dia seguinte  libertao de Bordus.

Captulo 3

"QUERIDA Lea,
No sei o que acontece em Montillac, mas aqui, em Paris, parece que todo mundo enlouqueceu. Todos vivem  espera do desembarque e nunca como agora os anglo-americanos e seus malditos bombardeios foram to odiados pela populao.
Particularmente aterrador foi o bombardeio ocorrido na noite de 20 para 21 de abril. Estava em casa de amigos que moram no ltimo andar de um prdio na Praa do Panteo. Durante mais de uma hora, ficamos a contemplar o espetculo, bebendo champanhe e usque. Era mais belo que o fogo de artifcio nas comemoraes do 14 de julho! No sobrou nenhum vitral no
Sacre-Coeur. Houve mais de seiscentos mortos. As tias ficaram muitssimo abaladas. Tambm senti desgosto mas prefiro no pensar no caso, pois, do contrrio, teria de fazer como elas e rezar durante dias inteiros refugiada no poro, no metr ou nas salas de cinema, que ficam abertas at as seis da manh, para servir de abrigo antiareo. Quase todas as noites soam os alertas, e mesmo durante o dia. Isso no  vida.
Quanto aos gneros alimentcios, estou me arranjando, felizmente; se no fosse isso, seria a misria na Rua da
Universidade. Em Montillac deve ser mais fcil.
Entre os meus amigos s se fala do Dr. Petiot e dos crimes da Rua Lesueur. Tenho tido pesadelos por causa disso, e tia
Lisa tambm. Ela recorta nos jornais todas as notcias referentes a esse caso to horrvel.
Parece que os ingleses lanaram caixas de biscoitos explosivos sobre Charentes. Voc ouviu falar alguma coisa? Embora se suponha que seja propaganda antibritnica, h pessoas que afirmam que os ingleses so bem capazes de tal coisa.
Paris recebeu a visita do meu ex-dolo. O Marechal veio em pessoa a Paris para fazer-se aclamar na praa da Cmara. Eu e tia Albertine fizemos de tudo para evitar que tia Lisa fosse at l.
Vejo Franoise e o beb de vez em quando. Na semana passada, Otto esteve com eles durante uma licena de quarenta e oito horas. Continua sem conseguir autorizao para se casar e acho que Franoise sofre muito com isso, embora no me diga nada. Finge divertir-se com outras mulheres que acredita estarem na mesma situao; no passam, porm, de piranhas de soldados. Eu a aconselhei a regressar a Montillac at que a guerra termine, mas no quer nem ouvir falar nisso. Voc devia lhe escrever. Otto voltou para a frente leste. Vou tentar lhe enviar alguns cigarros e um belo retalho de tecido azul.
Vai achar graa, mas tenho me dedicado  leitura. Uma amiga emprestou-me um livro publicado antes da guerra, eu creio.
Descreve a histria de uma famlia e de uma propriedade idntica s nossas, exceto que se passa no Sul dos Estados
Unidos, durante a Guerra da Secesso. Chama-se E o Vento Levou;  um romance formidvel. Voc deveria procur-lo na
Mollat de Bordus.
Como esto Camilie, Charles, Ruth e tia Bernadette? D-lhes um beijo por mim. No se esquea tambm de um abrao para
Sidonie. Receberam notcias de Laurent? Voc voltou a ver o estranho Franois Tavernier? Tio Luc e seu filho encantador ainda so pr-alemes? Que aconteceu a Mathias? Custa a crer que trabalhe para a Gestapo. E os seus queridos paizinhos ainda continuam a nos roubar?
No consegui arranjar o dinheiro que voc me pediu. Falei com Franoise e com as tias, mas voc conhece bem sua situao financeira; tm apenas o estritamente necessrio para viver. Quando Otto soube de suas dificuldades ficou realmente infeliz por nada poder fazer, mas o pai cortou-lhe a mesada.
Dispe agora, somente, do soldo de militar. Talvez voc devesse rever as propostas de Fayard. O que Camilie pensa a respeito? Sei que voc dar pulos de raiva por lhe sugerir que venda Montillac ou, pelo menos, uma parte da propriedade.
Deixo-a, pois viro buscar-me para ir ao cinema. Vamos ao Heder ver O Viajante sem Bagagem.
Escreva logo. Beijo-a,
Laure
P.S. - Apesar dos bombardeios, acho que voc devia vir a Paris para refrescar as idias. Gostaria que fosse comigo ouvir jazz num poro do Quartier Latin."
La sorriu ao terminar a leitura da carta. "Minha querida irmzinha  verdadeiramente inconsciente", pensou.
Depois desdobrou uma terceira folha de papel coberta por uma caligrafia elegante.
"Minha filhinha,
Aproveito a carta de Laure para lhe dizer o quanto tenho pensado em voc e nessa casa to querida que as viu nascer, a voc e a suas irms, e de que seus pais tanto gostavam.
A situao que voc enfrenta inquieta-me muito e a Lisa tambm. Fizemos e refizemos nossas contas, estamos praticamente arruinadas. Alm do apartamento da Rua da Universidade, no temos mais nada. Para podermos comer, tivemos que vender as jias mais bonitas que pertenceram  nossa me, por preos ridiculamente baixos: as restantes s so valiosas pelas lembranas que suscitam. Os investimentos que fizemos antes da guerra foram desastrosos e o nosso banqueiro desapareceu com o ouro que lhe havamos confiado. Isso para lhe dizer que a menos que vendamos esta casa no podemos ajud-la. Lisa e eu estamos desesperadas por isso,
Voc j pensou em se aconselhar com seu tio Luc? Sei que as relaes so difceis entre vocs, mas, por respeito  memria de seu irmo, tenho certeza de que ele a auxiliar no que puder.
H muita gente desonesta que procura abusar das mulheres que, devido  guerra, tm de enfrentar sozinhas certas circunstncias para as quais no estavam preparadas. Mas a guerra acabar dentro em breve; se voc puder se agentar at l!
Laure nos preocupa bastante. Est sempre na rua, voltando tarde da noite, traficando no se sabe o que; essa pequena nos preocupa quase tanto quanto Franoise, cujo casamento parece bastante comprometido. O que ser dela depois?.
D notcias suas com mais freqncia e tambm de Camille, que nos tranqiliza em sab-la com voc. Cumprimentos  sua tia, a senhora Bouchardeau, e a Ruth.
Minha criana, perdoe-nos no poder ajud-la. Todos os dias, eu e Lisa rezamos por voc e a abenoamos.
Sua tia que a ama,
Albertine"
La amassou a carta e atirou-a ao cho. Sentia-se desamparada, abandonada. Fosse o que fosse, tinha de haver uma soluo.
As jovens e a criana passaram apenas duas noites no pombal. Na manh do terceiro dia, La foi despertada por uma voz familiar. Mas, meio adormecida, no conseguiu, de incio, identific-la.
- Esta pequena dorme como uma pedra!
- Que prazer em v-lo, meu padre!
- Tio Adrien!
- Minha bela adormecida!
De ccoras sobre o cobertor, La no largava a mo do tio, fitando-o, feliz e incrdula.
- Pensei que no o veria mais at o final da guerra.
O fim est prximo.
- Quando voc chegou?
Fui lanado de pra-quedas esta noite, no muito longe daqui. Aristide estava  minha espera e contou-me o que aconteceu a Albert e a Mireille - informou o dominicano.
- Temos de fazer alguma coisa.
- Aristide e os seus homens esto cuidando do caso em conjunto com o pessoal de La Role. Por agora, nada podemos fazer.
- No consigo deixar de pensar que foram presos por nossa causa - interveio Camille.
- No creio. Ao prender alguns elementos da Resistncia, a Gestapo encontrou certos documentos em seu poder; outros, sob tortura ou ameaas, tambm revelaram nomes. Quando eu soube em Londres o nome do rapaz em que Poinsot depositava absoluta confiana, logo temi pela sua segurana e pela de Albert e Mireilie. Ele sabia h muito tempo que
Albert estava na Resistncia.
- Mas por que no se manifestou antes?
- Por a se v a faceta particularmente perversa do indivduo; quer ser ele mesmo, sozinho, a dar um golpe espetacular, apresentando aos chefes os cabeas da Resistncia desta regio.
- Mas se sabem quem  ele, por que o no fazem desaparecer? Uma sombra perpassou o rosto emagrecido do dominicano, irreconhevel agora devido ao soberbo bigode pintado de preto que lhe emoldurava o lbio. La notou-lhe a sbita tenso do corpo. Pobre tio Adrien! A despeito da guerra, continuava a ser o padre para quem abater o inimigo, apesar de traidor, seria renegar o primeiro mandamento da lei de Deus: "No matars". Ah, se ela fosse homem!...
Foi Camille quem formulou seu pensamento:
- Acho que sei a quem se refere, padre Adrien. No passo de uma mulher, mas estou disposta a mat-lo se me ordenar que o faa.
Perplexa, La olhou para a amiga. Decididamente, aquela Camille, que durante tanto tempo considerara uma sonsa, a surpreendia sempre. J em Orleans no havia atirado no homem que as assaltara?.
O dominicano olhou para a jovem com uma expresso terna e comovida:
- No  tarefa para algum como voc. Est sempre acompanhado por guarda-costas to cruis como ele mesmo.
- Mas de mim no desconfiaria - insistiu Camille d'Argilat.
- No vamos mais falar nisso, est bem?
- Pelo contrrio, devemos falar - interveio La. - Camille tem razo. Ele no desconfiaria de ns.
- Vocs no sabem o que dizem. Essa gente  perigosa, muito perigosa mesmo. Alm disso, dispomos de suficiente nmero de homens experimentados para a execuo desse trabalho, caso devamos chegar a tal extremo.
- Mas...
- No insista, Camilie.
O tom de Adrien Delmas no admitia mais rplicas. Depois sorriu, prosseguindo:
- Tenho uma surpresa para vocs. No adivinham o que ?
- Esteve. - . esteve com Laurent!
- Estive. Quando me encontrei com o general Leclerc.
- Como est ele?
- To bem quanto possvel. Concordei, embora seja expressa- mente proibido, em trazer uma carta para voc. Aqui est!
Camille estendeu a mo hesitante e pegou o envelope amarrotado que Adrien Delmas lhe entregava.
- Acima de tudo, no a guarde - recomendou. - Destrua-a logo depois de l-la. Vem comigo, La? Vamos dar uma volta.
Quando ficou s, Camille virou e revirou o envelope, onde no se via nenhuma inscrio. Por fim, resolveu rasgar o papel e o fez com uma violncia que no lhe era habitual. Retirou do invlucro duas folhas de papel quadriculado, de m qualidade.
"Minha bem amada mulher,
Estou fazendo algo terrivelmente imprudente para ns dois e para o nosso amigo, mas no agento mais este silncio prolongado. No se passa uma noite em que no sonhe com voc e com o nosso filho, sonho esse em que os vejo em casa de meu pai, onde por fim, regressei. E  por esse momento to esperado que continuo lutando. Os meses passados na frica com homens determinados, ao lado de um chefe que muitos consideram duro, mas que todos veneram, transmitiramme grande confiana no futuro.
Estamos admiravelmente instalados no meio de um parque magnfico. O Estado-Maior ocupa o castelo, e os homens, em confortveis acampamentos, foram colocados a nosso dispor pelo governo britnico. Temos uma rea de treino de quatro mil hectares.
Penso sempre em voc assim que entro no gabinete do general, situado na biblioteca. A metade dos livros so obras francesas, do sculo XVIII, com soberbas encadernaes. Esta pea a agradaria. Suas janelas altas abrem-se para um gramado em cujas bordas se erguem rvores enormes, de um verde que no se v igual na Frana.
Desde que nos instalamos aqui, h pouco tempo, o general decidiu jantar com os oficiais mais importantes, o que me confere o privilgio de refeies taciturnas e silenciosas, pois o chefe no  de muita conversa.
A este privilgio soma-se uma outra distino que todos ns receamos, que  a de ser escolhido para o "passeio do grande imbecil", se o tempo o permite, ou para o "passeio do pequeno imbecil", se o dia no est bom. Um deles consta de trs quilmetros que podem se multiplicar por dois ou trs, segundo seu humor. Seus silncios so entrecortados por relatos de suas recordaes do Chade ou de Ksar-Rhilane, de suas duas fugas, da sua travessia da Frana em bicicleta.
Ontem  tarde, pediu-me para falar de nosso filho.  to pouco habitual da parte dele preocupar-se com a famlia dos subordinados que fiquei sem fala por um instante. Isso o irritou.
- Por que no responde? Afinal, voc  como todos os seus camaradas. . . aborrece-se com estes passeios e com os monlogos sobre as minhas campanhas. Mas sou capaz de me interessar por outras coisas alm da guerra.
Sem dvida isso  verdade, mas nenhum de ns pensa assim. Comecei ento a lhe falar a seu respeito, a respeito de Charles, da nossa regio e das pessoas que nela vivem, sem conseguir deter-me. E ele no me interrompeu uma nica vez.
Diante da porta do castelo, deu-me uma batida amigvel no ombro e disse com o sorriso que o rejuvenesceu e franziu seus olhos:
- Como v, sei escutar. Boa-noite.
Os nossos dias comeam antes da aurora e acabam muito tarde. Todos ns estamos supertreinados, e um pouco com os nervos  flor da pele. Amanh  noite, iremos ao concerto na catedral, ouvir o Requiem de Brahms, e a Quinta Sinfonia de Beethoven. Mais do que nunca pensarei em voc e deixarei que a msica me conduza at voc.
Cuide bem de voc e de Charles, minha querida. Diga  nossa boa amiga que me reconforta muito sab-la junto de vocs. Transmita-lhe toda a minha ternura. Peo a Deus para nos reunir a todos em breve. Fale de mim a Charles de vez em quando para que ele me reconhea quando o abraar.
Estas linhas sero as ltimas que receber de mim; mas no guarde a carta.
Beijo o seu querido rosto e suas mos to belas. Amo-a.
Laurent"
Pelas faces de Camille corriam lgrimas de felicidade. Desde que o conhecia, mesmo quando afastado, Laurent sempre fora presente e amante. Quando tudo aquilo terminasse.
Ouviu-se um disparo. A jovem, perdida em seus sonhos amorosos, estremeceu. Saiu para a clareira. Lon e trs rapazes de cabeas cobertas por grandes boinas empurravam diante deles, servindo-se das metralhadoras, um outro jovem de feies alteradas e com uma das mos ensangentada aberta sobre o peito. Uma coronhada mais violenta atirou-o aos ps de La e do tio.
- Um espio - informou um dos resistentes.
- No  verdade - protestou o desconhecido.
- Bandido! Por que voc se escondia?
- E a pistola.  para caar coelhos, no?
- Esta regio no  segura.
- Voc sabe o que diz, malandro!
Uma coronhada desceu sobre a mo que sangrava. O prisioneiro soltou um urro e Camilie correu para ele.
- No lhe batam! - gritou. - Est ferido!
Fale, meu rapaz. O que est fazendo .por aqui?
- Procurava juntar-me aos resistentes.
- No acredite. Trata-se de um espio, estou lhe dizendo.
- Deixem-no conosco. Vamos obrig-lo a falar.
- Peo-lhe, meu padre, impea-os - implorou Camilie, dirigindo-se ao padre Delmas.
Lon nada dissera ainda. Sentado em cima de um toco, a boina atirada para trs, contemplava a cena, rolando nos lbios uma ponta de cigarro apagado. Ergueu-se meio a contragosto.
- O sujeito sangra como um boi. Dona Camille, veja se arranja um trapo para lhe fazer uma atadura. No chore, rapaz.
Vamos ter uma conversa, ns dois.
O pequeno Charles, de quem todos se haviam esquecido, puxou a saia de La.
- Por que esto maltratando aquele senhor? - perguntou. Camille reapareceu com um pano limpo, e envolveu a mo machucada.
- Est bem assim - disse Lon. - Vocs voltem aos postos de vigia. Acho, meu padre, que teremos de fazer as malas.
- Tambm acho.
- No se mexa, garoto.
O prisioneiro, que se levantara, deixou-se cair de novo no solo arenoso, gemendo.
Sempre de olho no rapaz, o velho lands acercou-se do dominicano para lhe perguntar em voz baixa.
- Conhece as gargantas do Ciron, meu padre?
- . Conheo.
- Temos homens por essas bandas. Precisa de guia?
- Apenas para sair daqui, do seu esconderijo. Depois disso conheo o caminho.
- Em Bourideys, procure a casa com janelas azuis;  de um amigo meu. Diga-lhe que Lon foi apanhar cogumelos. Ele atrelar a carroa, mandar avisar Aristide e os levar at as grutas.
- Mas no ficam muito longe. Podemos ir a p.
- Com elas e com o pequeno isso no  possvel.
- Tem razo. O que vai fazer com ele?
- Interrog-lo, ora!
- Sabe muito bem a que me refiro.
- Isso no  problema seu, meu padre. Este setor me pertence e tenho de saber o que acontece por aqui. Muitos dos nossos tm sido apanhados ultimamente.
- Eu sei. Aristide recebeu ordens de Londres para executar Grand-Clment.
- Ele no  o nico a colaborar com os boches.
- Infelizmente no. E por isso mesmo que estou aqui. GrandClment e aqueles que arrastou consigo fizeram todo o mal que puderam, mas esforo-me por acreditar que por detrs de suas relaes com Dohse.
Por detrs de suas relaes, como o senhor diz, meu padre - cortou Lon -, est a traio de bons patriotas, a denncia de

56

camaradas comunistas e a perda de toneladas de armamento enviado pelos ingleses. Para mim, isso  mais que suficiente. . .
um patife assim deve ser abatido como um co.
O dominicano encolheu os ombros num gesto de cansao e encaminhou-se para o prisioneiro.
- Fale, meu rapaz. Ser melhor para todos.
- Principalmente para voc - zombou Lon, empurrando o ferido com a metralhadora.
Camille e La voltaram, j com suas bagagens. La empilhara os seus pertences dentro de um grande pano quadrado de algodo azul, com as quatro pontas atadas. Pendurou o fardo no cano da espingarda de caa do lands. Com seu vestido de florezinhas, o chapu de palha e as alpargatas, parecia uma camponesa amvel, levando o almoo para um trabalhador do campo.
- Jeanot! - chamou Lon.
Um jovem barbudo surgiu por de trs de um pinheiro.
- Mostre-lhes o caminho at a estrada. E abra bem os olhos e as orelhas! Talvez ele no tenha vindo sozinho.
- Est bem, chefe.
- At depois, Sr. Lon. Obrigada pela sua hospitalidade.
- No tem de qu. Agora, vo.
Com uma emoo que a deixou surpresa, Camille percorreu com a vista o velho lands, a cabana e a floresta. A jovem, habitualmente to reservada, beijou Lon com arrebatamento, os olhos cheios de lgrimas.
Nunca mais esquecerei os poucos dias que passei aqui. Espero voltar novamente. Adeus.
Por que motivo aquela clareira cheia de sol pareceu a La, de repente, to fria?
- Ento. . . - vamos? - disse ela, pegando a mo de Charles. Caminharam atravs da mata durante cerca de uma hora. Adrien
Delmas pusera a criana nos ombros. A estrada de Bordus estava livre.
Logo chegavam  casa indicada por Lon, onde estava o homem que os guiaria at as grutas. O cavalo, atrelado  carroa, pareceu pouco satisfeito com o fato de o obrigarem a puxar tanta gente. Relinchava e sacudia a cabea com um vigor que lhe faltava na marcha. Apesar do mau humor do animal, no demoraram muito tempo a atingir Prchac.  entrada da aldeia, dois soldados o mandaram parar.
- Ah,  voc, Dumas!
- Ol, Renault! Ol, Laffont! O que acontece?
- Quem  essa gente? - perguntou Laffont, com desconfiana na voz.
- Pessoas amigas. Levo-as s grutas. Foi Lon, o lands, quem mandou. Mas no me responderam... O que est acontecendo?
- Acontece que no pode ir at as grutas.
- Mas por qu?
- Porque os alemes esto vasculhando toda a rea em conjunto com a polcia.
- Parece que um sujeito importante de Londres desceu por aqui de pra-quedas um dia destes.
Camilie apertou o filho contra si. Num gesto maquinal, La torcia uma madeixa de cabelos. Adrien Delmas cofiava o bigode excessivamente preto.
- Prenderam algum dos nossos? - perguntou Dumas.
- Ainda no. Mas esto bem informados, os malandros. Se no fosse um menino de Marimbault que ia pescar, ao amanhecer, e que foi a Gillets avisar os camaradas, teriam sido todos apanhados. Por pouco no pegaram Lancelot e Dd, o Bosco.
- Merda! O que vou fazer com eles? - disse o condutor da carroa, indicando os passageiros.
O soldado Laffont fez sinal a Dumas que queria lhe falar em particular.
- Aquele, de bigodes, ser de confiana? perguntou.
- Claro que . Se no fosse assim, Lon no o mandaria. Acho mesmo que  ele o sujeito que chegou de pra-quedas.
- Ento est bem. Ns mesmos nos encarregaremos do caso. Vamos lev-los no carro da polcia. E voc, desaparea, pois no convm que o vejam por aqui. Meus senhores e minhas senhoras, vamos descer! Tm algum lugar para onde ir?
- Temos sim. Vamos para Brouqueyran, perto de Auros. Sabem onde ?
- Se sabemos! E se vo para casa de Sfflette, dem aqui um aperto de mo.  minha prima  uma excelente mulher.
- Voc j vai comear com suas histrias de famlia! Vamos,  perigoso ficar aqui.
- Voc tem razo, tem razo. Vai buscar o carro. Venham, vocs! - disse o homem.
- At depois - gritou Charles, agitando os braos na direo de Dumas, que obrigava o cavalo a dar meia volta.
Durante os sete quilmetros que separam Prchac de Captieux, no trocaram nenhuma palavra. A criana adormecera nos joelhos da me. Na entrada do povoado, Laffont, o cabo da polcia, virou-se para Adrien Delmas, perguntando:
- Tem documentos?
- Tenho.
- E as senhoras?
- Tambm temos. Por qu?
- No caso de encontrarmos uma patrulha alem que nos mande parar, digam que vo passar uns dias na casa de parentes, a casa dos Puch, em Grignois.
- Mas quem so esses Puch? - quis saber Adrien.
- Boa gente, que j salvou mais de uma pessoa.
Mas tudo foi bem; chegaram a Brouqueyran sem problemas. O local onde seriam recebidos era a tabacaria-bar-merceariabazar-padaria da Sifflette, prima do cabo.
A dona recebera aquele apelido porque costumava assobiar enquanto servia os clientes e, sobretudo, gostava de beber seus copinhos de vinho escondida por detrs do balco.
- Bom-dia, primo - saudou a mulher. - Ento, voc me traz mais gente?
- Como sempre, prima.
La deu uma olhada em volta. Para alm do velho balco de madeira, as prateleiras onde antes existira grande variedade de artigos estavam vazias. Aqui e ali viam-se apenas algumas latas empoeiradas. No cho, encostado  parede, um nico saco de sementes e um rolo de arame. No meio da sala, ficava a enorme mesa comum com seus bancos corridos e, sobre os ladrilhos gastos pela passagem de muitos ps, estendia-se uma ligeira camada de serragem.
- Posso lhe dar uma palavrinha em particular? - perguntou o dominicano  dona da casa.
- Vamos para o quintal - sugeriu a mulher. - Estaremos mais a vontade. Faam de conta que esto em casa. Laffont, oferealhes um copo de vinho e d uma limonada a este belo anjinho.
Saram os dois, mas no demoraram. Ao voltarem, Charles j bebia a limonada, o quepe de Laffont enterrado na cabea at as orelhas. Ao v-lo, Sifflette riu com gosto.
- Com semelhante recruta, a guerra no vai durar muito - gracejou a mulher.
- Bem, tenho de ir andando - declarou Laffont. - Caso contrrio, meus camaradas vo se perguntar o que ter me acontecido.
At logo, menino. Voc me d o quepe?
- No. Quero ficar com ele.
- Vamos, querido, d o quepe ao senhor - interveio Camille, procurando tir-lo. - Alis,  grande demais para voc.
- No! No! - gritou a criana.
- Largue isso! - trovejou La.
Com um gesto brutal, arrancou-lhe da cabea o quepe, e o devolveu ao dono. Omenino comeou a gritar com mais fora.
- Que ele se cale, seno o amasso! - exclamou a jovem, torcendo-lhe o brao.
Charles ficou to surpreso com a violncia do tom, que ficou quieto, esquecido da dor.
- No  preciso falar assim com as crianas, senhorita. Ele ainda no sabe o que faz - censurou-a Sifflette, pegando o menino ao colo.
Laffont ps o quepe e partiu juntamente com Renault.
Assim que ambos deixaram a loja, o padre Delmas que, desde a chegada ao pombal no havia largado a velha mala que parecia pesada, perguntou  comerciante se a casa dispunha de algum lugar tranqilo.
- Sobre o celeiro h um quarto que no  utilizado - informou ela.  l que guardo a roupa velha e os mveis sem uso. Eu pensei nele porque tem duas entradas.
Charles e La trocavam olhares emburrados. Camille observava-os e no pde se impedir de sorrir.
- Pergunto a mim mesma qual de vocs ser mais criana, La. Lembre-se de que ele tem apenas quatro anos.
- Voc  m. . . m. No gosto de voc. No  mais minha amiga. E quando for grande, no casarei com voc.
- Tanto faz! Vou encontrar um outro muito mais bonito que voc.
- No  verdade! Eu sou o mais bonito. No  assim, mame?
- perguntou o menino.
-  sim, meu amor.  o mais bonito e tenho certeza de que La tambm acha.
- Ela no diz nada, mame. . . est vendo? J no gosta de mim.
A tristeza de tal pensamento foi mais do que Charles pde suportar, e ele se desfez em soluos.
- No chore, Charles, no chore. Estava brincando. Gosto de voc, eu o amo mais que tudo no mundo! - exclamou La, tirando a criana dos braos da me e cobrindo-a de beijos.
-  verdade?
- Claro que , meu querido.
Ento, por que me bateu?
- Desculpe-me. Bati apenas porque estava cansada e nervosa. Mas nunca mais o farei, eu juro. D-me um beijo.
Durante momentos, houve farta distribuio de beijos e de carcias, entremeados de risos, sob o olhar enternecido de
Camilie.
Ento. . os namorados j fizeram as pazes? - perguntou Sifflette.
Dirigiu-se ao balco, assobiando, e encheu um pequeno copo de vinho, engolindo-o de um trago.
- Devem estar com fome - observou a boa mulher. - Vou lhes preparar uma omelete de cogumelos e uma salada da minha horta. Tenho ainda um resto de bolo. Agrada-lhes?
- Muito, minha senhora. Obrigada. Posso ajud-la em alguma coisa? - perguntou Camille.
- No vale a pena. Cuide do pequeno. Instalem-se no quarto. Fica no alto das escadas, segunda porta  direita.
- Obrigada por tudo.
- Chega! Mais tarde me agradecero. Cale-se, que a vem algum.
Entravam na venda trs homens de idade, envergando os velhos casacos de algodo tpicos da zona de Bazas.
- Bom-dia a todos
- Est com visitas, Sifflette? So tambm seus parentes? perguntou, com ar falsamente srio, o do chapu amarrotado.
- Deixe a mulher, Loubrie. No temos nada a ver com seus problemas de famlia.
- Tem razo, Ducloux. Sobretudo nos tempos de hoje.
- Ento, seus beberres, o que  que bebem?
- Ainda tem daquele vinho branco de ontem?
-  caro demais para sovinas como vocs. Ontem foi oferta da casa, mas no se costumem.
- Que avarenta! Pare de protestar e sirva-nos alguma coisa que se beba.
A comerciante lhes trouxe trs copos e uma garrafa de vinho ros.
- Ento no sabe? Os boches esto farejando no muito longe daqui!
- Parece que sim. Meu primo, aquele que  soldado, apareceu por aqui e me falou do caso.
- Mas o que  que procuram?
- Ora, v perguntar a eles, a esses filhos da puta!
- Pensa que sou doido? No tenho vontade nenhuma de que me tomem por um desses malditos terroristas.
- No h perigo. Logo veriam que voc no passa de um fanfarro.
Os companheiros de Loubrie desataram a rir.
- No  para Sifflette que vale a pena contar vantagens.
- Ela j te conhece, seu mulherengo.
- Seus estpidos! Vocs no so os primeiros nem sero os ltimos a dar ouvidos s ms lnguas. Isso no impede que a patroa aqui fizesse melhor em receber menos estranhos. j comeou o falatrio na aldeia.
- Se pensa que me d medo com seus mexericos, sua besta velha, est muito enganado.
- No estou procurando assust-la, mas lhe prestar um favor. Os "frisados" comearam a ficar nervosos. E no so loucos.
Tambm ouvem os avies ingleses, tal como ns.
- E mesmo que no ouvissem, h por a certos patifes que esto de olhos e ouvidos bem abertos para poderem avis-los.
Loubrie emborcou o copo do vinho to rapidamente que se engasgou e um fio de lquido escorreu pelo queixo mal barbeado.
Ducloux bateu em suas costas.
- Ora! Que babo! No vale a pena ficar assim. Se no tem nada a se reprovar, os caras da Resistncia no lhe faro nenhum mal. Segundo se diz, so bons rapazes. Olhe, deixe que eu limpe seu colarinho seno Raymonde, com a sua mania das limpeza,  capaz de lhe dar uma surra - disse Sifflette, rindo.
Loubrie repeliu a mo que procurava limp-lo e ergueu-se, resmungando:
Deixe de me paparicar como se eu fosse uma criana.
Os trs velhos saram da loja, seguidos pelas gargalhadas da dona, que fechou a porta  chave.
- Assim estaremos mais sossegados - declarou. - No confio nesses bisbilhoteiros. Logo  noite, vou procurar saber notcias.
Como  bonito, o menino! Onde est o seu papai? Na guerra,  claro!
Sempre falando, Sifflette preparava a omelete. Na frigideira, colocada no canto de um fogo velho e encardido, a gordura de ganso comeava a fervilhar.
- No se incomoda de pr a mesa, senhorita? pediu a mulher a La. - Os pratos esto na prateleira do aparador. A comida no demora.
Rum. . como cheira bem! Isso me faz lembrar a infncia, quando Sidonie nos fazia omeletes de cogumelos ou de presunto observou Adrien Delmas, que acabava de entrar na sala. Depois, dirigindo-se  cozinheira, recomendou: - Esta noite, minha senhora, ter de avisar o pessoal de Auros e de Bazas para que fiquem de alerta. Eu avisarei os de Landraut e de SaintSymphorien. E voc, La, ir a Langon e Saint-Macaire dizer  nossa gente. Poinsot e seus homens esto a par de todos os esconderijos de armas e de todos os locais de refgio. Os alemes andam vasculhando as gargantas do Ciron apenas por diverso. Maurice Fiaux foi incubido de chefiar as operaes, em conjunto com o tenente Kunesch. Dohse e a polcia querem impedir por toda lei que Aristide reconstitua as redes. Procuram utilizar Grand-Clment, mas mesmo os resistentes mais crdulos desconfiam dele. Londres voltou a dar ordens para a sua execuo, assim como a de Fiaux. Vamos.
para a mesa! A noite promete ser longa.
Eu tambm quero participar, padre - ofereceu-se Camille.
No. Voc no.
- Mas por qu?
- Os seus deveres so para com seu filho. Alm disso, o menino no pode ficar aqui sozinho.
Camille baixou a cabea e deixou escapar um suspiro.
Claro. . . tem razo - concordou.
Apressem-se! A omelete est esfriando. Gosta, pequeno? Vou lhe cortar uma fatia de po. Como est a minha omelete, padre?
- Lamentvel! - respondeu Adrien Delmas, rindo.

Captulo 4

O CU ESTAVA esplndido, cheio de estrelas. Antes de atravessar o Garonne em Langon, La parou em frente da igreja e desceu da bicicleta emprestada por Sifflette, e que parecia ter andado na guerra de 1914. Sem nenhum problema, j entregara a mensagem do tio ao cozinheiro do Nouvel-Htel: "A lagoa do
Pouy-Blanc j no recebe guas de Ciron".
- Diga-lhe que entendi - recomendou o cozinheiro. - A senhorita faz muito bem. Seu pai teria muito orgulho de voc.
quelas palavras, uma lufada de felicidade melanclica invadira a filha de Pierre Delmas.
Como tudo estava calmo! Era quase impossvel imaginar que, no muito longe dali, talvez apenas a alguns passos, houvesse homens emboscados  espera de ordens para matar.
Quando chegou ao cruzamento, La no virou  direita em direo a Saint-Macaire, mas  esquerda, passando sob o viaduto. Precisava rever Montillac. Era mais forte que ela.
Na subida, com todas as engrenagens rangendo, a bicicleta acusava sua velhice. La viu-se obrigada a descer. A cruz de
Borde continuava dominando a propriedade de Prioullette com seus braos escuros. Fora aos ps daquele cruzeiro que aceitara a primeira misso confiada por Adrien Delmas. Como isso lhe parecia distante, porm!
O vulto negro das rvores de Montillac fez o corao de La bater mais rapidamente. L estava a casa, ali bem perto! Parou em frente da alameda que conduzia  construo, lutando contra o impulso de correr e de se refugiar na velha casa, de aninhar-se nos braos de Ruth, antes de voltar a partir.
Um co latiu, depois outro, e surgiu a luz no patamar da casa dos Fayard. Chegou at ela, bastante distinta, a voz do encarregado das adegas ordenando aos animais que se calassem. No era prudente demorar-se. Tornou a montar a bicicleta e deu meia volta.
Era uma hora da manh quando La abriu a porteira da passagem de Saint-Macaire. Abafou um grito ao ver surgir em sua frente um co de guarda, pulando e latindo, com um grande barulho de correntes arrastadas. Atravessou a linha correndo, pedalou pela estrada e seguiu pela rua que conduzia  porta de Benauge. Na estrada da Repblica, parou diante da garagem de Dupeyron.
O soldado Riri veio abrir a porta. Mal reconheceu a moa, puxou-a para dentro da casa.
- Senhorita La! O que a traz at aqui?
- Tenho um recado importante para o senhor: "A lagoa do Pouy-Blanc j no recebe guas do Ciron".
- Oh, diabo! Tenho de avisar todos da regio.
- Avisei o pessoal de Langon - informou a moa. - A esta hora tambm os de Villandraut, de Saint-Symphorien, de Bazas e de Auros j devem estar sabendo.
- Melhor! Dupeyron, encarregue-se de telefonar a Cazenave. Vou voltar para a delegacia.
Ento, no vem conosco?
- No posso abandonar o posto; seria prejudicial para os camaradas. J temos aborrecimentos de sobra.
- Receberam notcias de Albert e de Mireille? - quis saber a moa.
Notcias, verdadeiramente, no. Mireille est presa no quartel Boudet e soubemos que, no que lhe diz respeito, as coisas no correm muito mal. Mas, quanto a Albert, no sabemos nada. Mathias Fayard e Ren foram os ltimos a v-lo. Depois disso, mais nada. Ningum o viu sair da casa do Bouscat. Talvez a senhorita ainda no saiba, mas Mathias conseguiu fugir ontem  noite, o que forou os rapazes de Mauriac que o guardavam a se dispersar pela regio.
Acha que ele os denunciar?
- No sei. No compreendo mais nada dessa juventude. Parece que ficaram todos loucos, Conheo bem Mathias. Jogamos futebol juntos, amos  caa das perdizes, ramos como verdadeiros camaradas, embora eu seja mais velho. Ele no era mau rapaz, mas a temporada na Alemanha modificou-o completamente. Voltou de l com idias polticas. E poltica no  coisa boa, sobretudo agora. No acho que seja muito perigoso. Quem me d medo  Maurice Fiaux. Esse sim,  malvado, ele gosta do mal. E conhece bem a regio. At logo, senhorita. Diga  pessoa que aqui a enviou que faremos o necessrio e que se quiser entrar em contato comigo j sabe onde estou. No saia ainda. Espere, vou dar uma olhada na rua.
Venha. . . pode ir. Boa viagem, senhorita. Adeus...
Levantara-se um vento frio e cortante, que obrigava La a diminuir o ritmo. Entretanto, ao atravessar a mata de Constantin, a jovem estava molhada de suor. As mos geladas crispavam-se no guido enferrujado. No lugar denominado Le Chapitre, estourou um dos pneus, j muito gasto. A bicicleta derrapou.
Com os joelhos e as mos arranhados, La ficou por um longo momento estendida na estrada de terra, sem foras para se mexer. O frio obrigou-a a se levantar. Sentia o sangue escorrendo pelas pernas. Doam-lhe os joelhos, embora menos que as mos. Ergueu a bicicleta. As rodas no giravam, bastante empenadas. Com raiva, La arremessou o velho engenho para o acostamento e recomeou a caminhar, mancando.
Pouco antes de chegar a Brouqueyran, o ronco de um motor fez com que se atirasse numa valeta. A alguns metros dela, passaram trs veculos rapidamente. Amigos ou inimigos? Como saber?
A poeira ainda no havia assentado quando chegou a seus ouvidos o som de vozes e o bater de portas - os carros tinham parado em Brouqueyran. "Contanto que tio Adrien no tenha voltado ainda!", ela pensou, correndo em direo da aldeia.
- Vamos, arrombem a porta! - gritou algum.
A voz obrigou La a estacar; o medo apoderou-se dela instantaneamente. Fugir. . . era preciso fugir. Em vez disso, porm, deixouse cair de joelhos e nem mesmo sentiu que a dor recrudescia.
L, os homens acabavam de forar a porta. Outros revistavam os pardieros em volta do pobre caf.
Desde que no descubram o posto emissor! O posto. . . mas que importava o posto! . . . Camilie e Charles estavam sozinhos dentro da casa!.
La ergueu-se e correu a descoberto. . . Os gritos de Camilie interromperam seu impulso.
- No! No! No lhe faa mal!
Um homem transpunha o limiar, trazendo a criana, que se debatia. A me saiu por sua vez, agarrando-se ao indivduo que a repelia com pontaps, sem conseguir que ela o largasse.
- Mame. . . mame.
Escondida atrs da parede do edifcio da Junta, La perscrutava as trevas  procura de uma arma.
Um claro brotou da casa, iluminando a cena. Nem um s uniforme; apenas duas braadeiras com o distintivo da polcia. . .
rostos jovens esculpidos pelo claro do incndio que aumentava. metralhadoras agitadas como se fossem brinquedos. . .
garrafas empilhadas em arcas. . . risos. . . vozes francesas que vomitam, que insultam, que ferem.
- Vai ou no vai dizer onde esto os outros, ordinria?
E Sifflette? Tambm no a conhece, no ?
- E Albert e Mireille e Lucien e Aristide? E o puto do dominicano, isso no lhe diz nada?
- No sei do que esto falando. Devolvam meu filho!
- S o devolvemos quando falar.
- Deixe-a, Jrme. D-lhe o garoto. Vamos faz-la falar em local seguro. Com essa sua estupidez de atear fogo, vai alertar os resistentes da regio.
- Merda! . . . No se preocupe, Maurice, estaremos  espera deles.
- Mame!
Devolva-o, santo Deus! Entrem!
Apertando o filho contra si, Camille subiu para uma das viaturas. Maurice Fiaux instalou-se ao volante.
- Vamos a La Role - gritou aos outros.
Kada junto  parede da construo, La viu os carros se afastarem, desaparecendo na noite, em direo a Auros.
Graas  claridade das chamas, Adrien Delmas encontrou a sobrinha, tremendo de frio e de febre.
- Onde esto Camilie e Charles?
- Fiaux. . . Maurice Fiaux.
La sacudia a cabea, batendo os dentes, incapaz de dizer outra coisa. O dominicano ergueu-a e, perturbado, encaminhou-se para as labaredas. Nesse momento, tal como se fosse uma feiticeira, Sifflette pareceu emergir das chamas.
- Santo Deus! Onde esto o menino e a me? - perguntou a mulher.
- No sei disse Adrien Delmas. - Parece que Maurice Fiaux e seu bando passaram por aqui.
- O que fizeram esses filhos do demnio?! Meu pai! . . . Ela est ferida!
- Eu vi. Ento no h ningum por aqui?
- Se os conheo bem, fugiram como coelhos - respondeu Sifflette. - Mas que desgraa a nossa! E pensar que pessoas como o senhor arriscam a vida por esses trastes!
- No diga isso. A senhora tambm arrisca a vida e perdeu o que tinha. A igreja est aberta?
- No. Mas sei onde o proco esconde a chave. Olhe, meu padre, veja! O celeiro ainda no est queimando. Talvez o seu posto.
Com cuidado, Adrien estendeu a sobrinha, ainda inconsciente, junto da parede do pequeno cemitrio e correu para o celeiro, enquanto chamava:
- Camille! Charles!
Sifflette retirou a chave de um buraco na parede e abriu a porta da igreja. Sem muita dificuldade, arrastou a jovem para o interior do templo, at o altar. Ali havia um tapete, suntuoso no passado, agora, porm, pudo at a trama, oferecido pelas castels do Mirrail. Assim mesmo era mais confortvel que as pedras frias e irregulares.
Depois de instalar La, tateou por detrs do grosso volume dos Evangelhos, em busca da caixa de fsforos. Aps vrias tentativas, um dos palitos consentiu em se inflamar. A mulher acendeu ento os dois grandes crios colocados de ambos os lados do tabernculo, apoderou-se de um deles e foi vasculhar a minscula sacristia. Tudo o que descobriu para proteger a ferida do frio mido foi um tecido morturio marcado com uma cruz branca, com que se recobriam os caixes durante as cerimnias fnebres.
Ao sair, Sifflette persignou-se num gesto maquinal.
O incndio parecia ter diminudo. Vindo da direo de Bazas, ouvia-se o som da sirene de um carro de bombeiros. Mas o rudo tranqilizador provocou apenas um encolher de ombros na proprietria do caf-tabacaria-mercearia-bazar de
Brouqueyran
A senhora tinha razo. O posto ainda l estava - esclareceu Adrien Delmas, apontando a mala pesada. - Olhe, os bombeiros esto a chegar! Tenho de escond-la.
- E o senhor, meu padre, tambm deve se esconder. No podem v-lo aqui. Tome a chave da igreja e feche-se l dentro. Se a pedirem, direi que se perdeu.
Nenhuma notcia?
No. Ia perguntar-lhe isso mesmo. Devem t-los levado para Bordus.
No sei se isso  o melhor que se possa lhes desejar.
- No diga tal coisa, meu padre. Nem mesmo gente como aquela faria mal a uma criana.
- Que Deus a oua!
Mas Sifflette j no ouviu a frase desiludida do dominicano; corria  frente dos bombeiros, gritando com enorme alarido.
La voltou a si sob a luz vacilante dos crios. Entorpecida pelo frio, nem sequer conseguia tremer. Soergueu-se, apoiada aos cotovelos. Aquele local, o pano fnebre, os crios. . . Por segundos, pensou que estava morta. Uma angstia violenta fez com que se pusesse em p de um salto, repelindo a cobertura macabra. O padre da localidade teria, sem dvida, acreditado numa apario da Virgem.
Adrien Delmas entrava na igreja nesse exato momento. "Como  bela e ao mesmo tempo terrvel esta criana. . . Sada diretamente de um romance negro", pensou, antes de fechar a porta  chave.
- Quem est a? - perguntou La.
- Sou eu. No tenha medo.
- Oh! meu tio!
Adrien aproximou-se da jovem. Pousou a mala e obrigou a sobrinha a sentar-se no degrau do altar. Atraiu-a para si, voltando a cobri-la com o tecido morturio.
- Conte-me o que aconteceu.
Em voz baixa, mas firme, La narrou tudo.
Adrien Delmas inclinou a cabea, acabrunhado, censurando-se por no ter intervido a tempo.
Do exterior, abafadas, chegavam at eles as vozes dos bombeiros, combatendo o fogo.
- Tem certeza de que ele se referiu a La Role? - perguntou o dominicano.
- Tenho.
Mas por que La Role? H qualquer coisa que me escapa. Seria natural que os levassem para Bordus.
- Como souberam?
- Ora, como sempre sabem: por denncia. Pensaram que iriam nos prender a todos. Tem certeza de que no havia nenhum alemo com eles?
- Acho que no. . . todos falavam francs e nenhum deles estava uniformizado.
- Isso parece confirmar os dados recebidos em Londres: a Gestapo no est a par de todas as aes levadas a cabo por
Fiaux e seu bando. Eles atuam com objetivos pessoais, o que os torna ainda mais perigosos e imprevisveis.
- Mas por que Fiaux faria isso? Sem ordens?
- Pode haver vrias respostas, como sempre.
- Mas voc o conhece bem!
- Sim, conheo. E, por isso mesmo, ele me assusta. Deseja vingar-se da sociedade. Quer ser um chefe temido e respeitado.
Alm disso, como j provou, gosta de matar, de torturar, de aviltar.
- No podemos deixar Camille e Charles em suas mos - disse
La.
Uma pancada na porta veio interromper o dilogo.
- Abram. Sou eu, Sifflette.
De pistola em punho, Adrien deu a volta na chave.
A mulher entrou na igreja, empurrando  sua frente um rapaz com um capacete de bombeiro grande demais para ele.
- Tivemos sorte que Don tenha quebrado o brao. Veio Claude, o filho, no lugar dele. O rapaz  meu conhecido. Trabalha para o grupo resistente de Lon de Landes e vai entrar em contato com ele. Eu lhe falei sobre o menino e a me.
- Muito bem. Parece que os levaram para La Role - informou o dominicano.
Para La Role?! - exclamou a mulher. - Espero que estejam enganados. Segundo os boatos da regio, a Gestapo da cidade cedeu aos franceses um local nos subterrneos do colgio para interrogatrio dos resistentes comunistas.
- E h provas disso?
No. S se fala,  tudo.
Esqueci de dizer, tio: Mathias fugiu.
- Nesse caso, talvez haja uma esperana.
- Tenho de ir. Meus colegas vo estranhar a minha ausncia.
- Tem razo. Avise-me na casa do proco de Auros. Perguntem por Alphonse Duparc. Entendeu? - disse Adrien Delmas.
- Sim, senhor. Ter notcias amanh.
A porta voltou a fechar-se aps a sada de Sifflette e do bombeiro.
- O que quis dizer em relao a Mathias, tio?
- Descanse, deixe-me pensar.
- Vamos... vamos. . . nossos amigos soldados esto aqui - comunicou Sifflette.
La abriu os olhos com dificuldade.
- Toma, pequena. Beba isto. Est quente.
A mulher estendia-lhe uma caneca contendo um lquido que parecia caf. La sorveu um gole e quase cuspiu.
- Mas o que  isto? Tem lcool misturado!
- um caf regado. Tira o gosto de aveia torrada. Vamos, beba, seno, com o frio desta igreja, vai ficar doente - insistiu
Sifflette.
A beira da nusea, La engoliu a mistura.  verdade que lhe fazia bem. Sem muita dificuldade, esticou os joelhos feridos, cujas crostas endurecidas lhe esticavam a pele.
L fora, o dia anunciava-se bom. Ainda fumegavam as runas calcinadas do caf-tabacaria. Os soldados Laffont e Dumas, encostados em seu carro, observavam os escombros com expresso dura. Adrien Delmas consultava um mapa.
- Onde vamos, tio?
- A La Role.
La fitou-o sem compreender.
- Atravessaremos o Garonne em Castets, ser mais prudente. Em seguida, atingiremos a fazenda, acima de La Role, por caminhos secundrios - esclareceu o dominicano.
- Mas por que La Role?
- Toda esta rea est quadriculada, no temos locais seguros para nos escondermos. De onde estaremos, poderei entrar facilmente em contato com Hilaire.
Nunca mais voltei a La Role depois da morte do senhor e da senhora Debray - disse La.
Munida de uma forquilha, Sifflette revolvia os escombros em busca de objetos poupados pelas chamas. Nenhuma queixa, nenhum gemido escapava de seus lbios. Mas v-la assim, vasculhando as cinzas ainda quentes, bastava para compreender seu desespero. Uma vida inteira de trabalho desfeita em cinzas! No lhe sobrara sequer uma corda!
- Vamos, minha velha, temos de partir - disse Laffont, colocando a mo com suavidade no cabo da forquilha.
- Tem razo. No serve de nada revolver as lembranas.
Desfez-se da ferramenta com um gesto desiludido e subiu para o veculo sem olhar para a casa consumida pelo incndio.
Ningum das vizinhanas acorrera para saber o que havia acontecido.
Da fazenda, podia-se ver a distncia as pessoas que chegavam, como afirmava Jean Callde.
Calorosamente acolhida, Sifflette ajudava a senhora Callde nos trabalhos de cozinha. Muitos residentes estavam j familiarizados com suas famosas salsichas grelhadas, bem regadas com vinho da regio.
Mas estava escrito que La e Sifflette no gozariam da tranqila hospitalidade dos anfitries. Na vspera da chegada do grupo, fora recebida de Londres a seguinte mensagem: "A Honra suplantar a Audcia". Isso significava que haveria um lanamento de pra- quedas na noite seguinte.
As duas mulheres insistiram em participar da ao. A pedido do padre Delmas, os resistentes acabaram por concordar. Na opinio deles, as mulheres serviam apenas para esconder armas e pra- quedas na cozinha.
Quanto a Adrien Delmas, via-se obrigado a partir para se encontrar com o padre Dieuzayde do grupo Jade-Amicol e com
Aristide,
Dd, o Basco, Lancelot e Georges, a fim de estudarem um plano para a libertao de Camille d'Argilat e do filho e para eliminar Maurice Fiaux.
Sao dez, contando com Lea e com Sifflette. Rodeiam o local do lanamento, agachados, invisveis no meio das trevas, postados a intervalos regulares e munidos de lanternas.
Outros elementos do grupo encontravam-se dispersos pelos arredores, vigiando os caminhos de acesso, com os ouvidos atentos.
A espera parece longa. De repente, ouve-se como um ronronar longnquo.
L vem ele! - Callde sussurrou. - Ateno!
O ronronar acentua-se. Soa um apito e todas as lanternas se acendem quase ao mesmo tempo. Um, dois, trs, quatro, cinco.
. . apagam- e. Um, dois, trs. . . acendem-se de novo.
O ronronar transforma-se agora em ronco de trovo. Um vulto negro descreve uma curva por cima do campo balizado, desce e parece estabilizar-se, com os motores produzindo um som mais abafado. Do aparelho projeta-se ento uma sombra. H o estalido do pra-quedas se abrindo e logo outras sombras o sucedem.
Atingem o solo com um tilintar metlico. O avio de reabastecimento afasta-se em seguida, mas os dois ltimos praquedas continuavam presos  cabine como bandeiras brancas desfraldadas sobre La Role. Se depois disso a Gestapo e a polcia no fossem avisadas.
Os homens agiam em volta da carga.  necessrio fazer desaparecer todo e qualquer vestgio do lanamento. Sifflette e La soltam e dobram os pra-quedas, levando-os para uma charrete atrelada a bois. Os resistentes pegam as caixas que colocam em trs caminhonetes para levarem  serraria de Blenvenue. As armas so escondidas no fosso da serragem, outras em celeiros ou em secadores de tabaco.
Tudo est calmo em La Role. Sifflette conduz o carro de bois. Num palheiro, La oculta os pra-quedas sob o feno.
Em volta da fazenda tudo est tranqilo, mas ningum consegue dormir. Todos revem as velas brancas dos pra-quedas flutuando acima do Garonne e da velha cidade.
No dia seguinte, ao amanhecer, Depeyre chegou de bicicleta, irrompendo sem flego pela casa.
- Os alemes partem em campanha! - anunciou ele. - Rigoulet nos avisou. Verifiquem se as armas esto bem escondidas e tirem daqui as duas mulheres.
- Mas onde quer que as leve? Para a casa dos Rosier?
- No.  perto demais. Leve-as para a casa de Tore, em Morizes.
Pouco tempo depois da partida, surgiram os alemes. Vasculharam todos os cantos, empurrando Callde e a mulher, mas sem resultado.
Contudo. . . Jean Callde tremia de medo. Em sua precipitao, esquecera dois pra-quedas de um desembarque anterior enrolados em toldos velhos e das balas de Sten, enfiadas nas latas de acar.
Embora no tivessem descoberto nada, os alemes levaram Callde, depois Loue, Depeyre, Bienavue, Charlot e Chianson, a fim de interrog-los na sede da Gestapo, em La Role.
Quando o comboio parou em frente do colgio, quis o acaso que o presidente do municpio de Gironde-sur-Dropt estivesse l. Ele conhecia todos os prisioneiros e ignorava suas atividades clandestinas. Pediu para falar ao comandante e responsabilizou-se pelos compatriotas. Desse modo, todos foram libertados, exceto Pierre Chianson. Fora denunciado, sem dvida, por sua participao no desembarque de pra-quedas de Saint-Flix-de-Foncaude.
Assim como Sifflette, La dispunha apenas das roupas que vestia na noite do incndio. Toda a sua bagagem fora destruda.
Sem falar com ningum, decidiu ir a Montillac. Quando todos dormiam, apoderou-se de uma bicicleta e partiu.
A noite estava bonita, no muito fria. Antes de chegar a SaintFoyla-Longue, La parou para contemplar a plancie imensa, onde a fita do Garonne refulgia sob estrelas. A emoo apoderou-se dela como sempre acontecia diante dessa paisagem familiar. Era sempre a mesma surpresa maravilhada! A mesma sensao de paz absoluta!
A mesma certeza de que nada de mal poderia lhe acontecer em tal lugar! Era a confiana que emana da terra durante seu repouso.
Tudo iria dar certo. O tio Adrien encontraria um meio de libertar Camille e Charles. A lembrana do menino que queria se casar com ela trespassou-a de dor. A paisagem se turvou diante de seus olhos.
Ela partiu novamente, com o corao oprimido. Em Saint-Andrdu-Bois, quase atropelou um homem que urinava no meio da estrada e fugiu sob suas imprecaes.
Escondeu a bicicleta no mato, atrs do pedestal da cruz da misso, atravessou a estrada e passou pelo prado, evitando a alameda por causa do rudo dos passos sobre o pedregulho.
Um facho de luz filtrava-se por detrs das venezianas do escritrio de seu pai. "Ruth deve estar fazendo contas", pensou, aproximando-se. Chegou at ela um som de vozes. Esforou-se, mas no conseguiu identific-las nem ouvir o que diziam.
Aquela risada, porm. . . a risada novamente.
Sem, se preocupar que a ouvissem, La contornou a casa. A porta e os pesados guarda-ventos da entrada estavam entreabertos. Evitando o obstculo dos mveis na obscuridade da sala mergulhada, chegou  porta do escritrio e empurrou-a.
La!
O pequeno Charles correu para seus braos.
- Meu querido.., meu queridinho... que alegria! Quando voltou?
- Esta noite. Foi Mathias quem o trouxe - disse Ruth.
- Mathias?!
- Brincamos de esconde-esconde. . . Mame quis brincar conosco. . . Mas agora que voc est aqui, vamos procur-la. Voc quer?
- Sim... sim...
Mathias estava ali, mais magro ainda, impecavelmente barbeado e vestido, mas com os cabelos despenteados.
- Ruth!
Sem largar o menino, La abraou a velha governanta, desfeita em lgrimas.
- Minha filha, como estou feliz! Pensei que nunca mas a veria. Tanta infelicidade se abatendo sobre esta casa. . Mas no  imprudente vir aqui?
- Sem dvida que . S que eu no tinha nada para vestir. Como encontrou Charles, Mathias? E por que voc no libertou
Camille tambm?
- Eu no podia salvar os dois. Camilie est esgotada e confiou- me o filho.
Isso  incrvel!
Mas  assim. Ela tambm me encarregou de lhe dizer que, se morrer, que voc seja uma me para ele.
No quero que ela morra!
- Farei todo o possvel para livr-la. Tive de negociar com Fiaux durante muito tempo para lhe arrancar o pequeno. Queria ficar com ele para obrigar a me a falar. Interrogou-a sem resultado. Camlle respondia apenas: "No sei de nada". Mas teria cedido se Fiaux espancasse a criana, como pensava fazer - explicou Mathias.
- Ele  mau... aquele homem - balbuciou Charles que comeou a chorar. - Puxou meus cabelos e deu um grande pontap na barriga de mame. Mesmo que depois. . . ela no se mexia mais. Dei-lhe muitos beijos e, em seguida, ela acordou. . . ento j no senti medo. . . embora estivesse escuro. E ela cantou: "Durma, Colas, meu irmozinho. .
Um dio violento emergiu em La. Contra o seu peito, ela sentia tremer e soluar a criana que ajudara a vir ao mundo.
Injrias contra o amigo de infncia se acumulavam em sua boca, idias assassinas torturavam-lhe o esprito. Ah, faz-lo desaparecer! Esmag-lo, tal como aos outros! Crescia dentro de si uma fora desconhecida, uma vontade irresistivel de lutar, de matar.
- Sei o que est pensando - disse Mathias. - Mas o importante no  isso. . .  preciso salvar Camille.
- Mas como? Voc tem alguma idia?
- Tenho. Tentarei obter a sua transferncia, mas dispomos de pouco tempo. Camille est esgotada. Se conseguir, mandarei avisar. Onde voc est escondida?
- No digo.
Mas  necessrio.
Ningum sabe onde estou.
O rapaz fitou-a com expresso de desprezo.
- No  de admirar que com semelhante disciplina os seus amigos se deixem prender com tanta freqncia.
- S so presos quando algum os denuncia.
- Minha pobre amiga, acha ento que os alemes precisam disso? Basta-lhes ouvir as conversas nos cafs.
Mas so os franceses que as escutam por eles.
- Nem sempre. Vocs cometem tamanhas imprudncias que seria necessrio que eles fossem cegos para no notarem nada.
Ruth interps-se entre ambos:
- No briguem, peo-lhes. Escute, Le'a, acho que devemos confiar em Mathias.
-  possvel. Mas no posso lhe revelar o local onde estou e ele sabe disso.
Ento, transmita a seu tio, aos homens de Aristide ou de Rilaire, a seguinte proposta: assim que eu consiga a transferncia de Camilie para Bordus, farei com que voc saiba. Eu lhe darei a composio da escolta, o nmero de homens, que no sero muitos, na minha opinio, a hora da partida e o itinerrio.  preciso que os seus amigos parem o grupo e libertem
Camilie.
L continuava abraando a criana que adormecera. Perguntou em voz baixa:
- Acha, de fato, que isso  possvel?
- Acho.
- Posso lhe fazer uma pergunta? Por que continua ligado a Fiaux e a seu bando? Por dinheiro?
Mathias encolheu os ombros.
Voc no me acreditaria se lhe dissesse.
- Mesmo assim, diga.
- Onde estou, posso zelar melhor por voc.
- Voc tem razo, no acredito.
- Viu s? - ele falou com um sorriso desiludido, encolhendo os ombros.
- Que faremos com Charles? No ser perigoso t-lo trazido para c?
- No, na medida em que Fiaux sabe que ele est aqui. Alm disso, pedi a meu pai que olhasse por ele.
- E ele aceitou?
- No tinha muita escolha.
Com suavidade, La estendeu o menino no velho canap e deixou-se cair numa das cadeiras em volta da lareira.
- Estou com frio e com fome, Ruth. Voc tem alguma coisa para comer?
- Claro que h, minha pequena! Mas, primeiro, vou lhe acender um bom fogo.
- Deixe que eu fao isso, dona Ruth.
Obrigada, Mathias.
Em breve subia uma chama clara e, durante alguns momentos, apenas se ouviu o crepitar da madeira seca queimando. O rudo alegre, o calor e o local familiar desfizeram por instantes a animosidade entre os dois jovens. Os olhos de ambos, anteriormente perdidos na contemplao do fogo, acabaram por se encontrar. Os de Mathias exprimiam adorao e amor ilimitados; os de La, uma confuso e um cansao infinitos.
O rapaz lutava para no a tomar nos braos, sabendo que seria repelido. La, por sua vez, procurava tirar da memria o quadro srdido daquela noite no hotel sinistro de Bordus, para se aninhar em seus braos e contar-lhe suas tristezas, como fazia quando era pequena e eles se refugiavam no quarto das crianas ou no meio do feno do palheiro.
Sem mesmo notarem, exalaram ao mesmo tempo um suspiro onde tremularam todas as mgoas das quais no podiam mais se consolar.
Ruth voltou com uma bandeja onde havia duas tijelas de sopa, pasta de carne feita em casa, po e vinho tinto de Montillac.
Devoraram a modesta refeio com um apetite que fazia honra  sua juventude. Tal como sempre que comia com gosto, La esqueceu por instantes sua situao perigosa.
-  magnfica a sua pasta de carne! - elogiou ela, de boca cheia.
- Famosa, na verdade! - apoou Mathias.
Acabaram de comer em silncio, saboreando o momento de paz. Depois de engolir o ltimo copo de vinho, La disse:
- Ruth, perdi toda a minha roupa. Voc pode me preparar uma mala? E ser que no tem dois ou trs vestidos para uma pessoa do tamanho de tia Bernadette? A propsito. . . como est ela?
- No muito bem. Queixa-se das suas dores reumticas e de que recebe poucas notcias de Lucien.
- Coitada! Voc v se pode me arranjar os vestidos e alguma roupa de l?
- Vou ver.
Charles agitou-se no sono. La cobriu-o com a manta escocesa em que seu pai costumava se embrulhar quando trabalhava no escritrio durante o inverno.
- Temos de combinar um local de encontro - disse Mathias.
- Na igreja de La Role?
- Isso no. perigoso demais para voc. Fiaux e os outros a conhecem e podem prend-la.
- Ento, onde?
- Sabes onde fica o cemitrio de Saint-Andr-du-Bois? - perguntou o rapaz.
- Evidentemente - garantiu La encolhendo os ombros.
- Lembras-te do jagido dos Le Roy de Saint-Arnaud,  direita de quem entra?
Lembro.
- H uma fenda no tronco do cipreste que fica ao fundo,  esquerda. Deixarei as mensagens ali. Passe por l todos os dias.
Se tiver algo para me comunicar, utilize o mesmo buraco. Entendeu?
- No sou idiota. Mas se no quiserem me deixar ir?
- Arranje uma maneira de os convencer. Trata-se da vida de Camille.
Ruth voltou, trazendo uma grande mala.
- Mas  muito pesada! - queixou a moa.
- Vou prend-la ao bagageiro - ofereceu-se Mathias. - Onde deixou a bicicleta?
- Atrs da cruz.
- Certo. Tem um cordo, dona Ruth?
- Sim, estava pensando em peg-lo.
Enquanto Mathias prendia sua bagagem, La debruou-se sobre a criana adormecida, acariciando-lhe os cabelos claros.
- Voc cuidar bem dele.
- Farei o possvel, mas quase no temos dinheiro. Sua tia Bernadette ps o pinhal  venda, mas enquanto isso...
- Eu sei, Ruth... O que quer que eu lhe diga? Venda os mveis, se arranjar comprador. Eu, eu no tenho nada.
Uma lgrima caiu sobre o rosto da criana, que resmungou, ainda adormecida.- Perdoe-me, minha querida. No passo de uma velha tonta em lhe falar disso agora. Eu me arranjarei.
- Nunca poderei lhe agradecer o quanto tem feito por ns.
- Quer ficar quieta? Era s o que faltava, ficar esperando agradecimento! Chegaram algumas cartas durante a sua ausncia, eu as coloquei na mala.
Mathias voltou, dizendo:
Voc pode partir quando quiser. Sua bagagem est bem presa, voc pode atravessar toda a Frana que nem se mexe.
Adeus, Ruth - despediu-se a jovem. - D por mim um beijo em tia Bernadette.
- At depois, minha querida. Que Deus a proteja! Eu a confio a voc, Mathias.
- No se preocupe, dona Ruth. Tudo estar bem.
Quando chegaram perto da bicicleta, Mathias ergueu-a do cho, perguntando:
- No queres que a acompanhe?
- Voc sabe que no  possvel. . . Deixe-me ir embora.
A contragosto, o jovem abandonou o guido nas mos da companheira. Ficaram por um instante imveis e silenciosos, infelizes. La estremeceu.
- Apresse-se - disse Mathias. - Voc ainda tem vrios quilmetros pela frente, e no gosto de sab-la pelas estradas, sozinha, durante a noite.
- Mathias. . . no entendo. . . Que est acontecendo conosco?
- O que quer dizer?
Tu e eu.. . obrigados a nos esconder... inimigos um do outro e, ao mesmo tempo.
- Ao mesmo tempo o qu?
Quanta esperana naquela voz. . . Mas, acima de tudo, que Mathias no imaginasse que ela o perdoara!
- Nada. Acho que vivemos numa poca muito estranha, em que no se sabe mais quem so os amigos, pois at os mais queridos nos atraioam.
Mathias recusou-se a admitir a dureza do tom, e s reteve 'os mais queridos". Era ele o mais querido, no tinha a menor dvida. Que importava se ela pensasse que ele traa? Trair o que, alis, se a ela ele nunca trairia? Todo o resto no passava de poltica e isso nada tinha a ver com os seus sentimentos.
Fez-lhe um breve aceno de despedida e encaminhou-se para a casa, sem se voltar. La, perturbada, olhava-o enquanto ele se afastava.

Captulo 5

EM MORIZS, todos j estavam deitados. S na cozinha onde haviam lhe preparado uma cama, La olhava o fogo que se extinguia no fogo, fumando um cigarro feito com o tabaco que Callde cultivava clandestinamente. O fumo acre e forte irritava-lhe a garganta e fazia-lhe arder os olhos, mas, ao mesmo tempo, aplacava-lhe um pouco a angstia de saber que Camilie estava to doente. A Gestapo teve de se resolver a intern-la no hospital de Saint-Jean, em La Role, mas no autorizava nenhuma visita.
O padre Delmas encontrara-se com Mathias e aceitara o seu auxlio. Aristide e os homens tinham concordado.
Desde ento, limitavam-se a aguardar. Maurice Fiaux e sua equipe haviam regressado a Bordus.
La ergueu-se da cadeira baixa onde se instalara e foi ligar o rdio. Devido s interferncias, h vrios dias que era impossvel captar a emissora londrina. Depois de algumas hesitaes, a voz familiar, mas quase inaudvel, de Jean Oberle irrompeu do aparelho.
O poeta Max Jacob morreu no campo de Drancy. Internaram-no ali por ser judeu e, contudo, convertera-se ao catolicismo h mais de trinta anos. Desde essa poca, toda sua obra respirava a mais intensa e sincera f catlica. Mas que importncia tem isso para os alemces?
Os alemes colam estrelas amarelas no peito daqueles que martirizam. A estrela amarela constitui o estigma da desonra, e a cruz sustica  o smbolo da honra. Catlicos ou judeus, a todos encaram do mesmo modo, tomando Hitler como
Deus. Que interessa aos guardas do campo de Drancy que Max Jacob tenha morrido? apenas um judeu a menos
O poeta era um homem baixo, calvo, e de olhar irnico por detrs de um monculo. Era um ser de grande espiritualidade, o mais maravilhoso contador de histrias surpreendentes, que sabia ou que inventava.
Entregou-se ao "esnobismo" ao aproximar-se dos cinqenta anos. Da colina de Montmartre, onde convivera com pintores e outros poetas, passou ento aos sales mundanos, logo substituidos pelo mosteiro de Saint-Benost-sur-Loire. Escrevia e pintava, nele vivendo retirado e tranqilo. Servia de cicerone nas visitas  baslica para os amigos que iam de Paris e de outros lugares para v-lo, O sino tocava, chamando para os ofcios religiosos, e Max abandonava a caneta ou o pincel para rezar.
Estava com quase sessenta anos. Dois outros poetas amigos, J ean Cocteau e Andr Salmon, foram a
Drancy na esperana de libert-lo, mas os informaram que havia morrido.
Assim, o inimigo feroz que martiriza nosso pas h quatro anos no poupa mais os poetas que os jovens patriotas. Para os alemes, um  judeu e os outros comunistas, muito simplesmente. E, alis, para que servem os poetas quando se dispe de prosadores tais como Henriot e Dat?
Por todo o mundo, porm, os admiradores de Max Jacob, os que lhe relem a prosa e os poemas ou possuem os seus desenhos e guaches, esses continuaro a mant-lo vivo na memria. Tambm os amigos jamais esquecero o artista e o homem encantador que ele era. E lembrar-se-o de que, tal como tantos outros,
Max Jacob foi igualmente vtima da barbrie alem, morrendo numa cela de um campo de concentrao "Nem mesmo os poetas so poupados" pensou La, desligando o aparelho.
Quando se despia na semi-obscuridade, lembrou-se de que seu tio Adrien havia falado do encontro com Max
Jacob em Saint-Benoit, quando de uma sua curta temporada no mosteiro, e de sua ingnua f de convertido.
Agora Max Jacob estava morto, tal como Raphal Mahl e talvez mesmo Sarah, todos eles judeus. Ela teve um breve sentimento de vergonha por unir, ainda que na morte, um ser to desprezvel como o colaborador-delator Mahl com a combatente herica e o frgil poeta.
Mas havia em Raphal um desespero que sempre a sensibilizava. Apesar de toda a perversidade de que fora capaz para se fazer odiar nunca alcanara seu objetivo, e seu fim horrvel o absolvera para sempre. Sentia sua falta, tal como nessa noite sentia falta de uma presena amiga.
Deslizou entre os lenis enrugados e sempre um pouco midos. A claridade fraca do braseiro dava  cozinha algo de irreal e tranqilizador.
Atravs das plpebras semicerradas, ela revia um outro braseiro num outro quarto. . . O peso do edredom vermelho trouxelhe  memria o cobertor de l de vicunha.
O tecido spero do lenol irritava-lhe a ponta dos seios, mesmo sobre a camisola. Virou-se para a parede para se furtar s ltimas chamas. Sobretudo no pensar nele, no evocar as carcias de suas mos, dos beijos sobre seu corpo, esse corpo cujos desejos ela mal conseguia saciar, H tanto tempo que nenhum homem.
Com raiva ela se ergueu, furiosa por sentir emergir um desejo irrefrevel de fazer amor. Arrancou a camisola e, com brutalidade, apaziguou sua exigncia.
No dia seguinte, Adrien Delmas chegou a Morizs na companhia do tenente Pierre Vicent, designado por Grand-Pierre, chefe do grupo resistente sediado no Puy, prximo de Montsrgur e de trs dos seus homens, que vinham se reabastecer.
Todos estavam muito excitados ao comentar a destruio do depsito de gasolina de Saint-Martin-de-Sescas, por catorze elementos do grupo, no dia de maio. O tenente e o dominicano dificilmente conseguiam conter a empolgao. La observava-os com inveja; eles, ao menos, agiam.
Depois da partida dos homens, Adrien Delmas aproximou-se da sobrinha.
- Graas ao abade Chailion, capelo do hospital, consegui visitar Camille. Ela est muito melhor agora. Sua coragem  imensa. No se queixa e sua nica preocupao  voc e o filho.
- Posso v-la?
Parece difcil e considero isso um perigo intil para ambas. Dia e noite h homens da Gestapo montando guarda diante da porta de seu quarto. Um deles, porm, tem certa fraqueza por vinho Sauternes.
- Nesse caso, vamos embebed-lo!
Essa concluso fez o dominicano sorrir.
- Veremos. Sua visita no  o mais importante.  preciso tir-la dali.
- E Aristide, o que ele diz?
- Por enquanto, est muito ocupado em sua fazenda nos pntanos, procurando aumentar os efetivos e escapar de GrandClment e seus homens, que tentam elimin-lo, e restabelecer a ordem nos diferentes grupos. Mas, se precisarmos, mandar a equipe necessria.
- Teve notcias de Mathias?
- No soube mais dele desde que nos informou da transferncia de Camilie - respondeu Adrien Delmas.
-  a minha vez de ir a Saint-Andr-du-Bois.
- No se esquea de que, se algo correr mal, poder recorrer a Jules Coiffard, que vive na casa grande  beira da estrada.
Com alguns vizinhos, Jules serve muitas vezes de passador e de caixa de correio. Esta tarde, estarei em Chapelle-deLorette. Os policiais e os alemes multiplicam suas expedies no setor desde a queda da fortaleza volante americana em
Cours-Montsrgur. A destruio do depsito de Saint-Martin-de-Sescas tambm no contribuiu para os acalmar. A
Gestapo espalhou uma dezena de agentes pela regio. Foi graas a um deles, um certo Corbeau, antigo dono de mercearia na
Rua da Croix-Blanche, que se fez passar por oficial canadense, que os soldados detiveram o capito Levy, e n ram  Gestapo de Toulouse.
- Torturaram-no antes de ser executado?
- No sei. Mas  bem possvel.
- Quando  que tudo isso acabar?
- Deus...
- No me fale em Deus, tio! - gritou La. - Voc acredita tanto nele como eu.
- Fiquei quieta! - trovejou o dominicano, apertando-lhe o ombro.
Onde estava agora aquele homem afvel, calmo e terno que La conhecera desde sempre? O rosto macilento, os olhos febris, os traos torturados, os lbios cerrados, guardando um segredo ardente, essas mos to belas agora estragadas, mos que se crispavam para reprimir o mpeto de bater, no podiam pertencer ao mesmo pregador cuja voz fizera vibrar milhares de cristos por todo o mundo, cuja f ardente dominara por muito tempo o morno episcopado de Bordus, e cujo afeto parternal tantas vezes ajudara La e os seus.
- Voc est me machucando, tio!
O dominicano largou a sobrinha, apoiou a fronte sobre a cobertura da chamin, os ombros cados, o ar subitamente envelhecido. Como parecia s e desesperado! Era isso: ele estava s, desesperadamente s, diante de si mesmo e no meio de homens rudes, cujas idias geralmente no compartilhava.
Depois da morte dos pais, era ao tio que La se sentia mais visceralmente ligada. De modo consciente ou no, ela sempre levava em considerao o que ele dizia. Era uma espcie de guia, algum a quem no desejava decepcionar, um ideal humano difcil de atingir. Se a dvida, o medo ou o dio se instalassem dentro daquele homem, isso representaria para La o naufrgio de um mundo de equilbrio, de inteligncia e de bondade. No podia suportar tal idia. Uma clera surda fazia com que sua fronte se cobrisse de suor e acelerava as batidas de seu corao.
Quando ele se voltou, aps um tempo que lhe pareceu longo demais, a irritao dos dois j se apaziguara um pouco.
Desculpe-me, minha querida. O cansao.. . sem dvida. Neste momento qualquer coisa me irrita. Voc me perdoa?
- Sim, tio - ela respondeu, ainda trmula, aconchegando-se em seus braos.
Sentiu, porm, que uma barreira invisvel acabava de se erguer entre eles.
Chegou, por fim, uma notcia alegre: a vinda de Jean e de Raul Lefvre, seus dois admiradores da poca de adolescncia.
No os via desde a dramtica misso dos dois e do Dr. Blanchard, no dia do assassinato de Marie na praa de Verdelais.
Abraados, os trs jovens no conseguiam se separar, maravilhados por ainda estarem vivos.
O jantar foi uma festa para todos. La, apertada no banco entre os dois amigos reencontrados, os olhos brilhando de prazer, e pelo efeito do vinho branco dos Callde, repousava a cabea ora num ombro, ora no outro, acariciava suas mos sob a mesa e roava-os com movimentos sedutores. Ria, falava de tudo e de nada, inebriada por uma felicidade h tanto esquecida, esfuziante de juventude e de beleza.
- Estamos muito felizes por v-la assim - comentou o anfitrio. - Minha mulher e eu comeramos a nos perguntar se voc sabia rir e se divertir.
- .Est como era antes - observou Jean, dando-lhe um beijo no pescoo.
Ainda mais bonita - apoiou Raul, beijando-a por sua vez.
Lon de Landes enviara os dois irmos para se reunirem aos homens de Ded, o Basco, em vista dos preparativos para uma sabotagem na estao de La Role. Em Chapelle-de-Lorette, souberam que a amiga estava em Morizs.
Fizeram o relato de sua fuga, dizendo o quanto Albert e os outros haviam sido espertos e corajosos. A evocao de Albert sombreou por instantes a reunio alegre, mas logo a lembrana da jovialidade do aougueiro de Saint-Macaire, de quem continuavam sem notcias, afungentou a tristeza. A fim de expuls-la ainda mais rapidamente, Callde surgiu com nova garrafa de vinho.
Era muito tarde quando os convivas se separaram. Ficara combinado que Raul e Jean s partiriam na manh seguinte;
passariam a noite enrolados em cobertores diante da lareira.
Muito tempo depois da partida dos outros, eles continuavam a conversar, bebendo e fumando. Instalados na cama, no se resolviam separar-se para dormir.
Estreitamente enquadrada pelos dois rapazes no leito exguo, La deixava-se invadir aos poucos pelo bem-estar daquela presena e pelo calor de seus corpos. Os dedos de La despenteavam os cabelos encaracolados dos jovens, enquanto eles afundavam o rosto em seu pescoo, aspirando-lhe o perfume da pele e cobrindo-a de pequenos beijos.
Naquele instante, o nico desejo de qualquer um deles era apenas o de estarem juntos, aninhando-se como faziam os animais jovens, entregues s brincadeiras prprias da idade. Na alegria do reencontro, esqueceram-se de que eram dois homens e uma mulher, de que eram jovens e de que a clandestinidade no lhes favorecera ainda as relaes amorosas.
Sem a mnima premeditao, os beijos dos rapazes tornavam-se mais ternos e as mos mais ousadas, descobrindo o corpo da amiga que, em vez de se defender, oferecia-se a eles com aquele seu riso profundo que tanto os perturbara antigamente.
Essas quatro mos masculinas que a percorriam abriam-lhe espaos luminosos, afastando a tristeza e a angstia dos ltimos dias. Sem medo. . . sem guerra. . . sem mortos.
Quando Jean a penetrou, foi nos lbios de Raul que La abafou o primeiro grito.
A friagem do amanhecer reanimou os corpos nus. Inclinados sobre a moa, os dois irmos fitavam-se com horror, os olhos cheios de lgrimas.
- Estou com frio - murmurou ela.
Raul levantou-se e atirou um punhado de lenha sobre as cinzas ainda quentes. Dentro em breve, um claro vivo iluminava a cozinha.
- Perdoe-nos - balbuciou Jean, o rosto escondido nos cabelos da amiga.
Ela no respondeu. Com ar srio, percorria com o dedo a extensa cicatriz que se estendia pelo peito e pelo ventre do rapaz.
- Vem c - ela ordenou a Raul, que acabava de se vestir.
Com ar contrito, ele sentou-se na cama.
- No temos de lamentar o que aconteceu, muito ao contrrio. Ns trs sempre nos amamos, crescemos juntos e vocs dois sempre dividiram tudo...
- Mas no voc!
Aquele grito vindo do corao a fez sorrir; a guerra no conseguira modificar Jean. Continuava a ser o rapazinho exclusivista, repartido entre o amor por ela e o afeto fraternal.
- No ria - censurou Raul. - O que fizemos foi abominvel.
O rosto de La ficou srio e o tom de sua voz endureceu.
- No diga uma coisa dessas. Ns no somos abominveis, mas sim as circunstncias. Talvez amanh vocs estejam mortos e eu tambm e  natural que aproveitemos a vida nos raros momentos em que isso seja possvel. No me sinto envergonhada por ter feito amor com vocs. No tenho nenhum remorso, nenhum desgosto. O que lamento  no poder faz-lo mais vezes.
- Fique quieta! Voc  imoral.
- E voc, voc  um idiota. No h mais moral.
- Se no h mais moral, pode me explicar por que escolheu a Resistncia em vez da colaborao? Podia estar muito tranqila em Paris, circulando pelos sales de ch juntamente com Franoise.
- Raul - exclamou Jean.
ou vendendo o seu vinho aos alemes, em vez de ficar correndo pelas estradas, levando mensagens ou escondendo armamento, com risco de ser presa e torturada. Vamos. . . diga! Diga por que est do nosso lado, se no h mais moral!
- No a aborrea - interveio Jean novamente.
- Deixe-o Jean, vou tentar lhe responder. No  uma questo de moral, pelo menos para mim. Voc se lembra, antes da guerra, todas aquelas histrias de alemes, de Aliados, da linha Maginot, da Polnia, me aborreciam; mas queria ouvir falar disso, Depois, vocs todos partiram, voc, Jean, Laurent e outros mais. Em seguida, foi a runa. Camilie e eu percorrendo estradas sob metralhadoras, gente morrendo  nossa volta, o corpo de Josette crivado de balas, sua garganta aberta jorrando sangue, o homem que nos atacou, a morte da senhora Le Mnestrel e dos dois filhos, a de mame durante o bombardeio. . . a de papai. . . Mas tanto horror talvez no tivesse sido suficiente para me fazer compartilhar das idias de tio Adrien e das suas, sem a presena dos alemes em Montillac, na casa que  minha. Cada vez que eu os via no terrao, nas vinhas ou nas adegas, sentia-me desapossada e humilhada. No tinham direito de estar ali. Compreendi, ento, o que significava perder a guerra, ser um pas submetido  Ocupao. E isso eu no pude aceitar. Como v, nada de glorioso.
- Talvez no seja, mas nem todos os franceses reagiram como voc.
- Talvez lhes falte um pouco de terra a qual se sintam ligados, da qual tenham nascido e que lhes pertena.
- Voc  como seu pai. . . apaixonada por Montillac - observou Jean, beijando a amiga. -  voc quem tem razo. Vamos guardar dessa noite apenas a lembrana do instante maravilhoso em que esquecemos a guerra e a moral.
- Ento, Raul. . . no fique com essa cara! No fizemos nada de errado.
O jovem olhava com verdadeira tristeza as duas criaturas de quem gostava acima de tudo. Mas seu amor por La o tornava agora ciumento em relao a Jean, coisa que, no passado, julgara impossvel acontecer. Fazendo um esforo enorme, conseguiu sorrir.
Depois de tomarem uma caneca de leite quente e de comerem um pedao de po, os dois irmos tornaram a partir para
Chapeilede-Lorette.
No dia 11 de maio, Jean e Raul Lefvre reuniram-se aos resistentes de Grand-Pierre.
Em Sauveterre-de-Guyenne, houve um recontro entre alemes e resistentes. Jean, ferido, foi levado por seu irmo ao castelo de
Madailian; depois, como ali no havia segurana, transferiu-o para a casa do padre de Blasimon, o abade Maurice Grciet, que concordou em escond-lo.
Raul e seus companheiros ocultaram-se durante alguns dias nas matas de Colonne, perto do castelo de Villepreux, antes de regressarem ao territrio do Puy.
No foi La quem descobriu o recado de Mathias anunciando a transferncia de Camille para o quartel de Boudet, em
Bordus, na segunda feira, dia 15, mas sim um rapazinho enviado por Callde. A partida da prisioneira fora fixada para as treze horas.
Na vspera do dia previsto para a fuga, La, disfarada de enfermeira, fez uma visita a Camilie em companhia do abade
Chaillin, tirando partido da escassez de pessoal desse domingo da festa de Joana d'Arc.
O alemo de guarda - aquele que apreciava o vinho Sauternes
- brindava junto com uma enfermeira, mulher de seios avantajados, tal como ele gostava. Ela se incumbira de mant-lo afastado de seu posto durante uns vinte minutos, enquanto uma religiosa de So Vicente de Paulo vigiava perto da entrada do hospital e uma outra, junto  capela.
La havia se preparado para encontrar Camille cansada e mais magra; mas se assustou com o estado da amiga. Ela era s pele e osso, e os olhos, encovados nas rbitas, estavam circundados por enormes vincos escuros. La abraou-a, procurando sorrir; no se conteve, porm, e. . . desatou a soluar.
- Ento. . . ento. . . estou assim to feia? - gracejou Camille. - Voc est magnfica nesse seu traje de enfermeira. No chore. Eu estou muito melhor. No  verdade, senhor vigrio?
- Sim, minha senhora - concordou o padre, desviando os olhos.
A custo, La conseguiu forar um sorriso.
Apressem-se, no temos muito tempo. Vou verificar se o nosso beberro continua tranqilo.
As duas amigas ficaram ss, as mos enlaadas, comovidas demais para longos discursos. Camille foi a primeira a quebrar o silncio:
- O abade tem razo: no temos muito tempo. Como vai Charles? No est muito infeliz? Teve notcias de Laurent?
- Charles est muito bem e no se sente infeliz. No recebemos mais notcias de Laurent mas, enquanto estiver na
Inglaterra, no h motivo para preocupaes.
- E de Franois Tavernier?
- Nenhuma - respondeu La, sentindo o corao se apertar.
- Estou certa de que ter logo. No  homem que se deixe apanhar com facilidade. Tenha confiana. E com voc, como esto as coisas?
S pensa nos outros, Camille - ela disse, rindo sem alegria.
- Mas, e voc?
- Eu estou muito bem.
- Tentaremos a sua fuga amanh. Voc se sente com foras para isso?
- Tenho. Quero ver meu filho.
- Nesse caso, escute bem o que vou lhe dizer.
Em poucas palavras, La lhe transmitiu o plano concebido pelos resistentes. Mas esse plano no seria posto em prtica.
De volta a Morizs, La informou o tio e os cinco homens enviados por Aristide de que teriam de renunciar ao ataque  ambulncia; Camille estava enfraquecida demais para tentar fugir quando parassem o veculo. Com o abade Chaillon, ela havia pensado em outra coisa.

Captulo 6

A CHUVA to ansiosamente esperada caa, enfim.
De faris apagados, o carro esperava na Rua Perdue, em frente ao hospital. Na praa Saint-Michel, dentro da caminhonete,
Rigoulet e Sifflette espreitavam. Na parte de trs, um jovem resistente, de mos crispadas na coronha de uma Sten, prendia a respirao. Havia mais dois homens emboscados na Rua das Ecoles e um Outro diante do edifcio do Prince Noir.
- Ateno! L vm eles!
Um homem e uma mulher corriam pela Rua de Saint-Nicolas. O homem, bastante alto, transportava algum nos braos, o que o retardava.
Abriram-se as portas traseiras do carro, ao mesmo tempo que o condutor fazia dois breves sinais de luzes com os faris.
Os da caminhonete responderam. Os motores dos veculos comearam a funcionar.
- Desmaiou!
Mathias colocou Camille no banco do veculo.
- Apressem-se! No vo demorar para perceberem o desaparecimento dela.
- Obrigado, meu filho. O que acaba de fazer redime os seus erros. Venha reunir-se a ns; ser bem-vindo - afirmou o dominicano.
- No estou to certo disso, meu padre - respondeu Mathias.
- Seja como for, para mim  tarde demais.
- Que vai fazer?
- Vigiar. Agora partam. Adeus, La.
- Adeus, Mathias. E obrigada.
O carro partiu. No longe dele, a caminhonete o seguia.
Em tempo. Iluminavam-se algumas janelas do hospital, soavam apitos misturados a gritos, enquanto as viaturas rumavam em direo a Bazas. A menos de dois quilmetros da velha cidade, viraram  esquerda, parando em Saint-Algnan, numa fazenda amiga.
Ainda inconsciente, Camilie foi transportada para dentro de casa. Depois de se assegurar de que tudo corria bem, Rigoulet partiu sozinho para La Role, enquanto o carro onde Camilie viajara prosseguia pelo caminho de Bazas.
Fora o padre Delmas quem concebera os pormenores do golpe, convencendo os companheiros de que os alemes jamais suspeitariam que sua prisioneira estaria to perto deles. Alm disso, seria necessrio tempo para providenciarem o local de refgio definitivo, assim como a rede de fuga para a Sua. Ficara combinado, tambm, que La, Sifflette e dois membros da
Resistncia permanecessem junto da doente.
A fuga de Camille, aliada  destruio do depsito de combustvel,  coliso de Sauveterre e s inmeras sabotagens e tentativas de atentados, colocou em estado de alerta todos os efetivos alemes e policiais da regio.
Pequenas vilas e aldeias assistiram ento aos desembarques dos homens em uniforme verde-acizentado e azul-marinho, que vasculhavam todas as habitaes, os celeiros e as igrejas. Saint-Pierre d'Aurillac, Frontenac, Sauveterre, Rauzan, Blasimon,
Mauriac, Peliegrue, Montsrgur e La Role receberam sua visita. Numerosos resistentes foram presos entre 17 e 20 de maio: Jean Lafourcade, Albert Rigoulet, Jean Laulan, Georges Loubire, Arnault Benquet, Nol Ducos, Jean Gallissaire,
Pierre Espagnet, Gabriel Darcos. . . Dezessete pertenciam ao grupo de Buckmaster. Alguns foram torturados, mortos ou deportados. Catorze deles nunca mais voltaram.
No dia 19, acompanhada por Sifflette, La, de leno amarrado na cabea, levou Camille a Morizs, escondida numa carroa de feno. Seu estado de sade estacionara.
Bem a tempo. No dia seguinte, a famlia Rosier, que lhes dera abrigo, regressou a casa, vinda do mercado de La Role.
Quando chegaram em Saint-Algnan, nie e filha foram preparar o almoo enquanto o pai bebia uns tragos com o carteiro e Manuel, o empregado.
O ronco de um motor soou na estrada. H dez dias, avisados por amigos, os Rosier tinham fugido na noite. Agora, porm, era mais grave.
Na parte baixa da propriedade, via-se o teto escuro de um carro. Sem perderem tempo para pegarem qualquer coisa, o casal e a filha fugiram atravs de campos e bosques at Morizs, onde Tore os recebeu. O carteiro tambm conseguiu escapar.
Ningum fora apanhado, mas os alemes descobriram sete tonis com armas escondidos no secador de tabaco.
La compreendeu que a sade de Camilie no melhoraria enquanto estivesse separada do filho. Com a cumplicidade da Sra.
Rosier e de Sifflette decidiu, ento, buscar Charles.
As trs mulheres partiram de bicicleta. La separou-se das duas mulheres em Saint-Andr-du-Bois. Sifflette deveria vir ao seu encontro duas horas mais tarde.
Em Montillac reinava grande atividade junto das adegas, Fayard e trs desconhecidos carregavam caixas de vinho numa caminhonete. Ao ver La, o encarregado quase deixou cair a caixa das mos, tamanho foi o seu espanto.
- Bom-dia, senhorita - gaguejou. - J est de volta?
Depois de se desembaraar da caixa, Fayard tirou o chapu, deixando  mostra o crnio branco e quase calvo.
- Bom-dia, senhorita - gaguejou. - J est de volta?
- Pode ficar tranqilo que no ser por muito tempo. Mas os meus amigos logo lhe daro notcias minhas.
Por que ela dissera aquilo? Uma idia que lhe passara pela cabea, ao ver o medo estampado em seu rosto. E tambm a lembrana de uma operao punitiva realizada por um grupo de resistentes do Lot-et-Garonne contra um traficante do mercado negro, suspeito de ter denunciado membros da Resistncia. Ela experimentou uma alegria maldosa vendo tremerem as mos calejadas desse homem, cujo amor pela terra e o gosto pelo lucro haviam conduzido ao trfico com o ocupante at se transformar num delator. E pensar que poderia lhe tomar Montillac!
O ar estava pesado, prenunciando tempestade, mas a velha moradia conservava ainda certo frescor invernal. Tudo parecia calmo, imutvel. Pairava no ar o cheiro da cera, misturado ao perfume do ramo de rosas brancas, as primeiras do ano, das roseiras que cresciam encostadas  parede da adega, mais expostas ao sol. Fora Isabelle Delmas quem plantara essas roseiras de flores precoces e perfumadas.
Esse ramalhete colocado sobre a mesa do vestbulo. . .! "Se fechar os olhos, verei mame transpondo a porta."
- La!
Charles corria para ela, de braos abertos.
- Voc voltou!. . . Onde est mame? Quero ver a minha mame!
J vai v-la, meu querido. Vim buscar voc.
- Buscar esta criana? No est pensando nisso, est? - exclamou a governanta.
- Ruth,  preciso. Seno Camille no vai sarar!
- Mas  perigoso demais!
- Por favor, Ruth, no tenho muito tempo. Pegue algumas roupas para ele.
- Venha comigo, tenho muitas coisas para lhe contar - disse a governanta. - Charles, v procurar tia Bernadette.
- No vou. Quero ficar com La.
- Obedea a Ruth, Charles. Se ficar bonzinho, eu o levo para ver sua me.
- De verdade?
- Juro.
O menino desapareceu, chamando por Bernadette Bouchardeau.
Enquanto arrumava as roupas numa bolsa, Ruth contava a La o que havia acontecido durante sua ausncia.
- Seu tio Luc e seu primo estiveram aqui na semana passada. Queriam avis-la da visita do notrio de Fayard por causa da venda de Montillac.
- Mas o que tio Luc tem a ver com isso?
- Fayard teria conseguido a aprovao de Franoise.
- O qu?!
Num gesto de raiva, La lhe Voltou as costas, dirigindo-se para casa.
- Eu disse "teria".  o notrio dele quem diz. Laure  menor e seu tio Luc, o seu tutor. Voc, tendo se juntado aos terroristas, est fora da lei; coube a seu tio a deciso de vender ou no.
- Mas isso  absurdo!
- Talvez. Mas seu tio e seu primo, como juristas, dizem que  isso mesmo, sobretudo por sua ausncia.
- Estou vendo. . . seria conveniente para todo mundo se eu fosse presa e desaparecesse para sempre.
- Para Fayard, sem dvida, mas no para seu tio. Voc  filha de seu irmo e ele gostaria que vocs conservassem a propriedade. Depois da partida de Pierrot, ele mudou muito.
- Mudou! Muito me admiraria! Pelas ltimas notcias, ele continua colaboracionista.
- No acredito.  a favor de Ptain, simplesmente.
- Seja como for, deixou que a filha se casasse com um alemo.
-  verdade. Mas no deixa de ser um homem honesto.
- So muitos os homens honestos como ele. Quer que lhe diga uma coisa? Compreendo mais Fayard que tio Luc.  a terra o que ele quer e v na guerra apenas a oportunidade de conseguir os seus objetivos, de enriquecer. Sejam franceses ou alemes, para ele tanto faz. Colabora com aqueles que lhe parecem em melhores condies para lhe permitir apossar-se da propriedade. Ele, um antigo combatente da guerra de 14, nem percebe que trai seu pas! Quanto a tio Luc,  mais grave, porque  um intelectual. Sabe o significado das palavras e as conseqncias dos atos. Sua profisso, seu gosto pela ordem e pelos valores burgueses levam-no a respeitar o poder legal. Para ele, s Ptain  legtimo, e Ptain pediu aos franceses para colaborarem. Alm disso, tambm acho que tio Luc tem absoluta falta de imaginao. Do contrrio veria que, cedo ou tarde, a Alemanha ir perder a guerra e que os terroristas de hoje tomaro o poder amanh.
- Mas  exatamente isso que ele no quer retrucou Ruth.
- Diz que se os americanos desembarcarem e De Gaulle triunfar, a
Frana cair nas mos dos comunistas e os russos passaro a ser a nova ordem no pas. Para ele, apenas a Alemanha conseguir preservar a Europa do flagelo comunista. Est profundamente convencido disso.
- E o meu querido priminho pensa do mesmo modo que o pai, evidentemente.
- Muito pior que ele! Fala em alistar-se na L.V.F.
- Muito me admiraria! Phillipe nunca primou pela coragem.
- Seu tio pensa que, para se evitar a venda de Montillac, voc dever escrever uma carta negando seu consentimento. No est certo de que isso seja suficiente para impedir a transao, mas servir, pelo menos, para ganhar tempo.
- Falarei a esse respeito com tio Adrien e Camilie.
- Mas no deixe que isso demore. - Olhe para mim... voc no est bem. Parece cansada.
Fao muitas vezes entre trinta e quarenta quilmetros por dia de bicicleta. E nesta regio a gente est sempre subindo. Se a guerra durar muito tempo, terei os msculos das pernas iguais aos de Le Guevel ou de Van Uliet e poderei concorrer ao
Grande Prmio de Bordeaux. Alm disso, estou preocupada com Camille.
- Pobre pequena! A est algum que no tem sorte! Achas que eles a. . .? Bem. . . sabe o que quero dizer?
- Que a torturaram? No verdadeiramente, no sentido em que bandidos como Denan o compreendem. Sabe que esses patifes da polcia inventaram um nome mais elegante e mais encantador que a palavra tortura? Agora no torturam. Eles "touyagam". "Touyagar" tornou-se a distrao favorita deles.
- Touyagar?!
- Sim, uma palavra derivada de Touyaga.
- Touyaga?!
-  o nome de um contador preso pelos policiais depois de uma denncia. Pierre Touyaga foi queimado e espancado com cacetetes. Tambm lhe arrancaram a pele e as unhas e queimaram seus ps e seus rgos genitais. Marcel Fourquey, do 2

Servio de Polcia de Bordus, ficou de tal forma satisfeito que inventou esse novo verbo. Em Bordus, atualmente, a polcia no tortura, ela "touyaga".
- Que horror!
- Camille s teve direito a uma "touyagagem" leve: bofetadas, pontaps e murros. Salvou-a sua fraqueza; no podiam continuar a "touyag-la" sem que a matassem. Mas ainda no conseguiu recompor-se desde ento. Pensei que a presena de Charles pudesse ajud-la.
- Mas essa presena, com a vida precria que vocs levam, pode ser perigosa.
- No creio. Os resistentes tm as bases bem vigiadas e os alemes, aps a vaga de prises destes ltimos tempos, recolheram-se em seus quartis. O perigo maior vem de homens como Denan e Fiaux. Sei que Aristide recebeu ordem de os neutralizar e que o tio Adrien est aqui para isso. At l, porm, Camilie e Charles iro se refugiar na Sua. Voc tem gua quente? Gostaria de lavar a cabea. No consigo me acostumar  gua fria.
Depois do banho e de lavar os cabelos, La teve a sensao de ser outra mulher. Apesar dos conselhos de higiene dispensados pelos chefes resistentes ou difundidos pela emissora de Londres, os acampamentos e as fazendas que lhes serviam de refgio no eram propriamente modelos de limpeza.
Alguns comandantes locais tinham ido mais longe, procurando implantar nas bases a disciplina militar; continncia  bandeira, exerccios fsicos, manejo de armas, aspecto pessoal to impecvel quanto possvel, respeito pela hierarquia, limpeza do campo e asseio individual. Mas tais regras s se tornavam viveis em base de maior importncia, tais como as de Limousin, de Vercors ou da Bretanha.
Na Aquitnia, no incio de 1944, os grupos ainda no tinham muitos combatentes. As coisas alteraram-se a partir do ms de maio, e Aristide pde, ento, transmitir para a Rua Baker o relatrio detalhado dos novos efetivos; quinhentos homens em Bordus e em Bordeaux-Saint-Augustin; quarenta e cinco homens em Mrignac; quinze homens na base de submarinos;
quarenta homens na rede Lermont; vinte homens no grupo de Pessac; cinco homens no grupo de sabotagem do Bouscat;
vinte e cinco homens na rede Bgles; quinhentos homens no grupo de Lon de Landes; cento e quarenta e cinco homens no grupo dos ferrovirios; trezentos homens no grupo de Arcachon.
Um total de mil e quinhentos e noventa e cinco homens determinados  luta e conhecedores de sua misso. Este efetivo pouco numeroso seria mais tarde reforado at atingir os quinze mil homens no Dia D. Mas, enquanto isso no acontecia, o coronel Buckmaster mostrava-se satisfeito.
La abandonou com alvio a velha bicicleta emprestada pelos Tore, trocando-a pela prpria bicicleta azul.
Prendeu ao porta-bagagens uma cadeira de vime que serviria de assento a Charles.
Teria de se apressar. Fayard era bem capaz de avisar a Gestapo de Langon.
Transtornadas, Ruth e Bernadette Bouchardeau viram partir a criana, nica alegria de suas vidas; o menino ria e se agitava no assento.
- Pare de se mexer! Voc vai nos fazer cair. Encontrou Sifflette depois da subida de Bernille.
A felicidade que me e filho sentiram ao se reencontrar atenuou um pouco a clera de Adrien Delmas diante da imprudncia cometida pelas trs mulheres.
Sifflette chamou a si todas as culpas, argumentando ser a mais velha e, portanto, a nica responsvel. E o dominicano fingiu aceitar suas explicaes.

Captulo 7

MAURICE FIAUX e seu bando no digeriram a fuga de Camille do hospital Saint-Jean.
O padre Delmas sabia que a polcia e a Gestapo haviam conseguido infiltrar certos elementos seus em algumas bases de resistentes, tanto nas do O.C.M., do Lib-Nord ou nas da F.T.O., o que no apresentara dificuldades maiores, pois os jovens resistentes eram to avoados como confiantes. Bastava um copo de vinho a mais, uma moa bonita diante da qual quisessem se fazer de heris, uma palavra benevolente em relao  Resistncia e ao general De GaulIe ou um ar de franca camaradagem, para que numa conversa banal logo soltassem a lingua, permitindo que Dohse ou Robert Franc fizessem detenes.
Falava-se mesmo de um homem de Grand-Clment introduzido no seio dos comandos recrutados por Aristide. Os responsveis pela Resistncia viam traidores por toda a parte.
As ordens de execuo partiam de Londres. At o momento, o antigo chefe do O.C.M. conseguira esquivar-se a todas a armadilhas, mas o agente britnico estava decidido a acabar com ele e com os que estavam a seu servio. Um de seus ajudantes, Andr Basilio, fora abatido em 22 de maio.
Era necessrio agir rapidamente, pois Grand-Clment sabia que Aristide estava de volta: em Bordus, na vspera da execuo de Basilio, o agente ingls dera de cara com Andr Noel, antigo membro da sua rede que se passara para o inimigo subjugado pelas teorias de Dohse - e daquele que continuava a considerar como chefe - quanto  ameaa do boichevismo sobre a Frana.
Foram dadas ordens para abater Grand-Clment e Noel, mas ningum conseguiu encontr-los; ambos haviam partido para
Paris. Dohse, por sua vez, vasculhou toda a cidade  procura do chefe do SOE., sem melhores resultados.
Aristide e o padre Delmas sabiam que o desembarque se aproximava. Desde abril que o oficial ingls recebera ordens para executar a emisso francesa da B.B.C., s dezenove horas dos dias 1, 2, 15 e 16 de cada ms, dias em que poderiam ser transmitidas mensagens referentes ao desembarque.
Tudo teria de estar a postos para tal eventualidade, os preparativos feitos com calma e em sigilo. Mas assim no acontecia.
Desde o comeo do ano que pequenos grupos mais ou menos bem armados no deixavam de incomodar o ocupante com sabotagens, ataques a sentinelas, fugas de prisioneiros etc., pondo alemes e soldados em estado de permanente alerta, e tornando precria a segurana dos grupos de resistentes da Aquitnia.
Em meio a esse clima de espera e de tenso, chegou ao quartel- general de Aristide, em Blaye-Saint-Luce, uma mensagem de
Mathias Fayard, dirigida ao dominicano. Houve um momento de confuso na base dos pntanos da embocadura do
Garonne. Como conheceria o rapaz o local que todos julgavam to seguro? No foi possvel extrair nenhum esclarecimento do "mensageiro", um idiota filho de um pescador da regio, preso no forte de H muito antes do regresso de Aristide, por distribuir jornais clandestinos. Para maior segurana, detiveram o idiota.
O texto da mensagem era dos mais alarmantes. Segundo Mathias, Fiaux conhecia a localizao exata da maioria das bases da
Resistncia a leste de Bordus, o nmero de homens, o armamento de que dispunham e o nome dos chefes. Mas, por um motivo que s ele conhecia, Fiaux no dera tais informaes nem  Gestapo nem  polcia.
- Mas como esse Mathias sabe de tudo isso? - exclamou Aristide.
Oua o que ele escreve - disse o dominicano: "Como sabe, meu padre, vigio Fiaux com o objetivo de melhor proteger La.
Escondi-me no celeiro da casa onde ele mora, no Boucat. O quarto de Fiaux fica exatamente embaixo. O teto  formado por simples tbuas e basta prestar um pouco de ateno para se ouvir tudo. Foi no celeiro que ontem surpreendi sua conversa com dois guarda- costas. Algumas de suas palavras me fazem acreditar que tentar vender essas informaes ao chefe da Gestapo, pois no confia nos camaradas da polcia, 'que se apropriariam de seu p-de-meia', como ele diz.
Tive vontade de mat-lo, no seria impossvel do lugar onde me encontrava, mas pensei tambm que, se a tentativa falhasse, ele e os outros no me poupariam e que ningum poderia avis-los nem proteger La.
No demorem;  necessrio impedi-lo de transmtir o que sabe. Eu prprio me encarregaria de silenci-lo, mas ele desconfia de mim e no permite aproximaes. Esta carta, que estou assinando,  a prova, de que no minto e de que no procuro atra-los a uma cilada. Se quiser me ver, mande avisar meus pais, em Montillac, ou no
Chapon-Fin. Pergunte por Ren, o ajudante de cozinha. Ele sabe onde me achar e ir me transmitir o recado no mesmo dia.
Quero deixar bem claro que no fao isso para ajudar a Resistncia, mas por La.
Eu o sado respeitosamente
Mathias Fayard.
- Que histria absurda! - comentou Lancelot. - No tenho a mnima confiana nesse bostinha.
- Qual  a sua opinio, meu padre? - quis saber Aristide.
- Acho que Mathias fala a verdade.
- Como poderemos saber que  assim?
- Ontem, em Castillon-La-Bataille, prendemos um rapaz suspeito de fazer jogo duplo. Quando o interroguei, ele respondeu com ironia que todos ns estvamos fodidos, que a polcia conhecia perfeitamente a localizao das bases dos resistentes e que logo passaria ao ataque. Nesse momento, o operador de rdio veio me procurar para decifrar uma mensagem urgente de
Londres. Quando voltei, o rapaz estava morto.
- Morto?
- Sim, morto. Nossos rapazes comearam a maltrat-lo e talvez algum deles tenha querido det-lo, ameaando-o com sua arma. No consegui saber. Seja como for, algum disparou, matando-o de imediato.
- No me diga que lamenta o sucedido?
- A morte de algum  sempre uma infelicidade - replicou Adrien Delmas.
- Sem dvida. Mas estamos em guerra e na guerra mata-se e morre-se. Por vezes  necessrio matar um homem para evitar que morram dezenas ou mesmo centenas deles.
-  o que sempre se diz em relao a todas as guerras, a fim de justific-las. Na Espanha, assisti ao sacrifcio de tantas vidas sob esse pretexto.
-  possvel, meu padre, mas no temos escolha. O desembarque dos Aliados est prximo e no podemos correr o risco de ver nossos grupos atacados e destrudos.  preciso eliminar Maurice Fiaux, os seus guarda-costas e Mathias Fayard.
- Por que ele?
- No compartilho da sua confiana.
- Conheo-o desde pequeno. O amor de Mathias por minha sobrinha o fez cometer erros graves.
- Chama erros graves  sua colaborao com a Gestapo e com a polcia? - interrompeu-o Lancelot.
- Proponho que o assunto seja votado - sugeriu Ded, o Basco, que permanecera em silncio at aquele momento.
- De acordo - anuiu Aristide. - Quem se pronuncia pela execuo dos quatro?
Todas as mos se ergueram, exceto a do dominicano.
- O caso est encerrado - declarou Aristide. - Ponha-lhes alguns homens na pista, Lancelot. Localizem-nos e faam um relatrio.  preciso que dentro de quarenta e oito horas, no mximo, conheamos seus hbitos, seus domiclios, os pontos fracos das suas defesas. Compreendeu?
- Perfeitamente, chefe. O senhor deve ir ao Jard-de-Bourdillas, em Landes de Bussac, enquanto espera que esses bandidos sejam eliminados.
- Talvez. Direi mais tarde. Mas no acredito que aqui eu corra grandes riscos. Temos homens em Saint-Ciers, em
Montendre, em Saint-Savin, em Saint-Andr-de-Cubzac e em Bourg. O quartel-general est bem protegido. Meu padre, gostaria de lhe falar em particular - disse Aristide.
Sozinho, diante do rosto marcado e do grande corpo emagrecido de Adrien Delmas, o chefe resistente parecia ainda mais jovem e mais baixo.
- Como vai a senhora d'Argilat? - perguntou ele.
- Muito melhor.
- Fico feliz em saber. Conseguiu organizar sua partida para Lausanne?
- Ainda no. Foram presos muitos passadores e preparar a travessia de uma mulher doente por todo o Sul da Frana no  problema fcil de se resolver.
- Entrei em contato com Londres a fim de obter um avio, mas responderam-me que no momento  muito perigoso.
Entretanto, se for verdade o que disse Fayard, ela e sua sobrinha no podem ficar em Morizs. Podemos transferi-las para o grupo de Luze, prximo de Arcachon.
- Preferia lev-las para o setor de Daniel Faux ou do tenente Vicent. La conhece perfeitamente a regio e, em caso de dificuldades, saber onde se esconder. Alm disso,  em La Role que espero o contato para a ida de Camille para a Sua.
- Como queira - concordou Aristide. - Mas, ento, prefiro que elas fiquem perto de Lorette.
- De acordo. Darei ento instrues para sua transferncia amanh cedo. Estamos em Pentecostes e esperemos que as luzes do Senhor nos iluminem.
- Encontramo-nos aqui na sexta-feira, s dezoito horas, para combinar os pormenores da execuo de Fiaux e seus aclitos.
Meu padre, posso lhe dizer uma coisa?
- Diga.
- O senhor devia consultar um mdico. Parece muito cansado.
- Depois se ver - respondeu Adrien Delmas com um leve sorriso.
No dia seguinte, o padre Delmas celebrou missa na igreja de Chapelle-de-Lorette, na presena da maior parte dos resistentes. Todas as diferentes tendncias ali estavam representadas e confundidas, aumentadas pelo grupo de Couthure, de Camille e de La. Charles fora deixado sob os cuidados de me Faux, que preparara para todos, ajudada por Sifflette, seu "carneiro guisado", j clebre entre os jovens comiles.
A Sra. Carnlos, cuja fazenda, situada acima de Lorette, servia de observatrio e de depsito de munio, preparava uma fritada de peixes do Garonne.
Em volta das construes da fazenda, de paredes espessas, tinham sido escavadas trincheiras, transformadas em postos de tiro. Havia F.M. instaladas diante das aberturas atrs do muro que rodeava o poo da casa da famlia Faux.
Desde o assassinato do capito Levy pela Gestapo de Toulouse, muitos jovens haviam se alistado nas fileiras da
Resistncia, O coronel Becq-Guerin, que o sucedera, prosseguia o trabalho em andamento e iniciava no manejo das armas os novos recrutas - os que tinham se negado a cumprir o servio militar, camponeses, operrios e estudantes.
 sada da missa, as narinas de La sorveram com delcia o perrume do carneiro guisado, um de seus pratos favoritos.
Que fome que eu tenho! - exclamou a jovem, massageando o estmago sem cerimnia.
- Eu tambm - disse Camille, que havia recuperado uma certa cor no rosto.
A amiga fitou-a com uma expresso de surpresa feliz, comentando:
- H anos que no a ouo dizer que est com fome!
- Tenho a sensao de que renasci. Me fez bem rezar; restituiu- me a coragem. Sinto que estamos em segurana aqui.
Tal como na clareira de Landes, La estremeceu, apesar do sol quente desse meio-dia de Pentecostes.
Olhe quem vem vindo!
- Raul! Jean!
Os dois rapazes beijaram a amiga com certo embarao. Mas o mal-estar de ambos logo se desfez quando La os abraou, rindo ec alegria. Jean no conseguiu reter um grito.
- Oh, desculpe. ..! Tinha-me esquecido. Eu o machuquei? Di muito?  grave?. .
- No, mas ainda est dolorido.
- Jean teve muita sorte - comentou Raul. - Por mais um pouco a bala acertava em cheio no corao. Estamos to contentes de v-la melhor, Camilie! Como vai Charles?
- Ele est aqui comigo.
Sempre conversando, chegaram ao ptio da famlia Faux onde haviam sido colocadas mesas e cadeiras. Os resistentes j estavam instalados, esperando com impacincia que os servissem. Ergueram- se para dar lugar s duas jovens, mas La preferiu a sombra de uma tlia na companhia dos dois irmos Lefvre. Camille foi sentar-se junto do filho, cujo prato j estava cheio.
A refeio foi alegre e muito apreciada pelos convidados. Substitudas, as sentinelas vieram almoar, por sua vez, comendo aquilo que os camaradas lhes haviam deixado. Para compens-los das raes exguas de guisado, a Sra. Faux serviu-lhes doses duplas de um bolo que ela fazia to bem quanto o seu famoso prato de carneiro.
Quando chegou a hora de lavar a loua, La desapareceu. indo refugiar-se no celeiro, arrastando Raul consigo.
Beije-me - pediu.
Mas... Jean?.
- Fique quieto. Ele est ferido. Vamos, beije-me.
Rolaram no feno e, durante momentos, pensaram apenas no prazer de seus corpos.
 noite, os resistentes voltaram para suas bases e o padre Delmas partiu para Bordus numa motocicleta requisitada a um garagista de Langon.
A noite excepcionalmente clida desse fim de maio de 1944 parecia feita para o religioso que dirigia sua mquina atravs das encostas cobertas de vinhedos. Estava uma atmosfera densa de vero, tempo soberbo para a vinha, mas desastroso para as outras culturas, que sofriam cruelmente com a falta de gua. Alguns relmpagos tinham prenunciado chuva, mas a tempestade se afastara.
Ao atravessar um pequeno bosque no fundo de uma depresso Adrien Delmas foi tomado pelo odor forte de menta, de musgo do frio mido da vegetao rasteira sob as rvores.
Mesmo depois de tantos anos, era sempre para ele uma surpresa esses trilhos modelados sem cessar pela ao humana, abertos no fundo dos vales arborizados, trilhos que se furtavam ao sol e ao cu, emaranhados de moitas hostis, de razes sub-reptcias, de buracos cheios de gua estagnada, habitados por uma fauna rastejante.
Esses lugares, ainda mais selvagens pelo contraste com a restante paisagem, provocavam-lhe sempre um ligeiro mal-estar.
Mesmo no mais alto vero, no se desejava repousar nessas sombras malfazejas. Adrien Delmas no se recordava de alguma vez ter interrompido uma caminhada para descansar ali. Nessa noite, porm, seu esprito e seu corao estavam em harmonia com aquela vizinhana escura e pantanosa.
Desligou o motor da motocicleta e brecou. O calor da mquina tinha algo de amigvel que o fez demorar-se ainda por momentos sobre ela antes de desmontar e de a encostar numa rvore.
Afastou os ramos, as lianas de hera e penetrou nas trevas vegetais. Quando se erguiam da turfa, os ps produziam um rudo esponjoso. Barrou-lhe o caminho um carvalho desenraizado e em decomposio. Deixou-se cair sobre o tronco apodrecido, sem foras para lutar contra o desespero que o invadia.
Desde que a f em Deus o abandonara bruscamente certa manh, na Espanha, diante daqueles jovens, quase crianas, que foram fuzilados, nenhuma lgrima havia brotado de seus olhos ardentes. Quantas noites sem sono no passara pedindo socorro a esse Deus em quem j no acreditava e para o qual, no entanto, rezava todos os dias procurando, nas palavras familiares, retomar o contato maravilhoso da f?
Contara a um amigo espanhol, dominicano, tal como ele, e este o abraara, fitando-o com uma piedade imensa.
- Lastimo de todo o meu corao - disse o amigo -, mas no posso fazer nada. Vivo o mesmo drama, um drama to atroz que at pensei em me matar. O que me deteve foi a idia do desgosto que causaria a minha me.
Haviam-se separado mais abatidos ainda. Desde esse momento, Adrien Delmas nunca mais falou nisso, tentando esquecer sua misria por meio da ao. Mas no conseguia. Era tamanho o sofrimento que pedia a morte com todas as foras. O momento talvez tivesse chegado diante dele.
Sempre lhe parecera insuportvel a morte dos outros, mesmo a morte dos traidores e dos assassinos. Apesar disso, no meio daquelas trevas palustres, acabava de tomar uma resoluo decisiva: mataria
Maurice Fiaux, evitando assim que ele denunciasse os resistentes. seus amigos. Tendo tomado essa terrvel deciso, esse homem, esse padre que antes da guerra militara contra a pena de morte, experimentou uma paz perdida h muito tempo.
Arquitetou um plano: conseguiria o endereo de Fiaux por intermdio de sua me. O rapaz no desconfiaria dele. Alm disso, ficaria contente demais em prender esse chefe da Resistncia, que at ento escapara das polcias alem e francesa. Depois de o matar, no teria tempo para escapar. Morreria nas mos de um dos aclitos do jovem policial.
Muito calmo, Adrien Delmas deixou o pequeno bosque.
No dia seguinte, o dominicano ofereceu-se como voluntrio para a execuo de Maurice Fiaux. Os que sabiam que era padre fitaram- no com perplexidade, depois com horror, e em vo tentaram dissuadi-lo. Reivindicou o crime para si, argumentando ser a nica pessoa que poderia aproximar-se da vtima e execut-la com um mnimo de risco. Como isso no bastasse para convenc-los, valeu-se das ordens de Londres e da hierarquia que ocupava dentro do exrcito secreto. Os companheiros se renderam, cheios de tristeza e de constrangimento.
Adrien Delmas obteve tambm o adiamento da execuo de Mathias Fayard que continuava, no entanto, sob vigilncia cerrada.
Mas um contratempo retardaria o ltimo encontro: na noite do dia 30 Maurice Fiaux deixava Bordus, em direo a Paris. Segundo sua me, no entanto, estaria de volta em 6 de junho, o mais tardar. Que iria fazer na capital? Comparecer a um meeting de Darnand, como recompensa por seu zelo?.
FILEMON RECLAMA seis garrafas de Sauternes.

Captulo 8

Aristide deu um salto na cadeira, quase arrancando o boto do receptor que guiava h vrios minutos, procurando sintonizar a
B.B.C., para sua sexta sesso de escuta obrigatria. Eram sete horas da tarde do dia 2 de junho de 1944.
Repito. Filemon reclama seis garrafas de Saaternes.
No havia dvida - tratava-se da mensagem A, destinada  sua zona, anunciando a iminncia do desembarque e a ordem de colocar em estado de alerta os grupos da Resistncia.
 noite, Aristide reuniu seu estado-maior: Lancelot, Franois e J acqueline, Dany e Marcel. s trs horas, convocou tambm os chefes de grupo para uma reunio no nmero 29 da Rua Guynemer, em Caudran, nos subrbios de Bordus.
No dia seguinte, os homens compareceram ao encontro. Aristide recebeu-os um por um, fornecendo-lhes instrues precisas. A Capdepont, responsvel pelos ferrovirios, foi dada a ordem de sabotar locomotivas, sinais e linhas, numa distncia de duzentos quilmetros;
Pierre Roland, do grupo do porto de Bordus, foi incumbido de destruir as instalaes eltricas de deflagrao das minas colocadas ao longo dos cais pelos alemes.
Henri Mesmet comunicou que Lon de Landes dispunha de quinhentos homens prontos para combater, mas que s a metade possua armas. O oficial do S.O.E. tranqilizou-o; esperava trs descarregamentos por pra-quedas dentro de dois dias.
O capito Duchez, do grupo de Arcachon, no tinha problemas desse gnero - seus homens estavam bem armados e treinados no uso de armas pesadas: metralhadoras, morteiros e bazucas.
Os quatro enviados dos grupos de Lge, Andemos, Facture e Ars tinham, cada um, entre setenta a cem homens devidamente armados. Aps a vaga de detenes, havia apenas uns vinte combatentes no grupo de Mrignac, que Pierre
Chatanet acabava de pr  disposio de Aristide. Sua misso seria a de cortar as linhas telefnicas.
Os chefes de grupos de La Role, Bgles, Pessac, Lermont, Bordeaux-Saint-Augustin e de Blaye estavam l. As patrulhas mveis de Ded, o Basco, esperavam com impacincia o momento de entrar em ao.
A operao consistia em retardar o mais possvel as tropas alems estacionadas na regio do Sudoeste em sua marcha para o local do desembarque, assim que fosse conhecido.
Ao deixarem Caudran, havia grande esperana no corao de todos. Grande esperana e tambm grande impacincia. Aps quatro anos de Ocupao, os poucos dias de espera iriam parecer bem longos a esses punhados de homens que se recusavam a aceitar a derrota.
La havia terminado sua toalete sumria e, com um gesto amplo, atirou para o ptio a gua suja da bacia.
- Ei! Cuidado!
Ela se sentiu paralisada.
- O que aconteceu para ficar a transformada em esttua de sal? Uma gargalhada arrancou-a de seu torpor. A bacia caiu, fazendo soltar alguns estilhaos de esmalte azul.
- Franois!
Esse grito surdo e selvagem atingiu Tavernier em pleno ventre. Apanhou o corpo da jovem em vo, com um rugido que nada tinha de civilizado.
Ela estava ali. . . bem viva. . . clida. . cheirando a sabo de m qualidade e a esse caracterstico perfume de cerejeira que era s seu!
Franois Tavernier farejava-a produzindo rudos animalescos, mordiscava-a, fungava no meio dos seus cabelos, abocanhava-lhe a lngua e os lbios. . . Sem nenhum pudor, a jovem esfregava-se nele, soltando gemidos que lhe aguavam o desejo.
Prestes a atingir o orgasmo, Tavernier afastou-a, devorando-a com olhar faminto. Ah, aquela sem-vergonha, que saudade tivera dela! A lembrana do seu corpo o deixara acordado durante noites a fio, incomodado por erees dolorosas que nem sua mo nem as acolhedoras auxiliares militares do Exrcito britnico tinham conseguido aplacar. De incio, divertira-o o fato de sentir tanta energia viril por aquela jovem insuportvel e ausente mas, com o decorrer dos meses, aquilo o deixara num furor do qual se aproveitavam as jovens britnicas e as prostitutas londrinas.
No contato com La, toda a civilidade o abandonara. Assaltavam- no mpetos de violador. Nada de carcias, de preliminares. Tom-la ali mesmo, nesse ptio de fazenda, sob os olhares zombeteiros e desejosos dos resistentes que fingiam se interessar pelo manejo de suas Sten, revendo mentalmente como funcionavam para no se deixarem perturbar.
"Para encher o carregador, colocar a arma por cima dele de modo que a lingueta (f) entre na fenda (g).
Colocar os quatro dedos da mo esquerda sobre a alavanca (a), de forma que o anelar fique em cima da abertura (b) da alavanca e o indicador sobre o furo (c) Baixar o talo (d) sobre o qual assenta o dedo mnimo e inserir com a mo direita uma cpsula vazia na abertura (e). Erguer a alavanca com o anelar e empurrar para introduzir novo cartucho. Repetir a operao ate' carregar vinte e oito cartuchos."
Um deles deixou cair os cartuchos. Corando, apanhou-os do cho e afastou-se, seguido pela maioria dos camaradas.
No limiar da porta da casa, Sifflette, de mos na cintura, observava o casal com um sorriso de aprovao. No havia dvida
- aqueles dois tinham sido feitos um para o outro! De fato seria necessrio algum como aquele homem macio, com o seu ar de conquistador, para domar essa moa bonita e insolente que fitava os homens com expresso ao mesmo tempo ingnua e gulosa. Tomara que ela partisse para a Sua com a meiga senhora d'Argilat o mais depressa possvel, seno os rapazes acabariam se matando por ela!
- Ei, namorados, aqui no  lugar para beijocas! Aqui no faltam lugares mais tranqilos! Ei... Ei. . . no me ouvem?
- Desculpe, minha senhora - disse Franois Tavernier, voltando a si.
- No se desculpe. Se eu fosse um belo macho diante de semelhante fmea, faria a mesma coisa. . . apesar de que no ficaria plantado num ptio, mas iria rpido rolar no secador de tabaco l do fundo, onde h feno ceifado de ontem.
- Muito obrigado por sua preciosa informao, minha senhora, agradeceu Tavernier. Depois, virando-se para La, perguntou:
- Sabe onde fica esse tal secador de tabaco?
- Venha.
Da soleira da porta, Sifflette os viu se afastarem correndo pelo caminho pedregoso.
Os quinhentos metros que separavam a casa do secador lhes pareceram interminveis. Com a precipitao, tropeavam nos buracos, torcendo os ps, praguejando e rindo. Franois abraava La pela cintura. No outro brao levava o fuzil e a sacola.
A porta estava fechada com um cadeado cheio de ferrugem. Tavernier o fez saltar, servindo-se do cano da arma como alavanca. O cheiro inebriante de tabaco e da erva cortada h pouco acabaram por exaltar ainda mais seus sentidos. Franois jogou a sacola e a arma, arrancou o casaco e arrastou La para o meio do feno. Caram juntos, lutando em busca do corpo um do outro, impacientes por se entregarem.
Depois uniram-se sem doura, com uma violncia exasperante que os fazia gritar. O prazer os submergiu, arrastando-os como uma onda impetuosa que os atirava para o largo antes de arremess-los de volta, desconjuntados e insatisfeitos  sua cama rstica.
- Tire a roupa.
Sem perder de vista um nico de seus gestos, Tavernier desem baraou-se da prpria roupa. Nu, o sexo ereto, foi escorar a porta com a espingarda. Agora no desejava ser incomodado; queria dispor de tempo para usufruir daquele corpo fcil.
Quando, por fim, apaziguou essa grande fome que sentia, a tarde j estava muito adiantada. No haviam trocado nenhuma palavra alm das palavras de amor, to banais de tanto que foram repetidas.
Soaram algumas batidas na porta. Rpido, Tavernier apoderou-se do fuzil.
- Quem ? - perguntou.
- Sou eu, meu comandante. . . Finot. Disseram-me que estava aqui.
Tavernier colocou a arma de lado e comeou a se vestir.
- O que quer?
- Temos de partir, comandante, se no quiser perder o avio. Que horas so?
- Quatro horas, meu comandante.
- Santo Deus! - exclamou Tavernier. - No podia ter vindo me avisar mais cedo?
- Ningum soube me dizer onde o senhor estava!
La, ainda nua e deitada, olhava-o, apoiada nos cotovelos.
- Vai embora?
- Aproveitei uma misso nesta regio para te procurar. Em Montillac ningum quis ou soube me dizer onde voc estava.
Felizmente, lembrei-me da senhora Lafoucade e dos filhos. Maxime prontificou-se a telefonar e. . . a encontrei.
- Mas vai partir de novo. - Sim, mas voltarei.
- Meu comandante...
- J vou.
- Franois.
- Chiu, pequenina! Nada de gritos, nada de lgrimas. Tudo vai sair bem. A guerra terminar logo.
- Mas. . . nem tivemos tempo para conversar!
- Eu sei, minha querida, eu sei. Ns nos falaremos mais tarde.
Ergueu a jovem e a manteve apertada contra si, to frgil em sua nudez.
- Beije-me - pediu La.
- Meu comandante!
Quando Franois se separou de La, sentia na boca um gosto de sal, mas no sabia dizer se era das lgrimas dela ou dele mesmo.
Empurrando o motorista, Tavernier subiu at o ptio onde o aguardava o velho Mercedes preto, no qual se atirou.
Quando o veculo se ps em marcha, Franois virou-se para trs. No limiar da porta uma jovem que lhe parecia Camille d'Argilat e que dava a mo a um garotinho lhe acenava com grandes gestos.
Lanado em pra-quedas na vspera para cumprir uma misso relacionada com o prximo desembarque, Franois Tavernier embarcou durante a noite num Blenhein da fora area britnica, rumo a Londres.
 noite, quando La deixou o secador de tabaco, de olhos vermelhos e rodeados de olheiras, Camille, que viera ao seu encontro, beijou-a com ternura e disse simplesmente:
- . Voc tem sorte.
Entraram em casa de mos dadas.
No final das contas, La se adaptara quela vida clandestina e sem conforto embora, de tempos em tempos, continuasse a se queixar da rusticidade dos locais de refgio e da promiscuidade. Camille, no entanto, nunca protestava, mas a verdade  que comeava a sofrer com essa vida rude. E, acima de tudo, temia que a base fosse atacada. Sua sade havia melhorado, mas sua fraqueza era to grande que mal conseguia andar. Sua f em Deus e o pensamento em seu marido e no filho mantinha-na de p, porm.
Foi na noite de 5 para 6 de junho que se transmitiu a mensagem B, to ansiosamente aguardada por Aristide e seus homens, uma das trezentas irradiadas durante essa mesma noite pela seo francesa do S.O.E. aos seus oficiais: "Uma rosa na orelha" anunciava o desembarque aliado na Normandia e a mobilizao de toda a Resistncia francesa.
As operaes previstas se desencadearam, ento, imediatamente. Desde o amanhecer, as armas pacientemente armazenadas nos celeiros, nos secadores de tabaco, nas adegas e nas grutas foram rapidamente distribudas. Destruram-se os cabos subterrneos que ligavam o Q.G. do general Von der Chevailerie, comandante do 1.0 Exrcito estacionado em Bordus,  base de Mrignac e aos aquartelamentos c, mais tarde, aqueles que ligavam a Luftwaffe s baterias de Chut foram destrudos.
No depsito da estao de Pessac, Pierre Chatanet e os seus homens explodiram nove locomotivas, retardando por vrias dias a partida de trs mil soldados alemes para a frente da Normandia. Cortaram tambm a linha Lacanau-Saint-Louis.
Por sua vez, os elementos do grupo de Georges dinamitaram a via frrea entre Le Puy e Lonzac, a ponte ferroviria entre
Montendre e Chartressac, cortaram os cabos telefnicos do Exrcito alemo em Souge e destruram oito torres de cento e cinqenta mil volts, prximas de Ychoux e trs de cento e vinte mil volts em Boir.
Ao mesmo tempo, os ferrovirios de Fernand Schmaltz, irritados com a concorrncia do grupo de Georges, fizeram um arremate e enviaram a Aristide o balano de quarenta e oito horas de operaes. Destruio da ponte ferroviria prxima de
Flac. Transporte alemo de tropas descarrilhado aps uma coliso com comboio de vages-cisternas cheios de petrleo, nas vizinhanas de Bordus. Esta ao provocou um gigantesco incndio na linha e causou srias perdas aos alemes, em particular a morte de um capito e de um sargento. Uma grua de trinta e trs toneladas dinamitada caiu sobre uma locomotiva a vapor, interrompendo a circulao ferroviria; a grua e a locomotiva ficaram fora de uso. Via frrea cortada em
Soulac. .
O grupo de Arcachon, dirigido pelo comandante de Luze e pelo capito Duchez, agiu em duas torres de alta tenso, privando de eletricidade a zona sul da rede ferroviria. Os cabos telefnicos e telegrficos da estncia balneria foram tambm destrudos, isolando-a do resto do mundo.
Ded, o Basco, e Lon de Landes importunavam sem cessar os comboios alemes que, por estradas secundrias, tentavam atingir as praias normandas.
Na noite do dia 6, na fazenda Carnlos, embora as interferncias a tornassem por vezes inaudvel, as pessoas puderam ouvir a voz que durante quatro anos tinha sustentado a honra da Frana.
Comeou a batalha decisiva!
Depois de tantos combates, de tanto furor, de tantas dores, eis que chega o confronto decisivo, o choque to aguardado!  a batalha de Frana e  a batalha da Frana!
Para os filhos da Frana, onde quer que se encontrem, quem quer que sejam, o dever simples e sagrado  o de lutarem com todos os meios de que disponham.  necessrio destruir o inimigo que esmaga e macula a
Ptria, o inimigo detestado, o inimigo sem honra!
Mas esse inimigo tudo far para escapar a seu destino. Vai se obstinar em permanecer no nosso solo durante todo o tempo que puder. H muito, porm, que no passa de uma fera que recua..
Para uma nao que se bate, de ps e mos atados contra o opressor armado at aos dentes, a boa ordem na batalha exige diversas condies.
As trs condies no puderam ser ouvidas; s o final do discurso do general De Gaulie chegou at eles:
Comeou a batalha de Frana. Agora, na Nao, no imprio, nos exrcitos, s existe uma nica e mesma vontade, uma nica e mesma esperana. Por detrs da nuvem espessa de nosso sangue e de nossas lgrimas, eis que reaparece o sol de nossa grandeza!
Quando soou a Marselhesa, muito naturalmente eles se puseram de p. Alguns choravam, sem procurar esconder as lgrimas.
Mais tarde, aps as recomendaes de um membro do estado- maior do comando supremo das Foras expedicionrias interligadas s populaes situadas na zona do desembarque, Jacques Duchesne tomou a palavra no programa intitulado "Os Franceses falam aos
Franceses":
No  por acaso, meus amigos, que esta noite no iro ouvir as palavras habituais: "Hoje, ducentsimo vigsimo stimo dia da invaso etc. etc." No  por esquecimento que no diremos "milsimo quadringentsimo quadragsimo quarto dia da luta do povo francs pela libertao. Foram necessrios mil quatrocentos e quarenta e quatro dias para que essa libertao comeasse, mas estas duas frmulas, nunca mais as ouviro.
Todos aplaudiram o "nunca mais". Um pouco mais de pacincia e nunca mais teriam medo, nunca mais teriam de se esconder. Uns dias, umas semanas a mais, e poderiam voltar para casa, retomar o caminho dos vinhedos, das fbricas, dos escritrios ou, muito simplesmente, o caminho de casa. Dentro de um ou dois meses, os prisioneiros estariam de volta, talvez ainda a tempo de participarem das vindimas. Nessa noite, teceram-se belos sonhos na fazenda de Antoine Carnlos.
Nada deixava prever o ataque alemo.
A atmosfera estava pesada e o cu encoberto nesse incio de tarde do dia 9 de junho. La e Charles, rindo, desciam do bosque de Candale, famintos aps o longo passeio em busca de morangos selvagens. Tinham descoberto uma dezena de frutos ainda mal amadurecidos, que dividiram entre si de modo equitativo.
O menino adorava a jovem. La tratava-o como a um irmo adolescente e brincava com ele com a mesma seriedade das crianas. Havia combinado fazer um piquenique, mas a merenda preparada pela me Faux h muito fora devorada. Por isso regressavam a casa mais cedo que o previsto, na esperana de encontrarem restos do almoo.
J sentiam o cheiro do carneiro guisado cotidiano. Apesar de gulosa, La j comeava a enjoar dele. De repente imobilizouos o som de uma rajada de metralhadora.
- Esto se divertindo - observou a criana com o ar importante de quem sabe.
- No me parece. Espere aqui. No se mexa. Vou ver o que acontece.
- No! Quero ir com voc.
Nesse exato instante, soou nova rajada, logo seguida de uma outra.
- O som vem da fazenda!. . . Prometa que no sair daqui, vou procurar a sua me.
Correndo, La subiu a encosta e imobilizou-se atrs da grande cerejeira que pendia sobre as construes da fazenda
Carnlos. . . A uma centena de metros, capacetes verde-acinzentados dos militares alemes emergiam do campo de trigo.
Estavam acompanhados por

119

policiais, reconhecveis pelos uniformes azuis-marinhos e pelos capacetes pretos. Um deles ergueu-se com um grito e depois caiu, esmagando sob seu peso as espigas ainda tenras. Um tiroteio intenso partia da fazenda. Do andar superior, as
F.M. de Daniel Faux e de seus camaradas varriam o campo. Alguns inimigos tombavam, mas logo surgiam outros. De uma das janelas do andar trreo, Camille, armada de um fuzil, tambm atirava. "Charles, Charles! Onde voc est? No corre perigo junto de La". . . Um grupo de resistentes passa correndo diante da cerejeira. La os segue. Camuflados na orla do bosque, lanaram alguma Grammont em direo do inimigo.
- La! La!
- Merda... o pequeno!
De fato, assustado pelo barulho e pelos gritos, Charles dispara por entre as rvores. La corre atrs dele. O medo confere asas s suas perninhas. O tiroteio continua furioso.
- Charles! Charles!
Mas a criana no ouve, pulando como um duende.
- Pare! Pare, por favor! - grita La, correndo atrs dele.
Charles ultrapassa o canto da parede, desaparece dos olhos.
"Meu Deus, proteja-o!"
- Mame! Mame!
- Charles!
Camille solta um grito animal. . . Joga seu fuzil, lanando-se em direo do filho, Sifflette tenta det-la, mas Camille se debate, grita.
De repente, faz-se um grande silncio. A criana est de p, no meio do ptio. La j passou pelo canto da casa. Algum a obrga a se atirar ao cho. Camille surge no limiar da porta, corre de braos estendidos para o menino, que se lana para a me. Como so belos! Mas no chegam a se encontrar.. .  como um bal muito lento. . . Charles gira sobre si mesmo. Uma flor vermelha se abre sobre sua camisa branca. Seus braos rasgam o espao num movimento lento, estrebucha. Salta de seu p uma das sandlias de lona de um branco esverdeado. De sua boca aberta no sai nenhum som.
Mas Camille v bem que o filho a chama.
- No tenha medo, estou aqui. Mame est aqui... meu pequeno. Cuidado. . . voc vai cair! Oh, meu querido, voc se machucou? Est sangrando. . . mas isso no  nada! Ah, no estou vendo voc! Alguma coisa quente escorre pela minha testa. . . pelos lbios. . .  salgada. Onde voc est? Ah, est a! Mas o que est fazendo deitado no cho?  verdade. . . voc caiu! Est doendo?.
Mame vai cuidar de voc. . . Como  corajoso, meu filho! No chore. Espere. . . eu o levanto. Como est pesado! Ainda no estou muito forte, est vendo? Vou chamar La. Ela vir ajudar.
A distancia, La v o seu nome se formar nos lbios daquele rosto ensanguentado. Debate-se para acorrer ao apelo mudo, mas jean Lefvre pesa com todo o seu corpo sobre ela.
- Deixe-me! Camille precisa de mim.
- No podemos fazer nada.
As balas crepitam  volta da me e do filho. O corpo da jovem tomba sobre o da criana. La consegue escapar de Jean e chega junto de ambos ao mesmo tempo que Sifflette, que arrasta Camille para dentro de casa.
Depois Sifflette cai. La ergue Charles e foge com ele para os bosquetes. No ousa olhar para o menino. O sangue cola em seus dedos. Corre. . . Corre. . Correu at Deymier. Ali, uma mulher, cujo filho fora morto em 1940, acolheu-a. La tinha os braos e as pernas arranhados, a roupa rasgada. Devagar a mulher tirou-lhe a criana dos braos.
- O menino est vivo!
A ordem de retirada chegou a Lorette s seis da tarde. Os alemes haviam utilizado artilharia pesada.
Depois de minada a base, o grupo resistente se dispersou pelas matas, levando consigo os feridos. Na fazenda abandonada ficaram os corpos de Camille e de Sifflette, diante dos quais os homens se inclinaram e descobriram a cabea, antes de partir.
Alguns instantes depois, o inimigo invadiu a casa. O telhado preparado com cargas de plstico ruiu sobre os assaltantes. O inimigo sofreu pesadas baixas: quarenta e oito alemes e vinte e oito policiais mortos.
Os resistentes se reagruparam em Lamothe-Landerron. Foram evacuados uns quinze feridos. Mas nem todos tiveram essa sorte. Apesar da coragem de Ren Faux, ferido no calcanhar ao escond-lo, Robert Liarcou foi descoberto pelo inimigo, com o joelho esmagado. Arrastaram-no pelo cascalho. Um enfermeiro envolveu-lhe o joelho ferido com palha mantida entre duas tbuas. Atiraram-no inanimado num caminho, onde se amontoavam cadeiras, vveres e bicicletas. Foi levado para a sede da Gestapo no colgio de La Role. Encontrou a um companheiro de infortnio, Paul Gerard, nadando no prprio sangue, os quatro membros desfeitos. Gerard fora descoberto na casa dos Faux e os alemes encarniaram-se contra ele. Morreu durante a noite, diversas vezes apunhalado por um policial. O corpo, transportado num saco, foi lanado numa vala comum aberta junto  margem do Garonne.
Vieram busc-lo ao amanhecer e Robert Liarcou sups que ia ser fuzilado. Depois de uma passagem pela
Gestapo de Langon conduziram-no ao forte de H, onde ficou sem cuidados mdicos, socorrido por dois resistentes feridos como ele: Laforesterie, de Puisseguin, e Marcel Guinot, de Bergerac. Alguns dias depois, os carcereiros arrastaram-no para a enfermaria, onde o Dr. Poinot fora autorizado a observ-lo. Diante da gravidade do ferimento, o mdico tentou persuadir o comandante do Forte a hospitalizar o jovem, que s consentiu depois de cinco ou seis hemorragias. Amputaram-lhe a perna no hospital de Bquet, em 14 de julho, depois de ficar trinta e trs dias sem assistncia mdica. Em agosto, reconduziram-no ao forte do H.
Liarcou, ao menos, saiu-se bem. O mesmo no sucedeu a trs outros camaradas, tambm presos em La Role, que foram deportados e nunca mais voltaram: Bolzan, Labory e Zuanet.
Charles havia perdido muito sangue, mas apesar de sua aparncia frgil possua uma forte constituio. Ferido no ombro, restabeleceu-se rapidamente.

Captulo 9

Foi MAIOR A surpresa que a desconfiana de Maurice Fiaux, quando viu o padre Delmas no limiar da porta. Deu uma olhada para a rua e depois ordenou aos guarda-costas que os deixassem a ss.
- No corro perigo na companhia de um religioso, no  verdade, padre? - disse Fiaux, sorrindo com expresso zombeteira.
- O que quer de mim?
- A guerra est perdida para a Alemanha e pessoas como voc sero fuziladas. - Mas, enquanto isso no acontece, ainda temos necessidade de vocs. Venho aqui enviado pelo pessoal de Londres para lhe fazer uma proposta. Se concordar, poder salvar a pele.
Fiaux olhava o dominicano com ar desconfiado.
- Quem prova que no  uma cilada? Adrien Delmas o olhou com desprezo.
- Tem a minha palavra. A minha preocupao  a de poupar vidas humanas. Vamos dar uma volta. No posso me arriscar a que os seus capangas escutem o que tenho para lhe dizer.
Maurice Fiaux hesitou por um momento. Depois, bruscamente, se decidiu.
- Como quiser, padre. Nesse caso, porm, sou obrigado a ordenar que nos sigam.
- No seu lugar no o faria
- H possibilidade de ganhar dinheiro?
- Talvez - respondeu Adrien Delmas, disfarando a custo a repugnncia.
- Muito bem. Ento, vamos. Seja como for, sou j suficientemente crescido para me defender sozinho - disse, exibindo uma impressionante Parabeilum.
Ao descerem, cruzaram com dois jovens que fumavam no patamar da escada.
- Se dentro de uma hora eu no estiver de volta, avisem o comissrio Poinsot. Digam-lhe que tive um encontro com a personalidade importante da Resistncia que faltou a entrevista na base de Mrignac. Poinsot saber a quem me refiro.
- No quer que o acompanhemos?
- No vale a pena.
O ar estava pesado nesse fim de tarde de 9 de junho. Havia certa animao na Rua da Porta Dijeaux, pois era a hora da sada dos empregados. Crianas de tez plida chapinhavam na gua suja das valetas.
- Aonde vamos? - perguntou Fiaux.
- Ao cais - esclareceu Adrien Delmas. -  mais sossegado.
O outro traiu certa hesitao.
- Dei a minha palavra de honra - disse o dominicano com amargura.
- Deve ser muito importante o que tem a me dizer, para se arriscar a ser reconhecido e preso - disse o policial. - Voltou a ver a sua encantadora sobrinha? Informaram-me de que andava a brincar de guerra l pelos lados de La Role. Espere. . . no me lembro bem onde . Ah, agora me lembro! Em Lorette.  a, no  verdade? Nunca me passou pela cabea que uma moa de boa famlia pudesse se dar com comunistas. Segundo parece, tambm a senhora d'Argilat se tornou comunista. Disseramme que seu menino costuma cantar a Internacional. Nisso no acreditei, porm. O filho de um heri de Londres!  verdade que o senhor no lhes deu bons exemplos. Quando freqentava a casa do patro de minha me, o senhor j alimentava idias bolchevistas. Muito estranho num padre catlico! Felizmente nem todos os padres so assim!
- H mais do que voc supe - garantiu Adrien Delmas.
- Ns os conhecemos. Lembra-se do padre Jabrun, o jesuta? Era seu amigo?
- Sim.
- Parece que morreu o ano passado no campo de concentrao de Buchenwald.
Morrera ento Louis de Jabrun! Antes da guerra, travavam freqentes discusses durante horas a fio, a propsito dos
Tratados de Eckhat, das confisses de Jacob Bobeme ou das Confisses de Santo Agostinho. Mais uma pitada do sal da terra que desaparecia!
- Quanto ao padre Dieuzayde e ao abade Lassere, no lugar deles eu rezaria as minhas ltimas oraes - comentou Maurice
Fiaux.
"Talvez devesse rezar as suas tambm", pensou o dominicano com humor macabro.
Caminharam em silncio ao longo do cais de Richelieu na estrada de Alsace-et-Lorraine. Em seguida, o padre Delmas virou em direo  Rua da Porta de Portanets.
Depois de darem alguns passos, Fiaux interrompeu o passo, subtamente inquieto. Sua mo crispou-se na pistola.
- Largue isso! Embora dispare bem, no passa de uma modesta arma francesa.
- O senhor est louco! Que quer de mim?
- Entre a.
Com violncia, Adrien Delmas empurrou o companheiro para a srdida entrada de um edifcio do sculo XVIII, outrora magnfico. Uma escada de pedra de uma imundcie repugnante conduzia aos andares superiores.
- Onde vamos?
- Ao segundo andar,  porta dos fundos. No volte a pr a mo no bolso - avisou o dominicano.
Nunca nenhuma escadaria parecera to ngreme a Fiaux. Subia-a, crispado, imaginando, sem acreditar verdadeiramente nisso, que receberia uma bala pelas costas de um momento para outro. Adrien Delmas erguia as pernas num esforo penoso que o banhava em suor.
- Entre - ordenou. - No est fechada a chave.
Depois da imundcie do exterior, a grande sala parecia excessivamente limpa. Um leito de campanha, uma mesa, uma caixa militar de provises e duas cadeiras compunham todo o mobilirio.
- Sente-se - disse o dominicano a Fiaux, tirando-lhe a arma.
- No.
- Sente-se - insistiu o religioso, instalando-se numa das cadeiras.
Plido, mas de olhar firme, Fiaux obedeceu.
- Que quer de mim? - perguntou ainda.
- Quero mat-lo.
O policial fitou o padre, de boca aberta, com expresso abobalhada. Escorria-lhe pelo queixo um fio de saliva. Suas mos crisparam-se no assento e suas pernas amoleceram. Comeou a tremer.
- No tem o direito de fazer isso.
- E voc? Tem o direito de matar, de torturar e de denunciar, como tem feito at agora?
- Obedecia a ordens.
- Eu tambm obedeo.
- No! No  verdade! Quer apenas proteger a sua famlia.
- Cale-se! - cortou Adrien Delmas. - Se tem f, encomende sua alma a Deus.
O policial deslizou da cadeira e caiu de joelhos aos ps do padre.
- Mas o senhor no pode me matar! O senhor no!
- Eu sim. Se isto for pecado, ento eu o assumo.
- Suplico-lhe.., me conhece desde pequeno. Pense em minha me. Que ir dizer a minha me?
Era verdade; Fiaux tinha me. Depressa. . . acabar com aquilo depressa.
Diante dele, Fiaux era apenas uma amlgama de medo da qual se desprendia um cheiro infecto.
"Pobre rapaz!" pensou, apoiando o dedo no gatilho. A bala penetrou na tmpora esquerda e o matou instantaneamente.
Sem emoo aparente, Adrien Delmas contemplou por instantes a sua obra. Em seguida, virou o cadver e revistou-lhe os bolsos. Na carteira de pele de crocodilo e de ngulos rematados em ouro, encontrou a lista dos grupos resistentes de
Gironde e, em quase todos os casos, os nomes dos chefes e o nmero de homens. O grupo de Lorette aparecia assinalado em vermelho com o nmero 9; os de Libourne, de Targon, de Villandraut e de Podensac marcados com um ponto vermelho.
Se os alemes se apossassem dessa lista, adeus Resistncia da regio Sudoeste! Aristide precisava ser avisado o mais depressa possvel.
Antes de sair, num gesto maquinal, Adrien Delmas fez o sinal-da- cruz sobre o cadver.
Tarde da noite, o padre Delmas conseguiu encontrar o quartel- general do ingls, que mudava de local todos os dias desde o desembarque.
Informaram-no do ataque em Lorette e da morte de Camille e Sifflette. Nada se sabia de La e nem de Charles, exceto que fora atingido ao mesmo tempo que a me. O pequeno e a sobrinha haviam desaparecido no momento do assalto final dos alemes.
Tais notcias, embora comunicadas com delicadeza por Lon de Landes, representaram um tal choque para o dominicano que ele desmaiou. Os companheiros correram ento para ampar-lo, e ele conseguiu reagir. Por que no matara mais cedo aquele demnio? Por que motivo hesitara em abat-lo durante dois dias? Por sua causa, por causa de seus escrpulos imbecis, tinham morrido duas mulheres e uma criana e havia homens feridos e presos. Quem sabe se no dia seguinte, ou nessa noite mesmo, talvez outras pessoas tivessem o mesmo destino por causa de sua indeciso em tirar a vida de um patife?
Acabrunhado, Adrien Delmas fez o relatrio das circunstncias da execuo de Maurice Fiaux. Um silncio penoso seguiuse s suas palavras secas e precisas.
- Vou a La Role procurar saber o que ter acontecido a La e a Charles. Tm alguma mensagem para l?
Todos sabiam que seria intil tentar ret-lo. Dd, o Basco, e um jovem resistente acompanharam-no at a sada da aldeia, onde o sentinela lhe conseguiu uma bicicleta.
- Descanse um pouco, padre. Partir um pouco mais tarde - aconselhou Dd, o Basco.
- No. Tenho de ir agora. Adeus, amigos!
Preocupado, Dd, o Basco, o olhou desaparecer na noite.
O dia nascera h horas quando Adrien Delmas avistou os telhados de La Role. Segurando a bicicleta, desceu a p ruas inclinadas da cidadezinha. Na Praa Jean-Jaures, entrou no Hotel Termius. O colgio, sede da Gestapo, situava-se um pouco mais no alto, dominando o Garonne. O passador dos fugitivos para a Sua ficara de deixar uma mensagem nesse hotel.
Adrien Delmas caiu pesadamente na cadeira, em frente de uma das mesas do restaurante. Sem que ele pedisse, uma criada lhe trouxe po e uma poro de pat.
- Quer um copo de vinho? - perguntou a moa.
- Sim, por favor!
Pouco depois, ela voltava com o copo e uma garrafa aberta. Enquanto ela servia a bebida, o dominicano perguntou:
- Voltou a ver Helena?
Com expresso de alvio, ela lhe deu uma rpida olhada e respondeu:
- Sim. Deve estar chegando.
Tais palavras significavam que tudo estava pronto para a partida de Camilie e do filho.
- No se sente bem? - perguntou a moa. - Est to plido.
- No... no... estou bem. Apenas um pouco cansado. Quando ela chega?
- Ainda no sei bem. Logo, eu creio.
A sala estava deserta quela hora. Pela porta da cozinha, entreaberta, chegava at eles o barulho da loua.
- Tenho de acabar de pr as mesas para o almoo - disse a jovem em voz alta. E, abaixando o tom, continuou: - O senhor no devia estar se mostrando pela cidade. Est sabendo o que aconteceu ontem?
- Estou. Quantos mortos?
- Fala-se em duas ou trs mulheres e um menino.
- E quantos feridos?
- Uns quinze.
- Onde esto os outros?
Ouviu-se uma voz vinda da cozinha:
- Est atrasada, Germaine! Ponha as mesas.
- Sim, patroa, j vou. Depois, virando-se de novo para o dominicano, informou:
- Esto entre Mongauzy e Lamothe-Landerron...
- Germaine!
- J vou, j vou! O cliente est pagando a conta.
- Obrigado. Toma e fique com o troco.
- Obrigada, senhor.
Adrien Delmas saiu e pegou sua bicicleta. Em frente da ponte pnsil, cruzou com uma patrulha alem. Depois, montando na bicicleta, pegou a estrada de Marmande. Pesavam em suas pernas os cinqenta quilmetros percorridos durante a noite.
No conseguiria pedalar durante muito mais tempo.
Atingiu Mongauzy j ziguezagueando pela estrada. Em frente da igreja, sentiu que sua vista se toldava por um vu vermelho; o rosto queimava. Tudo girava a sua volta e sentia o peito se rasgar. Ao cair, reviu o rosto crispado de medo do homem que assassinara.
Recobrou os sentidos deitado no leito do proco.
- Que susto o senhor me pregou!
- Estou aqui h muito tempo? - perguntou Adrien Delmas.
- H trs dias.
- Preciso ir embora.
- Nem pense nisso! O mdico afirmou que seu estado  muito grave. Ele vai voltar ainda hoje. Senhor!. . - Deite-se!. . . Como v, no consegue ficar em p.
- Mas  necessrio.
- No sei por que tanto quer partir, nem quero saber. Mas acredite que est seguro aqui. O mdico, assim como o professor que me ajudou a traz-lo para c, so pessoas de confiana.
Adrien Delmas observou o homenzinho. Vestia uma batina j esverdeada de tanto uso e onde faltavam alguns botes. Era um padre de provncia, um bom homem. Que teria feito se soubesse de seu crime?
- Ah, vejo que j est melhor! - exclamou o mdico. - No fale. Antes disso quero auscult-lo. Quando  que ele recobrou os sentidos, senhor proco?
- Talvez h quinze minutos.
O mdico o examinou cuidadosamente. Era muito velho e deveria estar aposentado h muito tempo. As mos, de longos dedos descarnados, apalpavam o corpo magro do paciente com gestos precisos. Ao terminar o exame, arrumou cuidadosamente o estetoscpio e limpou os culos, numa operao que pareceu muito longa ao proco.
- Vamos, doutor, no nos faa sofrer.
- O senhor no est l muito formoso - declarou o mdico, por fim, dirigindo-se a Adrien Delmas. - Que idade tem?
- Cinqenta e cinco anos, doutor.
- Meu pobre amigo, o senhor tem o corao de um homem da minha idade, mas j muito esgotado.  fundamental que repouse. Vou receitar uns medicamentos, esperando que o farmacutico os tenha. Eu os daria se pudesse, mas h muito tempo que distribui todos os remdios de que dispunha. O que aconteceu no outro dia acabou com o resto das minhas reservas.
- Refere-se ao ataque aos resistentes?
- Isso mesmo. Muitos deles ficaram bastante feridos.
- Havia mulheres entre eles?
- Feridas? No. Mas havia duas infelizes que foram mortas.
- E a criana?
- ..No vi nenhuma criana, nem morta nem viva.
Adrien Delmas cerrou as plpebras, levando as mos ao peito.
- No fale mais. Cansa-se muito.
- Mais uma coisa, doutor. Ter por acaso ouvido falar por aqui, pelas imediaes, de uma moa e de um garoto que tenham se refugiado em algum lugar?
- No. S se estiver relacionado com as palavras de um jovem resistente ferido na cabea que repetia sem parar: "La, no v.
La, no v. -  essa, de fato, a pessoa que procuro. Uma moa muito bonita, de vinte anos.
- No, no vi nenhuma moa bonita. Mas por que est  sua procura?  de sua famlia?
- Sim. Minha sobrinha.
- Posso lhe informar. Por aqui as pessoas me conhecem e me diro o que souberem. Mas, com uma condio: que fique tranqilo.
- Prometo.
- Muito bem. Se souber de alguma coisa, avisarei o proco.
- Obrigado, doutor - balbuciou o dominicano, antes de desmaiar novamente.
- Pobre homem! - exclamou o mdico. - No lhe dou muito tempo. Reze por ele, senhor proco. Deve ter sofrido muito para estar to acabado.
- O senhor tem alguma idia de onde encontrar essa moa e a criana?
- No, mas vou a Jaguenaux, onde os feridos esto sendo cuidados. Voltarei  noite. At logo.
- At logo, doutor.
- Cuide bem do seu hspede.
O mdico s pde voltar no dia seguinte, porm. Seu rosto estava transtornado.
Ningum sabe de nada. - A ltima vez que os viram vivos foi no momento do assalto  base. A criana estava ferida ou mesmo morta. Algumas pessoas afirmam que os alemes os atiraram dentro das casas incendiadas. Mas, por enquanto, o local est sendo guardado e ningum pode se aproximar.
Adrien Delmas escutava a explicao sem conseguir dizer nada.
- Por que teriam feito isso? So soldados, no animais.
- Meu pobre proco, eles so muito piores que animais! So a besta imunda de que falam as Escrituras.
- Mas o que aconteceu, doutor? Est to transtornado!
- Aconteceu, senhor proco, que os alemes massacraram todos os habitantes de uma aldeia em Limousin.
- No  possvel!
As lgrimas que deslizavam pelo rosto envelhecido do mdico o confirmavam.
O vigrio persignou-se e colocou a mo no ombro do velho.
- Que Deus os perdoe.
O mdico endireitou-se, enraivecido.
- Que Deus os perdoe, o senhor diz? Se o raio do seu Deus existe, com certeza no os perdoar. Durante toda a vida, presenciei muita misria, muito horror. Vi rapazes morrerem no meio da lama das trincheiras com as pernas arrancadas, vi mutilados da Grande Guerra, os pescoos quebrados, vi os meus melhores amigos reduzidos a mingau nos campos de
Verdum. Sei o que  a guerra e o que  a morte. Isso me revolta; aceito-o, porm, como uma fatalidade. Mas da ao massacre de mulheres, de crianas. . . sobretudo de crianas. . . isso no posso aceitar.
- Acalme-se, doutor - pediu o padre.
- Acalmar-me! Sabe, por acaso, o que eles fizeram em Oradour sur-Giane? Diga. . . sabe? Foi neste ltimo sbado, dia 10 de junho. As pessoas se aglomeravam para a distribuio de tabaco e os alunos estavam reunidos para a visita mdica. Cerca de duzentos refugiados tinham chegado na aldeia. Foi depois do almoo que eles desembarcaram dos caminhes, envergando uniformes de campanha, apontando as armas para as casas. O major, um tal Otto Dickmann, mandou chamar o prefeito e depois o guarda rural. Acompanhado por dois SS, ele deu uma volta pela aldeia, tocando um tambor.
"Avisss. . .  populao!"
Sabe como ? Todos os guardas rurais franceses pronunciam a palavra deste modo: aviss. Ento anunciou sua mensagem:
"Homens, mulheres e crianas devero reunir-se imediatamente, munidos de seus documentos, no campo da feira, para verificao de identidade". Doentes e invlidos so, ento, arrancados de seus leitos pelos SS, que, a coronhadas, os empurram para o campo da feira, assim como empurram os agricultores arrebanhados pelos campos da vizinhana, as famlias dos lugarejos vizinhos, os pescadores, as crianas que no caminham to depressa. Logo todos os habitantes esto reunidos.
Alguns disparos no outro extremo da aldeia assustam a massa bestificada. Metralhadoras tomam posio um pouco por toda a parte. Mulheres e crianas choram. Separam as mulheres dos homens. As mes apertam os filhos contra o peito, crispam as mos nos carrinhos de seus bebs. Cercadas por dez SS, so conduzidas at a igreja, junto com os pequenos da escola, O vigrio nunca tinha visto tanta gente.
Os homens so alinhados em trs fileiras. E, no meio do silncio, ouve-se o sino do trem de Limoges, que se prepara para atravessar a ponte. Soa um tiro. Um soldado grita em excelente francs que os terroristas esconderam na aldeia importante proviso de armas e de munies e que, sob pena de represlia, os habitantes devero indicar onde esto escondidos. Um velho aldeo diz que tem uma espingarda de caa.
- Isso no nos interessa - responde o soldado.
Dividem os homens em quatro grupos de quarenta a cinqenta indivduos. Dois deles so encaminhados para a parte superior da aldeia, os outros dois para a de baixo. Amontoam-nos em sete palheiros. Os alemes, de metralhadoras apontadas para eles, conversam entre si, rindo.
De repente, com um grande grito, eles abrem fogo. Os corpos caem, uns sobre os outros, as balas ricocheteiam contra a parede, os feridos urram. Depois o tiroteio cessa. A tiros de pistola, acabam com todos aqueles que ainda se mexem.
Em seguida os soldados vo buscar palha, feno, lenha, um carro de mo, uma escada. Pem fogo nos montes de palha, atirando-os sobre os moribundos, agitados pelos ltimos espasmos, e fecham as portas. A mesma cena se reproduz nos sete palheiros.
Dentro da igreja, quatrocentas mulheres e crianas, talvez mesmo quinhentas, fitam com pavor o grupo de soldados que arrasta uma pesada arca de onde saem diversos fios. Pem fogo nos fios e saem. H uma exploso. Uma densa nuvem de fumaa negra invade a igreja. Gritando de pavor, meio asfixiadas, as mulheres e as crianas correm em todos os sentidos.
Pelo portal aberto, as metralhadoras crepitam. Granadas deflagram. Os cabelos se incendeiam. Desaparece o cheiro do p e do incenso, substitudo pelo odor de sangue, de merda e de carne queimada.
Rapazes de vinte anos atiram palha e lenha para o meio do formigueiro humano. Um lana-chamas vomita fogo. Uma mulher arrasta-se, com a filha morta perto dela. Refugiados no confessionrio, dois garotos so abatidos. Mes e filhos se enlaam, queimando vivos. - O mdico fez uma curta pausa e depois exclamou: - No ouve os gritos deles? Diga... no ouve os gritos? No v as paredes do lugar santo maculadas pelo sangue das vtimas? As marcas dos dedos desenhadas sobre as lajes? Esses rostos arrebentados? Esses membros quebrados? Diga-me. . no os v?
Eles viam to bem que o padre cara de joelhos, rezando, e o velho mdico fechara os olhos com horror. Sem dizer nada, ele se voltou para a porta e desapareceu nas trevas, vergado sob o peso de todas as desgraas do mundo.
Adrien Delmas levantara-se da cama, um gosto de nusea na boca. Com esforo, ergueu suavemente o velho padre e deitouo no leito que ele prprio acabara de deixar. Vestiu-se e verificou o funcionamento da pistola.
Antes de sair, olhou mais uma vez para o padre prostrado e partiu sem dizer nada.
Caminhou durante muito tempo por campos e vinhedos sem procurar esconder-se. Cruzou com gente que o saudava, mas no respondeu aos cumprimentos. As pessoas viravam-se, ento, para trs, admiradas e um tanto inquietas. Hoje em dia, sabe-se l quem se pode encontrar pelos caminhos!
Numa fazenda, o dominicano pediu um copo de gua e agradeceu polidamente. Constrangidos, o fazendeiro e a mulher o ficaram olhando, enquanto se afastava. Ela fez um rpido sinal-da-cruz, comentando:
- Parece que viu o diabo!
A delgada silhueta negra desaparecera h muito quando a mulher voltou a entrar em casa.
Ao cair da noite, Adrien Delmas parou num bosquezinho mido e musgoso. Encostou-se ao tronco de uma rvore e o acariciou maquinalmente, como fazia em criana, em Landes. Mas os pinheiros daquela regio deixavam nas mos sua resina amarga e um cheiro persistente. Estremeceu a essa evocao. Logo as expulsou, porm, obrigando seu esprito ao vazio total, definitivo. Nada de pensamentos!
Ento, de rosto erguido para o cu vazio, tirou sua arma do bolso.

Captulo 10

O DESAPARECIMENTO de Adrien Delmas causou a Aristide uma preocupao a mais. Ningum voltara a v-lo desde a reunio em que o dominicano se oferecera para executar Maurice Fiaux. Temia- se que tivesse cado numa cilada da polcia ou da Gestapo. Mas os espies no conseguiram obter nenhuma informao. Apesar dos conselhos dos camaradas, nem
Aristide nem Dd, o Basco, aceitaram alterar as datas dos encontros e das aes programadas, ambos convencidos de que o padre Delmas no falaria nem mesmo sob tortura. Lancelot reprovou-lhes essa prova de confiana.
Depois do "acordo' entre Dohse e Grand-Clment, que to caro custara j  Resistncia da regio Sudoeste, a maioria dos chefes de grupo vivia sob a obsesso da traio. Alguns dentre eles viam traidores em todo lugar. Renaudin, delegado do
Movimento de Libertao Nacional, incumbido de reagrupar as foras da Resistncia, era visto com muita freqncia na companhia de Grand-Clment ou de seus homens; dizia-se que chefiava uma rede de trs mil homens.
Certo dia, Dd, o Basco, compareceu a um encontro no parque de Bordus, acompanhado por Lancelot. Ao descer do trem, viu-se cara a cara com Renaudin e com Andr Noel, j ento condenado  morte pela Resistncia. Noel os abordou com um grande sorriso:
- Viva, inspetor! Dizem por a que, depois de deixar a polcia, o senhor se dedica a atividades muito importantes.
- Quer uma amostra disso? - respondeu Dd, o Basco, enfiando a mo no bolso.
- Ei, no seja idiota! Tudo mudou desde o desembarque. Tenho notcias importantes para vocs. Venham amanh, s onze horas,  Praa da Vitria para discutirmos uma ao conjunta.
No dia seguinte, Dd, o Basco, foi ao encontro acompanhado de Marc, resistente de Toulouse, e de quatro homens armados. Ningum apareceu, porm. Por um momento pensaram ter visto Renaudin na esquina da Rua Elle-Gintrac. Como ningum aparecesse, decidiram abandonar o local.
Foi ento que, por debaixo da porta de ferro semifechada de uma loja, surgiram seis SS que pegaram os quatro resistentes que seguiam na frente, sem que eles tivessem tempo de sacar suas armas.
Dd, o Basco, e Marc conseguiram fugir, enquanto os soldados arrastavam seus companheiros para o interior da loja de modas. Depois, trs deles se lanaram na perseguio dos fugitivos. Sem darem por ele, passaram por Dd, o Basco, escondido num portal. Quando os perseguidores viraram a esquina, ele voltou e entrou na loja, atirando. Os resistentes, ento, jogaram-se sobre os guardas e os desarmaram. No podendo aprision-los Dd, o Basco, ordenou-lhes que desaparecessem.
Os poucos transeuntes, que haviam se escondido nos prdios ou fugido ao primeiro disparo, presenciavam a cena sem reagir.
De volta ao quartel-general de Aristide, Dd, o Basco, e Marc fizeram seu relatrio. Diante da leitura do documento
Aristide convenceu-se em definitivo da traio de Renaudin. Nova deteno iria reforar, se fosse necessrio, essa convico: Pierre Roland, encarregado de sabotar a rede eltrica de comando das exploses que destruiriam o porto e parte da cidade de Bordus, conseguira apenas executar algumas sabotagens pouco importantes. Havia sugerido a Aristide que pedisse ao coronel Buckmaster para bombardear o setor onde os cabos haviam sido localizados.
No dia seguinte ao da transmisso da mensagem, uns quinze bombardeiros da 15a Fora Area dos EUA neutralizavam todo o circuito de deflagrao. Dois dias aps o bombardeio, Pierre Roland foi preso e conduzido ao nmero 197 da estrada de
Mdoc. Torturado, morreu sem nada dizer.
Diante da ameaa que pesava sobre todos, Aristide, transtornado pelo desgosto e pela raiva, constituiu um grupo de quatro homens determinados. Seguiram Renaudin durante trs dias. Em 29 de

136

junho tudo estava pronto: abateram-no na esquina da Rua de Hron com a Rua Mouneyra.
Um policial, pensando que se tratava de uma agresso de malfeitores, perseguiu-os disparando e ferindo dois homens: Mouchet e Langlade. Cado no cho Mouchet atirou no policial, matando-o, enquanto Jules e Fabas conseguiam fugir antes da chegada dos soldados alemes e da polcia francesa. Os dois prisioneiros foram torturados pela Gestapo. Mouchet foi executado e Langlade morreu em conseqncia das sevcias.
Mais tarde, em 11 de agosto, chegou a vez de Andr Noel, atrado por Triangle a uma emboscada. Aqui, os resistentes incumbidos da execuo no se contentaram com abat-lo; antes disso, moeram-no de pancadas, procurando vingar, sem dvida, os camaradas mortos ou deportados. Quando, enfim, decidiram mat-lo, o traidor estava irreconhecvel. Desembaraaram-se do cadver atirando-o no Garonne.
Quanto a Grand-Clment, continuava desaparecido.
Em Deymier, La se recuperava com dificuldade do choque provocado pela morte de Camille. Todas as noites acordava banhada em lgrimas, chamando pela amiga. A senhora Larivierre, a mulher que recolhera La e
Charles, voltava a deit-la, falando-lhe com doura. A moa adormecia, mas por pouco tempo, porque, ento, a assaltava o mesmo pesadelo que a atormentava desde a mortc do saqueador de Orlans, agora ampliado pelas imagens sangrentas, em que Camilie, Charles e Sifflette se debatiam.
Soubera pela senhora Larivierre que os resistentes haviam se dispersado, e que alguns se reagruparam nos lados de Blasimon e de Mauriac. A boa mulher no pde ou no quis dizer mais nada. a no ser que Camilie e
Sifflette tinham sido provisoriamente sepultadas em La Role.
Concordou em mandar entregar uma carta a Ruth, em que La pedia  governanta para enviar, pelo portador, algum dinheiro e roupas.
O rapaz que levara o recado voltou confuso, seguido por Ruth, que o seqestrara at que lhe dissesse de onde provinha a carta. A senhora Larivierre encolerizou-se, clamando que os alemes viriam prend-los e que era necessrio desaparecerem imediatamente.
A preo de ouro, Ruth comprou uma velha bicicleta para La e instalou a criana na sua, dizendo:
- Teria vindo de trem para procur-los, mas a estrada de ferro foi cortada outra vez por um bombardeio.
La agradeceu calorosamente a anfitri, que os viu partir com alvio.
Chegaram a Montillac muito tarde na noite seguinte, tal a fraqueza de La e as difceis estradas estreitas e sinuosas das colinas. Ruth conseguiu que entrassem em casa sem que os Fayard os vissem.
Durante dois dias, La ficou de cama com febre alta. Quanto a Charles, a quem Ruth proibira de sair, errava pela casa, triste e amuado, perguntando pela me.
Quando La pde falar, relatou em voz inexpressiva, sem derramar uma lgrima, o fim de Camilie e o combate a que assistira.
O que aconteceu a seu tio e aos irmos Lefvre? - quis saber a governanta.
- No sei. Tio Adrien no voltou depois da visita de Franois Tavernier. Pensei que aqui tivessem notcias dele.
- No temos. Sua tia Bernadette recebeu um carto-postal de Lucien e foi tudo. Seu tio Luc est muito preocupado por causa de Pierrot que estaria em Paris. Depois que voc partiu, chegou carta de Laure. Eu omei a liberdade de abri-la.
- Que diz?
- Nada de especial. . . que o abastecimento dos parisienses  praticamente nulo, que o metr deixou de funcionar por falta de energia eltrica, que os subrbios so bombardeados quase todos os dias e que os alemes esto ficando cada vez mais nervosos. Suas tias vo bem.
- S isso?
- S, a no ser que espera a sua ida a Paris.
- No fala de Franoise?
- No. Mas recebi tambm carta dela. H trs meses que no tem notcias de Otto, em combate na frente russa.
- Otto no voltar.
- Por que diz isso?
- Porque todos ns vamos ser mortos, como Camille - vaticinou La, virando-se para a parede e cobrindo a cabea com o lenol.
Ruth olhava com sofrimento o vulto querido. Que fazer? Sentia- se velha e imprestvel. Transtornada pela morte de
Camilie, no sabia que deciso tomar quanto  segurana de La. A jovem no podia ficar ali. A qualquer momento, Fayard iria perceber sua presena e denunci-la. Na regio no sabia de nenhum local suficientemente seguro onde escond-la, pois a maior parte das casas amigas estavam sob vigilncia.
Vendo La ainda imvel sob as cobertas, Ruth decidiu-se a deixar o quarto das crianas, onde a moa pedira que a levassem.
Na noite de 15 de julho, com todas as persianas e janelas fechadas, apesar do calor sufocante, Ruth e La, instaladas no escritrio de Pierre Delmas, ouviam a transmisso da rdio londrina. Jean Oberle referia-se ao assassinato de Georges
Mendel pela polcia.
- Com Phillippe Henriot,  o segundo deputado de Gironde assassinado em poucos dias - comentou a governanta, que acabava de costurar uma camisa para Charles, feita de um vestido velho.
- Tia Lisa  que deve estar triste com a morte de Henrot. Gostava tanto de sua voz!
Imobilizou-as um arranhado no postigo da janela.
Ouviu?
- Ouvi. Desligue o rdio.
La obedeceu, de ouvido atento, o corao batendo com mais fora. Ouviu-se novamente o arranhar.
- Esconda-se. Vou abrir a janela.
- Quem ?
- Jean Lefvre - disse uma voz abafada. - Estamos ferdos.
- Abra logo.
O sol avermelhado mal desaparecera atrs das colinas de Verdelais, tingindo ainda os campos, por mais alguns segundos, daquele rosa-dourado que os tornava to belos antes das noites de vero. Nesse momento, a luz revestia com o seu esplendor os dois jovens cobertos de poeira e de sangue, nimbando-os de uma aurola cintilante.
La, esquecida de seu cansao, saltou pela janela que os rapazes, muito enfraquecidos, no conseguiam transpor sozinhos.
Com a ajuda de Ruth, empurrou-os para dentro. Raul deslizou para o assoalho, inconsciente.
- Perdeu muito sangue.  preciso chamar um mdico - disse Jean, antes de se deixar cair, por sua vez.
A enrgica Ruth comeou a soluar.
- No  hora de chorar. V procurar um mdico.
Com grande gestos, a governanta enxugou o rosto.
- E o mdico vai querer vir? Eles tm medo da Gestapo.
- Voc no precisa dizer que esto feridos. Diga. . . diga. ora, no sei. .. que algum cortou uma perna com uma uma foice, com um machado.
- Mas... e quando ele os ver?
- Trata-se de um mdico. E o certo  que morrero se no fizermos nada.
Tem razo. Vou telefonar.
- O telefone funciona?
- Funciona.
- Ento, o que est esperando? - perguntou a moa - Vou buscar toalhas.
Na penumbra da sala, La esbarrou em Bernadette Bouchardeau.
- O que est acontecendo? Ouvi barulho.
- J que est aqui, vai nos ajudar. Jean e Raul Lefvre esto feridos.
- Oh, meu Deus! Pobres pequenos!
- V buscar toalhas e o estojo de primeiros-socorros. Cuidado para no acordar Charles.
No escritrio Jean havia recuperado os sentidos.
- .. . Sim,  isso, doutor, domnio de Montillac, no cimo da colina,  esquerda. . . No demore, por favor - pediu Ruth. Depois de desligar, virando-se para Jean, esclareceu:
- O mdico j vem.  novo em Langon.
- Obrigado, Ruth. Como est meu irmo?
As duas mulheres no responderam. A governanta colocou uma almofada sob a nuca do ferido.
Bernadette reapareceu trazendo as toalhas e os medicamentos. Quase desmaiou ao ver os rapazes ensaguentados e comeou a chorar, como Ruth fizera.
- Ah, no! - gritou La, arrancando os panos das mos da tia. - V buscar gua fervida.
Quando o Dr. Jouvenel chegou, encontrou os dois ferdos j de rosto e mos lavadas. Era muito novo, ainda com aspecto de estudante. Empalideceu ao v-los.
- Por que me disse que se tratava de um acidente?
- No tnhamos certeza de que viria se dissssemos a verdade
- interveio La.
- Sou mdico, senhorita, e  minha obrigao cuidar de todos. . resistentes ou alemes.
- Aqui, trata-se de resistentes, doutor - comunicou La em voz branda.
Sem esperar mais, o mdico comeou a examinar Raul, ainda desmaiado.
- Tragam-me uma tesoura.
Cortou a cala endurecida pelo sangue. As trs mulheres no conseguiram reter um grito. O baixo ventre era todo ele uma chaga.
- O infeliz. . . Aqui, no posso fazer nada. Tem de ser transportado para o hospital. Perdeu sangue demais.
- No  possvel, doutor - disse Jean, que se arrastava para junto do irmo. - Se a Gestapo o apanhar, ser torturado.
- No permitirei.
- Se se opuser,  o senhor que eles iro prender.
O dr. Jouvenel encolheu os ombros.
- Jean... - murmurou Raul.
- Estou aqui, no tenha medo. Estamos em segurana. Vamos lev-lo ao hospital.
- Eu ouvi o que disseram. Mas no vale a pena. Estarei morto antes de.
- Cale-se! Est dizendo bobagens. Vai ficar bom.
- La. . .  voc?
- Sim, Raul.
- Estou feliz.
- No fale - ordenou o mdico, enquando improvisava uma atadura.
- Isso j no importa, doutor. .. o senhor sabe muito bem. La. . . voc est a?
- Estou.
- Me d a mo. Eu estou bem, doutor. Cuide de meu irmo.
- J terminei. Vou chamar a ambulncia.
- Espere um pouco, doutor. Cuide de meu irmo - insistiu o moribundo.
- Faa o que lhe pede - interveio Ruth, dirigindo-se ao doutor Jouvenel.
Jean tinha uma bala cravada no ombro, outra na coxa e a mo bastante ferida.
- O senhor tambm... tenho de lev-lo para o hospital. No disponho de instrumentos para extrair as balas.
- Pior assim - disse Jean. - Nesse caso, faa-me apenas o curativo.
- Arrisca-se a ter gangrena.
La chamou docemente:
- Raul... Raul...
- No chore, La. . . Estou feliz. . . morro ao seu lado.
- Fique quieto!
- Voc est a, Jean?
- Estou.
- Ento, est bem. . . La, eu a amo. . . Jean tambm a ama.  melhor assim. . . Vocs se casaro depois da guerra.
- Depois da guerra, ser voc quem se casar com ela, no eu. La sempre o preferiu. No  assim, La?
-  verdade?
-  - murmurou a jovem, fascinada pelo rosto extenuado, os olhos brilhantes, o nariz afilado e essa palidez cinzenta da morte que se propagava naquele homem jovem que fora seu amante pelo espao de uma noite de loucura.
- La...
Oh! O peso repentino dessa cabea! Como um relmpago ela reviu a morte de Sidonie. Como Raul era belo, apesar da barba de vrios dias que encobria os traos de seu rosto! Ele sorria. Devagar, La pousou os lbios na boca ainda tpida.
Quando se levantou, sentiu a cabea girar. Apoiou-se no brao do mdico.
- Deite-se - recomendou ele.
Deitada, olhava para Jean, que chorava abraado ao irmo morto.
A tia e Ruth tambm choravam. A ela, o desgosto sufocava sem lgrimas.
O mdico, auxiliado por Ruth e por La, cavou um buraco no solo fofo junto  parede da adega, por detrs dos galhos de alfaneiros e de lilases. O cadver, envolto num lenol, foi estendido na cova e coberto de terra. Soavam as trs da madrugada no campanrio da baslica de Verdelais.
num sono comatoso.
Jean no reagiu quando o mdico lhe aplicou a injeo antitetnica. Tambm lhe deu um calmante que o mergulhou rapidamente num sono comatoso
La seguiu o Dr. Jouvenel at o lugar onde ele deixara a bicicleta. No valia a pena continuar a esconder-se, pois os Fayard, certamente, j haviam notado sua presena.
- Deve sair daqui o mais depressa possvel - aconselhou o Dr. Jouvenel.
- E ir para onde?
- No tem famlia em qualquer outro lugar, alm daqui?
- Tenho. Em Paris.
- A viagem para Paris no  muito cmoda agora. Os trens so poucos. No seu lugar, porm, eu tentaria mesmo assim.
- Mas no posso deix-los sozinhos!
- Vou pensar nisso. Se puder ajud-la, eu o farei. Posso lev-la de carro at Bordus.
- Obrigada, doutor. Depois verei. So muito graves os ferimentos de Jean?
- No muito. Mas no pode continuar por muito tempo com as balas no corpo. At logo, senhorita.
At logo, doutor.
Jean Lefvre dormiu at a hora do almoo, no escritrio de Pierre Delmas. Bebeu avidamente a tijela de caf fraco trazida por Ruth e comeu uma enorme fatia de bolo de cerejas.
- Ah, j acordou - disse La entrando. - Voc no est mal, est?
- No. Vou embora.
- Para onde?
- No sei, Vou procurar os outros, se  que no foram todos mortos ou presos.
- O que aconteceu?
- Ser que voc tem um cigarro?
La tirou do bolso de seu vestido de florezinhas uma velha bolsa de tabaco e uma carteira de papis de cigarro Job e as estendeu ao rapaz.
-  tudo o que tenho.
Os dedos de Jean tremiam de tal maneira que no foi capaz de manter o tabaco sobre a fina folha de papel.
- D aqui.
Com mos experientes, enrolou o cigarro, umedeceu a borda gomada e o acendeu. Jean fumou em silncio por alguns momentos.
- Tudo comeou na segunda-feira passada, dia 10 de julho. Eu e Raul estvamos no grupo de Grand-Pierre. Captamos uma mensagem da B.B.C. Parece que ainda ouo a voz do locutor: "O Bateforte d medo". . . Repetimos: "O Bateforte d medo".
Maurice Blanchet virou-se ento para Maxime Lafourcade, dizendo:
- Pode reunir o grupo.  para esta noite.
Perguntei a Maxime qual o significado daquelas palavras e ele respondeu:
- Vai haver um lanamento de pra-quedas perto da fazenda de Bry, em Saint-Lger-de-Vignague.
Era uma boa notcia, porque desde a briga em Saint-Martin-duPuy, estvamos com pouca munio. s dez da noite, ramos uns vinte homens em volta do ponto de aterrissagem. Cinco de ns vigiavam a estrada prxima dali, dois ficaram na caminhonete, escondida no bosque e os outros esperavam com impacincia a chegada do avio. Enfim, depois de meia hora, ouvimos o rudo do motor da fortaleza voadora e acendemos os archotes. A um sinal eu e trs camaradas corremos para o primeiro caixote, cheio de Sten e de ataduras; no segundo havia tabaco, material de sabotagem e granadas. lamos abrir o terceiro quando ouvimos um apito.
- So eles - gritou um sentinela.
- Apressem-se - disse Maxime.
Ainda conseguimos carregar na caminhonete o contedo de uma quarta caixa. Maxime deu ordem de retirada no instante em que os alemes comearam a disparar sobre ns. Conseguimos chegar  base de Duras e s no dia seguinte soubemos o que havia acontecido a quatro de nossos camaradas.
Jean sugava nervosamente o cigarro apagado. La acendeu outro. Com voz inexpressiva, ele continuou:
- Maxime ficara no local do lanamento junto com Roger Manieu, Jean Clave e Elie Juzanx para proteger nos a retirada.
Fixaram uma metralhadora entre dois caixotes e varreram o terreno com as munies recm-chegadas. Os alemes responderam, mas no se mostraram. Quatro policiais aproximaram-se at uns quarenta metros do grupo dos nossos, apesar das rajadas da metralhadora.
Os quatro resistentes, j feridos, tentaram ento escapar, mas era tarde demais. Depois, as munies se esgotaram. Os alemes os espancaram com as coronhas das armas e, rindo, ficaram assistindo enquanto os malditos policiais os torturavam. Arrancaram-lhes as unhas, deixaram seus msculos a descoberto e os escalpelaram. Para terminar, os foraram a reunir as ltimas energias para cavarem as prprias sepulturas.
La, de olhos secos, fitava Jean, que chorava.
- E depois, o que aconteceu?
- Depois, incendiaram as casas da fazenda de Bry e partiram, cantando, em direo a Mauriac. Junto com os elementos do grupo de Duras, ns nos postamos a uns cinqenta metros na estrada de Blasimin, metralhando e lanando granadas sobre o acantonamento. Os alemes e os policiais se atiraram ao cho e comearam a responder. Ento, Raul foi ferido no ombro e eu na perna. Dois camaradas, Jean Koliosky e Guy Lazonons, morreram perto de ns. Depois nos retiramos, ceifando mais alguns inimigos com a metralhadora. Foi na chegada ao cemitrio de Mauriac que nos ferimos novamente. O padre Greciet nos recolheu e nos prestou os primeiros-socorros. Diante da gravidade do estado de Raul, ele mandou avisar o Dr. Lacarer, de La Role, que pertencia  nossa rede. Mas, devido s barreiras alems nas estradas, o mdico no pde nos levar para sua casa e nos deixou em Piau, onde vimos a p at aqui. O resto voc j sabe.
Os dois amigos ficaram um longo tempo em silncio de mos dadas. Ruth interrompeu seus pensamentos sombrios, entrando bruscamente na sala.
- Estou preocupada. No h ningum na casa dos Fayard e tudo est fechado. Vocs tm de sair daqui.
- Mas para onde voc quer que a gente v?
- Para Paris, para a casa de suas tias.
- No posso partir agora. Tenho de ir a Verdelas avisar minha me.
Eu me encarrego disso.
Obrigado, Ruth, mas sou eu quem deve anunciar a mame a morte de Raul.
Compreendo, meu filho, compreendo. E depois... o que vai fazer?
- Continuar lutando. Perdoe-me, La, por deix-la, mas no posso fazer outra coisa.
- Leve a minha bicicleta, Jean. Ir mais rpido.
- Obrigado. Se puder, eu a devolverei. Adeus, La. Voc tambm deve ir embora.
Sem responder, La despediu-se dele com um beijo. Bernadette Bouchardeau e Ruth o beijaram tambm, recomendando-lhe que se cuidasse.

Captulo 11

NUMA SACOLA de marinheiro, fcil de transportar no ombro, La acabava de colocar algumas roupas para Charles e para si, assim como um cofrinho com as ltimas jias que haviam pertencido a sua me. Ruth lhe trouxe sanduches embrulhados num pano de cozinha branco e uma garrafa trmica com gua.
- Entreguei a Charles um saco com cerejas e o resto do bolo.
- Venha conosco, por favor, Ruth.
- No, minha querida. Algum precisa cuidar da casa e de sua tia Bernadette.
- Tenho medo de deix-las aqui sozinhas.
- O que voc quer que acontea a duas velhas como ns? Faz mal em se preocupar. Tudo correr bem.
- Ainda no h notcias de Fayard?
- Ainda no.
- A que horas o Dr. Jouvenel ficou de vir?
- s trs. Em princpio, o trem partir s quatro se a linha j estiver desimpedida.
- Acha que em Bordus conseguiremos lugar no trem para Paris?
O Dr. Jouvenel disse que falaria com um amigo, funcionrio da estao de Saint-Jean.
- La, quando vamos embora? - perguntou Charles, que entrou correndo no quarto.
- Daqui a pouco. Estamos esperando o mdico.
- Ela vai nos levar para ver mame? - No sei.. . talvez. V para o ptio. Vou te encontrar.
Fechou a sacola e olhou em volta. Nunca mais verei esta sala, pensou.
De corao apertado, fechou a porta do quarto das crianas, onde tantas vezes se consolara dos desgostos e acalmara suas raivas.
L fora, o cu estava sem nuvens, O sol do meio-dia dardejava sobre a paisagem to quente como na vspera. As vinhas tinham alguma vegetao j queimada. Por que Fayard deixara Montillac num momento desses, com tanta coisa para fazer?
- Vou levar a bagagem para a cabana perto da estrada, Ruth, assim o mdico no precisar entrar.
- Como quiser. Pegue algum dinheiro para a viagem.  tudo o que tenho.
- Obrigada, Ruth. Mas como vai fazer?
- Ns no precisamos de dinheiro.. Temos as verduras da horta e as galinhas agora esto botando. Alm disso, sua tia
Bernadette receber a penso no prximo ms. No se demore que o almoo est quase pronto. E ponha um chapu, o sol est muito forte.
Para no contrariar a velha governanta, La foi ao vestbulo buscar o chapu de palha. Ali, o frescor e a penumbra eram agradveis depois do calor e da luminosidade do ptio. Ela gostava muito daquele canto da casa, ponto de encontro dos moradores, sempre um pouco desarrumado, pois todos deixavam ali uma pea de roupa, um brinquedo, um livro, jornais ou uma costura, esquecidos em cima da mesa ou das cadeiras.
Quando a guerra terminar, mandarei pint-lo, pensou, observando as paredes brancas, cuja nota alegre estava nas gravuras antigas representando diversos momentos de Bordus e os pratos de porcelana branca e amarela, em estilo Diretrio, decorado com personagens mitolgicos.
O aparelho alto, embaado e cheio de manchas, refletiu sua imagem. Como emagrecera! Isso no agradaria a Franois, que gostava de mulheres de formas arredondadas. Mas o que mais a surpreendeu foi o seu olhar, ao mesmo tempo duro e apagado. Ela reviu os olhos mortos de Raul... Camille... Sidonie... o Dr. Blanchard. . . Marie, a criada. . . o pai. . . a me. . . o casal
Debray. . . Raphal Mahl.. . todos esses mortos que ela amava. Quem mais teria morrido? Albert e Mirelie? O tio Adrien? Laurent? Lucien? Pierrot, o primo querido?
- Onde vai com o chapu, La?
A voz de Charles a arrancou de seus fantasmas.
- Vou levar a mala e dar uma volta. Quer vir comigo?
- Quero! Minha La! - exclamou o menino, atirando-se para ela.
Colocaram a sacola e a pequena mala no casebre e, de mos dadas, desceram ao longo do terreno abaixo do terrao. Apesar da falta de mo-de-obra, o vinhedo estava bem tratado.
- Olha, a minha sandlia se soltou!
La abaixou-se e apertou a fivela.
- No se mexa!. . . - ela cochichou de repente, obrigando a criana a se atirar ao cho.
Ao longo do caminho bordejado de ciprestes, uns sete ou oito homens de uniforme azul-marinho, andavam recurvados, segurando a metralhadora diante do corpo. Interromperam a caminhada ao chegarem na parte de baixo do terrao. Acima deles, um homem se debruava sobre a balaustrada. La reteve um grito. Atrs dele, soldados alemes corriam em silncio.
De onde estava, La distinguia-lhes apenas os capacetes verde-acinzentados. O oficial da Wehrmacht fez sinal aos policiais, que subiram para o terrao.
Charles procurou libertar-se dos braos que o mantinham colado ao solo.
- Deixe-me. Est me machucando.
- Fique quieto, por favor! Os alemes esto em Montillac.
O pequeno corpo comeou a tremer.
- Tenho medo.., quero ver mame.
- Fique quieto, seno os alemes vo prender ns dois.
Charles se calou, chorando baixinho, sem mesmo notar que havia molhado a cala.
Tudo parecia calmo sob o sol que esmagava a plancie; to calmo que La se perguntava se no sonhara ter visto alemes e policiais. Aguou o ouvido, mas no ouvia nenhum barulho alm do canto das cigarras. Talvez Ruth e tia Bernadette os tivessem visto chegar e conseguido fugir.
Mas um grito sobre-humano logo varreu essa esperana. Sem refletir, La ergueu-se e correu para o terrao, arrastando Charles pela mo e maldizendo o vestido estampado, visvel de longe.
Esconderam-se atrs de um cipreste, Alemes e policiais iam e vinham no ptio, arrombando as portas das adegas a pontaps e a coronhadas. Rajadas de metralhadoras despedaaram todas as vidraas. Os mveis eram atirados da janela do primeiro andar.
Por que eles fazem isso?, pensou La. Estava longe demais para ver e ouvir com nitidez o que se passava. Os pilares quadrados do ptio a ocultavam parcialmente. Uma caminhonete entrou, raspando de leve a pedra de um deles.
Comeara a pilhagem. Risos, gritos e disparos chegavam at eles, to irreais nesse lugar familiar inundado de sol. Na horta, perto da casa dos Fayard, dois policiais perseguiam as aves.
De repente, o horror: uma silhueta em chamas apareceu urrando, na parte superior do carramancho, rodopiou e caiu no cascalho da alameda.
La apertou contra si a criana, que no se mexia.
Com os olhos esbugalhados viu o corpo se retorcer, o corpo de uma das mulheres das quais se separara momentos antes.
Seria Ruth ou a tia Bernadette? As chamas eram to grandes que no se distinguia o rosto. Alis, o rosto j no existia. . .
derretera-se. Do orifcio negro onde antes se abrira a boca no saa agora nenhum som. Restava apenas uma carcaa enegrecida, ainda queimando.
Um soldado alemo empurrou-a com o cano de ao do aparelho ligado a duas espcies de garrafes presos nas costas. Sem dvida no achou o cadver suficientemente calcinado, pois um jato de chamas irrompeu do tubo de ao, acompanhado de um assobio sinistro. A mo retorcida, os dedos afastados e esticados para o cu, como que pedindo proteo divina, destacou-se, ento, sob a fora do fogo. O soldado riu. Ele se voltou e entrou no ptio. Engradados de vinho estavam sendo empilhados na caminhonete.
Paralisada, La no conseguia desviar os olhos dos despojos fumegantes, cujo odor terrvel chegava at ela. No meio desse pesadelo, soaram duas horas no campanrio de Saint-Maixant. Um trem passou sobre o viaduto. A linha de ferro devia ter sido reparada em Saint-Pierre-d'Aurillac.
- La, voc est me machucando - gemeu a criana. - Quero ir embora, estou com medo.
Charles. . . ela quase se esquecera dele, de tanto que ele fazia parte dela mesma. Com esforo, La se voltou. Ele comeou a chorar olhando para ela. La tapou-lhe a boca com a mo e o sacudiu.
- Fique quieto! Podem nos apanhar.
Havia tanta urgncia em sua voz que ele parou de choramingar. As lgrimas continuaram, porm, a correr abundantes em suas faces, molhando a camiseta.
Ali em cima, perto da casa, o vinho escorria pelo queixo da canalha uniformizada. Um policial saiu do ptio cambaleando com uma garrafa na mo. Desabotoou a braguilha e, engasgando-se de tanto rir, mijou em cima da carcaa humana fumegante. Depois, afastou-se fazendo o gesto de beber  sade da mulher massacrada. La vomitou. Charles puxou-a pelo vestido.
- Venha. . . vamos fugir daqui!
Charles tinha razo, era preciso fugir. La endireitou-se.
No! Chamas irrompiam agora pela janela do quarto de seus pais, outras pela janela do quarto de Ruth. Imvel, visvel de qualquer lugar, La no conseguia desviar os olhos da casa que queimava.
Foi Charles quem a arrastou, e ela o seguiu de cabea voltada para essa moradia que sempre fora o seu ancoradouro, como fora de seu pai. La queimava com ela.
- No olhe para trs. Venha.
O menino a puxava com toda sua fora. Como conseguiram chegar  estrada sem serem vistos? Charles pegou a sacola e a mala da cabana e as estendeu para La, que as pegou maquinalmente. Nesse instante, as chamas j eram visveis de longe e a sirene de SaintMacaire uivava sobre os campos ensolarados.
De repente, La desviou o olhar daquele espetculo. Alguma coisa dentro dela comeava a morrer ao mesmo tempo que a casa. Para que permanecer ali, onde no havia mais nada?
Com um gesto decidido, La acomodou a sacola no ombro, jogou fora o chapu de palha de seus trabalhos campestres, cerrou com firmeza a mo de Charles e afastou-se sem olhar para trs
Os Fayard s regressaram a Montillac na noite seguinte.
Graas  diligncia dos bombeiros, a casa deles e todos os anexos da quinta - celeiros, adegas e arrecadaes - foram poupados das chamas. Mas no castelo restavam apenas as paredes enegrecidas.
Quando os Fayard chegaram, os bombeiros ainda revolviam os escombros. Interromperam sua sinistra tarefa ao verem o casal imvel, contemplando boquiaberto os estragos.
Um homem de certa idade, o rosto e os braos negros de fuligem, avanou para eles. Olhou-os demoradamente e depois, com calma, cuspiu-lhes no rosto.
- Est louco, Baudoin! - exclamou Fayard - Que  que deu em voc?
- Como se voc no soubesse, canalha! - respondeu o bombeiro, indicando as runas.
O otitro o olhou, parecendo no compreender. Baudoin saltou sobre ele, agarrando-o pela gola do casaco.
- No se finja de inocente, filho da puta! Por acaso no foi voc quem chamou os "frisados"?... Tambm no  voc quem se pavoneia com eles e lhes fornece o vinho dos seus patres a bom preo? Diga! Traste! No  voc, no?
- Mas eu no queria que incendiassem o castelo!
- Quanto a isso, tenho minhas dvidas. H muito tempo que est de olho na propriedade. Mas vai lhe custar um bom dinheiro reconstituir tudo isto. Por Deus!
Um outro bombeiro avanou para a sra. Fayard.
- Ento, Mlanie, no pergunta o que aconteceu s senhoras do castelo? Ora, no  preciso tremer tanto! Ns no temos lana- chamas. S temos punhos para quebrar as suas caras.
- Calma, Florent. . . no vamos sujar as mos.
Mlanie Fayard revirava os olhos assustados sob o chapu de palha preto.
- No entendo o que querem dizer. Estivemos na casa de minha irm, em Bazas.
- Isso comigo no pega, velha mentirosa! Vocs saram daqui porque denunciaram a senhorita La e a sra. d'Argilat 
Gestapo.
- No  verdade!
- . . . e porque no queriam ser testemunhas do que iria acontecer. E! Talvez lhes fizesse mal ver queimar como uma torrada a irm do Sr. Delmas e a senhorita Ruth jorrando sangue por todo lado. Quanto  senhorita La e ao pequeno no os encontramos. Talvez estejam debaixo dos escombros. O que seria prefervel, a serem levados pelos alemes ou por quem os ajuda.
- No sabamos que a senhorita La e Charles tivessem voltado!
- Seriam os nicos a no saber. Ns, em Saint-Macaire, tivemos notcias de que estavam de volta sem a sra. d'Argilat, morta em Lorette. . . Quanto mais vocs, que vivem aqui ao lado. Se existe justia, devamos queimar vocs tambm.
- No se enerve, amigo. O fim da guerra est muito perto e pessoas deste tipo iro pagar, pode crer. Sero julgadas e condenadas por tribunais populares.
- Gente desta laia no merece julgamento.
- Juro que no fomos ns.  verdade que cobio a fazenda h anos, que vendi vinho aos alemes, mas no fiz mais do que os outros fazem. Como teria podido tratar dos vinhedos, se no vendesse o vinho? Com que dinheiro pagaria aos trabalhadores e compraria material? Podem me responder?
- Est zombando de ns? Pensa que no se sabe o que voc tem posto nos bolsos?
- Isso no passa de intriga, de inveja.
- E Mathias. . o seu filho? No vai me dizer, por acaso, que no andava de olho na senhorita e na propriedade? E que no trafica com os boches, em Bordus?
No se trata de meu filho.
- Tambm lhe faremos a cama, pode crer. Mas enquanto isso no acontece. . . Olhe. . . Tome!
- Parem com isso!
Dois soldados acabavam de descer de suas bicicletas. Um deles dirigiu-se ao encarregado das adegas:
- Ter de vir depor na delegacia e reconhecer o corpo, Fayard.
- Mas que corpo?
- Pensamos que se trata da sra. Bouchardeau.
- Meu Deus! exclamou Mlanie Fayard, escondendo o rosto no leno.
- Venham os dois amanh cedo.
O soldado virou-se, ento, para Baudoin:
- Encontraram mais alguma vtima?
- No. Viramos tudo pelo avesso e eu ficaria surpreso se houvesse mais algum aqui.
- Melhor assim. No entanto, nos disseram que havia uma moa e uma criana na casa, O que aconteceu a eles?
Baudoin fez um gesto de impotncia.
- Bem, basta!
- Avisaram a famlia de Bordus?
- O prefeito se encarregou disso. O advogado Delmas deve chegar amanh.
- Talvez ele tenha notcias da sobrinha. E o padre, tambm o avisaram?
- Est brincando! Sabe perfeitamente que ele  procurado pela polcia francesa e pela Gestapo. Se souber onde ele est, denuncie-o. Oferecem boa recompensa.
- Por quem me toma? - exclamou Baudoin. - No sou pessoa para comer desse po.
- Nossos cidados no so to orgulhosos assim. No se passa um dia sem que recebamos cartas annimas denunciando judeus, resistentes, os que ouvem a emissora de Londres ou pessoas que recolhem os chamados pilotos ingleses. Logo mais, esses mesmos iro acusar as moas de que, aos domingos, vo danar com os soldados alemes no dancing das grutas de Saint-Macaire.
- E tero razo para faz-lo - interveio um rapazinho briguento e completamente estrbico.
-  a inveja que te faz falar, Belo Olho.
- No me chame de Belo Olho! So todas umas putas, as moas que danam com os alemes! E ainda se s danassem!
Mas no! Fornicam com eles enquanto os noivos esto presos, foram para o S.T.O. ou combatem na Resistncia. Mas deixe que a guerra acabe! Ho de levar no focinho e no cu, essas porcas, para aprenderem e no se meterem com boches!
- No gostaria de estar na pele delas quando voc e os parecidos com voc lhes botarem a mo. Bem, rapazes. . . voltem para casa. No h mais nada a fazer aqui.
Na manh de 22 de julho, o corpo de Bernadette Bouchardeau foi sepultado no jazigo da famlia Delmas, em presena do advogado Delmas, do filho e de inmeras pessoas, a maior parte das quais comparecera ao ato apenas para manifestar a sua repulsa e a sua revolta.
Uma caminhonete de soldados estava parada sob as tlias da praa. Junto ao tmulo de Toulouse-Lautrec havia dois policiais em trajes civis, vindos de Bordus. Observavam atentamente todas as pessoas que apresentavam condolncias ao advogado.
Os Fayard mantinham-se  parte, sem se atreverem a se aproximar, conscientes da animosidade da maioria da assistncia. Foi o prprio Luc Delmas quem se dirigiu at eles para lhes apertar a mo com uma cordialidade que pareceu excessiva a todos. A cerimnia decorreu sem incidentes.
No hospital de Langon, Ruth continuava entre a vida e a morte.

Captulo 12

As RIVALIDADES QUE, desde o incio do ano de 1944, dividiam as principais tendncias da Resistncia do sudoeste, faziam o jogo dos chefes militares alemes da regio. De fato, que importncia tinha para eles que o general Koening fosse o comandante das foras francesas do interior, que o general Delmas tivesse sucedido a BourgsMaunoury, que Triangle fosse o general Galliard, delegado militar para a regio B, que Aristide exercesse o comando em Gironde em nome do general Koening, que Gaston Cusin fosse comissrio da
Repblica, que os gaulistas desconfiassem dos comunistas e que o general Moraglia, enviado pela comisso de Ao Militar, a mais importante comisso do Conselho Nacional da Resistncia, no chegasse a consolidar sua autoridade?
Cartas annimas, denncias espontneas, revelaes sob tortura ou ameaa e colaboraes diversas permitiam aos alemes exercer represlias sangrentas sobre a populao, aniquilar grupos de resistentes e proceder a deteno de importantes elementos da Resistncia.
Foi devido a uma traio que um grupo de trinta soldados alemes, sob o comando do tenente Kunesch, apoiados por outro tanto de policiais comandados por seu chefe regional, o tenente-coronel Franc, atacou a fazenda de Richemont, perto de Saucats, onde dezoito rapazes, na maioria estudantes, tinham acampado enquanto aguardavam um lanamento de pra-quedas com armas e munies.
Na manh de 24 de julho, estavam na fazenda doze desses jovens. Mal armados, lutaram durante trs horas.
Todos morreram: Lucien

156

Anre, Jean Bruneau, Guy Clrier, Daniel Dieltin, Jacques Goltz,
Christian Huault, Pogre Hurteau, Franois Mosse, Michel Picou,
Jaques Rouin, Roger Sabate e Andr Tailiefer. O mais velho tinha

22 anos, o mais novo 17.
Essa mesma traio permitiu aos alemes localizar, em 23 de junho, a base de Medoc, comandada por Jean
Dufuor. Alemes e policiais, secundados por um grupo de indianos especialistas em infiltrao nas matas, passaram ao ataque ao amanhecer, no bosque de Vgnes-Oudines.
 frente de alguns homens, Jean Dufuor tentou retardar o avano dos perseguidores. Foi morto depois de esgotadas as munies. A caa aos resistentes durou at o dia seguinte. Foram destrudos os acampamentos de Vignes-Oudines, de Baleys e de Haut-Garnaut. A ao resultou numa centena de mortos por parte dos alemes e dezessete resistentes. Um dos feridos foi exposto na praa de Hourtin e morreu sem assistncia mdica.
Tal como acontecera no ataque a Soucats, os prisioneiros foram fuzilados e os feridos liquidados. Policiais e soldados encarniaramse contra os habitantes de Liard e contra o pessoal do castelo de Nodris, matando e prendendo diversas pessoas. Os presos foram juntar-se no forte de H, aos seis prisioneiros do ataque frustrado  fbrica de plvora de Saint-Helene, em 23 de junho. Torturados, foram depois fuzilados ou deportados.
Ainda uma outra traio permitiu a deteno de Lucien Nouaux, que adotara o nome de Marc, e de seu camarada Jean Berraud. Ainda uma vez, Dohse, com suas ameaas e promessas, levou um jovem resistente, ele mesmo denunciado por dois camaradas detidos pela polcia alem em Pauillac, a colaborar numa emboscada.
O rapaz marcou encontro com os companheiros perto do estdio municipal, onde compareceu acompanhado de Roger, um agente da Gestapo. Sem desconfiar, Marc viu os dois se encaminharem para ele. Nesse instante, os alemes saram dos esconderijos e os prenderam. Desarmados, foram conduzidos  sede da Gestapo, para serem interrogados. Espancaram-nos com crueldade antes de os levarem  presena de Dohse. Quando entraram em seu gabinete, Marc empunhou uma pequena pistola escapada  revista, disparou e feriu levemente dois soldados alemes, antes de ser alvejado por Roger. Com ferimentos muito graves para ser submetido a interrogatrio, atiraram-no a uma cela do forte do H, onde os carcereiros acabaram com ele na manh seguinte, dia 28

de julho.
Esse 28 de julho de 1944 foi particularmente sinistro para a regio de Bordus.
O ar estava pesado e o cu encoberto, com alguns aguaceiros intermitentes. Ao amanhecer, no campo de
Souges, quarenta e oito homens desciam de caminhes de Wehrmacht para serem fuzilados. Entre eles, uma vtima de gabarito: Honor (Robert Ducasse), que, sob o nome de Vergaville, fora chefe do exrcito secreto e um dos principais responsveis dos Movimentos Unidos da Resistncia da regio de Lyon.
Presp em outubro de 1943, conseguira fugir em janeiro de 1944. Enviado a Bordus por Kriegel-Valrimont, fora nomeado chefe regional das foras francesas do interior. Escondido em casa de amigos protestantes de
Bordus, fez contato com a Comisso Departamental de Libertao, onde conheceu Gabriel Delaunay. Em 22 de junho, na companhia de seus adjuntos, dois homens e duas mulheres, Honor dirigia-se a Sauveterre-enGuyennr, de bicicleta. Ia organizar uma ao de sabotagem e buscar munies escondidas nas pedreiras de
Daignac.
Ao atravessarem Creon, passaram em frente da delegacia. Sem dvida, o comportamento e o aspecto dos viajantes pareceu suspeito aos soldados que os viram passar, pois avisaram os colegas de Targon, que saram  sua procura e os prenderam.
Os documentos encontrados com o grupo foram suficientemente comprometedores para preocupar os soldados de Targon, que se apressaram em avisar a polcia de Bordus. Uma das mulheres, interrogada com brutalidade, revelou o objetivo de sua presena na regio. Internados no forte de H, o comissrio Penot entregou-os depois  Gestapo. O tenente Kunesch conduziu os interrogatrios.
Honor foi fuzilado nesse 28 de julho, assim como dois companheiros, Ren Pezat e Jacques Froment e outros quarenta e cinco resistentes. Uma das mulheres conseguiu fugir. A outra foi deportada.
Tambm nesse mesmo dia era executado Grand-Clment assim como sua mulher e um amigo.
Aps a morte de Noel e de Renaudin, Grand.Clment sabia que seus dias estavam contados. Colocou-se ento sob a proteo de Dohse, que lhe ofereceu uma vivenda em Pyla. Grand-Clment refugiou-se ali durante uns tempos sob o nome de Lefranais, com Lucette, sua mulher. Foi nessa pequena estncia balneria que Meirilhac, enviado pelo coronel Passy, desejoso de esclarecer as circunstncias da morte de Hipotenusa, o descobriu.
O agente da Comisso Central de Informao e Ao, aps informar o coronel Triangle da sua misso, entrou em contato com Jean Charlin, que continuava a considerar Grand-Clment como chefe da OCM. do sudoeste. Charljn concordou em transmitir uma mensagem ao "seu" chefe.
Os dois homens encontraram-se ento na Rua do Hautoir, em Bordus, no restaurante Volant-Dor. Grand-Clment foi informado de que Londres gostaria de ouvi-lo a fim de o ilibar das acusaes de traio que pesavam sobre ele e de que um
Lusander o conduziria  Inglaterra. Encurralado, sem saber como agir, Grand-Clment concordou em se encontrar com
Meirjlhac.
Para iludir Dohse quanto s suas intenes, ficou combinado que simulariam um seqestro no domiclio do amigo e guardacosta, Marc Duluguet. Em 24 de julho, Meirilhac e trs resistentes do grupo de Georges, que chefiava a 3a companhia das tropas de Aristide, compareceram  casa de Duluguet, onde derrubaram os mveis e dispararam alguns tiros para que se acreditasse num seqestro. Grand-Clment exigiu que a mulher e Duluguet o acompanhassem. A sra. Duluguet comprometeu-se a s avisar a polcia alem uma hora depois da partida do grupo.
Conduziram-nos primeiramente a Lognan e, na manh seguinte, Meirilhac entregou-os a Georges, que os interrogou.
Grand-Clment recusou-se a responder, de incio, pedindo para ser levado a Londres, como ficara combinado. Depois, sem dvida temendo represlias imediatas contra ele e contra os companheiros por parte daqueles homens absolutamente convencidos da sua traio, concordou em responder as perguntas. Reconheceu ter entregue armas aos alemes, ser responsvel indireto por trs mil detenes e por trezentas execues. Um processo verbal foi redigido e assinado. Em 28 de julho, os trs prisioneiros foram levados, sob forte escolta, at as proximidades de Belin, para casa de
Frank Cazenave, membro da Resistncia. Os resistentes, numerosos, tomaram posies em volta da casa.
Por volta das treze horas, chegaram Aristide, Dd, o Basco, e Lancelot. Ao ver surgir o agente britnico,
Grand-Clment compreendeu que estava perdido. Aristide reuniu em volta de uma mesa os membros do tribunal encarregado de o julgar. O prisioneiro teve de responder a novo interrogatrio, acrescentando que aceitara as propostas de Dohse para proteger a vida da mulher e da famlia. O tribunal mandou ento os prisioneiros sarem, a fim de deliberar.
A morte de Grand-Clment foi votada por unanimidade. Aps demorada polmica, a mulher e o amigo foram igualmente condenados  morte.
No final da tarde, o antigo resistente foi colocado num carro. Acompanhavam-no Lancelot e dois resistentes.
A mulher e o guarda-costas ocuparam outro carro, junto a Aristide e mais dois homens. No trajeto mandaramnos parar numa barreira guardada por policiais. Lancelot saiu do carro e fez a saudao hitieriana. Supondo tratar-se de pessoal da Gestapo, os dois policiais deixaram passar os dois veculos. Grand-Clment no se movera.
Detiveram-se num bosque perto de Muret. Nesse local, Aristide comunicou a sentena aos prisioneiros.
Depois tudo se passou rapidamente: Dd, o Basco, levou GrandClment para dentro de um curral e o abateu.
Lancelot executou Marc Duluguet, e Aristide encarregou-se do trabalho que ningum queria fazer.
Os homens de Georges enterraram os cadveres no bosque.
Aristide enviou o relatrio ao coronel Buckmaster, informando-o de que se fizera justia.

Captulo 13

NA MARGEM DO SENA, deitada sobre uma toalha de praia, apesar da dureza do pavimento, La, de plpebras cerradas, deixava o esprito abandonar-se  lembrana do murmrio das ondas rebentando sobre a areia da praia de Biscarrose, dos gritos das gaivotas e das crianas. O calor a entorpecia suavemente e seu corpo revivia sob os raios do sol.
Espreguiou-se com bem-estar e envolta numa bruma distante, com uma sensao de irrealidade, quase de pecado, diante do prazer que sentia, no obstante o horror dos ltimos dias. Mas qualquer coisa lhe dizia para, sobretudo, no pensar nisso, para fazer como se aquilo tudo no tivesse acontecido, e no fosse mais que um pesadelo do qual despertaria sem se lembrar dele.
Entreabriu os olhos. Uma gaivota atravessou seu campo de viso, rpida, cruzando o cu de um azul sem nuvens. Uma criana riu, batendo palmas. Imveis, de cabea coberta por bons ou por chapus de palha, pescadores com varas olhavam suas bias vermelhas, amarelas ou brancas. A gua batia docemente na margem. Um pintor de domingo misturava as suas tintas. Pelo rio, deslizou uma barca onde iam moas vestidas de tons claros. No longe dali, um acordeonista tocava uma melodia da voga. Tudo era harmonia e tranqilidade.
La virou-se de bruos e pegou no livro que Laure lhe recomendara com tanto entusiasmo.
Agora, todos tinham ido danar, exceto ela e as senhoras de idade. Toda a gente se divertia menos ela. Avistou ento Rhett
Butier, logo atrs do mdico. Antes que tivesse tempo para mudar a expresso do rosto, ele a notou, contraiu os lbios e franziu as sobrancelhas. Erguendo o queixo com arrogncia, Scarlett se levantou e, de repente, ouviu seu nome. . . seu nome pronunciado com aquele sotaque inconfundvel de Charleston, palavras que dominaram por instantes o tumulto de vozes.
- Senhora Charles Hamilton. cento e cinqenta dlares. em ouro!
 dupla meno do nome e da quantia, um repentino silncio pesou sobre os presentes. Scarlett ficara de tal modo surpresa que no conseguiu se mover. Com o queixo entre as mos, os olhos ainda maiores por causa da surpresa, continuou sentada em seu lugar.
Todos se voltaram para observ-la. Viu o doutor inclinar-se, segredando algo a Rhett Butier. Informava-o, sem dvida, de que ela estava de luto, e que lhe era impossvel participar do baile. Rhett ergueu os ombros num gesto displicente.
- Talvez uma outra das nossas bonitas jovens - sugeriu o mdico em tom bastante audvel.
- No - contrariou Rhett com firmeza, passeando o olhar negligente pela assistncia. - A sra. Hamilton.
- J lhe disse que no  possvel - insistiu o doutor. - A sra. Hamilton no ir querer.
Scarlett ouviu ento uma voz que, de incio, no reconheceu.
- Quero sim - disse a sua prpria voz.
Que mulher insuportvel, aquela Scarlett! Rhett Butler, porm... que homem!
- Gosta do livro? - perguntou Franoise.
- Hum... hum...
- No a incomode - interveio Laure com o ar mais srio do mundo, - No v que ela est danando com Rhett
Butier? Passe-me a Silhouettes, Franoise.
- Espere um pouco. Estou acabando de ver os modelos para crianas. Gostaria de ter uma menina para vesti-la com roupas bem bonitas.
- Voc se tornou muito ftil desde que veio para Paris e comeou a freqentar costureiros famosos - observou a irm. - Mudou muito a Franoise de Montillac! No se parece absolutamente nada com a enfermeirazinha simples de Langon.
- Voc no  nem um pouco amvel ao me acusar de frivolidade, Laure. Que queria que eu fizesse? Que me fechasse em casa com as cortinas cerradas esperando o fim da guerra? Ou que partisse para a Alemanha como fazem certas mulheres na mesma situao que eu? Ou, ainda, que fosse para a casa do pai de Otto? Ele me expulsaria. E, alm disso, ser que ainda est vivo? E Otto, onde estar? Talvez tenha morrido ou esteja gravemente ferido neste exato momento.
- Desculpe-me. No queria mago-la. Veja como Charles se d bem com o pequeno Pierre. Parecem irmos.
- Sim, so ambos muito engraados. Toma a Silhouettes.
Franoise ergueu-se, ajustando o mai de l azul, e aproximou-se do carrinho de beb onde seu filhinho estava sentado.
- Leu o artigo de Lucien Franois? - perguntou Laure. - Contra o slzp e a favor da verdadeira lingerie?  de morrer de rir.
Oua isto:
Os censores franzem as sobrancelhas  idia de que se possa se preocupar, na atual conjuntura, com essa coisa frvola e que, ainda por cima, com um ressaibo de libertinagem: a roupa ntima feminina.
Com mente imbuda pelos "Frou/roas" de Mayol, estaramos tentados a lhes dar razo. Mas o caso muda de figura quando constatamos que a moda do slip e do soutien-gorge de origem estrangeira deixou desempregados milhares de operrios das indstrias de renda e da roupa ntima fina, ambas teluricamente bem francesas
- Teluricamente! - exclamou Laure. - Vejam s! Tenho a certeza de que se pensa que os soldados franceses perderam a guerra porque suas mulheres usavam slips ingleses ou americanos. Oua agora o final.
No existem povos fortes sem mulheres bem femninas ao lado de homens verdadeiramente viris.  quando os sexos comeam a se influenciar mutuamente, que se anuncia o declnio de uma raa.
As andrginas de slips eram as companheiras dos rapazes que usam camisas "bombom-derretido". Num casal, no h perigo de que, mesmo em calas de montaria, uma mulher autntica use cuecas.
- No acha incrvel que se perca tempo falando em cuecas quando no temos eletricidade, no dispomos de gs, quando o metr no circular desde as treze horas de hoje, sbado, at segunda- feira  mesma hora, quando Estelle teve de permanecer na fila desde as sete da manh, em frente do armazm, na esperana de conseguir comprar ervilhas Porsper cozidas a vapor, quando comemos apenas cavala salgada h trs dias ou ainda quando os bombardeios causam milhares de mortos?  incrvel! Que poca a nossa! Que pensa disto, La?
La, que interrompera a leitura para ouvir a irm, encolheu os ombros:
- No mais incrvel do que estarmos aqui deitadas de mai  beira do Sena, e de irmos ao Moulin Rouge logo mais, ouvir
Edith Piaf cantar, enquanto se luta na Normandia, na Bretanha, na Rssia e no Pacfico. O que  incrvel  que ns, as trs, ainda estejamos vivas. . . Estou com fome. Franoise, voc me passa um sanduche?
- Provocaremos um motim se nos virem comendo sanduches de po de verdade e de salsicho autntico. No acha, Laure?
- perguntou Franoise.
- Os outros que se arranjem como eu me arranjo. No  preciso acreditar que seja fcil conseguir po e salsicho em Paris, a

3 de agosto de 1944.
- Acredito - garantiu La, mordendo ferozmente o sanduche que Franoise lhe entregara. - Com sua inclinao para negcios, deveria ter sido voc a tratar dos assuntos de Mont.
La empalideceu, interrompendo essa palavra que havia jurado para si mesma nunca mais pronunciar. Laure percebeu e rodeou com o brao os ombros da irm.
- Reconstituiremos Montillac, ver.
- Isso nunca! Nunca! Voc no viu o que eu vi. No viu tia Bernadette correndo envolta pelas chamas, ela que nunca fez mal a ningum. E Ruth.
- Fique quieta. Est se machucando sem necessidade, No serve de nada remoer tais horrores. Esquea-os.
- Esquecer?. . . Para voc  fcil. O que voc sabe da guerra? Conhece apenas os mseros trficos do mercado negro.
- Acabem com as discusses - interveio Franoise. - Todo mundo est olhando para vocs. Vamos embora - concluiu, pegando suas coisas.
- Vocs vo se quiserem. Eu fico por aqui mais um pouco. Levem Charles com vocs.
- Quero ficar com voc, La.
- No, meu querido. Seja bonzinho, v para casa. Preciso ficar s.
O menino olhou a moa com expresso de intensa curiosidade. Pegou-lhe a mo e apertou-a com fora.
- No vai se demorar?
- No. No demoro. Prometo.
- Esteja de volta l pelas duas e meia - recomendou Laure.
- O espetculo comea s trs e meia e leva uma boa meia hora para se chegar  Praa Bianche de bicicleta.  tudo subida at l.
- No se preocupe. Estarei em casa a tempo.
Sem mais se ocupar das irms e das duas crianas, La voltou a deitar, fechando os olhos. Mas as imagens que se formavam por detrs das plpebras eram to assustadoras que logo os reabriu.
Um banhista se levantou e, abandonando seu jornal, mergulhou no Sena, respingando-a de leve. La pegou o jornal. Era o
L'Oeuvre, de Mercel Deat. Maquinalmente, comeou a ler o artigo intitulado "Variedade da Fauna nas Bases da
Resistncia", em que o autor destilava veneno sobre comunistas, gaulistas socialistas e outros ''insetos".
Inteirou-se tambm do fechamento de cento e noventa e oito bares americanos, a pedido da polcia francesa, chocada com o carter imoral daqueles estabelecimentos de prazer; da abertura, no Grand Palais, de uma exposio cujo tema era "A alma dos campos".
Tambm ficou sabendo que o dr. Goebbels havia declarado: "O povo alemo deve erguer-se em massa para forar o destino"; que marinheiros alemes, conduzindo engenhos especiais, tinham naufragado treze navios anglo-americanos; que uma brigada de assalto francesa das Waffen SS combatia na frente oriental; que, nesse dia, haveria corridas de cavalos em Vincennes e no dia seguinte, domingo, em Auteuil; que na Bolsa de Paris o mercado se mostrava mais ativo; que o Fhrer e o dr. Goebbles tinham enviado um telegrama de felicitaes a Knut Hamsun, pelos seus oitenta e cinco anos;
que o prximo conselho de reviso dos voluntrios franceses das Waffen SS se realizaria na segunda-feira, dia

7 de agosto, s nove horas e o da Legio dos Voluntrios Franceses contra o bolchevista seria no quartel de
La Reine, em Versailles; que um orfanato seria batizado com o nome de Philippe Henriot; que, no dia seguinte, a partir das quinze horas, teria lugar o campeonato de natao, com percurso desde a ponte de Austerlitz at a ponte Alexandre III; que Elvire Popesco atuava no teatro Apoio na pea Minha Prima de Varsvia, e Jane
Sourza e Raymond Souplex, no Casino de Paris, em No Banco; que no Luna Parque podia-se aplaudir
Georgius, Georgetre Plana e muitos outros artistas; e que Edith Piaf.
La jogou o jornal e, sobre o mai de duas peas, vermelho e branco, enfiou o vestido de rayon com grandes flores, presente de Franoise. Prendeu as tiras das sandlias de tela branca e saltos altos. Correndo, subiu as escadas que conduziam  plataforma.
Em 11 de agosto, o rdio anunciou a morte de Saint-xupery, abatido no sul da Frana, durante um vo noturno. O locutor de- piorou o fato de o escritor ter passado sobre o campo dos inimigos da Frana.
Nesse mesmo dia, La encontrou uma carta de Laurent dirigida para Camille, colocada sob a porta das senhoras de Montpleynet. Perturbada, abriu o envelope, tremendo.
"Minha bem-amada mulher,
Aqui estou, por fim, de volta ao solo francs! No tenho palavras para exprimir a nossa alegria, a minha e a de meus camaradas. Vi os homens mais rudes carem de joelhos ao desembarcar e chorando, beijaram o cho de sua terra, e outros colocando nos bolsos areia da praia normanda, que os soldados aliados tiveram o privilgio de pisar antes de ns. Como nos pareceu longa a espera desse dia! Pensamos que no chegaria nunca!
Passei a primeira noite no banco de um jipe. Dormi apenas quatro horas, mas nunca me senti to novo e to bem disposto.
Eu me dizia que estava na mesma terra que voc, sob o mesmo cu, e que em breve a abraaria e a Charles. Era felicidade demais!
Desembarcamos em Saint-Mre-Eglse numa manh cinzenta, junto com o general Leclerc, que mergulhava na areia  sua volta a ponta da bengala, tendo no rosto uma expresso de incredulidade. Ouvi-o murmurar: Que sensao mais estranha. . .
Depois, mais forte, olhando em volta com um sorriso que enrugava seus olhos: D um prazer dos diabos.
Os fotgrafos do servio cinematogrfico das foras armadas nos atropelavam, procurando fotografar o aperto de mo entre o general americano Walker e o nosso general. Leclerc prestou-se a isso com m vontade, recusando-se, porm, a voltar ao quebra-mar.
Acompanhei-o ao quartel-general do 3. Exrcito Americano, onde est sediada a 2. Diviso Blindada. A conhecemos o general Patton. Que contraste entre os dois homens! Um com uma grande cara de cowboy, grande bebedor de usque, colts pendurados na cintura, tal como vemos no cinema; e o aristocrata, com seu bon ornado de duas estrelas
- a terceira espera h mais de um ano para ser pregada -, seu impermevel justo ao corpo, polainas inglesas. S a custo consentiu em se separar de uma espcie de bornal que lhe batia nos rins.
Patton estava de excelente humor; a frente alem fora finalmente rompida em Avranches, localidade por onde passamos ao rumar para Le Mans. Espetculo de fim de mundo. Civis errando pelas ruas devastadas, revolvendo os escombros, campos onde se amontoavam centenas de prisioneiros de olhar perdido, cadveres de americanos, de canadenses, de ingleses e de alemes misturados uns aos outros.
Nas aldeias que atravessamos, as moas nos ofereciam flores, po, garrafas de vinho e de cidra. Ns passvamos alternadamente da alegria dos libertados ao desespero daqueles que tinham perdido tudo.
No dia 10, sem ter descansado, passamos ao ataque com certa precipitao. Os combates foram duros. Tivemos vinte e trs mortos, perto de trinta feridos e catorze carros de assalto destrudos ou perdidos.
No dia seguinte, em Champfleur, Leclerc, instalado sobre a pequena torre do Tally, comandou a manobra de aproximao. Indiferente s balas e aos morteiros, dirigiu os homens durante todo o dia, deslocando-se no jipe ou no carro- patrulha. No final desse segundo dia de combate, o general mostrou-se satisfeito, pois tnhamos libertado umas trinta aldeias e avanado quarenta quilmetros. Extenuados, dormimos pelo cho, mas no por muito tempo; s duas da madrugada, morteiros alemes caram no prado onde Leclerc dormia, destruindo um tanque e matando seus dois ordenanas. A noite terminara para todos ns.
De 10 a 12 de agosto, a 2. Diviso Blindada matou oitocentos alemes, fez mais de mil prisioneiros e destruiu quinze Panzer. Na floresta de Ecouves, os soldados inimigos renderam-se aos milhares.
Na sexta-feira, 13, atacamos a aldeia de Cercueil. Na descida para Ecouch, vi a carnificina mais alucinante.
Devamos pegar a estrada nacional 24 bis. Eu segui atrs do carro de um amigo, Georges Buis, que comandava a vanguarda. Para l dos prados bordejados de sebes, surgiu-nos a estrada, atravancada, a perder de vista, por veculos inimigos que pareciam flutuar sobre a vegetao. Durante segundos tudo ficou em suspenso. Depois foi o apocalipse. Os canhes de todos os nossos carros vomitaram fogo e o ar se encheu de gritos e de fumaa. Progredindo atravs das ruelas, um destacamento conseguiu ultrapassar o descomunal engarrafamento de carcaas retorcidas, de corpos mutilados, de carros em chamas, atravessar a estrada nacional e chegar ao objetivo:
a ponte sobre o Orne."
A carta de Laurent terminava com palavras de carinho dirigidas  mulher e de ternura para o filho. La dobrou-a com cuidado.
Pelo telefone, anunciavam a tentativa de suicdio de Drieu la Rochelle. O telefone tocou.
- Al? Ruth!.  voc? Voc est bem?
- Sim, minha pequena, sou eu.
La, que desde a morte de Camilie no havia derramado nenhuma lgrima, sentiu suas faces se cobrirem de lgrimas mornas e salgadas ao ouvir a voz fraca, mas perfeitamente reconhecvel da mulher que acreditava morta. Apenas conseguia gaguejar:
- Oh, Ruth!... Ruth...
Franoise e Laure, uma aps outra, falaram com a governanta, chorando de alegria. Logo, todas as moradoras da Rua da
Universidade se transformavam em fontes. Laure foi a primeira a enxugar os olhos, exclamando:
-  a nica boa notcia que recebemos desde h muito tempo. Vamos comemorar!
Foi buscar uma garrafa de champanhe, onde ela chamava "sua reserva".
- Deve estar um pouco quente, mas no faz mal. Traga as taas, Esteile, e venha brindar conosco.
At mesmo Charles teve direito a um "dedo de champanhe", como Lisa dizia.
Nem sequer nos lembramos de perguntar a Ruth o que aconteceu a Montillac - notou Laure, esvaziando sua taa.
 verdade, pensou La. Na alegria de sab-la viva eu me esqueci de Montillac. Tanto melhor para mim, Montillac morreu.
Que me importa o que possa lhe acontecer agora? J correu sangue demais sobre aquela terra. Que Fayard fique com ela, isso no me interessa mais!
- Imagine, senhorita Franoise. . . batatas a quarenta francos o quilo! - comentava Estelie. - E trs horas de fila no mercado de
Saint-Germain para trazer dois quilos! E manteiga!  coisa que no existe. E a mil francos o quilo,  preciso ser milionrio para compr-la!
- No se preocupe, Esteile - interveio Laure. - Amanh eu arranjo manteiga. Recebi tabaco e sabonetes, de modo que vou troc-los por gneros alimentcios.
A velha criada fitou Laure com uma expresso admirada.
- No sei como consegue, senhorita Laure - comentou ela, perplexa. - Mas o fato  que, sem voc, teramos morrido de fome h muito tempo Felizmente no liga para as palavras de dona Albertine.
- Cale-se, Esteile! - disse Albertine. - Fao muito mal em no me mostrar mais severa com Laure e em concordar com esses trficos de. . . de.
- . .. de mercado negro, minha tia, pode diz-lo. Muito bem; fao negcios no mercado negro, sim. A verdade  que no tenho o mnimo desejo de morrer de fome enquanto espero pela chegada dos aliados. Mas no roubo; limito-me a trocar os artigos, obtendo entretanto algum lucro. Dedico-me ao comrcio. Todos os meus amigos fazem a mesma coisa.
- Isso no  razo, minha pobre criana, para que voc faa igual. H tantos infelizes sofrendo, desprovidos de tudo! Tenho vergonha do nosso bem-estar - declarou Albertine.
Lisa, que se mantivera calada at esse instante, teve um sobressalto e, de rosto repentinamente corado, voltou-se para a irm, dizendo:
- Nosso bem-estar!. . Voc est brincando, espero. . . Vamos ver o que  o nosso bem-estar:  no dispor de ch, nem de caf, nem de chocolate, nem de carne, nem de po verdadeiramente comvel!  no ter aquecimento, tal como no inverno passado! E tudo isso por que a senhorita no quer satisfazer a sua fome, no quer aquecer-se porque h desempregados, prisioneiros e pobres a quem falta tudo! Mas no  pelo fato de nos privarmos que eles tero menos frio ou menos fome.
- Sei disso perfeitamente, mas devemos nos mostrar solidrios com a desgraa alheia.
- Hoje em dia, j no existe solidariedade! - exclamou Lisa, exaltada.
- Como podes dizer isso? - murmurou Albertine, fitando a irm, ao mesmo tempo que uma lgrima lhe deslizava pela face enrugada, deixando um trao sobre o p-de-arroz.
Aquela lgrima acalmou a exaltao de Lisa que se precipitou para Albertine, pedindo-lhe perdo. De brao dado, retiraramse para o quarto de Albertine.
-  sempre a mesma coisa - comentou Laure. - Basta que uma delas chore para logo a outra correr a consol-la. O que vai fazer esta tarde?
- Fala comigo? - perguntou La.
- Sim.
- Prometi a Charles lev-lo ao Luxemburgo, para dar uma volta no carrossel.
- E voc, Franoise?
- Vou para casa. Um amigo de Otto ficou de me telefonar  noite para dar notcias dele.
- Tem muito tempo at a noite - garantiu Laure.
- Nem por isso. Como a desativao do metr, sou obrigada a voltar para casa a p. Umas boas duas horas. E voc, o que vai fazer?
- No sei. Desde que fecharam todos os bares americanos, eu e os amigos j no sabemos o que fazer. Vou ver se o grupo est no Trocadero.
- Ento, vamos juntas?
- No. Voc est a p e eu prefiro ir de bicicleta.
- Como quiser. Se receber notcias de Otto, eu lhe telefono logo  noite.
Charles caminhava, comportado, de mo dada com La. De tempos em tempos, apertava-lhe os dedos com mais fora at que a jovem correspondesse por uma presso idntica, que queria dizer:
Estou aqui. No tenha medo. Isso o tranqilizava. Apavorava-o a idia de que ela desaparecesse como sua me.
Desde o momento que deixaram a enorme casa em chamas, dando-se as mos e sem se virarem para trs, Charles compreendera instintivamente que no devia tocar em certos assuntos. A me fazia parte dessas coisas que no devia falar.
Nunca a mencionava em suas conversas com La. La de quem ele gostava tanto quanto sua me gostara. Pobre mame! Por que ela gritava tanto quanto ele corria para ela, no dia em que os alemes disparavam por todos os lados? Recordava-se de ter sentido uma dor, da me abraando, depois o soltar e depois. . . depois mais nada.
s suas perguntas, respondiam-lhe sempre que a mame voltaria logo. Mas sabia que no era verdade. Ela partira para longe, para muito longe mesmo. Talvez j estivesse no cu. Quem sabe! A mame lhe dissera que as pessoas iam para o cu quando morriam. Ento, mame. . . O menino estancou, a boca subitamente seca, o corpo coberto de suor.
Por que Charles havia parado justamente ali, diante do prdio da

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Avenida Raspail, onde Camille havia morado? La evocou a jovem abrindo-lhe a porta de casa com aquele seu doce sorriso que a deixava to tocante. As mos de La e da criana, enlaadas, muito apertadas, eram apenas uma. Charles ergueu os olhos e a jovem baxou o seus. Devagar, sem o largar, agachou-se at ficar na altura do menino e o apertou nos braos durante muito tempo.
Um oficial alemo, seguido do ordenana, parou olhando a cena com expresso de ternura.
- Tenho um filho da idade dele. Mas esse no tem a sorte do seu. A me foi morta num bombardeio junto com a minha filha mais velha - disse ele, exprimindo-se em francs correto, mas elaborado, ao mesmo tempo que acariciava a cabea de
Charles.
O garoto deu um pulo como se houvesse recebido uma pancada.
- Boche nojento! - exclamou. - No me toque!
O oficial empalideceu e retirou a mo. O ordenana avanou para o pequeno.
- Est insultando o capito?
- No tem importncia, Karl.  natural que os franceses no gostem de ns. Desculpe, minha senhora, mas deixei-me levar pelo sentimento. Por um momento eu me esqueci dessa guerra que tanto mal tem causado aos nossos dois pases. Mas tudo acabar em breve. Adeus, minha senhora.
O oficial bateu os calcanhares e, com grandes passadas, dirigiu-se para o hotel Lutrcia, sobre o qual continuava tremulando a bandeira da cruz gamada.

Captulo 14

NESSA TARDE DE 15 de agosto, havia uma verdadeira multido acotovelando-se sob as rvores do jardim de Luxemburgo e em volta do lago, onde balanavam os barcos de aluguel. Os transeuntes passavam em frente do Senado sem olhar para o edifcio, ignorando as sentinelas atrs dos seus sacos de areia e das barreiras de arame farpado.
Crianas e suas mes aguardavam o fim de uma sesso do espetculo de fantoches para entrarem por sua vez. O carrossel era tomado de assalto assim como os veculos puxados por burros e pneis. Podia-se acreditar que fosse uma quinta-feira ou um domingo de junho, em plena poca escolar, tal era o nmero de crianas. A maior parte delas fora privada das frias devido  greve dos ferrovirios e, sobretudo, por causa dos combates que se travavam cada vez mais perto da capital.
A brincadeira favorita dos dez aos doze anos de idade era a guerra, mas todas as crianas queriam ser francesas, ningum se oferecendo para desempenhar o papel de alemes. Os jovens chefes de grupos viam-se obrigados a tir-los pela sorte e era sem convico que os "alemes" se batiam contra os "franceses".
Aps trs voltas no carrossel e sem conseguir apanhar a argola com o basto, Charles pediu um sorvete. Na entrada do jardim, que dava para Saint-Michel, um sorveteiro com um soberbo carrinho de cores vivas, em forma de carruagem, tinha sorvetes ditos "de morango". La comprou dois.
No coreto, msicos de uniformes verdes tocavam valsas de
Strauss. Em algumas rvores estavam afixados cartazes amarelos pretos, assinados pelo novo governador militar de Paris, o general Von Choltitz, com apelos de calma  populao parisiense e anunciando que seriam tomadas medidas repressivas muito severas e brutais, em caso de desordens, sabotagens ou atentados.
Mas a maior parte dos transeuntes que liam tais panfletos limitava-se a sorrir - ao meio-dia, o rdio comunicara o desembarque aliado em Provence. Algumas pessoas garantiam que os americanos estavam nas portas de Paris, pois tinham ouvido o som dos canhes. Outras vinham de Notre-Dame, onde tinham assistido  cerimnia comemorativa do juramento de Lus XIII, apesar da proibio imposta pelo general Von Choltitz.
Desafiando a proibio, os parisienses haviam acorrido em grande nmero ao apelo dos bispos. Era tanta gente que transbordava do templo para o meio da praa, comprimindo-se em frente do prtico principal onde, sobre um palanque, se desenrolava uma cerimnia idntica  celebrada no interior. Enquanto isso, a procisso saa por um dos prticos laterais e voltava a entrar pelo outro.
Com fervor, a multido respondia s oraes proferidas por um missionrio do alto do palanque: Santa Joana d'Arc, libertadora da Ptria. . . rogai por ns. Santa Genoveva, protetora de Paris.
rogai por ns. Santa Maria, Me de Deus, padroeira da Frana. rogai por ns...
O missionrio suspendera a ladainha por instantes para ouvir o que um padre lhe dizia. Os que se encontravam mais perto da plataforma viram, ento, seu rosto se iluminar. Muitos deles caram de joelhos quando, em voz vibrante, o religioso gritou:
- Anunciam-nos que as tropas aliadas desembarcaram em Provence. Oremos, carssimos irmos, para que Marseila e
Toulon sejam poupadas da destruio. Pai nosso que estais no cu, santificado seja o Vosso nome, seja feita a Vossa vontade.
A emoo atingiu o auge quando o cardeal Suhard pronunciou um pequeno discurso improvisado, em que falava da ltima provao a atravessar.
Alguns soldados alemes postados em frente do Hotel-Dieu e da Prefeitura, assistiam impvidos ao desenrolar dos acontecimentos. E, coisa curiosa!, no havia nenhum guarda nas proximidades:
a polcia parisiense estava em greve desde a manh, em protesto ao desarmamento dos seus colegas dos comissariados de Asnires e de Saint-Denjs.
No dia seguinte ao da Assuno, reapareceu o Je Suis Partout, que fora suspenso, anunciando para sexta-feira, dia 25 de agosto, a publicao do seu prximo nmero.
Caminhes repletos de policiais comearam a abandonar a capital em direo leste. Pela avenida da Opera, Campos Elseos e Saint-Michel, soldados alemes desfilavam diante da populao que os fitava com ironia.
 comeo do fim, comentava-se.
No dia 17, a alegria popular atingiu o auge ao ver os carros de assalto, os caminhes, as ambulncias, os veculos sobrecarregados, cheios de alemes de olhares apticos e rostos vincados. Atrs deles, vinham os veculos mais heterogneos: carroas, carros puxados por cavalos, triciclos e mesmo carros de mo que transportavam os despojos:
aparelhos de rdio, mquinas de escrever, quadros, sofs, camas, males, malas e, coroando tudo aquilo, os inevitveis colches, lembrando aos parisienses o seu prprio xodo pelas estradas da Frana.
Ah, que prazer ver se arrastar os resduos do exrcito invencvel! Onde estariam os soberbos e bronzeados conquistadores do ms de junho de 1940? Que fora feito dos uniformes de aspecto impecvel?. . . Usados em quatro anos de campanha nas estepes russas? Nos desertos africanos? Ou, ainda, nas cadeiras do Hotel Meurice? Do Crillon? Ou do Intercontinental?
As pessoas instalavam-se nos bancos dos jardins dos Campos Elseos para presenciar comodamente a retirada, entretendose em contar os carros e as caminhonetes. E os sorrisos no desapareciam quando passavam a p soldados jovens demais ou velhos demais, mal ajambrados em jaquetas pequenas ou grandes demais, a barba por fazer, desalinhados, arrastando suas armas ou com os braos atravancados de vveres ou de tecidos, que alguns no hesitavam em vender  populao.
Laure e La pedalavam ao longo das plataformas do Sena. Pairava no ar uma espcie de euforia, no obstante a tenso reinante em certos bairros, o rudo dos motores, os gritos, a fumaa da documentao da Gestapo e das administraes que se queimava mesmo no pavimento das ruas, o nervosismo dos fugitivos e o toque de recolher s vinte e uma horas.
Um automvel comprido ultrapassou as duas irms. Dentro dele algumas jovens excessivamente loiras e excessivamente elegantes, comprimiam-se a um general de monculo.
Os pescadores e os banhistas haviam marcado encontro nas margens do Sena. No rio, veleiros oscilavam suavemente  luz crua do vero. A cidade inteira esperava.
As duas se viram foradas a desmontar para atravessar a ponte Royal, interrompida por barreiras de arame farpado.
Na rua da Universidade, Charles esperava La, impaciente para lhe dar o desenho em que trabalhara desde o incio da manh.
Esteile lamentava-se de suas pobres pernas cheias de varizes por causa das filas. Lisa estava muito excitada - ao meio-dia, ouvira na emissora inglesa a notcia de que os americanos j se encontravam em Rambouillet. Albertine parecia preocupada.
Graas s reservas de Laure, o jantar, constitudo por sardinhas em conserva no azeite e num autntico po de centeio, lhes pareceu divino. A energia eltrica voltou desde as 22 horas e meia, at a meia-iioite, trazendo a Lisa, uma decepo, afinal os americanos no estavam em Rambouillet mas em Chartres e em Dreux.
Pouco antes do toque de recolher, alguns SS dispararam rajadas de metralhadoras contra os panacas que observavam funcionrios alemes retirando documentos do Trianon-Hotel, na rua Vaugirard. Na praa da Sorbonne e na avenida SaintMichel, diversas pessoas ficaram feridas ou morreram por esse mesmo motivo.
O sono dos parisienses foi perturbado pela exploso dos depsitos de munies que os ocupantes explodiram antes de se retirarem.
- Esta manh no h jornais - disse a La o dono do quiosque instalado diante do Deux-Magots, em Saint-Germain. - As coisas vo mal para os colaboracionistas. Olhe para a cara daquele tipo de culos!  Robert Brasillach! Vai tomar o seu caf no Flore. Seu aspecto nunca foi muito bom, mas faz dois dias que tem um ar francamente doente. Em seu lugar, eu iria embora junto com meus amigos boches.
Ento era ele esse Brasillach a quem Raphal Mahl se referia com tanta admirao! Parecia um menino doente.
La tambm se instalou no terrao, no muito longe do escritor, e pediu um caf. O velho garom, protegido por um longo avental branco, informou-a que no poderia servir nada quente por causa do corte de gs. Ela teve de se contentar com um diabolo-menthe, infecto.
Na mesa vizinha, um homem de uns trinta anos, alto e moreno, usando pesados culos de mope, escrevia num caderno com uma caligrafia redonda e aplicada. Um jovem loiro e de aspecto frgil veio sentar-se junto a ele.
- Viva, Claude! J trabalhando?
- Bom dia, Claude. Se quer assim. Quais so as novidades?
- Ontem houve muitos incidentes no bairro. Os alemes andaram atirando na rua de Buci, em Saint-Germain.
- E houve mortos?
- Sim, alguns. Como vai o seu pai?
- Bem. Est em Vmars e irei v-lo amanh.
Detonaes abafadas impediram La de continuar a seguir a conversa entre os dois.
- Os depsitos de munies - disse um deles.
- Incendiaram entrepostos por detrs da Torre Eiffel e diversos cafs. O fim est prximo. Os colaboracionistas fogem como ratos. Nunca mais ouviremos a voz de Jean Hrold-Paquis, o Rdio-Joarnal se acabou. Os Luchaire, os Rebatet, os
Bucard, os Cousteau e os Bonnard, ditos gestapistas, esto agora a caminho da Alemanha. S ficou este e bem que eu gostaria de saber por qu
- disse o homem loiro, designando Brasillach.
- Talvez por causa de certa noo de honra. No consigo mais odi-lo, ele me d pena.
- E por que o odiava?
- Ora, uma velha histria por causa de um artigo ignbil sobre meu pai, publicado em 1937.
- Ah, eu me lembro! Intitulava-se "A idade crtica do sr. Mauriac".
- Isso mesmo, as baixas injrias de Brasillach me magoaram profundamente. Eu quis lhe quebrar a cara.
La colocou o dinheiro sobre a mesa e ergueu-se. Os dois homens seguiram-na com os olhos.
- Bonita moa!
- Sim, muito bonita!
Sem as exploses distantes dos depsitos de munies, aquele final de manh, de cu um tanto pesado, do dia 18 de agosto de 1944, teria parecido um banal fim de manh de vero.
Tudo estava calmo. Os transeuntes, pouco numerosos, tinham o passo lento dos turistas. Jovens passavam de bicicleta, sorridentes, em seus vestidos claros.
Diante da igreja de Saint-Germain-des-Prs, um grupo de jovens discutia com animao. Na vitrine da livraria do Divan, alguns exemplares envelhecidos da revista de Martineuau acabavam de amarelar. No pequeno largo prximo da igreja, uma velha desdobrava um jornal com comida para gatos, talvez a sua mesmo, colocando-a junto ao tronco de uma rvore.
- Bichano.., bichano... - chamava ela. - Venham, meus meninos.
Na praa Furstenberg, os mendigos disputavam entre si os ltimos tragos de um vinho de m qualidade. Na rua de Seine, dois zeladores no limiar das portas no paravam de falar sobre os acontecimentos da vspera.
As bancas de frutas e de legumes no cruzamento com a rua de Buci estavam desesperadamente vazias, o que no impedia a formao de filas de donas-de-casa resignadas. A rua Dauphine estava deserta. Na rua de Saint-Andr-des-Arts, meninos se perseguiam armados de pedaos de pau em guisa de pistolas, escondendo-se nos recantos do Ptio de Rohan.
- Pum.. . pum...! Renda-se ou morre!
Sem destino, La continuava a errar pelas ruas. Viu-se na praa Saint-Michel. Havia um aglomerado em volta de um pltano. Aproximou-se, abrindo caminho com os cotovelos. Preso  rvore, havia um cartaz branco, ostentando as bandeiras tricolores entrelaadas. Leu:
Governo Provisrio da Repblica Francesa.
Os aliados esto s portas de Paris. Preparem-se para o derradeiro confronto com o invasor! Os combates j comearam em Paris. Esperem as ordens para agir, ordens que sero transmitidas por cartazes ou pelo rdio. Os combates tero lugar por bairros.
Nem um s parisiense desconhecia que nos prximos dias ou mesmo nas prximas horas iria assistir  libertao de sua cidade ou  sua destruio. Alguns habitantes preparavam-se ativamente. A maioria decidira no sair de casa e aguardar a retirada dos alemes para manifestar sua alegria.
La, por sua vez, oscilava entre o dio e o medo, entre a vingana e o esquecimento. Passava de um sentimento a outro com uma rapidez que lhe esgotava os nervos. Suas noites agitadas ou insones haviam deixado suas marcas em volta dos olhos, aos quais o cansao conferia uma limpidez de malva. As mechas dos cabelos puxados para cima acentuavam a nova fragilidade de seu rosto.
Teria de reagir e entrar em contato com os elementos dessa rede de que lhe falara o jovem mdico de Langon, que os havia apanhado pelo caminho, conduzido a Bordus e posto num dos ltimos trens que partiam para
Paris. Viagem movimentada, que havia durado dois dias, por causa dos cortes na estrada de ferro e dos bombardeios que obrigavam os passageiros a fugir dos vages para se deitar nos campos. Maquinalmente,
La havia seguido os outros, indiferente aos perigos assim como s queixas de Charles, que no soltava sua mo.
A acolhida calorosa das tias e das irms no diminura seu desinteresse por tudo. Apenas a voz de Ruth a havia tirado de sua apatia. As lgrimas que ento derramara fizeram com que reencontrasse um pouco de seu desejo de viver, sem, no entanto, lhe restiturem a autoconfiana, o que antes era a sua fora.
At o anoitecer, La vagou numa Paris tensa pela espera. Um pouco antes da hora do toque de recolher, a fome a fez regressar  rua da Universidade, onde Estelie apenas pde apresentar-lhe um pouco de pur frio e um pedao de camembert farelento.
Albertine de Montpleynet, enfim tranqilizada, no a censurou pela ausncia to prolongada. Charles, que se recusara a ir para a cama sem que La chegasse, adormeceu segurando sua mo.
Os pesadelos fizeram com que La ficasse acordada uma parte da noite. S ao amanhecer eles lhes deram algum descanso.

Captulo 15

- ACORDE! ACORDE!
Sacudida por Laure, La soergueu-se e olhou para a irm com ar perplexo.
- Acorde, La! As Foras Francesas do Interior tomaram a Delegacia. H combates de rua por toda a cidade. Os americanos esto chegando. V se vestir!
Laure gesticulava pelo quarto, arquejante.
- Mas que histria  essa?
- Os gaulistas ocupam a Delegacia de polcia. Os policiais tambm esto lutando.
- Quem te falou isso?
- Franck, um amigo meu que voc no conhece. Mora num apartamento enorme em Saint-Michel, que d para a avenida e tambm para a rua Huchette. Ele me telefonou. Esteve danando e bebendo durante toda a noite com alguns amigos. Por causa do toque de recolher, todos dormiram em sua casa. Quando Franck foi fechar as persianas, l pelas sete da manh, viu homens sozinhos ou aos pares dirigindo-se para Notre-Dame. Intrigado pela quantidade deles, Franck se vestiu novamente e foi para a rua. Ele os seguiu e chegou ao adro da catedral, onde mil, duas mil pessoas esperavam, conversando em voz baixa. Pelo que ouviu, Franck compreendeu que eram policiais  paisana. Depois chegou uma caminhonete e foram distribudas espingardas e cinco ou sete metralhadoras aos agentes. Uma palavra de ordem deve ter sido dada, pois avanaram para a grande porta da delegacia. Franck os acompanhou. A porta abriu-se e a multido invadiu o ptio em silncio. Um homem alto, com um terno pied-de-poule e tarja tricolor, gritava, empoleirado no cap de um carro: "Em nome da Repblica, em nome do general de Gaulle, tomo posse da
Delegacia de polcia!". Os homens-de sentinela deixaram-se desarmar sem resistncia. Iaram a bandeira entoando a
Marselhesa. Franck, que no  nem um pouco sentimental, disse que quase chorou. Parece que nomearam um novo delegado, Charles Lizet, eu creio. Venha, vamos at l, vai ser divertido.
- Divertido? No, de fato. Interessante talvez - disse La, levantando-se da cama.
- Voc dorme nua?
- Esqueci de trazer camisola quando vim para c. Agora me deixe. Quero me arrumar.
- Veja se se apressa. Espero por voc na cozinha.
- Est bem. Mas no diga nada s tias.
-  claro que no. No sou louca!
Os soldados alemes, de capacetes, que passavam pela avenida Saint-Germain, sobre uma caminhonete descoberta, de espingardas e de metralhadoras grudadas ao corpo, saudaram com gritos as duas jovens de bicicletas quando as ultrapassaram na altura da rua do Bac.
- No parecem muito assustados - disse La, virando-se para trs.
Agora deserta, a avenida estendia-se  sua frente. Na esquina da rua do Dragon, um alemo lhes apontou a metralhadora.
- Desapaream ou disparo!
Sobre as mesas do Deux-Magots e do Flore, xcaras e copos meio cheios aguardavam a volta dos clientes, refugiados no interior dos cafs. Na rua de Rennes, algumas pessoas corriam em todas as direes. Ouviu-se uma curta rajada e duas delas caram. Em Mabilion, jovens de camisa branca, com tarjas da Cruz Vermelha, correram no sentido do tiroteio.
Um tanque barrava o caminho na encruzilhada do Odeon. La e Laure viraram para a rua de Buci. As portas de ferro da maioria das lojas estavam fechadas, e os donos dos cafs recolhiam as cadeiras s pressas. Cruzaram com homens de tarjas tricolores, que seguiam apressados. Um deles disse: - Voltem para casa, isto aqui est perigoso.
Tudo parecia surpreendentemente calmo na rua Saint-Andrdes-Arts, uma zeladora varria a entrada da porta, como em todas as manhs. O livreiro bebia o habitual copito de vinho branco no balco da tabacaria, acompanhado do grfico da rua
Sguier; a mulher que vendia doces limpava os vidros cheios de falsos bombons.
Em Saint-Michel, uns paspalhos olhavam com ar satisfeito para a Delegacia e para Notre-Dame, sobre os quais flutuavam bandeiras tricolores.
Laure e La foram saudadas com gritos ao chegarem ao apartamento de Franck.
- Trouxe minha irm, La, de quem j lhe falei.
- -Fez bem. Bom-dia, La.  verdade que voc  uma herona da Resistncia?
- No se deve acreditar em tudo o que Laure diz. Ela sempre exagera.
- No exagerei nada...
- Fique quieta. No gosto de falar nisso.
- Como quiser. Mas, resistente ou no, seja bem-vinda. Venha ver.
O jovem conduziu La para junto de uma das altas janelas do vasto salo.
- Olhe!  como se estivssemos instalados em camarotes de primeira. Minha me vai sentir muito ter ido para a Touraine.
Por nada do mundo perderia tal espetculo. Tenho a certeza de que convidaria todas as suas belas amigas se estivesse aqui.
Que  que acha? Bela perspectiva, no  verdade?
- Sim, muito boa.
- Tem alguma coisa para comer, Franck? Samos to depressa que no tivemos tempo de comer nada.
- J sabe como : em casa de Franck no falta nada. Alm de po, um pouco duro, alis, h presunto, salsicho, pats, frango frio, alguns doces e vinho, champanhe e usque  vontade.
-  dono de alguma mercearia? - La perguntou secamente.
- Poderia ser, senhorita. Mas prefiro o comrcio de meias de seda, perfumes e cigarros. Voc fuma? Cigarros ingleses ou americanos? A escolher. O qual prefere?
- Americano. Mas, antes, quero comer. Estou com fome.
- s suas ordens. Ei, vocs. . . tragam de comer e de beber  princesa! Vossa Alteza se dignar a beber  sade dos nossos futuros libertadores?
Pela primeira vez desde que havia chegado, La observou o jovem. Tinha um jeito de amigo de infncia, aquele que ouve as confidncias, com quem se partilha os segredos, mas a quem nunca se olha como homem. No muito alto, perdido dentro de um casaco de ombros excessivamente largos, calas curtas demais, deixando  mostra as meias brancas e os inevitveis sapatos de sola tripla do perfeito excntrico. Uma grande mecha de cabelos loiros, penteados segundo os cnones de ltima moda, esmagava-lhe o rosto ingrato, de traos ainda infantis.
Segundo Laure, aquele garoto era um dos reis do desembarao e, sem o conhecimento dos pais, acumulara fortuna trabalhando no mercado negro. Generoso, gostava de presentear os amigos e os amigos dos amigos. Satisfeita com o exame, sem dvida, La dignou-se a lhe sorrir
-  isso, bebamos  libertao de Paris.
Sentada no parapeito da janela, La se surpreendia por estar tomando champanhe nessa cidade insurreta, que se preparava para combater.
Agentes da defesa passiva atravessaram a praa Saint-Michel, gritando que o toque de recolher seria dado s catorze horas.
- No  verdade - garantiu um rapaz, entrando na sala. - Passei pelo meu comissariado e informaram-me de que no sabiam de nada. As Foras Francesas do Interior que o ocupam tambm no sabem de nada. Ora, gente nova! Bom dia, eu me chamo
Jacques.
Bom-dia. E eu, La. De onde vem?
- Um pouco de cada lugar. H muitas prefeituras em poder de comunistas,
- Como sabe?
- So os boatos que correm por a. Os comunistas so os nicos suficientemente organizados e armados. H postos de socorro com a bandeira da Cruz Vermelha montados na rua Rivoli, na rua do Louvre, no Chatelet, na Rpublique e na avenida
Grande-Arme. Comeou tambm a caa s armas. Quem dispe de uma faca alivia um soldado alemo de sua pistola ou de seu fuzil, com o fuzil, apodera-se de uma metralhadora e, com a metralhadora, consegue um caminho de munies que distribui entre os camaradas. Um boche para cada um  a palavra de ordem entre os novos recrutas.
- Tambm vai lutar? - perguntou La.
- E por que no? Seremos os heris de amanh. Pensarei no caso depois de comer alguma coisa.
Todo o grupo, cinco rapazes e trs moas, instalou-se na cozinha, onde Laure e Muriel, uma bela loira, tinham posto a mesa.
- E que tal um disco? Seria mais divertido.
- Claro. Pe as irms Andrews - disse Muriel.
- De acordo. Que cano voc quer?
- Pode ser Pennsylvania Polka ou Sonny Boy.
- Como conseguiram arranj-los? - perguntou La, admirada. - Pensei que a msica americana fosse proibida.
- Temos as nossas influncias. Ns lhe diremos quando a guerra terminar.
As vozes das irms Andrews irromperam pela casa. A refeio decorreu alegremente, cada um dizendo o seu gracejo, a sua palavra espirituosa. Eram todos to jovens e despreocupados que La se surpreendeu a rir com suas piadas, sob o olhar aprovador de Franck, que voltou a encher seu copo de vinho.
Depois, o dono da casa levantou-se para dar corda no gramofone. Em meio ao relativo silncio, ouviram-se diversos disparos.
- Venham depressa! Os alemes esto atacando.
Todos correram para as janelas.
Na avenida do Palais, os ocupantes de trs caminhes atiravam contra a porta da Delegacia e trs carros de assalto rumavam em direo de Norte-Dame. Disparos partiram do Palcio da Justia e da Delegacia, abatendo alguns agressores.
Em seguida, os caminhes desapareceram rumo ao Chatelet. Morteiros explodiram. Pouco depois, outros caminhes pararam na avenida do Palais. De onde se encontravam, os jovens viram homens em mangas de camisa, armados de espingardas e de pistolas, esconderem-se na entrada do metr e do caf do Dpart, em cuja porta instalaram uma metralhadora.
Seu primeiro alvo foi um caminho vindo da ponte Saint-Michel. Feriram um soldado. Este tombou em cima da cabina do veculo, deslizando depois para o piso da rua, O caminho deteve-se, enquanto um outro ia esmagar-se contra a Rotisserie
Prigourdine, na esquina da plataforma dos Grands-Augustins, saudado pelos gritos de alegria dos espectadores.
Elementos das Foras Francesas do Interior corriam para recolher os corpos, abrigando-os nas escadas de acesso ao Sena, sob os olhares interessados dos banhistas que se bronzeavam na margem oposta, encostados ao muro da plataforma dos
Orfvres.
Na direo de Chatelet, subia uma fumaa negra de um caminho incendiado. Um veculo marcado com o V da vitria e a cruz de Lorraine virou para o cais Saint-Michel com forte rangido de pneus, seguido por uma ambulncia e por um carro de bombeiros.
No adro de Notre-Dame, trs tanques preparavam-se para investir contra a Delegacia.
- No conseguiro se agentar - prognosticou Franck. - Mal dispem de munies e no ser meia dzia de sacos de areia que os proteger dos morteiros.
Um grupo de adolescentes passou correndo pela plataforma, transportando uma velha metralhadora que Franck identificou como sendo uma Hotchkiss. Un deles tinha uma tira de balas em volta do pescoo. Chamava-se Jeanot, tinha quinze anos e no sabia que iria morrer pouco depois na plataforma de Montebeilo, a garganta aberta por um projtil.
Uma garrafa incendiria, atirada de uma das janelas da Delegacia, aterrissou em cima da pequena torre aberta de um tanque, que se inflamou instantaneamente. Os gritos de regozijo dos sitiados atravessaram o Sena, misturando-se aos dos habitantes do cais Saint-Michel que, apoiados em suas janelas e inconscientes do perigo, no perdiam nenhuma pitada do espetculo.
Surgiu um grupo de prisioneiros alemes escoltados por elementos da Foras Francesas do Interior. Na praa, um transeunte foi atingido por uma bala perdida. Um alemo coberto de sangue rodopiava, disparando para o ar. Um projtil fez sua cabea explodir. Durante segundos terrivelmente longos, ele continuou a avanar, s depois tombando no meio da calada. La foi a nica a no desviar os olhos.
Uma grande exploso sacudiu todo o bairro: um caminho-tanque, transportando gasolina, acabava de se chocar contra a parede do Hotel Notre-Dame. As chamas incendiaram o toldo e subiram pela fachada do edifcio. Alguns F.F.I.
abandonaram seus postos para tentar desviar o veculo e proteger o velho prdio. Felizmente, muito rpido, se ouviu a sirene dos bombeiros.
Aproveitando um momento de calma, um dos rapazes do grupo decidiu dar uma volta. Voltou depois de uma hora, informando que fora decidida uma trgua para se recolherem os mortos e os feridos. A boa notcia foi saudada, como convm, com a abertura de uma garrafa de champanhe, a qual depois de esvaziada foi se juntar s suas irms dentro de uma banheira.
A noite anunciava-se pesada e tempestuosa. Os parisienses tinham retomado posse das ruas da capital e passeavam, detendo-se por vezes junto a uma poa de sangue j meio seca, subitamente silenciosos e meditativos.
- Ai! No avisamos as tias! - exclamou Laure, lanando-se em direo do telefone.
Acima do Pont-Neuf, o cu ficava cada vez mais ameaador.
- Tia Albertine quer que a gente volte para casa imediatamente. Parece que Charles est com febre muito alta.
- No chamaram o mdico?
- No respondem na casa do dr. Leroy e os outros mdicos se recusam a sair de casa.
- Est bem, ento eu vou. Voc vem comigo?
- No. Fico aqui. Se precisar de mim, telefone. Quer dar o nmero de seu telefone para La, Franck?
- Claro que sim. Eu a acompanho - ofereceu-se o rapaz. - Estarei de volta em menos de meia hora. Vou com a sua bicicleta,
Laure.

Captulo 16

LA PASSOU TODA a noite  cabeceira da criana que delirava. Pela manh, embrulhou-a num cobertor, pediu emprestado  zeladora o carrinho de beb caindo aos pedaos, onde deitou o menino, e dirigiu-se ao hospital mais prximo.
O cu ainda no estava coberto pelas nuvens negras da tempestade anterior. Do piso molhado subia um cheiro de p. No havia ningum nas ruas nessa manh de domingo, que o silncio opressivo tornava inquietantes.
No hospital Laennec, na rua de Svres, um interno de planto ocupou-se da criana. Manifestamente incapaz de saber qual a doena que Charles sofria, o mdico aconselhou a deix-lo ali at a chegada do professor, e a voltar mais tarde. Diante de sua recusa em abandonar a criana, levou-os ento para um quarto com duas camas, depois de ministrar um medicamento ao pequeno doente.
J era tarde quando La despertou ao som de uma voz.
- Ora bem, a mocinha tem um sono profundo!  seu filho?
- No, no  meu.
- Onde esto os pais?
- O que ele tem, doutor?
- Uma forma de laringite aguda, complicada por um princpio de congesto pulmonar.
-  grave?
- Pode ser. Seria conveniente intern-lo.
- E no  possvel?
- Grande parte do pessoal est fora. Mas no respondeu  minha pergunta: onde esto os pais da criana?
- A me foi morta pelos alemes e o pai est com o general de Gaulie - explicou La.
- Pobre pequeno
- La. . La..
- Estou aqui, meu querido.
Charles agarrou-se a ela, gemendo. O mdico observava-os com ar preocupado.
- Leve-o para casa e siga  risca o que vou prescrever. Sabe dar injees?
- No sei.
- No faz mal. Aprender logo.
- Mas...
- .No  muito complicado.
A porta do quarto abriu-se de repente.
- Chegaram algumas crianas feridas, doutor.
- Com gravidade?
- Ferimentos no ventre e nas pernas.
- Vou j. Leve-as para a sala de operaes. Est vendo, senhorita? Era isto que eu receava. . . a chegada de feridos quando no dispomos de pessoal suficiente para atender os enfermos.
O mdico acabou de redigir a receita e disse:
- Na entrada, pea  enfermeira o endereo da farmcia de planto e deixe-me o seu endereo. Tentarei passar por sua casa amanh ou mandarei um de meus colegas.
- Doutor, ele. . . no vai..
- Esteja descansada.  um homenzinho forte, muito capaz de sobreviver a tudo isto. D-lhe os remdios pontualmente e vigie sua temperatura.
Durante os trs dias seguintes, La dormiu apenas algumas horas, completamente alheia ao mundo exterior, vivendo ao ritmo da respirao da criana. Preces ingnuas brotavam de seus lbios plidos. Suas mos j no tremiam ao aplicar as injees. Ao amanhecer do dia 23 de agosto, a febre diminuiu. O rapazinho, emagrecido, disse em voz fraca:
- Estou com fome.
La o cobriu de beijos e ele sorriu com ar cansado, mas feliz.
- O que est acontecendo? - perguntou Albertine, empurrando a porta do quarto.
 maravilhoso, tia! Charles est curado: pediu comida.
- De fato,  uma boa notcia. Felizmente Laure conseguiu desencartar um pouco de leite e biscoito. Vou dizer a Esteile que os traga.
O garoto triturou um biscoito e bebeu metade do leite, voltando a adormecer instantaneamente sob os olhares enternecidos das quatro mulheres, que abandonaram o quarto na ponta dos ps.
Tem gua? - perguntou La. - Estou com vontade de tomar um banho.
- Tem. Mas fria, como sempre.
Fria? Ela estava verdadeiramente muito fria. Mas, mesmo que estivesse ainda mais fria, La teria se banhado com o mesmo deleite, a fim de se desembaraar da angstia que, como a sujeira, colava  sua pele desde o instante em que sentira a morte rondando Charles. Obstinando-se em salv-lo, pressentira os momentos mais crticos, aqueles em que o corpo se despoja de suas defesas, e, tal como uma feiticeira, insuflara nele a prpria energia atravs das mos. A tenso a esgotara. Sabia agora, porm, que a criana estava salva.
A angstia e o cansao dissolviam-se na gua que arrepiava sua pele. Em movimentos vigorosos, esfregou o corpo com a luva de crina ensopada na espuma do sabonete com perfume de junquilho, presente de Laure. No dispunha de shampoo, lavou os cabelos com sabo e depois molhou-os em gua com vinagre, para deix-los brilhantes.
Sem indulgncia, examinou-se no espelho do mvel de madeira dourada, que dava um toque de luxo no singelo banheiro de ladrilhos brancos.
- S tenho pele e osso - comentou em voz alta.
Havia emagrecido muito, sem dvida, mas a imagem refletida no espelho estava longe de a desagradar. Com complacncia, acariciou os seios de pontas endurecidas pelo frio, arqueou os rins e pensou ouvir a voz de Franois Tavernier exclamando com admirao: Que belo cu! Enrubesceu a tal lembrana, percorrendo-a um arrepio de prazer. Enrolou-se no roupo grosso e secou os cabelos com energia. Nesse instante, o telefone tocou no vestbulo.
- Laure quer falar com voc - gritou Albertine do outro lado da porta.
- J vou.
Com os cabelos em desalinho, La pegou no fone.
- Al? La? Tia Albertine me disse que Charles est melhor.  verdade?
- Sim. J no tem febre. Comeu alguma coisa esta manh. Voc poderia conseguir mais leite?
- Est cada vez mais difcil, com a greve geral. Os caminhoneiros se recusam a viajar pelo interior, O abastecimento de vveres no est assegurado, exceto no que diz respeito  carne, graas s Foras Francesas do Interior, que se apossaram de trs mil e quinhentas toneladas armazenadas pelos alemes nos frigorficos de Bercy e de Vaugirard. Posso arranjar, mas preciso de senhas, pois, neste momento, a fiscalizao anda de olho no mercado negro.
- Passo por a para lev-las.
- Tenha cuidado! A situao j no  a mesma desde sbado. No Quartier Latin houve muita luta ontem e anteontem. H barricadas por toda a parte, policiais e alemes emboscados nos telhados disparando sobre os transeuntes. Todos os dias, se empilham centenas de mortos no necrotrio. Com este calor, no  difcil imaginar o cheiro em Norte-Dame-de-Victores, onde se celebram as missas.  l que ficam as urnas, enquanto no so levadas para o cemitrio de Pantin, onde so enterradas na quadra destinada aos rebeldes. O pessoal da Cruz Vermelha tem sido formidvel! No s socorrem os feridos como substituem os empregados das agncias funerrias que esto em greve. Tem notcias de Franoise?
- No... Acho que no.
- Estou preocupada com ela. Ontem na praa Saint-Michel, a multido linchou um colaboracionista. Foi um espetculo horrvel. As mulheres eram as mais ferozes. Bateram-lhe com tudo o que tinham a mo, soltando gritos histricos.
Contaram-me que furaram os olhos dele com uma travessa de cadeira quebrada. Deve ter sido horrvel. E os gritos!. . . O mais insuportvel, porm, eram esses panacas que se divertiam com o espetculo, rindo e impedindo que os elementos das
Foras Francesas do Interior se aproximassem. Quando se cansaram de bater, desapareceram com as mos e as roupas sujas de sangue, deixando na calada uma massa informe. Al? Ainda est a?
- Sim, estou. Mas por que est me falando isso? Que relao pode ter com Franoise?
Foi a vez de Laure ficar quieta, enquanto La gritava:
- Al? Al? Est me ouvindo?
- Sim.
- E ento?...
- Tambm prendem as mulheres que dormiram com alemes.
- E que  que lhes fazem?
- Parece que raspam seus cabelos.
- Raspam os cabelos?!
- Sim. Isso j aconteceu em alguns lugares. Depois prendem os cabelos nas grades e pintam cruzes gamadas nos crnios.  mais freqente com prostitutas ou com as galinhas denunciadas por vizinhos.
- Franoise no  nada disso! .
Eu sei. Mas voc acha que eles iro se questionar? Tenho esperana de que Franoise tenha seguido os meus conselhos e agora esteja a caminho da Alemanha com o filho.
- Telefonou para a casa dela?
- Claro que telefonei. Mas ningum respondeu. A ltima vez que falei com ela foi na segunda-feira de manh. Tinha acabado de receber a visita de um oficial que ia busc-la para lev-la a um hotel requisitado pelos alemes. Esto levando para l todas as mulheres na mesma situao que ela. Mas ela se recusou a segui-lo.
- Qual  o hotel?
- No sei. No guardei o nome.
- Nesse caso, temos de telefonar para todos.
- Voc sabe quantos hotis existem em Paris, La?
- No, mas no importa. Em primeiro lugar, telefonaremos para todos os que constem do Michelin. Sabe se Franck tem algum desses guias?
Tem. .. acho..
- Enquanto no chego a, comece pelos hotis que esto em ltimo lugar. Vou pedir as tias que telefonem para os primeiros da lista e que nos avisem se acaso obtiverem algum resultado. At j.
- Tenha cuidado...
La j havia desligado.
As senhoras de Montpleynet ficaram muitssimo preocupadas quando ela explicou a situao, mas Albertine se recomps rapidamente, e comeou a dar telefonemas.
- Al?  do Crilion?
- Ora, tia Albertine, eu me surpreenderia se Franoise estivesse no Crilion, no Majestic, no Meurice, no Continental ou no
Luttia, todos ocupados por reparties alems.
A rua da Universidade estava completamente deserta. Diante da Faculdade de Medicina, na rua dos Saints-Pres, via-se a carcaa enegrecida de um caminho, ostentando a cruz de Lorraine. Na rua Jacob era a mesma tranqilidade.
La ia virar para a rua de Seine, a fim de atingir o cais pela rua Gungaud, quando se lembrou da priso de Sarah Muistein.
No havia mais passado por ali depois daquela noite fatdica.
Continuou em direo  rua de Buci. Em frente da padaria, uma enorme fila de donas-de-casa arrastava-se desde o amanhecer. Apesar do cansao e do abastecimento precrio, circulava no meio daquela gente uma espcie de bom humor que no se via h quatro anos, como se a atmosfera de Paris estivesse mais leve.
Na rua Dauphine, um jovem, de espingarda a tiracolo e um pacote de jornais debaixo do brao, pedalava sua bicicleta, gritando:
- Comprem o L'Humanit! Quer o jornal, senhorita? - ele perguntou, parando junto de La.
- J esto publicando jornais novamente?
- Desde segunda-feira. Aqui est! So dois francos. Obrigado. No v para o pont-Neuf - recomendou o rapaz. - Os alemes esto atacando atrs de barricadas. H pouco, uns bandidos que seguiam numa viatura com as iniciais das Foras Francesas do Interior dispararam sobre patriotas e mataram dois. Os boches fugiram pela rua Christine. At logo!
La encostou-se num porto e comeou a ler:
Paris inteira s barricadas!. . . O comandante das Foras Francesas do Interior para a Grande Paris conclama o levantamento geral dos parisienses. . -  necessrio que todos, homens, mulheres e crianas, colaborem na fortificao das ruas, dos prdios, dos edifcios pblicos; que toda a populao participe com coragem e abnegao, no apoio s gloriosas Foras Francesas do Interior. Formem, onde quer que estejam, grupos de Lutas
Patriticas! O ataque  a melhor defesa. Persigam o inimigo!. -. NEM UM S BOCHE DEVE SAIR VIVO DA
PARIS AMOTINADA!
A batalha se desenvolve em todas as frentes. . . A luta tem prosseguido feroz durante todo o dia, no primeiro, quarto, quinto e sexto bairros, e por toda a parte os patriotas levam vantagem. . . Guerra de todo o povo contra o boche execrado. . . As mulheres comunistas lutam pela libertao de Paris. . . como uma jovem foi torturada pela polcia. . . Engajem-se no partido armado!
Na praa de Saint-Andr-des-Arts, muita gente se agita, grita. Homens no to jovens, mulheres, muitas mulheres, novas e velhas, todos com a mesma expresso de dio estampada no rosto, o mesmo rito de raiva na boca, vomitando maldies.
Erguem braos nus, com os dedos transformados em garras.
- Patife! Colaboracionista! Nojento! Vendido! Traidor! AssasSino! - grita a multido.
Um homem alto e loiro debate-se no meio dessas frias. Unhas pintadas rasgam-lhe as faces.
- Mas eu sou alsaciano - grita o homem.
- Alsaciano  o olho do cu! - responde uma voz com sotaque parisiense.
A frase fez o povaru rir.
Da janela ocupada por elementos das Foras Francesas do Interior, um indivduo em trajes vagamente militares tenta se fazer ouvir. Uma moa zomba dele encostando o polegar na ponta do nariz. Uma falsa loira, com uma fita preta nos cabelos vocifera:
-  um boche! Eu o conheo. Tenho certeza. Matem-no!
Agarra-o pelos cabelos enquanto uma outra mulher cospe no rosto do infeliz e outra ainda procura lhe desabotoar as calas, ironizando:
Vamos ver se este porco tem ovos.
A multido  sacudida por uma onda de risos e entoa;
- O boche em plo! O boche em plo!
Bestificado, procurando repelir as garras que o aprisionam, o homcm repete:
- Sou alsaciano! Sou alsaciano!
O sangue escorre de seu nariz e das faces. Um de seus olhos est fechado. Cai pela primeira vez. Os pontaps chovem em cima dele. Um dos golpes o atinge no nariz. Ele se ergue.
Um rapaz ostentando uma tarja das Foras Francesas do Interior tenta intervir. Mas trs homens o seguram pelos braos, o levantam e o colocam gentilmente ao lado de La, que no consegue desviar os olhos do massacre. Sem perceber, depois de alguns segundos, ela oscila para a frente e para trs, como em geral fazem os cegos. Em sua cabea, os pensamentos se chocam e explodem em fragmentos desordenados.
Do buraco sangrento onde fora uma boca, sai agora um gorgolejar de palavras:
- Chou... chou... alchachiano...
A nusea obriga La a desviar os olhos. O rapaz da tarja continua seu lado.  muito jovem ainda. Sobre seu rosto plido escorrem lgrimas, deixando um rastro claro. Seus olhares se cruzam.
- La!
- Pierrot!
Atiram-se nos braos um do outro, tremendo de repugnncia e de pavor. La  a primeira a se soltar.
- Vo mat-lo - diz.
- No podemos fazer nada. So muito numerosos.
Voc pertence s Foras Francesas do Interior. . vai buscar os seus camaradas.
- No vo querer vir. Um deles quase foi linchado ontem em lugar do colaboracionista que pretendia defender.
- Que horror!
- No olhe. Venha comigo. Vamos ao PC do coronel Liz na rua Gungaud.
- Mas eu no quero ir  rua Gungaud! - gritou La.
Tamanha veemncia surpreendeu Pierrot Delmas.
- Eu tenho de ir l, Sirvo de agente de ligao entre Liz e Rol.
- Quem  esse Rol?
Pierrot olhou-a com espanto e censura.
- Nunca ouviu falar no coronel Rol?  o chefe da insurreio, o chefe das Foras Francesas do Interior.
- E Liz?
- O coronel Liz  outro chefe. No entendi muito bem o papel dele; histrias de poltica. Tudo o que sei  que Rol  comunista - explicou o rapaz.
- Seu pai ficaria muito satisfeito se o visse nessa companhia - La falou com um sorriso triste.
- No me fale de meu pai; no passa de um colaboracionista. Para mim est morto.
Enquanto conversavam, Pierrot conduzia a prima at a rua Git-le-Coeur. Parou diante da vitrine suja de uma pequena mercearia, subiu trs degraus e bateu  porta.
- Est fechada - resmungou uma voz vinda do interior.
- Abra.  Pierrot... de Bordus.
A porta se entreabriu.
- Ah,  voc! Entra, rapaz. Quem  essa a? Minha prima La.
A mercearia tambm funcionava como restaurante. As paredes estavam cobertas de cromos, de vistas de Epinal, de gravuras, de retratos de Napoleo mais ou menos bem-sucedidos, tudo uniforme- mente revestido por escura camada de sujeira. A sala era dividida por um curto balco de madeira que servia ao mesmo tempo de bar e de mostrurio de eventuais mercadorias, naquele dia representadas por latas de imitao de conservas. Atrs ficava a sala de jantar, com mesas cobertas por toalhas xadrez de branco e vermelho, e um fogo preto, enorme e antigo, com os cobres brilhantes, que, naquele momento, servia apenas como suporte de um fogareiro a lcool, sobre o qual cozinhava alguma coisa cujos eflvios faziam lembrar vagamente coelho guisado. O cheiro foi quase fatal para La.
- Cuidado com sua prima! Vai desmaiar! - gritou a mulher que lhes abrira a porta.
Pierrot ajudou La a sentar-se e a beber o clice de aguardente oferecido pela dona-da-casa. Em suas faces reapareceu um pouco de cor e os objetos voltaram aos seus lugares.
- Est melhor? Toma... beba mais um pouco.
- No, obrigada.
Olhou em volta. O local parecia no ter mudado desde o comeo do sculo. Antes da guerra, talvez ali se comesse bem.
Adivinhava-se isso pelo fogo, conservado com amor. La sentiu-se mais tranqila; quem cozinhava bem no podia ser inteiramente mau. - Devem estar com fome - resmungou a mulher, encaminhando-se para o fogo.
- Se tenho! - exclamou Pierrot, que comera a sua ltima refeio de fato h vrios dias.
- No, muito obrigada, minha senhora - recusou La. - Tomarei apenas um copo de gua.
- Voc faz mal em no comer - disse o primo. - Apesar das restries, a senhora Laetitia cozinha muito bem.
Instalaram-se  mesa, diante do prato fundo cheio de uma espcie de guisado escuro, onde se desprendia espesso vapor.
- No entendo como ainda tem vontade de comer - criticou La em tom irritado.
Sob a sujeira que lhe manchava o rosto, Pierrot corou violentamente. Deixou cair a garrafa que se preparava para enfiar na boca e olhou a prima com ar to infeliz que ela se censurou pela observao.
- Perdoe... Vamos... coma. E conte-me o que tem feito at agora.
De boca cheia, o rapaz contou:
- Quando soube que meu pai pretendia internar-me nos jesutas, com ordem para proibirem as sadas, decidi me reunir aos resistentes. Eu a poupo dos pormenores das viagens, escondido em vages de mercadorias, das noites passadas nas valetas para escapar aos soldados, e das pilhagens que fiz pelos campos. Fui perseguido por policiais na estao de Limoges, mas consegui escapar graas  ajuda dos ferrovirios. Esconderam-me durante vrios dias num velho vago parado numa linha de estacionamento. Mas havia tantos alemes e policiais vigiando todos os passageiros e todos os empregados que no podiam me tirar de l. At que enfim, certo dia, me esconderam no vago de transporte de gado de um trem com mercadorias de partida para Eymoutiers.
- Eymoutiers... No fica em Limousin?
- Fica. Por qu? Conhece?
- No, mas tive uma amiga judia que se refugiou l durante algum tempo. Mas continue.
- Em Eymoutiers, outros ferrovirios ocuparam-se de mim e me levaram  presena do chefe, o coronel Guingouin, a quem chamam o Grande, ou Raul. Que homem aquele!  o terror dos alemes da

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regio. Dirigia tudo a partir do seu PC, na floresta de Chteauneuf. Infelizmente, a chegada do inverno obrigou-nos a abandonar a base de Trois-Chevaux. Foi bem em tempo, porque alguns dias mais tarde trs mil alemes chegaram  floresta.
Eles chamavam esse lugar de Pequena Rssia, de tanto que temiam as emboscadas. Tinham tido muitos mortos ali. Durante os ltimos seis meses, servi de agente de ligao entre as diversas bases. Fiquei conhecendo todas as aldeias, todas as matas. Graas  organizao de Guingouin, estvamos devidamente vestidos e alimentados. Todo o conjunto da populao era a nosso favor. Eu quis acompanh-lo em sabotagens e em ataques a trens inimigos, mas ele dizia que eu era jovem demais para isso. No incio deste ms, enviou-me aqui com uma mensagem para o coronel Rol. A greve e, em seguida, a insurreio impediram-me de voltar.  tudo.
La olhou o primo com admirao. Como havia crescido esse garoto que antigamente a olhava fascinado!
- E voc, desde quando est em Paris?
- Tambm desde o incio do ms.
- Como vai o pessoal de Montillac? Camille tem recebido notcias de Laurent? E a tia Bernadette? E Ruth? E Mathias?
Mas.
que  que voc tem?
De cabea baixa, La esfregava a fronte num gesto maquinal.
- O que voc tem? - repetiu Pierrot, ansioso.
- Camilie e tia Bernadette morreram. Montillac j no existe.
- Que histria  essa?
- Foram mortas pelos alemes e pelos policiais. E depois eles atearam fogo na casa.
Ambos ficaram em silncio durante muito tempo. Um grupo ruidoso irrompeu pela mercearia-restaurante, arrancando-os dos pensamentos ttricos.
- Ah, est aqui, Pierrot? Ns o procuramos por toda a parte. Receamos que o tivessem deixado no mesmo estado a que reduziram o colaboracionista que se dizia alsaciano.
- E quase que aconteceu - interveio La.
O rapaz, pouco mais velho que Pierrot, voltou-se para a moa, surpreendido pela violncia do tom.
-  possvel. Mas a populao sofreu tanto que  natural o seu desejo de se vingar.
- Natural? Acha natural essa carnificina?
- E os boches no se comportam como carniceiros? Sabe quantos camaradas nossos eles assassinaram na cascata do bosque de Boulogne, na semana passada? No sabe? Trinta e cinco rapazes da sua idade! Magisson, dezenove anos. . . Verdeaux, dezenove anos. Smet, vinte. . Scholsser, vinte e dois. . - Dudraisil, a quem chamamos Philo, vinte e um. . . os irmos Bernard, vinte e vinte quatro anos. . . Quer que continue?
- Sei to bem quanto voc do que eles so capazes. J os vi atuar. Mas no  motivo para ser pior que eles.
Mediam-se com o olhar, ambos muito plidos. Pierrot interveio:
- Deixe-a. Ela tem razo.
- Pode ser que tenha, mas no  o momento adequado para dizer.
- Voc vai ver. Nunca ser o momento.
Cale-se, La. Voc vem comigo ao PC do coronel Liz?
- No. Preciso encontrar Laure. Estamos na casa das tias de Monpleynet. Telefone. Gostaria de v-lo de novo e de conversar com voc.
- Eu telefono ou passo por l assim que tiver tempo. Beije Laure por mim.
Separaram-se diante da loja.
La levou quase uma hora para atravessar a praa de Saint-Michel. Atiradores emboscados nos telhados dos prdios disparavam sobre os transeuntes que se arriscavam. Duas pessoas haviam sido abatidas.
Quando, por fim, La chegou  casa de Franck, parecia que um verdadeiro ciclone devastara o local, agora ocupado por uns quinze elementos das Foras Francesas do Interior. Do grupo habitual, restavam apenas Laure, Muriel e Franck, que a receberam com alegria.
- Conseguiu localizar Franoise?
- Ainda no. Telefonamos para uns vinte hotis, mas sem resultado.
- Temos de continuar. Encontrei-me com Pierrot na rua!
- Pierrot?!
- Sim. O nosso primo mais novo.
- O filho do tio Luc?
Sim.
- Que bom! Que ele faz aqui?
- Anda de tarja e com uma grande pistola na cintura.
Na cozinha, dois jovens preparavam garrafas incendirias, segundo a receita de Frdric Joliot-Curie, difundida pelo coronel
Rol:
basta uma garrafa comum, que se enche com trs quartos de gasolina e um quarto de cido sulfrico. Fecha-se com rolha e coloca- se-lhe um rtulo embebido em clorato de potssio. Quando a vasilha se quebra, o clorato em contato com a mistura do interior se inflama instantaneamente.  uma arma temvel no ataque aos carros de assalto.
De sbito, um enorme estrondo fez com que os habitantes se precipitassem para as janelas. Os defensores da rua da
Huchette escalavam a barricada para investigar o que acontecera. A mulher da padaria gritava:
- Os boches esto explodindo Paris!
Como um rastro de plvora, o boato propagou-se de imediato pelo bairro inteiro, provocando um comeo de pnico.  distncia, para os lados dos Campos Elseos, subia no ar espessa coluna de fumaa. Todos se contraram,  espera de novas deflagraes. Mas, exceto por alguns disparos isolados no lado de Luxemburgo, nada mais se ouviu.
Pouco a pouco, combatentes e curiosos retomavam os hbitos adquiridos nesses ltimos dias, gritando  passagem de um grupo de uns quinze prisioneiros alemes de fardas em desalinho, mos cruzadas sobre a cabea, escoltados por trs elementos das Foras Francesas do Interior, munidos de espingardas, que iam reunir-se aos camaradas na Delegacia.
De repente, vinda do cais dos Grands-Augustins, uma moto surgiu a toda velocidade e avanou sobre o grupo. Com uma rajada, o passageiro abateu um dos homens da escolta e um clamor subiu da barricada. Um jovem escalou os obstculos defensivos e arremessou uma garrafa incendiria na direo dos dois alemes. Mas no chegou a ver o resultado do gesto herico, pois nova rajada de metralhadora o prostou sobre o amontoado de objetos que formavam a barricada.
Irrompeu ento, diante da motocicleta, uma enorme labareda e o condutor no conseguiu evit-la. Em segundos, os dois alemes viram-se transformados em tochas vivas. O veculo em carreira desordenada, transportando duas criaturas de fogo envoltas num claro multicolor, foi chocar-se contra o parapeito prximo da loja de sebo. Por momentos, tudo pareceu esttico, exceto o braseiro de onde emergia - acusadora? - uma mo apontando para o cu.
De dedos crispados no parapeito da janela, La revia o suplcio da tia Bernadette com a mesma e atroz sensao de impotncia. Tanto o alemo como a velha senhora tinham tido, ao morrer, o mesmo gesto de apelo. Ser que a morte pelo fogo elevava os corpos para Deus?
Depois daquela pausa, tudo se passou rapidamente, por detrs da barricada da praa de Saint-Andr-des-Arts e das ruelas vizinhas, irrompeu uma multido ululante que se precipitou para os prisioneiros. Eles haviam assistido, petrificados,  morte dos compatriotas. Os dois sobreviventes das Foras Francesas do Interior tentaram se interpor, mas foram varridos pela onda humana. Um deles saiu correndo para a Delegacia, em busca de auxlio.
Quando voltou, acompanhado de uma dezena de agentes policiais, trs alemes j estavam mortos. De um deles haviam arrancado os olhos, o outro no tinha mais nariz e o rosto do terceiro desaparecera. Os camaradas, enrodilhados sobre si mesmos, estavam feridos com maior ou menor gravidade e esses soldados corajosos, muitos dos quais haviam lutado na frente russa, choravam como crianas.
A chegada das Foras da Ordem, com alguns agentes uniformizados, fez diminuir a fria do povaru. E toda aquela gente, boa gente, sem dvida, se afastou vacilando sob o efeito da embriaguez da carnificina, e em sua maioria a tirou da memria.
Os espectadores, porm, os que assistiram, impotentes, ao massacre, esses no o esqueceriam jamais.
No grande apartamento reinava agora um silncio apavorado. Os jovens no se atreviam a olhar uns para os outros. Os resistentes, sentados pelo cho, de armas apoiadas nas pernas, mantinham os olhos baixos. Franck e os amigos, em p, contemplavam a parede diante deles. A chegada de um tenente contribuiu para diminuir um pouco o mal-estar.
- Os boches puseram fogo no Grand-palas! - anunciou o recm-chegado.
- Ento foi essa a exploso e a fumaa que vimos h pouco.
- Mas havia um circo l dentro.
- Sim, o Circo Houcke. No sei se o grupo de salvamento conseguiu libertar as feras. Os cavalos escaparam. Um deles foi abatido no Rond-Point dos Campos Elseos. Vocs podem no acreditar, mas vi homens e mulheres com facas, correndo para o corpo do animal a fim de o esquartejarem, sem se importarem com as balas que vinham de todos os lados. Havia mesmo pessoas de pratos em punho! Quando sa de l j restava pouco do animal.
- Voc podia ter trazido um pedao.
- E voc no queria mais nada? Aqueles bandidos teriam me enterrado uma faca nas costas.
A frase pronunciada com sotaque parisiense provocou uma gargalhada geral.
- Imagine a cena: as figuras de guardanapo branquinho preso ao pescoo, instaladas em volta do Rond-Point, comendo carne crua com as mos, enquanto os lees, atrelados pelos Fritz, os miram com olhos esfomeados.
Depois da tenso de pouco antes, o riso lhes fazia bem; tinham recuperado as brincadeiras de sua idade.
Enquanto isso, na praa e no cais, recolhiam-se os cadveres dos franceses e dos alemes e conduziam-se os feridos ao
Hotel-Dieu.
O resto da tarde passaram telefonando para os hotis de Paris. Em vo, porm.
- No, aqui no esteve nenhuma senhora Delmas com o filho, nem h aqui nenhuma senhora enviada por esses senhores foi a resposta invarivel. As duas irms estavam a ponto de desanimarem.
Tente mais este: Hotel Regina, Opera 74-02 - disse La.
Laure obedeceu.
- Al?  do Hotel Regina?
- Depois disto, telefonaremos a tia Albertine para saber se encontrou alguma coisa.
- Al? Sim. . . isso mesmo. . . Quero falar com ela... No  possvel, como?. . . Tem ordens?
La arrancou o fone das mos da irm.
- Ligue-me com a senhora Delmas. . . No quero saber das suas ordens! . . . Ligue-me com ela. Al? Al? Quem est falando? O tenente que. . . Tenente ligue-me com a senhora Delmas. Sou sua irm. . . Ela ligar para mim?. . . Sem falta?. . . Estamos muito preocupadas. Obrigada.
- Graas a Deus que a encontramos!
Encontramos, mas no conseguimos falar com ela. Espero que aquele alemo no tenha mentido e d o recado a Franoise.
Vou para casa. Voc vem comigo?
- No. Prefiro ficar aqui. Mas me deixe informada do que acontecer.
Escoltada por um rapaz das Foras Francesas do Interior, La atravessou a praa Saint-Michel. O acompanhante separouse dela em frente da livraria Clavreuil.
Depois da gritaria e do tiroteio no Quartier Latin, a rua Jacob e a rua da Universidade pareciam um osis de tranqilidade.
Charles, que passara parte do dia dormindo, acolheu La com demonstraes de afeto, s quais ela correspondeu com uma ternura cansada.
Trouxera da casa de Franck meio litro de leite, alguns cubos de acar, po e carne, de que Esteile tomou posse como se recebesse uma fortuna.
Comeou, ento, a espera diante do telefone, Quando ele tocou, enfim, s dez horas da noite, La e as tias j sabiam pela rdio londrina da libertao de Paris. Nesse exato momento, uma rajada de metralhadora quebrou o silncio do bairro tranqilo. Albertine de Montpleynet passara a mo comprida pela fronte, comentando em tom inimitvel:
- Esses senhores de Londres me parecem muito mal informados.
- Se dizem  porque deve ser verdade - respondeu a ingnua Lisa, que acreditava piamente nas vozes emitidas pelo aparelho de rdio, tanto as de Jean-Herold-Paquis e de Philippe Henriot como as de Maurice Schumann e de Jean Oberle.
O som da campanhia do telefone impediu La de se mostrar descorts com a boa mulher.
- Al?  voc, Franoise? Est tudo bem?. .. Por que voc no veio para c?. . Al, al, no desligue. . . Est me ouvindo? Voc telefona de novo amanh?. . Um beijo para voc tambm. At amanh. Boa noite.
La colocou o fone no gancho, com certa inquietao. Franose no deveria continuar onde estava. O Hotel Regina poderia ser atacado de um momento para Outro. Iria procurar Franoise no dia seguinte.
Apesar da angstia, La dormiu profundamente nessa noite.

Captulo 17

QUANDO LA DESPERTOU, Paris estava cinzenta.
Na pequena cama junto  sua, Charles dormia, o rostinho bonito emagrecido, mas tranqilo. Como se parece com Camille, pensou, passando a mo pelos cabelos loiros e finos.
Enfiou o roupo de algodo azul e dirigiu-se  cozinha. Felizmente havia gs. Ps um pouco de leite no fogo, enquanto bebia uma caneca do caf de Esteile, ainda quente. Do quarto de Lisa vinha o crepitar do aparelho de rdio. A cara sonada de Charles surgiu na fresta da porta.
- J para a cama! - ordenou La. - Ainda est doente e no pode se resfriar.
- No. J estou curado. Tenho fome.
- Sente-se aqui. Vou lhe dar leite e bolachinhas.
- E depois? Vamos passear?
- No, meu querido.  muito cedo ainda e h guerra l fora
- disse La.
- Mas eu quero ir l para matar os boches malvados que fizeram mal a mame.
La suspirou, olhando o menininho que falava em matar enquanto bebia tranqilamente o seu leite.
- S as pessoas grandes fazem guerra.
- Ento por que  que disparam contra os meninos?
Aquela pergunta, feita por um garoto de 4 anos, deixou La embaraada.
- Diga, meu pai tambm est na guerra, La?
- Sim. Com o general De Gaulle.
- E quando  que ele volta?
- Daqui a pouco.
-  muito tempo!
Charles tinha razo, era muito tempo. H quatro anos que aquilo durava, quatro anos fingindo viver para no desanimar por completo. E quantos mortos, quanto sofrimento no decorrer desses quatro anos!
- Papai vai ficar triste quando souber que mame morreu.
Ento ele sabia! . . E h dois meses que fingia acreditar em suas explicaes confusas!
- Sim, vai ficar muito triste. Mas ns estamos aqui para confort-lo.  preciso que voc o ame muito.
- Mas voc tambm estar aqui. E voc vai amar o meu pai, no  verdade? Diga. . . Voc vai amar o meu papai?
Pareceu-lhe estar ouvindo a voz de Camille, recomendando:
Promete que cuidar de Charles se algo me acontecer. . . e de Laurent tambm. . . Laurent a quem amava com ternura, com amor fraternal, como a um amigo muito querido, e no mais como a um amante.
La ainda se surpreendia pelo desaparecimento desse amor, supostamente imortal. O amor morreria sempre antes do ser amado? Raphal Mahl dizia isso, citando Chateaubriand e recusando a pequena apaixonado por Juliette Recamier: "s vezes acontece que, numa alma bastante forte, o amor perdure o suficiente para se transformar em amizade apaixonada, para se tornar um dever, para adquirir as qualidades da virtude. Nesse caso, o amor liberta-se do seu enfraquecimento inato e passa a viver dos seus princpios imortais".
E se Raphal Mahl tivesse razo?
- Diga, La. . . voc vai amar o meu papai?
Chovia. La cobriu os cabelos com um velho leno de cabea, comprado na Hermes, e encaminhou-se para o Pont-Royal.
Havia telefonado para o Hotel Regina, mas sem resultado; ningum atendia. Decidiu ir at l sem comunicar s tias o seu propsito.
As ruas estavam desertas e silenciosas. Mas, de vez em quando, ouvia-se algum tiroteio. Os jovens alemes de sentinela na ponte a deixaram passar. O jardim das Tuileries no passava agora de um vasto terreno vazio e enlameado com sulcos abertos onde jaziam rvores enormes. Ao longe, o obelisco e o Arco do Triunfo formavam uma cruz esguia contra o cu escuro.
La no conseguiu ultrapassar a barragem da rua de Rivoli. Um suboficial, porm, concordou em tomar informaes no
Hotel Regina, em cuja fachada dominava a esttua de Joana d'Arc. Ele voltou logo, dizendo que todas as mulheres haviam deixado o Hotel naquela manh, mas no se sabia para onde tinham ido. La agradeceu e voltou para trs, desiludida.
No cais Voltaire e no cais de Conti, cruzou com viaturas da Cruz Vermelha e com dois veculos apinhados de homens das
Foras Francesas do Interior, que entoavam o hino dos resistentes. Perto da rua Gungaud, dois rapazes ostentando braadeiras tricolores interceptaram-na brutalmente, segurando o guido de sua bicicleta.
- Onde vai? - perguntaram.
Tal tratamento a irritou.
- No  da sua conta.
A bofetada de um deles jogou sua cabea para trs.
- Responda com delicadeza quando falarem com voc. Acredite-me, algumas bem mais valentonas que voc acabaram com as gracinhas depois de passarem pelo barbeiro da esquina.
- Larguem-me!
- Cuidado, minha linda, que podemos nos zangar! Por aqui ningum passa sem mostrar a credencial - disse o outro, que at ento se mantivera calado. - H por aqui uns chefes importantes e ento desconfiamos de espies. Responda com delicadeza. Onde vai?
La compreendeu que de nada lhe serviriam as teimosias e informou:
- Vou encontrar alguns amigos na praa Saint-Michel.
- Na barricada da rua da Huchette?
- Sim. No apartamento acima dela.
- O que est fazendo por aqui, La?
- Pierrot, voc pode lhes dizer para me deixarem passar?
- Deixem-na. Eu a conheo;  minha prima.
- Muito bem. Apenas cumprimos ordens.
- Venha que eu lhe apresento um amigo, chefe da barricada
- disse Pierrot.
Como barricada, no podia existir melhor! Devem ter sido requisitadas todas as camas desdobrveis do quarteiro e os pores esvaziados de suas velharias: radiadores, bicicletas retorcidas, gaiolas de pssaros, carrinhos de criana, barris, cestas para verduras, toda essa mistura consolidada por sacos de areia. Havia at uma antiga banheira de cobre.
O corpo principal da barricada era constitudo por um caminho sem rodas nem portas. Reforavam ainda o amontoado alguns carrinhos de vendedor ambulante e de transporte de carga, que serviam de ponto de apoio aos atiradores.
Passaram por um caminho estreito ao longo do parapeito. Ouviram-se disparos vindos de um prdio da ilha da
Cit.
Ateno! Escondam-se!
La e Pierrot refugiaram-se num dos recantos circulares da ponte, onde dois homens j estavam agachados.
La reconheceu o rapaz mope do caf de Flore e lhe sorriu. O jovem tambm a reconheceu e retribuiu o sorriso.
Esto disparando dos telhados do City Hotel - disse ele, apontando na direo do edifcio.
Tem sido assim desde manh - disse Pierrot. - Mas supe-se que o sujeito esteja sozinho. Deve ser um policial. Olhe! H camaradas nossos nos telhados.
De fato, algumas silhuetas de elementos armados das Foras Francesas do Interior recortavam-se contra o cu que continuava sombrio.
 voc quem mora na praa Dauphine? - perguntou o chefe da barricada ao companheiro do rapaz de culos.
- Sou.
- Como se chama?
- Henri Berri.
E voc? - ele quis saber, dirigindo-se ao rapaz de culos.
- Claude Mauriac.
Talvez seja filho do nosso vizinho de Montillac, pensou La. No teve tempo para lhe perguntar, pois o chefe lhes fez sinal de que podiam prosseguir, gritando para os rapazes das Foras Francesas do Interior:
- No atirem!
Os dois homens partiram correndo em direo  praa Dauphine, enquanto La e Pierrot voltavam a passar por detrs da barricada. Pierrot no havia largado a bicicleta.
- No devia andar por a, assim.  fcil ser atingido por uma bala perdida. Est vendo? Eu no disse?
No cais dos Grands-Augustins, uma mulher acabava de cair. Ela se arrastou para trs de uma rvore  procura de proteo.
Da rua dos Grands-Augustins, surgiram ento dois jovens em camisa branca, transportando o pavilho da Cruz Vermelha.
Sem se importarem com as balas, recolheram a mulher e partiram correndo para a enfermaria improvisada pelo dr. Debr.
- Vamos pelas vielas.  menos perigoso.
Tudo estava calmo na rua de Savoie. Alguns homens das Foras Francesas do Interior montavam guarda em frente de uma velha manso do sculo XVIII.
-  o PC de um dos chefes da Resistncia - informou Pierrot, assumindo o ar de importncia de quem est a par dos acontecimentos.
- Precisa me ajudar a encontrar Franoise.
- Essa puta!
A jovem parou, surpresa com o insulto.
- Voc tem idia do que est pedindo? - prosseguiu o primo.
- Ajudar a salvar uma colaboracionista, uma traidora da ptria.
- Chega! - cortou La. - Franoise no  colaboracionista nem puta. No passa de uma pobre moa que teve a infelicidade de se apaixonar por um alemo no momento em que os nossos dois pases estavam em guerra. Ningum merece ser fuzilado por isso.
Fuzilado talvez no - concedeu Pierrot. - Mas a cabea raspada ou a cadeia, sim.
- Cabea raspada! Est louco? Preferia morrer a que me raspassem os cabelos.
- Os cabelos crescem novamente - ironizou o rapaz.
Num movimento gil, evitou a bofetada que La lhe dirigia.
Da rua Saint-Andr-de-Arts, chegou at eles o som de aplausos, de risos e gritos. A multido empurrava  sua frente um homem dos seus cinqenta anos, de cabea descoberta e sem cala. Oferecia um espetculo lastimoso e grotesco, de meias, uma delas esburacada, sustentadas por ligas, com as calas e os sapatos nas mos; atrs dele, chorando, seguia uma jovem gorducha, de vestido florido, ostentando na cabea raspada uma sustica pintada com tinta branca.
La sentiu-se invadida por uma onda de vergonha. Pierrot baixou a cabea e ambos permaneceram imveis durante longos momentos. Depois o rapaz segurou-a pelos ombros e disse:
- Anda. Vamos procurar Franoise. Vamos ao PC do coronel Rol.
Mas no chegariam ao PC subterrneo Denfert Rochereau.
Perto das barricadas no cruzamento da avenida Saint-Michel com a Saint-German, a que os parisienses chamavam de "encruzilhada da morte", uma granada lanada de um dos telhados veio explodir diante deles. La, que caminhava um pouco atrs do primo, sentiu apenas uma espcie de arranho na cabea. Como num filme em cmara lenta, viu Pierrot elevar-se no espao, para, em seguida, tombar com um movimento gracioso.
Criaturas vestidas de branco agitavam-se em volta deles. Depois, o cu cinzento pareceu ruir e as rvores da avenida abateram-se sobre ela.
- Isso no  nada. Pode voltar para casa.
La ergueu-se ainda um pouco aturdida. O mdico, um rapaz novo, ajudou-a a descer da mesa de exames. Tinha os traos muito vincados e parecia exaurido.
- O seguinte.
Estenderam sobre a mesa um homem ferido no abdmen.
- Onde est o meu primo? - perguntou La.
- No sei - respondeu o mdico. - Pergunte na recepo.
At a noite, com o vestido manchado de sangue e uma grande atadura na cabea, La errou pelos corredores do Hotel-Dieu  procura de Pierrot. Ningum sabia dizer o que lhe acontecera. Tambm no conseguiu encontrar os enfermeiros que o haviam transportado ao hospital.
Venha amanh, era sempre a resposta por todo o lado. Com a morte na alma, ela se resignou a deixar o Hotel-Dieu.
Apiedado por seu desalento, um policial com a braadeira das Foras Francesas do Interior guiou-a atravs das barreiras espalhadas pelo adro de Notre-Dame e a deixou na rua Saint-Jacques, no comeo da rua da Huchette, onde um "fifi" tomou conta dela, acompanhando-a at o apartamento da avenida Saint-Michel.
Franck estava sozinho em casa. Sem comentrios, instalou-a no prprio quarto, abriu as torneiras da banheira e ajudou-a a se despir. Enquanto a gua corria, foi fazer ch. La bebeu-o, batendo o queixo, depois de tomar o banho frio. Embrulhada no roupo grande demais para ela, Franck deitou-a na cama e ficou segurando sua mo at que ela adormeceu.
No tinham trocado uma s palavra.
Sangrem! Sangrem! A sangria  to boa em agosto como em maio.
O grito lanado por Tavannes na noite de So Bartolomeu, durante o massacre dos protestantes, em 24 de agosto de 1572, martelava com insistncia na cabea de La.
Nessa manh, ao preparar o caf para Charles, La havia olhado para o calendrio, e viu que era o dia de So Bartolomeu. A data lhe trouxera  memria A Vida de Carlos IX de Brantome, que havia lido depois de ter devorado A Senhora de Montesoreau, Os Quarenta e Cinco e A Rainha Margot, de Alexandre
Dumas, onde se inseria essa frase sinistra.
Em seu sonho surgiram agora, confundidos, alemes e homens pagos pelos Guise, mulheres de cabea raspada e o almirante de Coligny, rapazes das Foras Francesas do Interior e o futuro Henrique IV, cadveres lanados ao Sena, corpos queimados por lana- chamas e Carlos IX disparando um obus da janela de seu quarto, no palcio do Louvre.
- Acorde! Acorde! - gritou Franck.
Quase to branca como a atadura de sua cabea, La abriu os olhos.
- O que quer?
Franck, muito excitado, perdera a fleuma habitual. Ele girava os botes do aparelho de rdio.
- Oua!
Regozijem-se, parisienses! Viemos lhes dar a notcia da libertao. . . A diviso de Leclerc est em Paris! Dentro de minutos, estar na Cmara Municipal. No deixem de escutar esta emisso. Ouviro a voz que h tanto tempo esperam.
Estamos loucos de alegria. Esta emisso no foi preparada; transmitimos em ms condies; no comemos h trs dias.
H camaradas nossos que combatem de armas na mo e que tambm no comem h trs dias e que vm aos microfones.
Talvez estejamos embriagados, mas embriagados de alegria, de felicidade, por voltar  nossa querida cidade.
La se levantou e se aproximou de Franck. Impetuoso, ele a abraou.
Chegou agora uma informao; ela  bem curta: s nove e quinze, junto ao quartel de Peupliers, foi vista uma coluna de franceses, espanhis e marroquinos. Onde  o quartel de Peupliers? Em Gentilly! O quartel Peupliers fica em Issy. Ei-los!
Eles chegam. . . Nesse instante,  frente das tropas do general Leclerc, dois carros blindados chegam na Cmara Municipal.
E num deles deve estar o general De Gaulle. O que  certo  que os aliados esto na Delegacia de Polcia e na Cmara
Municipal e  provvel que o general De Gaulle a esteja tambm. Abram as janelas! Enfeitem as casas! Acabo de receber um telefonema do secretrio-geral da Informao. El me pede para transmitir a todos os padres que escutam esta transmisso, que mandem tocar os sinos imediatamente. Ento, repito e certifico: daqui lhes fala Shaefjer, encarregado da direo da Rdio da Nao Francesa, rdio que tomou posse dos emissores h quatro dias sob a ocupao alem. Fui enviado pelo secretrio-geral da Informao do Governo Provisrio da Repblica para falar aos senhores padres que possam me ouvir ou ento ser avisados imediatamente. Eu lhes digo. mandem soar os sinos, anunciando a entrada dos aliados em Paris.
Nos braos um do outro, Franck e La riem e choram. Correm para a janela. Por toda a praa Saint-Michel batem persianas e as luzes se acendem, uma por uma. Para o diabo a camuflagem! Para o diabo a defesa passiva! A hora  de claridade e de alegria!
Chegam  praa pessoas vindas de todos os lados e se atiram nos braos umas das outras. Dos rdios, no mximo volume, saem os acordes da Marselhesa. Na rua, todos se imobilizam, cantando em coro:
- s armas, cidados!
Do oeste, um incndio descomunal tinge de vermelho as nuvens sombrias que rolam pelo cu.
La e Franck, entusiasmados pelas vozes vibrantes, cantam tambm, sem mesmo perceberem isso, de mos entrelaadas com tanta fora que se tornam roxas.
De sbito, um primeiro sino, tmido de incio, se aventura pelo cu onde se deita melanclico, o ltimo dia da Ocupao de
Paris. Os de Saint-Severin lhe respondem e logo os de Saint-Julien-lePauvre, de Saint-Germain-des-Prs, do Sacr-Coeur, de Saint-tienedu-Mont, de Saint-Germain-l'Auxerrois, de Saint-Sulpice, de SaintGenevive, de Saint-Eustache e, por fim, o grande carrilho de Notre-Dame, que se rene aos outros, envolvendo a cidade inteira nessa louca alegria.
So vinte e uma horas e vinte e dois minutos e o capito Raymond Dronne acaba de parar o jipe batizado com o nome de "Morte aos Canalhas", os quinze half-tracks e os trs carros Sherman - o Montmirail, o Champaubert e o Romilly - em frente da Cmara Municipal. Cento e trinta homens pisam pela primeira vez depois de quatro anos o solo de sua capital.
O locutor, empolgado, declama versos de Victor Hugo:
Despertai! Basta de vergonha!
Tormai a ser a grande Frana!
Tormai a ser a grande Paris!
Na praa, as pessoas fizeram uma grande fogueira e danam  sua volta. De sbito, soam tiros. Todos ficam imveis por instantes, depois fogem gritando.
Separam-se as mos de La e de Franck. Pela rdio, a voz, ainda h pouco plena de entusiasmos, balbucia agora:
Ns nos precipitamos, talvez. . . Ainda no terminou tudo.  melhor fecharem as janelas. No se deixem matar inutilmente.
Na praa, as luzes se extinguem uma a uma, as persianas se fecham novamente, o medo volta.
Lembremo-nos das regras de dejesa passiva prescritas pelo coronel Rol. . . Manifestem a alegria de outro modo.
Os sinos silenciam igualmente um a um, exceto um sininho azedo que se ri do canho a troar em Longchamp. Depois, tal como todos os outros, ele tambm se cala, assim como o canho e, por fim, a fuzilaria para os lados da Cmara Municipal.
Agora  noite em Paris. Em volta do Palcio no bairro do Odeon, que se diz estar minado, pesadamente carregadas, descem para os pores.
Ainda no terminou a libertao de Paris.
Terrvel tempestade desabou durante a noite. La ficou durante muito tempo em p, contemplando a desordem do cu, onde os relmpagos se sucediam em meio ao ribombar assustador dos troves. O pont-Neuf, iluminado por clares esbranquiados parecia um brinquedo sobre a fita imvel e negra do Sena, logo encrespada pelas grossas gotas de chuva.

Captulo 18

s OITO DA MANH, Laure entrou como um p-de-vento no quarto onde La dormia.
- Esto chegando! Esto chegando!
La, acordada em sobressalto, soergueu-se tremendo.
- Quem?
- Os Leclerc! Esto chegando! J esto na porta de Orlans. Levante-se. Vamos at l. Mas. . . o que voc tem? Est machucada?
- No  nada. Teve notcias de Pierrot ou de Franoise?
- No. Pensei que voc tivesse.
La comeou a chorar em silncio.
- No chore. Vamos encontr-los. Ande... levante-se. Vamos v-los passar.
Um "Rifi", como agora lhes chamavam, entrou correndo e anunciou:
- Esto na rua Saint-Jacques.
E voltou a desaparecer.
- Ouviu? Esto na rua Saint-Jacques! Apresse-se!
- Tenho certeza de que ele morreu.
- Mas de quem est falando?
- Est morto, eu lhe digo.
- Mas quem?
- Pierrot.
Bateram na porta entreaberta. Era Franck.
- No fique parada em frente da janela, Laure - aconselhou ele, arrastando a amiga para o meio do quarto. - Uma bala perdida. . . nunca se sabe.
- Teve notcias de Pierrot? - La lhe perguntou, levantando- se da cama.
- No. Percorri diversos hospitais, mas nenhum ferido recolhido no Quartier Latin corresponde s caractersticas de seu primo.
- Seja como for, vivo ou morto, ter de estar em algum lugar.
- Mas o que aconteceu? - perguntou Laure.
- La e seu primo foram feridos ontem na "encruzilhada da morte". Levaram sua irm para o Hotel-Dieu. Quanto a Pierrot, nada se sabe.
Os trs jovens ficaram silenciosos durante um longo momento. Franck mudara bastante no decorrer desses ltimos dias;
parecia ter amadurecido. Perdera o que ainda lhe restava de infantilidade e de negligncia ao assistir  morte de muitos rapazes da mesma idade, amigos e inimigos.
- No se preocupe. Ns o acharemos.
Mas nenhum deles acreditava nem um pouco que isso fosse possvel. Laure foi a primeira a reagir.
- As tropas do general Leclerc esto chegando pela rua SaintJacques e temos de ir at l.
La fez uma rpida toalete e tirou a atadura, deixando apenas um pequeno curativo sobre a ferida. Seu vestido estava inutilizado, rasgado e com manchas de sangue. Franck foi vasculhar o guarda- roupa da me e voltou com uma braada de vestidos coloridos.
- Devem ficar um pouco grandes para voc, mas talvez d para ajeit-los com um cinto.
La escolheu um vestido de manga curta, estampado com florezinhas sobre fundo azul, modelo Jeanne Lafaurie. Amarrou um leno tambm azul, na cabea, disfarando o curativo e calou suas sandlias brancas.
Fora, fazia um tempo magnfico. Vindas de todas as direes, as pessoas corriam para a rua Saint-Jacques: as mulheres com simples penteadores atirados sobre as camisolas, os homens no tinham tido tempo para se barbear, mes jovens transportando os filhos ao colo, garotos que se esgueiravam por entre as pernas dos adultos, velhos combatentes da guerra de 14 exibindo as condecoraes, estudantes, operrios, vendedoras, colocavam-se  frente da diviso Leclerc.
A rua Saint-Jacques era um grande rio de alegria onde singravam, majestosos, os shermans do coronel Billotte, cobertos de mos. Jovens empoleiradas nos carros beijavam os soldados sem se importar com a sujeira que os cobria. A multido em delrio agitava os braos, atirava beijos aos vencedores, chorando, rindo e gritando:
- Bravo! Viva a Frana! Obrigado! Viva o general De Gaulie! Bravo! Bravo!
Laure saltou para um carro-metralhadora e beijou o condutor que se debatia rindo. Franck aplaudia e aclamava os soldados com efuso.
La, porm, no meio de toda aquela confuso alegre, sentia-se estranha, quase indiferente. Desfilavam os tanques de guerra, batizados com nomes sonoros: Austerlitz Verdun, Saint-Cyr, El Alemein, Mort-Homme, Exuprance... Exuprance? De p na torrinha do seu tanque, um oficial radioso, de rosto sujo, saudava a multido. O olhar dele aflorou por instantes o vulto de La.
- Laurent!
Mas o grito perdeu-se no meio do ronco dos motores e do rugido da multido.
Tentou ento se aproximar do veculo, Recebeu, porm, violenta cotovelada na cabea ferida, o que lhe provocou ligeiro mal-estar. Um membro das Foras Francesas do Interior notou e conseguiu libert-la do aglomerado.
Recomps-se num pequeno caf da rua da Huchette.
- Aqui est, gracinha, tome um gole e ficar como nova.  uma boa pinga. Estava guardando para festejar a vitria - disse o dono do caf.
La pegou o clice que lhe estendiam e engoliu de um trago o lquido cor de mbar. A bebida explodiu em sua boca e lhe deu quase que instantaneamente uma sensao de bem-estar.
- Nada melhor que uma boa aguardente para dar cor s faces das moas. Mais um gole?
Laurent estava em Paris! Ao v-lo seu corao comeou a bater com mais fora, tal como nos tempos em que pensava am-lo. Talvez ainda o amasse.
Com a ajuda do lcool, La flutuava agora num nevoeiro cor-de- rosa. O pesadelo terminara. Nesse instante, ouviram-se alguns disparos.
- Todos para dentro! Ateno aos atiradores dos telhados
- gritou algum.
A rua se esvaziou como por encanto, reconduzindo La  realidade; Laurent estava ali, de fato, mas Camille estava morta.
Sentiu-se desfalecer de novo com a idia de que teria de lhe dar essa notcia. Presenciar sua dor lhe parecia acima de suas foras. Que outra pessoa lhe dissesse! Sentiu vergonha por sua covardia e corou. Ela e s ela tinha a obrigao de lhe dar a notcia. Camilie no gostaria que fosse de outro modo.
Os carros estavam parados no largo de Notre-Dame, mas La no descobriu entre eles o que se chamava Exuprance.
Desfilava pelo cais uma coluna de carros-metralhadoras. Os parisienses teciam comentrios sobre o que viam:
Veja este material! Se tivssemos tido isso em 1940, no teramos perdido a guerra.
- Com estes uniformes, tem certeza de que so franceses?
-  a farda americana.
- Apesar disso, no d para reconhecer os nossos.
- Que  que interessam os uniformes? Ingleses, americanos ou russos, o que importa  que chegaram aqui. Viva De Gaulle!
Viva a Frana!
La caminhava ao longo do cais, indiferente aos encontres, assaltada por tamanho cansao que se sentia incapaz de pensar com coerncia. No crebro nublado, rodopiava-lhe um carrossel fantstico. Laurent est vivo! O que teria acontecido a
Pierrot? Eu me perdi de Laure e de Franck. . . Preciso dizer alguma coisa s minhas tias. . . Tero notcias de Franoise? Ser que Charles tomou leite hoje? Laurent voltou! Laurent voltou! Como lhe dar a notcia da morte de Camilie? Mas por que ser que toda esta gente aplaude, Santo Deus? Ah, sim, chegaram as tropas de Leclerc,  isso! Laurent veio com elas. E
Franois. . . onde est?.
- Com licena, senhorita - pediu um cinegrafista, a cmara apoiada no ombro, que acabava de lhe dar um violento encontro.
La chegou  praa Saint-Michel e subiu at o apartamento de
Franck. No havia vestgios dele nem de Laure. Em contrapartida, uma quinzena de "fifis" ocupavam o local.
Tentou em vo que a ouvissem. Em sua excitao, no escutavam nada. Seria necessrio deixar um recado, pois o telefone, que sempre funcionara durante todos aqueles dias de loucura, parecia ter entrado em greve.
No quarto da me de Franck, La encontrou um batom, com que escreveu em todos os espelhos que encontrou: Estou em casa das tias. Talvez Laurent, Franoise e Pierrot estejam l tambm.
Enquanto subia as escadas do apartamento de Franck essa esperana a assaltara, fazendo com que corresse para o telefone.
Mas, diante do silncio do aparelho, havia decidido voltar  rua da Universidade.
Os tanques estavam reunidos na praa Sant-Michel. Rodeava-os a multido em delrio, que aclamava e aplaudia. La conseguiu esgueirar-se at um deles, subir na esteira e chegar at a torrinha.
- Sabe onde est o tenente d'Argilat? - perguntou ao soldado.
- No. No vi o capito desde a porta de Orlans.
Ordens de comando sobrepuseram-se ao tumulto.
- Precisa descer, senhorita. Vamos atacar o Senado.
- Se o encontrar, diga-lhe, por favor, que Exuprance.
- Mas esse  o nome de seu carro.
- Eu sei. Diga-lhe Exuprance est em Paris, em casa das tias.
- Muito bem. Mas, em troca, quero um beijo.
La o beijou com muito gosto.
- No vai se esquecer?
-  seu namorado? Ele tem sorte em ter uma amiga assim, to fiel, No me esquecerei, palavra de homem. Exceto se for morto, evidentemente.
A frase agastou La. Evidentemente, se ele fosse morto.
Saltou do Sherman e ficou observando a manobra dos tanques. Entraram pela estreita rua de Saint-Andr-des-Arts, seguidos pelos "bravos" da multido apinhada nas caladas diante das lojas com as portas de ferro cerradas. Em alguns deles figurava uma inscrio em giz: Ateno! O veculo n. . . das Foras Francesas do Interior est ocupado por quatro policiais. Disparar contra ele!
A coluna virou  esquerda, rumo ao Odeon, La prosseguiu pela rua de Buci.  s meio-dia, pensou, olhando o relgio, cujos ponteiros estavam imobilizados no nmero 12.
Os cafs tinham reaberto as portas. Entrou num barzinho da rua Bourbon-le-Chateau e bebeu meia cerveja junto aos moradores do bairro, que comentavam os acontecimentos. Um deles garantia ter visto tanques e caminhes americanos circulando pela pont-Neuf.
Bandeiras tricolores flutuavam aqui e ali nas janelas de alguns edifcios. Grupos de pessoas trocavam impresses no limiar das portas, lanando, por vezes, olhares inquietos aos telhados dos prdios.
Na rua da Universidade, a porta do apartamento das tias estava escancarada. Na entrada, reinava uma desordem pouco habitual.
Meu Deus, Charles!. . ., pensou La, correndo para o quarto do menino. Sentado na cama, ele folheava comportado um lbum de Becassine que pertencera  me de La. Um sorriso iluminou seu rostinho cansado.
- Ah, j voltou! Tive tanto medo que no voltasse!
- Como pde pensar uma coisa dessas, meu querido? Nunca vou deixar voc. J almoou?
- Sim, mas no gostei. Vamos passear, La?
- Hoje no. Ainda h guerra nas ruas.
- Eu sei. Ouvi tiros e gente gritando. E a tia Albertine saiu chorando.
Talvez tenha sabido que Pierrot morreu, pensou La.
- Vou falar com tia Lisa e volto j.
Na cozinha, descobriu Lisa e Esteile em lgrimas.
- At que enfim chegou! - exclamou a tia.
- Que  que vocs tm? O que aconteceu?
As duas mulheres redobraram o pranto. Abriam a boca para explicar, mas no conseguiam emitir nenhum som.
- Ento, querem ou no querem me dizer o que aconteceu?
Por fim, Estelie conseguiu articular:
- Franoise. .
La sentiu-se subitamente gelada.
- Franoise o qu? Que lhe aconteceu?
- Foi. . . foi. . . presa.
- Quando?
A criada esboou um gesto de ignorncia.
- Foi a dona da leiteria da rua do Bac que nos avisou explicou Lisa, de um s flego. - Albertine saiu em seguida; sem mesmo ter tempo de pr o chapu.
Em outras circunstncias, a frase teria feito La sorrir. Mas o esquecimento do chapu dava a medida da gravidade do caso.
- Onde ela foi?
- Para a praa em frente da igreja.
- Faz muito tempo?
- Meia hora, talvez
- Vou at l. Cuidem do menino.
- No v! No v! - gritou Lisa, agarrando o brao da sobrinha.
Se mresponder, La se desvencilhou e saiu.

Captulo 19

O TEMPO ESTAVA magnfico e o clima era de festa. Rindo,
Passavam pela rua belas jovens, com vestidos curtos e claros, os cabelos enfeitados com guirlandas ou com bandeirinhas tricolores. As mulheres elegantes que eram habitualmente vistas na missa, ao domingo, tinham perdido um pouco sua arrogncia habitual. Velhas senhoras, de brao dado com cavalheiros idosos, caminhavam com renovada agilidade. Todos se dirigiam para a praa.
Embora soubesse o que iria ver, La imobilizou-se surpreendida.
O lugar estava repleto de gente.
No topo da escadaria da igreja que antigamente assistira a espetculo bem diferentes, representava-se agora um melodrama diante de um auditrio zombeteiro, fanfarro e gozador, que encorajava os atores por meio de ditos e de gestos.
O cenrio, extremamente sbrio, impressionava apesar da simplicidade, alguns bancos, uma cadeira de palha e, fixada  porta do templo com um punhal, uma folha de papel branca onde a tinta negra escorria das palavras: CORTAMOS CABELOS DE
GRAA.
A pea j comeara. Os comediantes interpretavam seus papis com perfeio. O arauto, um homem gordo em mangas de camisa, ostentando a braadeira das Foras Francesas do Interior, enumerava aos gritos, os crimes das intrpretes femininas.
- Admirem a boa sra. Michaud que denunciou o marido 
Gestapo! Merece a demncia do tribunal do povo?
- No! - ululavam os espectadores.
- Nesse caso.
- Raspem-lhe os cabelos! Ah!, ah!, ah!, ah!
Um riso homrico sacudia a assistncia.
No palco improvisado, os auxiliares da justia popular foravam a senhora Michaud a sentar-se na cadeira de palha. Surgiu ento o cabeleireiro, munido de enorme tesoura de alfaiate, que fazia girar e estalar sobre a cabea com trejeitos dignos de Maurice
Chevalier, cantarolando:
Viram a moda nova do chapu do Zozo?
 um chapu, um chapu divertido
Tem na frente uma peninha de pavo
E de lado um amor de papagaio
Ao lado de La, torcia-se de tanto rir, quase sufocada, uma moa gorda, de avental branco de leiteira ou de aougueira, pendurada no brao de um bombeiro.
- Isso vai me fazer mijar nas calas de tanto rir - declarou ela. - Ah!, ah!, ah!, ah! Ainda fao xixi. . . estou falando.
ah!, ah!, ah!, j fiz!
Uma vaga de riso agitava a multido, provocando nusea em La. Viu as grossas mechas de cabelo brandidas tal como caudas e orelhas de touros na arena, saudadas por gritos que se assemelhavam aos dos espectadores de uma corrida. Mos estendiam-se tentando apoderar-se daqueles tristes trofus.
Depois do corte grosseiro, a tonsura. Abatida na cadeira, o rosto inchado, sujo de lgrimas e de cuspidelas, a senhora
Michaud era submetida ao seu justo e merecido destino de ter, talvez, denunciado o marido  Gestapo. No importava que a mulher garantisse que o seu homem fugira para uma base de resistentes de Correze, a fim de escapar ao Servio de
Trabalho Obrigatrio. No fora vista por uma vizinha respondendo a um soldado alemo que lhe pedira informaes sobre o caminho a seguir?
La sentiu no seu prprio crnio o frio do metal da mquina de tosquiar. Perto dela, algumas mulheres ficaram silenciosas.
Uma delas enxugou uma lgrima, talvez solidria, enfim, com aquela criatura humilhada, ridcula, com sua cabecinha emergindo do vestido de flores e o cartaz pendente do pescoo onde uma mo desajeitada escrevera: PUTA QUE VENDEU O MARIDO.
Dois homens levantaram a mulher e a empurraram para junto das outras j tosquiadas, que se ajeitaram no banco, dando-lhe lugar. Sentou-se ao lado de uma me que embalava o filho.
Avidamente, La olhou para o grupo das que ainda tinham cabelos,  procura de Franoise.
Uma moa alta, elegante e morena, veio substituir a senhora Michaud na cadeira. - Olhem s, minhas senhoras e meus senhores!... Olhem. Ao v-la assim to sria e compenetrada, lhe dariam a comunho sem confisso. Pois bem, senhoras e senhores. - -  uma porca que preferiu dar o cu aos alemes em vez de a um dos nossos heris! O que  que isso merece?
- Raaaaaspem-na! Raaaaaspem-na!
Era um jogo, uma farsa, uma comdia, um mistrio como os que antigamente se representavam no patamar das catedrais para edificao dos fiis. Nesses tempos remotos, porm, no se tratava do Mistrio das Virgens Loucas e das Virgens
Prudentes nem dos jogos do Casamento ou da Folhagem, mas sim do Mistrio da Paixo. No era aquele que se representara em Valenciennes, em 1547, e pelo qual os assistentes pagaram meio soldo ou seis dinheiros, mas sim o quadro da poca atual absurda e magnfica, covarde e magnnima corajosa e estpida, herica e criminosa, vivida pela Frana nos primeiros dias da sua libertao.
A mulher morena e elegante no chorava. Mantinha-se muito ereta, o rosto altivo e plido. Um anel de cabelos caiu-lhe em cima das mos brancas, cruzadas sobre os joelhos, e os dedos apertaram a mecha ainda tpida.
Fizera-se silncio. A multido,  espera de gritos e de lgrimas, teve direito apenas a um sorriso de desdm, enquanto seus dedos largavam a mecha. Um murmrio de decepo percorreu a assistncia.
Sem dvida, enraivecido pela dignidade demonstrada, o cabeleireiro improvisado fazia funcionar a tesoura com brutalidade, ferindo a cliente. O sangue escorreu por suas faces.
- Oh!. . . - exclamaram os espectadores.
La cerrou os punhos e desviou o olhar. No haveria ningum capaz de acabar com tal abominao? Felizmente Franoise no estava ali. Mas.
Nesse exato momento, a mulher que embalava a criana acabava de levantar a cabea. Suas feies se pareciam vagamente com as de Franoise quando ela saa da gua aps um banho no Garonne. O corao de La pulsou de dor. No... No... no era Franoise que ali estava! Ainda bem que o papai e a mame j morreram. Sofreriam demais ao ver isso, pensou ela.
Sentiu que algum apoiava a mo em seu brao. Era Albertine de Montpleynet. No rosto da velha senhora estampava-se todo o horror do mundo.
La rodeou-lhe os ombros com o brao, surpreendendo-se com seu gesto adulto e de quanto sua tia havia minguado.
A tosquiadora acabara a sua obra. A vtima ergueu-se sozinha e com tamanha expresso de desprezo que a massa humana rosnou, lanando-lhe algumas injrias, enquanto ela se instalava orgulhosa, no banco das tosquiadas, sem se importar com o sangue que escorria para o vestido.
Uma outra mulher, gritando e chorando, foi ento arrastada para a cadeira de palha, de onde escorregou, deixando-se cair de joelhos, balbuciando:
- Perdo . . perdo. .. no fao mais... perdo.
Ameaadora, a tesoura estalava sobre ela.
- Chega! Parem com isso!
Um jovem com cala de golfe, armado com um fuzil, subiu as escadas correndo. O cabeleireiro o conhecia, com certeza, pois limitou-se a responder, segurando uma mo cheia de cabelos da infeliz.
- Deixe-nos fazer o nosso trabalho.
Com um golpe seco de tesoura, cortou a mecha volumosa. O cano da arma se abateu sobre os dedos do brutamontes, que deixou a tesoura cair.
- No tem o direito de fazer isso - censurou o recm-chegado. - Se estas mulheres tiverem culpa, sero julgadas com eqidade. Devem ser entregues  polcia.
Agentes uniformizados saam, enfim, do comissariado, encravado entre o templo e um prdio.
- Vamos circular. . vamos circular. No h nada aqui para ver. No se preocupem, estas mulheres sero punidas como merecem.
A praa esvaziava-se pouco a pouco. Os policiais conduziram as mulheres para dentro da esquadra enquanto os justiceiros ajustavam as braadeiras, as cartucheiras e as pistolas, afastando-se, rindo.
Logo todos tinham ido embora. Na praa ficaram apenas La e a tia, que no se moveram do lugar onde estavam. Num movimento simultneo, encaminharam-se, ento, para o comissariado.
Reinava a maior confuso nas exguas instalaes. Os agentes no sabiam o que fazer de todas aquelas mulheres prostradas ou desfeitas em lgrimas. O jovem da cala de golfe falava ao telefone. Depois desligou.
- A prefeitura vai mandar um carro para lev-las.
- Para onde? Para a pequena Roquette? - perguntou um agente.
- No. Para o Vel'd'Hiv, com escolta das Foras Francesas do Interior.
-  engraado! - observou um outro agente. - Como aconteceu aos judeus.
La recordou-se das palavras que Sarah Mulstein lhe escrevera a propsito das milhares de pessoas detidas e concentradas no Vel' d'Hiv e fitou com espanto o homem que achara isso divertido.
- Vo embora, minhas senhoras. Nada tm a fazer aqui - ordenou um dos policiais.
- Vim buscar minha sobrinha, senhor - respondeu Albertine de Montpleynet.
Os homens olharam espantados para aquela velha senhora de cabelos brancos que dizia com calma e dignidade: Venho buscar minha sobrinha. No falta topete quela velha!
- No  possvel, minha senhora. Estas mulheres so acusadas de colaborarem com o inimigo e tero de ser ouvidas pelas autoridades competentes.
- Franoise!
Ela ergueu o rosto, de olhar vazio, parecendo no reconhecer a irm.
- Franoise, sou eu, La. Acabou-se. Viemos busc-la.
- No pense nisso, senhorita. Esta mulher foi presa junto com outras amantes de oficiais alemes.
- Nunca dormi com nenhum alemo! - gritou Michaud. - Apanharam estas mulheres na rua e me colocaram com elas por engano.
- Cale-se! O tribunal vai julgar - disse o policial. - Vo-se embora, minhas senhoras.
- Peo-lhe, senhor agente. Eu me responsabilizo por ela.  minha sobrinha e conheo-a desde pequenina.
- No insista, minha senhora.
- Vo coloc-la na cadeia com o filho?
O jovem fitou Franoise e a criana, e depois a senhora de Montpleynet com expresso de enorme perplexidade.
- Quanto  criana... bem... no sei. Concordo que a levem se a me autorizar.
Reconhecendo La, o pequenino Pierre estendeu os braos em sua direo.
- Quer que o levemos conosco? - perguntou ela  irm.
Sem uma palavra, Franoise entregou-lhe o menino.
- Deixem seus nomes e endereo - disse o mais velho dos policiais.
- Quando poderemos visit-la?
- No sei, minha senhora. Tero de aguardar. Ns avisaremos depois.
Franoise estendeu a mo para a irm.
- Que quer? - perguntou La.
Ah! J sei! Como  que no pensei nisso tirando o leno azul da cabea. Com gestos amarrou-o sob o queixo de Franoise.

Captulo 20

DEPOIS DE ACOMPANHAR a tia e o filho de Franoise  rua da Universidade, La deixou o apartamento como se fugisse. Queria estar s, a fim de refletir sobre tudo o que acontecera e, principalmente, para procurar Laurent.
At a igreja de Saint-Germain-des-Prs, a avenida Saint-Germain se transformara em local de passeio para todos os moradores do bairro. Depois da rua Bonarte, o ambiente se modificava, os transeuntes despreocupados tinham sido substitudos por grupos de indivduos ostentando braadeiras e armados com fuzis, por jovens de camisas brancas com cruzes vermelhas e por donas-de-casa caminhando rente s paredes em busca de alguma loja aberta na rua de Buci. Uma delas obrigou La a parar, segurando-lhe o guido da bicicleta.
- No passe pela rua de Seine - avisou a desconhecida. - H trs dias que os boches disparam obuses do Senado e a rua fica na linha de fogo. Vrias pessoas foram mortas ou feridas.
- Obrigada, minha senhora, mas preciso ir  praa Saint-Michel. Por onde acha que devo passar?
- Em seu lugar, eu no iria. Toda a zona  perigosa. Os Leclerc preparam-se para atacar o palcio do Luxemburgo.
Como para confirmar as palavras da mulher, um obus explodiu diante da peixaria da rua de Seine, fazendo cair os ltimos vidros das vitrines e ferindo trs transeuntes nas pernas e no rosto.
Empurrando a bicicleta, La voltou e foi sentar-se na pracinha perto do antigo arcebispado. Todos os bancos estavam ocupados por gente que dormia. Rapazes e moas, instalados na caixa de areia, faziam circular entre si uma garrafa.
La sentou um pouco afastada, com as costas apoiadas ao tronco de uma rvore. Fechou os olhos, tentando colocar em ordem a mente, onde se entrechocavam imagens violentas e insuportveis. Sacudia a cabea para as repelir e depois comeou a bater com ela no tronco, cada vez com mais fora, sem notar as lgrimas que lhe escorriam pelas faces.
- Pare com isso! Vai se machucar.
Uma pequena mo suja e pegajosa acabava de imobilizar sua cabea.
- Tome! Beba um pouco. Vai lhe fazer bem.
La pegou a garrafa e tomou um gole com tamanha avidez que o vinho lhe escorreu pelo pescoo.
- Para uma moa, voc tem uma garganta dos diabos! - comentou o rapazinho, que ainda no tinha quinze anos, recuperando o vasilhame quase vazio. - No h nada melhor que uma boa pinga para elevar o moral.  borgonha; ns a pegamos no
Nicolas. Quer um cigarro?
La aquiesceu. Com volpia, deu uma tragada e logo outra, engolindo a fumaa. Sentiu-se tomada por uma leve embriaguez.
- Est melhor? Bom. Fomos buscar gua na fonte. .. aqui est! Lave o rosto.
Enquanto La obedecia, o rapaz continuava a fazer perguntas;
- Por que voc chorava? Perdeu o namorado? O seu pai, ento? No quer falar? Tanto pior. Tome, beba mais um gole.  muito bonita, sabia?
La sorriu, diante do tom admirado do garoto.
- Ora vejam! Ainda fica mais bonita quando sorri. Vocs no acham?
Os rapazes concordaram ruidosamente, empurrando-se uns aos outros e dizendo piadas tolas. A nica moa do grupo afastou-se de modo ostensivo.
- A sua amiga est com cimes - observou La.
Rita? No faz mal. Nada de grave - assegurou o rapaz. - Como se chama?
- La. E voc?
- Eu me chamo Marcel mas todos me tratam por Cecel. Estes so os meus amigos: Alphonse, Polo, Vonvon, Fanfan. O gordo ...
- No sou gordo! - gritou o rapaz.
La e todos os outros riram.
- No gosta que digam que  gordo. Mas magro  que ele no , apesar das restries. Chama-se Minou e ela  a Rita.
Todos estenderam a mo a La, exceto Rita, que se limitou a um aceno com a cabea.
- Moramos todos no dcimo-terceiro bairro - explicou o rapaz.
- Mas desde o dia 19 que no vamos para casa.
- Seus pais devem estar preocupados.
- No se preocupe com eles, pois eles tambm no se preocupam conosco. Segundo as ltimas notcias, estavam brincando de guerra a favor da Repblica. Ns, desde o comeo, servimos de mensageiros para o coronel Rol e para o coronel Fabien.
- Nesse caso, devem conhecer meu primo, Pierrot Delmas, de Bordus - disse La, num tom ansioso.
-  possvel. Mas eles so tantos!
- Foi ferido ontem na avenida Saint-Michel. Desde ento, nunca mais ningum o viu.
- Ah, no! No vai comear a chorar de novo! Prometo que iremos procurar o seu primo. Como  ele?
- Mais ou menos do meu tamanho, cabelos castanhos-escuros, olhos azuis.
- Como estava vestido?
- Vestia cala cqui, camisa xadrez verde e azul, casaco de algodo cinzento. E tinha braadeira e pistola.
- Voc, Vonvon, v at os esgotos e informe-se sobre esse tipo
- ordenou Marcel. - Encontre-nos  noite no lugar de sempre. Voc, Rita, procure nos hospitais da margem esquerda e voc,
Minou, nos da margem direita. Nos encontramos  mesma hora e no mesmo local. Entenderam?
- Sim, chefe.
- Voc  o chefe?
-  como voc diz. V  rua Abb-de-Epe, Fanfan, junto com Polo, e vejam se Fabien precisa de vocs. De passagem, diga bom-dia a meu irmo.
- Ia me surpreender se o encontrasse. Est combatendo no Senado, com certeza.
- O seu irmo  da polcia?
- No.  metalrgico. Quando quiseram mand-lo trabalhar na Alemanha em 1943, fugiu e foi se reunir aos resistentes da
HaiiteSaone. Foi l que conheceu Fabien, que tambm atende pelos nomes de Albert, de capito Henri e ainda de comandante
Patria, aps sua fuga. Meu irmo distribuiu panfletos durante algum tempo, espiou e serviu de agente de ligao. Desde setembro, participou de todas as aes de sabotagem efetuadas na regio. Em conjunto com o grupo Liberdade fez ir pelos ares a barragem de Conflandey e atacou um posto alemo perto de Semondans, onde foram mortos trs boches. Tambm sabotou linhas de ferro, destruiu pontes e locomotivas, tudo isso sob o comando de Fabien. Ele anunciou que hoje tomaria o Luxemburgo. Voc vai ver que vai dar certo, sobretudo agora que os Leclerc esto a para ajud-lo.
La se divertia com aquelas histrias contadas com admirao.
- Estou de barriga vazia - declarou Alphonse. - E se a gente fizesse uma boquinha?
- Boa idia. Vem conosco?
- No sei - disse La, hesitante.
- No pense demais, isso no  bom. Temos de comer para pr as idias no lugar.
- Tem razo. Onde vamos?
-  rua do Dragon. Tem uma amiga de meu pai que trabalha num barzinho l. A dona tem um certo fraco por mim e o grude no  mau. Leve a bicicleta, seno a afanam.
A amiga do pai de Cecel instalou-os numa mesinha colocada sob as escadas em caracol. Sem admitir comentrios, serviulhes um espesso pur de ervilhas com salsichas e trouxe uma garrafa de vinho. Depois de duas garfadas, La afastou o prato, incapaz de comer.
- No tens fome?
- No - disse ela, esvaziando o copo de vinho.
Engoliu do mesmo modo mais trs ou quatro copos, sob os olhares interessados de Cecel e de Alphonse.
Durante toda a tarde, La e os amigos recentes ingeriram uma assustadora mistura de vinhos, de licores e de aperitivos. s cinco horas, Fanfan irrompeu pelo barzinho como um p-devento, to ofegante que no conseguia falar.
- Assinaram. . . acabou. . Choltitz assinou a capitulao - informou com voz entrecortada.
- Hurra!
- E ento? Acabou a guerra?
- Vamos, conte-nos. Com quem  que ele assinou?
- Segurem-se bem. . . ns tambm assinamos!
- Est brincando - disse Cecel em voz pastosa.
No, no estou - garantiu o outro. - O coronel Rol, comandante das Foras Francesas do Interior da tle-de-France, assinou a carta de rendio junto com o general Leclerc e o general Von Choltitz,
- Bravo! Temos de brindar a isso!
- No acha que j bebeu demais?
Nunca se bebe demais quando se trata de celebrar a vitria. ainda muito cedo para falar em vitria. Continuam a lutar em Luxemburgo, no quartel da praa da Repblica, no Palcio Bourdon, em algumas estaes de metr e tambm nos arredores, sem dvida.
- Isso no me preocupa. Fabien ir expuls-los de l. Como vo as coisas?
- Vo bem - garantiu Fanfan. - Os Sherman de Leclerc ocupam a rua de Vaugirard, as Foras Francesas do Interior e os spabis marroquinos do 6 Exrcito entraram no jardim pela rua Auguste-Comte e carros da Prefeitura munidos de altofalantes circulam pelo bairro anunciando um bombardeio para as dezenove horas, se os alemes no se renderem. O cessarfogo est marcado para as dezoito e trinta e cinco. Mas acho que ser preciso recorrer aos avies, Voc vem comigo?
- No podemos deix-la assim .- respondeu Cecel.
- Quero ir com vocs - tartamudeou La, procurando levantar-se.
- Est maluca! J viu em que estado est?
- Quero lutar com os tanques. .
- Venha - insistiu Fanfan. - No vai se chatear por causa de uma guria bbada.
- No estou bbada... bebi apenas um pouco a mais para comemorar a chegada dos nossos heris.
- Podem ir embora - interveio a garonete. - Eu tomo conta dela. Vamos, levante-se, pequena. Venha deitar um pouco l em cima.
- Est bem. Mas, antes disso, quero mais um gole.
- Suba, que eu levo a bebida at l.
- Voc cuida dela? Promete?
- Sabe muito bem que pode confiar em mim, Cecel. Mas parece ______________ que est apaixonado! H algum que no vai ficar muito satisfeita com isso.
O adolescente saiu, dando de ombros.
Com muita dificuldade, conseguiram levar La at o pequeno aposento no andar de cima do caf, que servia ao mesmo tempo de salo de emergncia e de quarto de dormir. Mal caiu na cama, comeou a ressonar suavemente, com a boca aberta.

Captulo 21

LA DORMIU AT a noite. Atravs da porta entreaberta, chegavam at o quarto os.
rudos do caf, onde reinava a maior animao.
A jovem levantou-se, a cabea latejando.
- Que estou fazendo aqui? - perguntou ela em voz alta a si mesma.
Passos estrondeavam pela escada em caracol. A porta do quarto abriu-se brutalmente, dando passagem a Rita e a Alphonse. Rita encarou La com ar demente.
- Por que  que o deixou ir embora? Por qu? - ela gritava, precipitando-se de punho erguido para a jovem, que se desviou.
Mas no to rpido: recebeu um soco no rosto que aumentou sua enxaqueca e reavivou a dor do ferimento. Deslizou da cama, gemendo e segurando a cabea entre as mos. A adolescente atirou-se contra ela, agarrou-a pelos cabelos e esbofeteou-a com fora.
- Pare com isso! - trovejou Alphonse.
- Suma daqui! - gritou Rita. - Vou tirar a pele desta porca.
- Pare, j disse! Cecel no gostaria que voc fizesse isso - disse Alphonse tentando det-la.
A mo que batia pareceu ficar suspensa. Devagar, os dedos de
Rita largaram a cabeleira de La, que caiu molemente.
Os olhos da moa iam do corpo prostrado ao rosto de Alphonse, como que tentando compreender o que lhe acontecia. O companheiro esboou um gesto desajeitado, atraindo-a para si. Procurou acalm-la.
- A moa no teve culpa - garantiu ele. - Quando viu o irmo ferido, Cecel ficou como louco.
- Preferia que Cecel tivesse dormido com ela - balbucou Rita.
La voltou a se levantar e olhava-os sem entender.
- Mas, afinal, o que aconteceu?
Antes de responder, o adolescente assou o nariz ruidosamente.
- Cecel foi morto na rua de Tournon.
Oh, no!
Rita fitou La nos olhos e lhe atirou:
- Sim! E o seu primo tambm morreu!
- Fique quieta, Rita!
- Que  que tem? Por que s eu vou sofrer?
- Como souberam?
- Quem falou foi um tenente do coronel Rol. Seu primo foi transportado para o Val-de-Grac. Encontraram-no l. Ser melhor voltar para casa.
- E o que aconteceu com Cecel?
- Tnhamos chegado  zona dos combates. Na rua Garancire, encontramos Clement, o irmo dele, que gritou para que nos abrigssemos. Cecel no quis e os seguimos, caminhando rente s paredes da rua Vaugirard. A coisa estava feia. Um boche saiu por detrs de um carro incendiado, disparando em todas as direes. Clement foi atingido nas pernas. Arrastou-se por momentos e, ento, o Fritz, sem se apressar, descarregou a arma sobre ele e afastou-se em direo ao Senado.
Cecel gritava como louco. Procurei det-lo. Correu, desarmado, apanhou a espingarda do irmo e precipitou-se atrs do tipo da metralhadora. O sujeito parou, voltou-se e me pareceu que sorria. Ergueram as armas ao mesmo tempo. A bala de
Cecel atingiu o rosto. As dele transformaram meu amigo numa papa. Foi assim.
Os trs jovens, em p, de braos pendentes, como crianas perdidas, choravam por aquele rapaz de 15 anos, que acabava de morrer nessa bonita tarde de agosto de 1944, no dia em que Paris se libertava.
Enxugando os olhos sem dizer nada, Rita e Alphonse desapareceram. Ficando s, La atirou-se sobre a cama soluando e revendo, por vezes, o rosto do primo, outras, o de Cecel, ouvindo suas risadas. - Esto mortos! Esto mortos! - gritava ela para o travesseiro.
Em meio ao jbilo e a alegria, Paris desmontava suas barricadas, com grandes goles de vinho e muito riso. O dia estava bonito. Na Pont-Neuf, improvisou-se um baile ao som de um acordeo. Moas de cabelos presos na nuca, em caracis elaborados, rodopiavam nos braos de membros das Foras Francesas do Interior ou dos Leclerc, em licena at a meianoite.
Na rua Mazarine, na rua Dauphine e na rua Ancienne-Comdie, caminhava-se sobre cacos de vidro. Ao longo do cais, e na praa Saint-Michel, viam-se carcaas enegrecidas de viaturas, de caminhes. Em certos locais, humildes ramos de flores colocados sobre o pavimento das ruas indicavam que naqueles pontos havia cado um homem, uma mulher ou uma criana.
Algumas pessoas se ajoelhavam ao lado das manchas escuras.
La seguia devagar pelo cais dos Grands-Augustins, aflorando com os dedos as pedras ainda tpidas do sol de tarde ou a madeira de tendas de livros velhos.
Na praa Saint-Michel, os tanques manobravam, seguidos pelas aclamaes da multido. Apoiada ao parapeito, La os via passar, infeliz e desamparada. Aureolada pelo sol poente, a cabeleira da jovem parecia feita de fogo. Dos carros os soldados a saudavam, fazendo-lhe sinais para que fosse juntar-se s outras moas empoleiradas nos veculos  sua volta.
- La!
Apesar do barulho, a jovem ouviu seu nome e olhou em volta, procurando quem a chamava.
- La!
Sobre um tanque, um homem gesticulava.
- Laurent!
Lutou contra a multido para chegar at ele. Laurent mandou parar o veculo e estendeu-lhe a mo, ajudando-a a subir. Sem se incomodar com os olhares divertidos dos seus homens, manteve-a apertada contra si, balbuciando seu nome.
La sentiu-se dominada por uma sensao de irrealidade. Que fazia ela ali, em cima de um carro de assalto que se dirigia para a praa da Cmara Municipal nesse soberbo crepsculo, nos braos de um militar cujo cheiro de plvora, de leo, de sujeira e de suor a deixava tonta?
Mas era Laurent. . Laurent! Ele lhe falava da alegria de encontr-la to bonita nesse dia abenoado entre todos, da felicidade de rever sua mulher e seu filho. Do que ele falava? No compreendia. . . Esse no era o momento para se falar em coisas desagradveis. Os dois estavam bem vivos, rindo e chorando nos braos um do outro. Mas algo bramia dentro dela, tal como um animal ansioso por sair da jaula. Como lhe dizer? Seria prefervel esperar. Talvez amanh. . . sim, diria amanh.
No Chatelet, carros americanos vieram juntar-se aos da Diviso Leclerc, saudados pelos gritos dos parisienses.
- Viva a Amrica!
- Viva a Frana!
- Viva De Gaulle!
O entusiasmo vibrante da multido comeava a contagiar La. Aninhou-se mais nos braos de Laurent.
O tanque Exuprance parou junto da torre Saint-Jacques, onde estava o capito Buis.
- Ora, muito bem, d'Argilat! Pelo jeito voc no se entendia! - exclamou ele.
No  o que est pensando, Buis.
- Eu no penso nada. Apenas constato.
Laurent saltou do veculo e estendeu os braos para receber a companheira.
 sua volta formavam-se os pares, os risos tornavam-se mais agudos, as palavras mais intencionais, os gestos mais claros, os olhares inequvocos. Todos se preparavam para festejar a libertao de Paris da maneira simples e natural: fazendo amor.
La ergueu o rosto devagar para Laurent.
- Camille morreu - disse simplesmente.
Foi como uma deflagrao. Tudo explode e depois se extingue em volta de Laurent. Restam luzes de cores frias e nebulosas, formando aurolas nos objetos e silhuetas humanas que se movem com lentido irreal. Parecia que uma noite de nevoeiro gelado tombava em pleno ms de agosto, e dali surgiriam os mortos de Paris. O que iriam fazer a um militar francs de uniforme americano, chorando junto da torre Saint-Jacques, apoiado ao veculo batizado com o nome de uma santa j esquecida? Nada. . . Talvez apenas passassem por ali, acordados pelos estribilhos musicais, pelos suspiros dos apaixonados que, nessa noite, de Bolonha a Vincennes, das margens do
Sena aos portais dos edifcios, transformavam Paris na capital do prazer.
La presenciara o sofrimento do homem que amara antigamente. Experimentava uma piedade enorme, mas sentia-se incapaz de lhe proporcionar o tipo de conforto necessrio e suficiente, pois ela mesma se sentia privada de tudo, sem fora nem esperana.
- Charles est bem - foi tudo o que encontrou para o consolar.
- Que tem voc, meu velho? Ms notcias? - perguntou o capito Buis, colocando a mo no ombro do amigo.
Laurent endireitou-se sem procurar esconder as lgrimas, que lhe deslizavam pelo rosto sujo.
- Acabo de receber a notcia da morte de minha mulher.
- Sinto muitssimo. Como ela morreu?
- No sei - disse Laurent, voltando-se para La e interrogando-a com o olhar.
- Foi morta pelos alemes e pelos policiais, durante o ataque a uma base de resistentes.
Os trs permaneceram silenciosos, alheios  alegria dos que os rodeavam. Buis foi o primeiro a reagir.
- Venha, o patro est chamando.
- J vou. La, onde est o meu filho?
- Comigo, em casa de minhas tias, na rua da Universidade.
- Vou tentar obter uma licena para amanh. D por mim um beijo em Charles.
- At depois, senhorita. Eu cuido dele.
Embrutecida pelo cansao e pelo sofrimento, com a cabea doendo a ponto de querer gritar, La arrastou-se ao longo da rua Jacob empurrada por transeuntes brios de alegria e de lcool. Ao chegar  rua da Universidade, deixou-se ficar por muito tempo sentada na escurido das escadas, sentindo-se fraca demais para empreender a subida at o apartamento das tias.
A luz se acendeu. A luz j voltou, pensou. Arrastou-se pelas escadas acima e apoiou o corpo na campainha.
- Ento, que  isso. . . que  isso? No so maneiras. . - Ah, senhorita La! No tem chave? Mas o que lhe aconteceu? Deus do
Cu! Senhoras. . . senhoras!
- que est acontecendo, Esteile?
- La! Depressa. . . Lisa. . . Laure!
Ajudada pela irm e pela sobrinha, Albertine conduziu La para o div da sala de visitas. A palidez, as narinas afiladas e as mos geladas de La apavoraram Lisa.
Albertine molhou suas tmporas com gua fresca. As narinas distenderam-se, um estremecimento quase imperceptvel percorreu-lhe o rosto, as plpebras se descolaram e depois, devagar, seu olhar percorreu todo o aposento. Que sonho terrvel! Quem seria a criana que Laure embalava? Por que a irm chorava ao pousar os lbios nos cabelinhos loiros e sedosos? Onde estava a me do menino?
- No! - gritou La.
O seu protesto desesperado assustou as quatro mulheres. A criana no colo de Laure acordou e Charles acorreu, de olhos sonolentos. Subiu no div, aninhando-se contra a jovem.
- No tenha medo - disse ele. - Eu estou aqui.
- Esteve chorando e chamando por ela o dia inteiro - cochichou Estelle a Lisa. - E agora a conforta. . . Que criana mais estranha!
La, gemendo, levou a mo  cabea.
- Quer preparar um ch de tlia para a senhorita La, Estelle? E traga tambm uma aspirina.
- Sim, senhora.
Acalme-se, minha querida. Estvamos preocupadas por sua causa!
Tiveram mais alguma notcia de Franoise?
- No - respondeu Laure. - Vim o mais depressa que pude quando tia Albertine me telefonou dizendo o que acabava de acontecer. Franck e um amigo andaram por toda a parte onde pensavam encontrar Franoise, mas no conseguiram nenhuma informao. No se sabe para onde a levaram. E voc, onde esteve?
La no respondeu  pergunta, declarando simplesmente:
Vi Laurent.
Oh, at que enfim uma boa notcia!
- Pierrot morreu - acrescentou.
Laure nada disse; j sabia.
Pobre pequeno! - lamentou Lisa - Rezarei por ele.
A velha senhora no notou o olhar de raiva que La lhe lanou.
- Tens um cigarro? - perguntou  irm.
Toma - disse Laure, atirando-lhe um mao verde com um crculo vermelho.
Lucky Strike. . . nunca fumei.
Estelie surgiu com os comprimidos de aspirina e as xcaras de ch de tlia, adoado com o mel que descobrira na mercearia da rua de Seine.
Albertine pegou Charles, que adormecera, enquanto Lisa tomava conta do filho de Franoise. As duas irms ficaram sozinhas, bebendo o ch em silncio.

Captulo 22

PELAS GRANDES JANELAS abertas, chegavam at elas gritos e canes inslitas naquele bairro habitualmente to sossegado. Laure se levantou e ligou o rdio.
Ateno! - gritava o locutor. - Vamos retransmitir o discurso do general De Gaulie, proferido na Cmara
Municipal.
Por que haveramos de ocultar a emoo que a todos assalta, aos homens e s mulheres que aqui esto, em suas casas, na cidade de Paris que se ergueu para se libertar e que soube faz-lo por suas prprias mos? No, no dissimularemos essa emoo profunda e sagrada. H momentos que ultrapassam cada uma de nossas prprias vidas(. .
Paris! Paris ultrajada! Paris desfeita! Paris martirizada! Mas tambm Paris libertada! Libertada por si mesma, por seus habitantes, com o concurso das foras armadas francesas e o apoio e auxlio da Frana inteira, da nao que combate, da nica e verdadeira Frana. . . a Frana eterna.
Muito bem! Visto que capitulou em nossas mos o inimigo que ocupava Paris,  a Frana que entra na capital, que entra em sua casa. Vem sangrando, mas cheia de determinao. Vem mais lcida pela imensa lio recebida e tambm mais consciente que nunca de seus deveres e direitos.
Nesse instante a corrente eltrica foi cortada, extinguindo a voz do homem que, durante quatro anos, personificara a esperana dos tranceses e que, nessa noite, do Ministrio da Guerra, abandonado pelos alemes poucas horas antes, "governava a
Frana".
Laure acendeu a lamparina de querosene colocada sobre a mesinha redonda junto ao div, onde a irm ainda estava deitada.
- Vou para a cama e voc deveria fazer o mesmo. Talvez amanh a gente veja as coisas com maior clareza.
- Sim, talvez. Boa-noite.
- Boa-noite para voc tambm.
A claridade amarela da lamparina acentuava a tranqilidade da sala de visitas, cujo encanto antiquado fazia recordar um pouco o ambiente de Montillac.
Com um suspiro, La acendeu outro cigarro. Ps o mao de
Lucky Strike sobre a mesinha e notou, ento, um jornal. Era o
Figaro com uma notcia de seis colunas sob o seguinte ttulo: AS
TROPAS FRANCESAS CHEGARAM ONTEM S VINTE E
DUAS HORAS  PRAA DA CMARA MUNICIPAL.
O nome de Franois Mauriac figurava em primeira pgina. La comeou a ler o artigo intitulado: O PRIMEIRO DOS
NOSSOS.
No mais triste momento do nosso destino, a esperana dos franceses consubstanciouse num homem. Essa esperana iria depois ser suprimida pela voz desse mesmo homem - um homem solitrio. Quantos foram, ento, os franceses que se apresentaram para compartilhar dessa solido, os que compreenderam o seu modo e o que significa.
fazer a ddiva de sua pessoa  Frana?
As linhas danavam em frente dos olhos de La.
A IV Repblica  filha do martrio. Nasceu em meio ao sangue, o sangue dos mrtires. O sangue de comunistas, de concidados, de cristos e de judeus foi o sangue do nosso batismo comum e a figura do general De GaulIe permanecer entre ns como o seu smbolo vivo. . . No temos iluses quanto aos homens. . .
Recordo os versos do velho Hugo com que, durante estes quatro anos, tantas vezes acalentei o meu desgosto  Frana livre, por fim erguida!
 veste branca aps a orgia!
O jornal deslizou das mos de La. Adormecera.
Novamente o fantasma do homem de Orlans, desta vez armado com uma tesoura descomunal. No exato momento em que seria atingida, La acordou encharcada de suor. S voltou a adormecer quando j amanhecia.
Aroma de caf. . . caf autntico? De onde viria aquela raridade que a arrancara do sono agitado? Estranhamente, apesar de uma leve dor de cabea, La sentia-se bem. Laure acabara de entrar na sala com uma bandeja onde uma xcara fumegava.
- Caf?
- Se quiser assim. Foi Laurent quem trouxe.
- Laurent est aqui?
- Sim. Est no seu quarto, com Charles.
La se levantou rapidamente.
- No, no v. Charles est lhe contando como a me morreu. Tome. Beba enquanto est quente.
Mas. . . parece caf verdadeiro! O que ?
- Um p feito de caf. Coloca-se gua quente em cima e fica pronto para ser bebido.  americano, eu creio.
Continuam sem saber nada de Franoise?
Continuamos. Mas Franck deu notcias pelo telefone. Encontrou um responsvel pelas detenes, velho amigo do pai.
- Pensei que o pai dele fosse mais ou menos colaboracionista - observou La.
- , e o outro tambm.
- No estou entendendo.
-  muito simples: favorecida pelo clima de insurreio, muita gente conseguiu se infiltrar nas Foras Francesas do Interior.
Dizem que muitas dessas pessoas deram mesmo provas de grande coragem explicou Laure. - Franck ficou admirado quando encontrou esse tal amigo do pai, armado de metralhadora e com a braadeira da Cruz de Lorraine. Reconhecendo Franck, o colaboracionista teve medo que ele o denunciasse. Por isso mesmo se prontificou a se informar sobre o local onde Franoise est presa. Se tudo correr bem, deveremos ter notcias no final da tarde.
- E quanto a Pierrot?
Seu corpo est no necrotrio. Fui identific-lo ontem.
- Ontem! Mas no me contou nada!
Para qu? Temos que avisar tio Luc. Tia Albertine prometeu encarregar-se disso assim que se restabeleam as ligaes telefnicas entre Paris e Bordus.
Bateram  porta.
- Entre.
Era Laurent com Charles ao colo. Ambos estavam com os olhos vermelhos.
- O papai voltou, La!
- Bom-dia, La. O general Leclerc me espera; no posso demorar. Voltarei depois do desfile nos Campos Elseos. Obrigado por tudo - acrescentou beijando-a na testa. - At logo  noite Charles.
- Quero ir com voc no seu carro.
- No  possvel, meu querido. Fica para outra vez.
O garoto comeou a choramingar. La apertou-o contra o corpo.
- No chore - disse, - Iremos encontrar seu pai logo mais.
- De verdade?
- De verdade.
Aps um ltimo beijo no filho, Laurent foi embora.
Como ele parece infeliz, pensou La.
Uma enorme bandeira tricolor flutuava sob o Arco do Triunfo.
O dia estava magnfico; nenhuma nuvem. Os parisienses talvez mais de um milho - espalhavam-se ao longo do trajeto que fariam o general De Gaulle, os generais Leclerc, Juim e Koening, os chefes da Resistncia e as Foras Francesas do Interior.
Da toile at Notre-Dame, passando pela Place de la Concorde, ruas e passeios fervilhavam de gente. O pequeno avio das
Atualidades Americanas fazia crculos no espao.
La e Laure, de mos dadas com Charles, deixavam-se invadir aos poucos pela euforia da multido.
- L esto eles! L esto eles!
Sentados na balaustrada das Tuileries que dominava a Place de 1a Concorde, viam avanar em sua direo um rio imenso, pontilhado de bandeiras e de bandeirinhas,  frente do qual caminhava um homem alto e solitrio: o general De Gaulle, precedido por quatro tanques franceses: Lauraguais, Limagne, Limousin e Vercelon. Ali, o cortejo suspendera a marcha diante da Guarda que tocava a Marselhesa e a Marcha Lorraine. Os hinos irrompiam de milhares de peitos.
- Viva De Gaulle! Viva a Frana!
Anos mais tarde, Charles de Gaulle escreveria em suas memrias:
Ah,  um mar! Uma multido imensa, apinhada de um e de outro lado da rua. Talvez dois milhes de almas. Tambm os telhados fervilham de gente. Grupos compactos empilham-se em todas as janelas, misturados s bandeiras. H cachos humanos agarrados em escadas, em mastros, em lampies. At onde a minha vista alcana s se distingue a vaga humana ao sol, sob o pavilho tricolor.
Sigo a p. No  o dia de passar revista, quando as armas cintilam e as fanfarras soam. Trata-se, neste momento, da rendio de um povo a si prprio, atravs do espetculo de sua alegria e da evidncia de sua liberdade, um povo ontem esmagado pela derrota e disperso pela servido.
Como o corao de cada um dos parisienses escolheu Charles de Gaulle como recurso para suas a/lies e smbolo de sua esperana, que todos o vejam aqui, familiar e fraterno e que  sua vista resplandea a unidade nacional (. .
Acontece nesse momento um daqueles milagres da conscincia nacional, um desses gestos da Frana que, por vezes, durante sculos iluminaram a nossa histria. Nesta comunho que  um s pensamento, um s mpeto, um s grito, as diferenas se apagam, os indivduos desaparecem (. .
Mas no existe alegria sem mcula, mesmo para quem segue o caminho do triunfo. s idias felizes que se acumulam em meu esprito, mesclam-se muitas preocupaes. Eu sei muito bem que toda a Frana s aspira  libertao. O mesmo ardor de voltar a viver, que explodia ontem em Rennes e em Marselha e que hoje entusiasma Paris, se repetir amanh em Lyon, em Rouan, em Lille, em Dijon, em Estrasburgo e em Bordus. Basta abrir os olhos e os ouvidos para constatar que o pas deseja erguer-se novamente. Mas a guerra continua. Resta-nos ganh-la. Qual o preo total que ser preciso pagar pelo resultado?
Preparavam-se para atravessar a rua Paul-Droulde em frente do Arco do Carrossel, quando os disparos recomearam.
Atiraram-se de barriga na grama. Em redor, as pessoas, tomadas de pnico, fugiam na maior desordem. Era tamanha a confuso que os homens das Foras Francesas do Interior, postados na outra margem do Sena, comearam a disparar contra o pavilho de Flore. Por sua vez, os das Tuileries, julgando tratar-se de um ataque, responderam aos tiros.
- Seria estpido demais morrer assim - comentou La, erguendo-se, depois de uma saraivada de balas ter-se crivado no muito longe dela.
O general saudou a multido com as duas mos e depois subiu para o enorme Renault preto conversvel, que fora utilizado pelo marechal Ptain durante sua visita anterior. Nesse instante, ouviram-se algumas detonaes.
- Os bandidos atiram dos telhados!
- Deitem-se!
Algumas pessoas atiraram-se ao cho enquanto os responsveis pelos servios da ordem, de pistolas em punho, empurravam mulheres e crianas para trs dos carros de assalto e dos hall-tracws.
Que confuso, pensou La, contemplando a Place de la Concorde que no passava agora de um amontoado de corpos enredados pelo medo, de saias arregaadas at em cima, de bicicletas cadas, de barreiras de arame farpado, de jipes e de carros.
Agachou-se atrs da balaustrada quando Laure e Charles puxaram por ela. O pequeno estava encantado com os acontecimentos.
Homens das Foras Francesas do Interior rebateram em direo ao pavilho de Marsan. O tiroteio mais intenso parecia vir da estao de Orsay e da rua de Rivoli. Depois, to subitamente como tinham comeado, os tiros cessaram. Os parisienses ergueram-se, embaraados, olhando em volta.
As duas irms atravessaram correndo o jardim das Tuileries, transformado em campo de manobras, rebocando pela mo a criana que se divertia com aquilo tudo.
- No est cansado? - perguntou La preocupada.
No estou. . . no estou - garantia ele rindo. - Quero ver papai no carro dele.
Perto das bilheterias do Louvre, encontraram-se com Franck, comsua bicicleta. Laure instalou Charles no porta-bagagens e eles foram para Notre-Dame.
No ptio da catedral, De Gaulie acabara de descer do carro e beijava duas garotas vestdas de alsacianas, que lhe entregaram um ramalhete tricolor.
Os carros estacionados no largo desapareciam sob cachos humanos. Depois que o general partira da Place de la Concorde os disparos no haviam cessado durante todo o trajeto at Notre-Dame, provocando monstruosas confuses
Aquela gente esgotada por quatro anos de privaes, enervada pelos combates que antecederam a libertao de Paris, gritava a sua alegria:
- Viva De Gaulie!
- Viva a Frana!
- Viva Leclerc!
O general De Gaulle encaminhava-se para o prtico do Juzo Final quando explodiu um tiroteio ainda mais intenso que os anteriores.
- Esto disparando das torres de Notre-Dame - gritou algum.
A maioria das pessoas atirou-se de barriga no cho. De Gaulie, em p, fumava tranqilamente um Craven, observando a cena com ar divertdo.
Imediatamente, os Leclerc e os fif is comearam a disparar em direo  catedral, mutilando as grgulas, cujos estilhaos choveram sobre aqueles que estavam junto ao prtico. Oficiais da 2 Diviso Blindada corriam em todos os sentidos, ordenando o cessar-fogo.
V-se que os seus homens no esto habituados a combates de rua - disse o coronel Rol ironicamente ao tenente-coronel jacques de Guiliebon, da 2. Diviso Blindada.
- No esto, mas pode crer que iro se habituar - ele respondeu, medindo o outro com o olhar.
Enquanto o general Leclerc aplicava algumas bastonadas a um soldado em pnico, que disparava em todas as direes, o general De Gaulie, irritado, penetrava no templo sacudindo sua jaqueta.
O coronel Peretti abria-lhe caminho, distribuindo socos e pontaps. O general chegara cerca de trinta minutos antes da hora prevista e o clero no estava ali para receb-lo. O rgo continuava em silncio e o coro envolto em penumbra, por falta de energia eltrica.
De Gaulle dera apenas meia dzia de passos quando o tiroteio recomeou dentro da prpria catedral. Os presentes, derrubando cadeiras e genuflexrios, atiraram-se ao cho, aterrorizados pelo eco que ampliava o som das detonaes.
- Os soldados disparam da galeria dos Reis!
- No so soldados. So homens da delegacia que esto l em cima.
Impassvel, De Gaulle venceu os sessenta metros da nave por entre filas de cadeiras cadas e de fiis prostrados contra o solo, as cabeas protegidas entre os braos. Por instantes, um rosto emergia o tempo suficiente para gritar:
- Viva De Gaulie!
Atrs do general, Le Trocquer resmungava:
- Vem-se mais traseiros do que caras.
Quando chegou ao coro, De Gaulie dirigiu-se para a cadeira colocada  esquerda, na cruz do transepto, seguido por Parodi, por Peretti e por Le Trocquer, enquanto as balas continuavam a assobiar.
Monsenhor Brot, arcebispo de Notre-Dame, encaminhou-se para De Gaulle:
- Outra pessoa que no eu deveria estar aqui para receb-lo, meu general. Mas foi impedida pela fora. Deste modo, encarregoume de lhe apresentar os seus calorosos e firmes respeitos.
De fato, o general De Gaulie deveria ter sido recebido pelo cardeal Suhard, mas o governo Provisrio fizera saber ao prelado, nessa mesma manh, que sua presena seria indesejvel. Por qu? Censuravam-no por ter recebido o marechal
Ptain em sua catedral e de ter presidido as exquias de Philippe Henriot. No entanto, na cerimnia fnebre, o cardeal recusara-se a usar da palavra, embora as autoridades alems tivessem pedido, o que fez com que os soldados dissessem:
- Suhard  gaulista.
Nem gaulista, nem colaboracionista; um homem de igreja, muito simplesmente, devia pensar monsenhor Brot.
Mande tocar os rgos - disse Le Trocquer.
- No h corrente eltrica.
Nesse caso, d ordem ao coro para cantar.
Um pouco hesitante, de incio, o Magnificat retiniu sob as abbadas. O general De GaulIe cantava em voz alta, arrastando consigo a assistncia, Os disparos cessaram por instantes. Depois recomearam no meio do hino, ferindo trs pessoas.
Padres jovens davam a absolvio. Interompido por momentos, o hino elevou-se de novo sob as abbadas seculares, acompanhado pelo assobio das balas.
Dois rapazes de camisa branca recolhiam os feridos e as pessoas acidentadas durante os momentos de desordem.
O Magnificat terminara, O local se tornava perigoso demais. No haveria Te Deum nesse dia.
Precedendo o general, abria-lhe caminho um magnfico bedel. L fora, a multido acolheu De Gaulle com vivas formidveis.
- Viva De Gaulie!
- Que Deus salve De Gaulie!
- Que a Virgem guarde De Gaulie
Que Deus proteja a Frana!
O homem do dia saudou a massa humana agitando as duas mos e foi se instalar tranqilamente em seu carro, que partiu seguido por aclamaes.
Charles era o mais feliz e o mais orgulhoso dos meninos. Dominava o mundo do alto da torrinha do tanque de seu pai.
Tinham reencontrado Laurent d'Argilat na Cmara Municipal, quando ele voltava da Place de la Concorde. Informou-os de que voltaria a partir em menos de uma hora.
- Apesar dos franco-atiradores, as pessoas aqui nem sequer desconfiam de que os combates prosseguem nos subrbios ao norte de Paris - disse Laurent.
- Mas, ento, os alemes no assinaram a rendio?
- A ata de rendio  vlida para os que combatiam sob as ordens do general Von Choltitz; no para os outros. Pelo menos,  o que afirmam os seus chefes. Instalaram-se no Bourget e na floresta de Montmorency. Dispoem de tropas recm-chegadas de bicicleta, vindas do Pas-de-Clais e, sobretudo, de carros de assalto da

47 Diviso de Infantaria do general Wahle.
- Mostre como  que isso funciona, papai - pediu Charles.
La, empoleirada no tanque, deu um tapinha na mo da criana.
No mexa em nada - ordenou. Vai explodir tudo.
Laurent sorriu sem alegria. Beijou o filho, ergueu-o e, apesar de seus protestos, estendeu-o a Franck.
- Cuide dele, La - recomendou. - Virei v-los de novo assim que puder. Depois falaremos de Camilie. Quero saber tudo sobre a morte dela.
Charles e os trs jovens ficaram observando a manobra do tanque. Depois, seguiram-no at a avenida Sebastopol.
Franck acompanhou as duas irms e o menino  rua da Universidade. Ao retirar-se prometeu voltar  noite com notcias de
Franoise e tambm sobre o abastecimento.
O passeio deixara Charles cansado e ele se queixava de dores de cabea. Esteile ps o termmetro; tinha trinta e nove graus de temperatura. A velha criada resmungava, dizendo que j sabia o que ia acontecer. . . que a criana no deveria ter sado. . que ainda no se restabelecera por completo.
La deitou Charles em sua cama e ficou junto do menino, segurando-lhe a mo at ele adormecer. Avaliara mal as suas prprias foras, sem dvida, pois tambm acabou dormindo.
Arrancou-a ao sono uma espcie de ribombar constante, Olhou o relgio: onze horas e trinta minutos. O quarto estava mergulhado na penumbra. O ribombar intensificava-se. Avies! Sobrevoavam Paris. Deviam ser aparelhos aliados e iam, por certo, bombardear a frente. As sirenes comearam a uivar. Os avies estavam agora mais perto e pareciam voar muito baixo. La correu para a janela.
Depois de Orlans, nunca mais vira tantas aeronaves em conjunto. Os riscos dos projteis e os raros disparos da D.C.A.
pareciam no incomod-los.
De repente, ouviram-se grandes exploses nos iados da Cmara Municipal e das Halles que abalaram todo o bairro, iluminando a noite.
- Temos de descer para os abrigos! - gritou Albertine, abrindo a porta do quarto, com o beb de Franoise no colo.
Lisa e Estelle passaram correndo pelo corredor, com os cabelos desgrenhados.
- . Desam sem mim e levem Charles - disse La.
O menino, estremunhado, agarrou-se a ela, recusando-se a larg-la.
- No quero! No quero; fico com voc.
- Est bem. Ento fique.
Aninhado contra o corpo da amiga, ambos instalados numa das grandes poltronas da sala de visitas, Charles voltou a adormecer.
La fumou um cigarro. As bombas alems caram no Marais, na rua da Morgue, no hospital Bichat - onde mataram sete enfermeiras - no mercado dos vinhos, e provocaram um incndio que iluminou a cidade como fogo de artifcio.
Por volta da meia-noite, soou o fim do alerta areo, O retinir das sinetas dos bombeiros e as sirenes das ambulncias substituram ento o estrondo das bombas.
Todos voltaram para a cama, mas no por muito tempo. s trs horas da madrugada, outro alerta arrancou novamente os parisienses de suas camas.
No dia seguinte, havia uma centena de mortos e cerca de quinhentos feridos. Foi um rude despertar para todos aqueles que pensavam que a guerra terminara.
Ao despontar do dia 27 de agosto de 1944, Paris cuidava de seus feridos.
Em Notre-Dame, desenrolava-se estranha cerimnia com todas as portas fechadas, cerimnia dita de reconciliao.
Derramara-se na Catedral o sangue do crime, segundo a expresso litrgica consagrada, e o templo deveria ser reconciliado antes de reaberto aos fiis.
O arcebispo de Notre-Dame, monsenhor Brot, coadjuvado pelo cnego Lenoble, percorreu todo o interior e o exterior da catedral benzendo as paredes com gua gregoriana, uma mistura de gua, cinzas, sal e vinho. Depois da cerimnia, realizada apenas em presena de membros do clero adstritos a Notre-Dame, celebraram-se ento normalmente a missa e os ofcios divinos.
Nessa manh de domingo, foi celebrada uma missa numa das barricadas da avenida Saint-Michel, pelo capito das Foras
Francesas do Interior, padre das bases da Resistncia da Aaute-Savoie, rodeado de bandeiras e diante de um grande pblico em atitude de recolhimento.
La recusou-se a acompanhar as tias  missa cantada em SaintGermanin-des-Prs.
Aps diversas tentativas infrutferas, Albertine de Montpleynet conseguiu, enfim, falar com Luc Delmas pelo telefone. A ligao era bastante precria, porm, e tiveram de gritar para se fazerem ouvir.
- Al? Al? Est me ouvindo? Quem fala  Albertine de Montpleynet, tia das pequenas Delmas. . . Sim, esto aqui comigo. . .
Vo bem. Telefono-lhe por causa de seu filho. . . Sim, de Pierrot. . . No, no. . . foi morto, lamento muito. . . Pelos alemes. . .
Infelizmente  possvel. Fui ontem identificar o corpo.
No sei. . . Estava com La na avenida Saint-Michel. . . Vou ver, ela ficou ferida. No desligue.
Albertine virou-se para a sobrinha, dizendo:
- Seu tio Luc est ao telefone e quer falar com voc.
- Nada tenho para lhe dizer.  por sua causa que Pierrot morreu.
- Est sendo injusta. Seu tio  um homem massacrado pelo desgosto.
- Bem-feito!
- No tem o direito de falar desse modo, La. No se esquea de que ele  irmo de seu pai. Se no for por caridade crist, ao menos fale com ele por humanidade, em memria de seus pais.
Por que lhe falavam de seus pais naquele momento? Estavam mortos, como Camille e como Pierrot.
- Al? - gritou La, arrancando o fone das mos da tia. - Al?. . . Sim,  La. Encontrei Pierrot por acaso, h dias. Fazia parte da Resistncia h um ano. Havia se juntado aos comunistas. Enviaram-no a Paris para servir de agente de ligao entre os chefes da revolta. Foi morto por uma granada. . . No, no sei se sofreu, pois tambm fiquei ferida e no nos levaram para o mesmo hospital. Al? Al? No desligue. . . Al? Quem est falando? Ah,  voc, Philippe. Sim,  horrvel. . . Fomos libertados aqui. O que est acontecendo em Bordus?. .. Qu?! Esperam que os alemes expulsem os americanos?! Receio que ainda no tenha percebido que os alemes j perderam a guerra e que, mais tarde ou mais cedo, pessoas como voc e como seu pai correm o risco de serem fuziladas. . . No, isso no me daria nenhum prazer. Seria indiferente.
Pierrot est morto. . . sim, sim, mudei bastante. Que querem que a gente faa quanto ao enterro?. . . Ligue para a casa de minhas tias. . . Littr 3-2. . . Tiveram notcias do tio Adrien?
La desligou, subitamente pensativa.
Foi terrvel ouvi-lo chorar, tia Albertine - disse a jovem em voz sumida.

Captulo 23

O Ms DE SETEMBRO de 1944 seria para La o ms das grandes decises.
Tudo comeou, de fato, na noite de 30 de agosto.
O telefone soou por volta das oito da noite. Albertine foi atender.
- Al?... Sim, minha sobrinha est aqui. Quem quer lhe falar?. . . Como? No entendi. . . Sr. Tavernier? Franois Tavernier? Ah, boa-noite, sr. Tavernier! Onde est o senhor? Em Paris? Quando chegou?. . . Com o general De Gaulie? Que alegria em ouvilo, sr. Tavernier!. . . Sim, La est bem. . . A senhora d'Argilat? Infelizmente a senhora d'Argilat morreu. . . Sim, sim,  terrvel.
O menino vive agora conosco. Estivemos com o pai h dias. Neste momento, combate ao norte de Paris. . . No desligue.
Vou lhe passar La.
Albertine de Montpleynet gritou para a sobrinha:
- La! Telefone!
A moa chegou de roupo de banho, os cabelos molhados.
- Quem ?
- O senhor Tavernier.
- Fran...
- Sim, Franois. Mas o que voc tem, minha pequena? Est se sentindo mal?
O sangue corria to rpido em suas veias que todo o corpo lhe doa.
- No. . . no. . . estou bem - respondeu La em voz fraca, sentando-se antes de pegar o fone.
Albertine de Montpleynet olhou a sobrinha com uma expresso enternecida, mas ao mesmo tempo inquieta. Daria tudo para ver a filha de Isabeile feliz.
- Gostaria de ficar a ss, minha tia.
- Claro. . . claro, minha querida. Desculpe-me.
La hesitava em aproximar-se do fone, apesar de ouvir do outro lado do fio als cada vez mais impacientes. Por fim decidiu-se:
- Al, Franois?. . . Sim, sim. . . No, no estou chorando.. No. De verdade. . . Onde? No Ministrio da Guerra? Onde fica isso?... Rua Saint-Dominique, n 14?... Vou j.  s o tempo de secar os cabelos. . . Franois. . . Muito bem. . . muito bem, no vou perder tempo.
Louca de alegria, La desligou, rindo e chorando ao mesmo tempo, com desejo de ajoelhar e agradecer a Deus por Franois estar vivo!
Tentava esquec-lo desde a morte de Camilie para no ter de chorar o desaparecimento de mais uma pessoa querida. Ao rever Laurent e diante da alegria que sentira, pensou ter conseguido. Mas agora, ao simples som da voz de Franois, seu corpo estremecera como sob uma carcia. Depressa. . . depressa. . . aninhar-se nos braos dele, esquecer todos os horrores, no pensar mais em guerras e em mortes, pensar apenas no prazer.
Os cabelos ainda no estavam secos, ia ficar horrorosa. Correu para o quarto, esfregando a cabea com fora.
Vasculhou o armrio em busca de um vestido. Onde estaria aquele azul que lhe ficava to bem? Desaparecera. Talvez estivesse no cesto de roupa suja.
- Laure! Laur&
- Que ? Por que est gritando desse jeito? O que quer?
- Voc me empresta o seu vestido vermelho e verde?
- Mas...  um vestido novo!
- Exatamente por isso. Vamos, seja boazinha, me empreste. Prometo ter cuidado com ele.
- Est bem. Mas s para lhe fazer um favor. Onde vai?
- Tenho um encontro com Franois Tavernier.
O qu! Ele voltou?
- Sim.
Que sorte a sua! V logo. No o faa esperar. Vou buscar o vestido.
Quando Laure voltou, La, completamente nua, espalhava talco pelo corpo.
Como voc  bonita!
- No mais do que voc.
Claro que ! Todos os meus amigos acham. Pegue o vestido. Mas tenha cuidado. O tecido  muito delicado.
Laure ajudou-a a colocar o vestido de crepe de musselina, com um grande decote e mangas largas e curtas. O corpo justo fazia parecer mais ampla a saia curta e franzida.
- Voc sabe se cuidar, bem? Nada mais nada menos que um vestido de Jacques Fath!
Troquei-o por cinco quilos de manteiga e cinco litros de azeite
- explicou Laure.
- No foi caro.
- Acha? A manteiga  um artigo mais raro que os vestidos de um grande costureiro e, com a libertao, sero de graa os das ex-mulheres elegantes da alta sociedade alem.
- Voc  engraada, Laure! Quem diria que a mocinha de Bordus apaixonada pelo marechal Ptain se transformaria em negociante do mercado negro.
- E que tem isso? Todos podem se enganar. Eu me enganei a respeito de Ptain e voc tambm poder se enganar sobre o general De Gaulle. E quanto ao mercado negro. . . ora!, sem ele voc no teria comido todos os dias.
- Isso  verdade, bem que o reconheo. E simplesmente admiro seu jeito para negcios. Quanto a De Gaulle, ainda bem que ele existe.
- Depois veremos. . No passa de um militar como qualquer outro.
La encolheu os ombros sem responder.
- Nenhuma notcia de Franoise?
- Nenhuma. Franck continua procurando. Fale a esse respeito com Franois Tavernier. Talvez ele tenha alguma idia. E quanto a Pierrot, que  que fazemos?
Combine com tia Albertine.
- A que horas voc volta?
- No sei. Diga para as tias que vou sair e cuide de Charles.
- Claro. . . as chateaes so para mim! - falou Laure, fingindo-se aborrecida. - Seja como for, divirta-se muito. E cuidado com o meu vestido!
- Cuidarei dele como da menina dos olhos - garantiu La. - No sei onde arranjar cinco quilos de manteiga e cinco litros de azeite para lhe pagar se acontecer alguma coisa.
- Voc est muito longe do preo atual. Agora j seriam necessrios dez quilos e dez litros.
- Continue assim e ficar rica.
-  o que pretendo. Vamos, suma daqui! Estou ouvindo tia Lisa e, se ela v que est saindo, vai ter que lhe dar explicaes durante uma hora: Onde vai? Com quem? Ser adequado? Etc., etc.
- J fui embora. Obrigada.
La desceu as escadas to depressa que saltou o penltimo degrau e foi estatelar-se no cho de mrmore da entrada. Torceu o pulso violentamente.
- Merda! - exclamou ela.
- Que palavra to feia em boca to bonita!
- E que frase to vulgar!  voc, Franck? No se v nada com esses malditos cortes de luz.
- Sim, sou eu.
- Ajude-me a levantar.
Quando La se ergueu deixou escapar um grito.
- Machucou-se?
- No  nada, Voc est to carregado! O que  isso?
- Provises para Laure: J sei onde est sua irm.
- Por que no disse logo?
- Porque no me deu tempo.
- Ento...?
- Est no Vel'd'Hiv.  a que as Foras Francesas do Interior renem os colaboracionistas.
-  fcil entrar l?
- Sim, desde que raspe o cabelo.
No achei graa.
- Desculpe. No, no  fcil entrar. Diante dos portes h sempre uma horda de energmenos gritando injrias, espancando e cuspindo nos que so conduzidos para l. At os advogados, mesmo em companhia de responsveis das Foras Francesas do Interior, so to maltratados como os outros.
- Veja se consegue se informar - pediu a jovem. - Vou encontrar um amigo, chegado ao general De Gaulle e lhe falarei a esse respeito.
Pea-lhe que mova todas as influncias para tir-la dali. Parece que as condies de deteno no so muito severas afirmou Franck. Depois aconselhou: - No  prudente andar por a passeando sozinha  noite. No quer que a acompanhe?
- No, obrigada. Vou  rua Saint-Dominique, que no fica longe daqui. Agradeo-lhe o que tem feito por Franoise. Eu lhe telefonarei amanh para dizer alguma coisa.
- Ento, at amanh. Boa-noite.
La no ouviu as palavras de despedida, pois j estava na rua.
No Ministrio da Guerra, depois de se identificar, a sentinela mandou que a conduzissem ao primeiro andar. Fizeram-na entrar no grande salo, onde ainda existiam vestgios dos ocupantes anteriores: o retrato do Fhrer retirado da parede e jogado num canto, bandeiras e papis timbrados com a sustica espalhados pelo cho, caixotes cheios de pastas e documentos espalhados ao acaso, atestando uma partida precipitada.
- J avisamos o comandante. Ele pediu para a senhorita esperar alguns minutos. Est com o general De Gaulle. Aqui esto alguns jornais para se entreter.
Havia de fato dezenas de jornais de todos os recantos da Frana sobre as mesas: La Nation, Les Aliobroges, Le FrancTireur, Libration, Combai, D/ense de la France, La Marseiliaise, L'Aisne Nouveile, Lyon Liber,
L'Humanite', Le Patriote Niois, Le Libre Poitou, La Petite Gironde.
Bordus tambm fora libertada! As Foras Francesas do interior tinham entrado na cidade s seis e meia da manh. Na primeira pgina, o La Petite Gironde publicava a ordem do dia n 1 do Conselho Regional de Libertao do Sudoeste, do delegado militar regional Triangle (o coronel Gaillard) e do delegado militar do War Office Major, Roger Landes (Aristide)
s Foras Francesas do Interior.
Aristide! Estava vivo! Tio Adrien devia estar junto com ele.
Bordus festejou a sua libertao. Estava na manchete de um jornal que La no conhecia. Mas, coisa curiosa, tinha o mesmo endereo e o mesmo emblema do La Petite Gironde, de segunda-feira, dia 28 de agosto um galo cantando -, embora o exemplar do jornal desconhecido tivesse sado em 29. Chamava-se Sud-Quest.
Entregue aos seus pensamentos, La no notou a chegada de Franois e se viu nos braos dele sem saber como.
- Largue-me! Oh. . . Franois!
- Voc. - . Voc - . - murmurava Tavernier sem conseguir dizer mais nada.
Era como se uma onda os arrebatasse e logo os soltasse, os fizesse cair rolando, como se os triturasse e os aniquilasse.
Enlaados, oscilavam atravs da sala, de lbios colados, chocando com os mveis, numa embriaguez to grande que nem sequer perceberam que no estavam a ss.
- Ento, Tavernier, era esse o encontro importante?
Desculpe, meu general. Mas, como pode ver, era da maior importncia.
Estou vendo.. . estou vendo.  uma pequena muito bonita. Quando terminarem o encontro, dentro de uma hora, digamos, venha falar comigo.
- Muito bem, general. Obrigado, general.
Assombrada, La ficou olhando a alta silhueta voltar ao seu gabinete.
-  ele, de verdade? balbuciou.
- Estou envergonhada.
No tem do que se envergonhar.  um homem. Exatamente por isso.
- Enquanto espero, temos uma hora e a bno dele - observou Franois Tavernier.
- Quer dizer que.
- Sim.
La enrubesceu e Franois deu uma gargalhada.
- No ria. No tem graa nenhuma. O que ele ir pensar a meu respeito?
Mas, esquecendo-se da vergonha, a moa se deixou arrastar para o andar superior.
-  aqui o gabinete do general - segredou Franois Tavernier, quando passavam em frente de uma porta guardada por um jovem militar.
Ao fundo do corredor, depois de terem deixado para trs diversas outras portas, Tavernier encontrou, por fim, aquiio que buscava. Era uma espcie de dispensa iluminada por uma clarabia, onde se empilhavam tapearias e papis de parede cuidadosamente enrolados. Reinava l dentro um calor sufocante e um cheiro de poeira e de naftalina.
Tavernier derrubou a jovem sobre um monte de tapetes Aubusson e deixou-se cair sobre ela.
- Espere - . . beije-me - disse La.
- Isso fica para depois. Andei sempre com a coisa em p, pensando em voc e no seu belo cu, e agora no posso esperar mais.
Febrilmente, Tavernier procurava tirar-lhe as calcinhas.
- Que chateao! Tecido de antes da guerra! - exclamou, puxando com violncia.
- Pare! Vai rasgar o vestido.
- Eu lhe comprarei dez. Ah.
Penetrou-a com tanta brutalidade que lhe arrancou um grito de dor e de raiva.
- Est me machucando. Deixe-me!
- Antes morrer que deix-la agora.
La debatia-se, procurando libertar-se daquele pnis que a maltratava.
Patife!
Foi essa a primeira palavra que ouvi de voc.
Patife! Patife! Pat.
Mas o desejo de Franois contagiara La e, tal como animais, ambos grunhiam e se mordiam, chegando a um orgasmo rpido e sem requintes.
Mas aquele prazer to brusco no bastou para lhes aplacar o desejo. Sem se desprenderem, voltaram a se amar, experimentando uma volpia que desconheciam. Depois, extenuados e satisfeitos, deixaram-se cair sobre as tapearias cor de prpura que pareciam querer envolv-los.
Permaneceram em silncio durante longos momentos, sentindo ainda em seus corpos as ressonncias do prazer.
Franois soergueu-se, ento, e contemplou a jovem. Raramente via tanto abandono no ato do amor. Quando ele a tomava,
La submetia-se a todos os seus desejos sem o menor pudor.
Roou com os seus aqueles lbios trgidos. Atravs das plpebras semicerradas refletia-se uma fina tira de luz, o que provocou nele uma emoo insuportvel.
- Olhe para mim - pediu.
As plpebras se abriram lentamente sobre um olhar bao, de uma tristeza dilacerante. Franois interpretou erradamente aquela melancolia.
- Est zangada comigo?
A cabea despenteada oscilou num aceno negativo, ao mesmo tempo que as lgrimas caam sobre o veludo cor de amaranto.
- Eu te amo, pequena. No chore.
- Tive tanto medo. . . - La conseguiu articular.
- Isso terminou. Agora estou ao seu lado.
A jovem se endireitou e repeliu-o com raiva.
- No, no terminou. Por toda a parte h pessoas que matam outras, que as humilham.
- Eu sei, eu sei. Vamos. . . acalme-se, Voc vai me contar isso mais tarde. Sei o que aconteceu a Camilie.
- Sabe? E sabe o que aconteceu a Pierrot? A Raul? A Franoise?
- A Franoise?!
- Sim, a Franoise. Foi presa pelas Foras Francesas do Interior, que lhe rasparam a cabea.
- Como sabe que eram Foras Francesas do Interior?
- Tinham braadeiras.
- H muita gente pouco recomendvel infiltrada nas Foras Francesas do Interior. O general De Gaulle sabe disso. Mas tudo se far para restabelecer a ordem pblica e castigar os culpados.
- No sei se eram ou no essas pessoas pouco recomendveis, como vocs dizem, infiltradas no meio dos libertadores de
Paris. Mas o que posso garantir  que o conjunto dos assistentes ao espetculo da tosquia de minha irm e das outras moas se divertiu muito com o que viu e achou absolutamente natural que elas fossem punidas assim.
- A raiva continua lhe caindo muito bem, minha querida.
- Oh...!
- Desculpe-me. O que aconteceu a Franoise depois?
- Levaram-na para o Vel'd'Hiv.
- Est em boa companhia. Est junto com toda a alta-roda:
Sacha Guitry, Mary Marquet. . . Mas no se preocupe mais com isso. Ns a tiraremos de l. Meu Deus! Tenho que deix-la.
O general deve estar  minha espera. Eu lhe telefono amanh de manh. At l, tenha juzo.
Comeou a sair, ainda abotoando a cala.
Franois!
- O que ? - ele perguntou, voltando para trs.
- Estou muito feliz por v-lo de novo.
Tavernier ergueu-a e apertou-a contra o corpo, beijando-a com aquela ternura que sempre a surpreendia.
Sonhadora, ela ouviu se afastarem os passos do homem ao lado de quem ela se sentia cada vez mais segura e ao mesmo tempo em grande perigo. Pouco dada a anlises, procurava destrinchar as causas dos sentimentos contraditrios que a assaltavam naquele cubculo do Ministrio da Guerra. Franois me assusta. Mas como sou idiota! Por que teria medo dele?
Nunca fez nada que justifique tal angstia. Ser que eu tenho medo de que no me ame? Que me deixe? Tenho medo disso,  claro. Mas sinto que essa no  a verdadeira causa.  algo quase fsico. Tremo de medo quando ele me trata como meu anjo. E, no entanto, minha atrao por Franois  to forte que o seguiria para onde quer que fosse. Mas. . . e ele? Diz que me ama sempre que nos encontramos, salta em cima de mim sem mesmo se dar ao trabalho de me dirigir a palavra a no ser para dizer:
Venha. . . eu te quero. Confesso que isso me excita, mas a verdade  que no sou indiferente a essa carcias da alma que so as palavras como Raphal Mahl e Balzac diziam.
 estranho. . . por que ele tem o dom de me irritar? Ainda h pouco, a propsito de Pierrot e de Franoise. . .  como se inconscientemente eu o responsabilizasse pelo que lhes aconteceu. No compreendo. Talvez porque ele seja um homem de atitudes, de objetivos e de relaes equvocas e eu suspeite que esse tipo de gente seja responsvel pela guerra.  uma idia absurda, eu sei. Camille encontraria a explicao, com certeza. Tenho saudade dela. Um sentimento de abandono, de ausncia, quase iguais aos que senti quando mame morreu. E quando penso que a tra! Que eu quis lhe roubar o marido! Perdoe-me, Camilie. H tantas coisas que no cheguei a lhe dizer! E que voc tambm no me disse! E, agora. . . agora tudo acabou. . acabou. Oh, chega de lgrimas! No servem para nada. . . para nada.
Enraivecida, La tentava inutilmente recompor o vestido amarrotado. Ah, esses tecidos! Teria um lindo aspecto, sem dvida, quando passasse daquele jeito em frente da sentinela!
Finalmente, precisava sair do cubculo das tapearias. Entreabriu a porta e deu uma olhada para a direita e para a esquerda.
Depois, tranqilizada por ver o corredor deserto, esgueirou-se at a escadaria, descendo-a com o ar mais digno que conseguiu manter.
O vestbulo estava cheio de rapazes, militares e membros das Foras Francesas do Interior. Todos seguiram com o olhar a bela jovem de vestido amarrotado e de cabelos em desalinho. Sentiram inveja do desconhecido que a deixara em tal estado.
La passou por eles de cabea erguida, fingindo no notar os assobios de admirao que a saudaram na sada. Uma vez na rua, porm, desapareceu correndo, vermelha de raiva e de vergonha.
Na rua da Universidade, Charles veio ao seu encontro, muito excitado.
- Como? Voc ainda no foi dormir?
- Papai est aqui! Papai est aqui! - ele gritava, puxando-a para a sala de visitas.
- Espere. Vou mudar de roupa.
- No. Venha.
- Daqui a pouco, meu querido.
- Papai, papai - chamou a criana. - E La. Ela no quer entrar.
A silhueta alta e delgada de Laurent enquadrou-se no limiar da porta.
La foi beij-lo. Como parecia cansado.
- Espere por mim. Vou mudar de roupa.
Era tarde demais, porm. Laure acabava de aparecer.
At que enfim chegou! Oh, o meu vestido! Em que estado o deixou!
Desculpe-me. . . ca.
- Caiu?...
Confusa, La correu a se esconder no quarto. Seria difcil fazer com que Laure ouvisse a voz da razo.
Quando La entrou na sala de visitas, tia Albertine olhou-a com ar severo.
- Sabe que no gosto que voc saia  noite sem me dizer nada.
- Desculpe-me, tia. Fui falar com Franois Tavernier a respeito de Franoise. Ele vai cuidar disso. Sabe que vi o general De
Gaulle? - acrescentou rapidamente, para mudar de assunto.
- Como  ele?
La fez um breve relato do encontro, omitindo,  claro, as circunstncias exatas.
- O seu quarto est pronto, senhor d'Argilat - avisou Albertine.
- Muito obrigado, minhas senhoras. Muito obrigado por tudo.
- No tem que nos agradecer. Boa-noite a todos.
Esgotadas por tantos acontecimentos, as senhoras da Montpleynet retiraram-se.
Laure aproximou-se da irm e cochichou
- Espero que tenha valido a pena. Se no foi assim, no a perdo por ter estragado meu vestido.
O rubor de La lhe deu a resposta.
- Boa-noite. Vou deitar-me - despediu-se Laure. Brincar de ama-seca esgotou-me. Boa-noite, Laurent. Durma bem. Venha comigo, Charles.  hora de ir para a cama.
- No vou. Quero ficar com papai.
La ergueu o menino, que a abraou com fora.
- Fique comigo, papai!
- Ficarei sempre com voc - disse Laurent. - Mas j  tarde e voc precisa dormir. Irei lhe dar boa-noite.
- La tambm.
- Claro! La tambm ir despedir-se de voc.
- Vamos, a caminho, sua peste!
- Boa-noite, Laure, e obrigado.
Boa-noite.
Quando ficaram a ss, La e Laurent permaneceram muito tempo em silncio, fumando cigarros americanos. Depois, Laurent ergueu-se e encaminhou-se para a janela aberta, onde ficou contemplando o cu estrelado. Sem se voltar, pediu:
- Conte-me como foi que Camille morreu.

Captulo 24

- DONA ALBERTINE, esto chamando a senhora ao telefone.
- Obrigada, Estelie.
- Al?... Sim, sou eu... Bom-dia, senhor.., claro. Evidentemente que concordo em receber minha sobrinha e responsabilizarme por ela. . . Quando?. . . Hoje! No sei como lhe agradecer, senhor Tavernier. . . Deixando La ir jantar com o senhor? Pareceme um pouco difcil no mesmo dia da volta da irm. Quer que a chame? Ainda est dormindo. Passou parte da noite conversando com o senhor d'Argilat... Muito bem. Eu lhe direi que o senhor volta a telefonar esta tarde.
Albertine de Montpleynet desligou. Pensativa, dirigiu-se para o quarto, cuja porta fechou com gravidade. Sentou-se na velha cadeira Voltaire, de que gostava particularmente. Seu corao batia com fora. As mos midas agarraram os braos da cadeira.
Dentro dela extinguia-se aos poucos a alegria que sentira por Franoise, dando lugar a uma angstia progressiva. Como reagiriam os vizinhos, os inquilinos do prdio, os comerciantes do bairro e os amigos, diante da presena da moa a quem fora raspado o cabelo
- fato de que todos estavam a par - por ser amante de um alemo?
Durante toda a vida Albertine estivera em acordo com a sociedade e agora se sentia marginalizada. Mas nos ltimos meses de Ocupao, as pessoas j no lhe poupavam comentrios desagradveis a respeito do noivo alemo de Franoise e do comportamento de Laure. Lisa, mais socivel que ela, sofria muito com o clima gerado  sua volta, a ponto de ter suspendido suas partidas semanais de bridge.
Albertine se reprovava a prpria falta de firmeza em relao s trs filhas de Isabelie, pelas quais se sentia responsvel depois da morte dos pais. Reconhecia ter sido completamente ultrapassada pelos conhecimentos e pelas naturezas muito diferentes, mas do mesmo modo obstinadas, das sobrinhas.
No estive  altura da minha misso e no soube proteger estas crianas, pensava. Que diria a me? Que ser da pobre
Franoise depois da provao por que passou? Otto morreu, com certeza. Me solteira, eis as palavras que lhe atiraro na cara. . . se no for pior. E o filho, aquele anjinho? Oh, meu Deus, tende piedade de ns! Concedei a Franoise foras suficientes para superar o desgosto e a vergonha! E perdoai-me, senhor! Confiaste-me uma misso e falhei. . . Perdoai-me, meu Deus!
Albertine chorava, com cabea entre as mos. Entregue  sua mgoa, no percebeu que a porta se abrira.
- O que voc tem, tiazinha?
Agachada aos ps da velha senhora, La procurava separar-lhe as mos marcadas de manchas escuras.
- Eu lhe suplico, tia Albertine! Acalme-se!
Os dedos se descerraram, por fim. Diante da face contrada pelo sofrimento daquela mulher de aspecto frio e que pouco manifestava os sentimentos, La sentiu-se tomada pela divida e pela piedade. Por qu? At ela reagia desse modo, a tia to reservada, to forte, to digna! Era ainda um mundo de certezas infantis que rua, deixando-a ainda mais pobre, mais sem nada.
Ao ver Montillac queimar, alguma coisa fora destruda dentro dela, a isolara no desespero, deixando-lhe apenas a energia necessria para sobreviver e proteger o filho de Camille. E, na noite anterior, esgotara o pouco que tinha ao tentar reconfortar Laurent. Mas como se pode consolar quando se est inconsolvel? E agora? Que palavras usar para devolver a coragem quela mulher to querida? Camille saberia como fazer.
Foi Albertine, porm, quem encontrou as palavras:
- Levante-se, minha querida - disse ela - No passo de uma velha tonta. Foi apenas um momento de cansao. No tenho o direito de me queixar quando tanta gente sofre bem mais que eu.
Enxugou os olhos com cuidado antes de prosseguir:
O senhor Franois Tavernier telefonou. Franoise vem para casa esta tarde.
E chorava por causa disso!?
Sim e no. No quero que voc se engane quanto  natureza das minhas lgrimas. . . Estou muito feliz com a volta de sua irm, mas estou tambm um pouco preocupada.
Franois lhe deixou algum recado para mim?
- Queria convid-la para jantar, mas eu lhe disse que hoje no seria possvel.
- Por que voc disse isso?
Albertine ergueu-se com expreso severa.
- Sua irm vai precisar do afeto de todos ns, Achei melhor que voc tambm estivesse aqui.
La abaixou a cabea, sentindo-se cansada, muito cansada.
- Seja como for, o sr. Tavernier voltar a telefonar esta tarde declarou Albertine. Depois pediu: - No comente com Lisa a minha atitude de h pouco; isso a faria sofrer. Como voc sabe, sua natureza  simples e linear. Os acontecimentos a perturbam muito mais do que a mim, o que no deixa de se refletir em sua sade. Promete ficar calada?
La beijou a tia.
- Prometo, sim, tia Albertine. Posso lhe pedir um conselho?
- Claro, minha pequena. De que se trata?
- Ora, bem,  que.
La interrompeu-se. Para que mencionar esse assunto quando todas as idias se confundiam em seu esprito?
Por que parou, minha filha?  assim to difcil de dizer?
- Decidi alistar-me na Cruz Vermelha.
- Na Cruz!...
Se La tivesse dito "quero alistar-me" em vez de "decidi alistar- me", talvez ela no tivesse se lanado de cabea nessa aventura. Ao exprimir uma deciso tomada, no voltaria atrs, por orgulho ou teimosia.
- Foi isso que eu disse: decidi alistar-me na Cruz Vermelha.
- Mas voc no  enfermeira! - exclamou a senhora de Montpleynet.
- No me alistei como enfermeira, mas como condutora.
- Mas por que tal deciso no momento em que todos ns preciSamos de voc? E Montillac? No pensa em Montillac?
- Montillac foi destruda.
Pode se reconstruir.
- Com o qu? No temos dinheiro.
Os notrios.
- A propriedade est hipotecada at o pescoo.
La!
- Ora, minha tia, por favor! O tempo das palavras bonitas j passou. . . acabou. Tal como Montillac.
- Pense em suas irms e em Charles, que a ama como se fosse a me dele.
- As minhas irms se viram muito bem sem mim. V como Laure se transformou numa excelente mulher de negcios! E
Charles tem o pai.
- Quando voc tomou tal deciso? E por qu?
- Quando?. . . No sei. Talvez na noite passada, constatando o sofrimento de Laurent ou pensando na morte de Camilie, de tia Bernadette, de Sidonie, de Raul Lefvre, de Pierrot e de tantos outros. Desejo acompanhar as tropas do general Leclerc e entrar na Alemanha juntamente com ele. Gostaria de ser homem para ter uma metralhadora, combater e matar centenas.
- Cale-se, minha filha! Est louca!
Fora de si, La tinha o rosto vermelho e crispado, os lbios contrados, os olhos cintilantes de dio.
- Talvez esteja, sim. A verdade  que quero assistir  derrota dos alemes, v-los sofrer, v-los se arrastarem pelas estradas sob os bombardeios, ver as barrigas abertas, os olhos arrancados, os filhos queimados. E ainda as cidades deles destrudas, os campos devastados, as casas em escombros. E, sobretudo, quero presenciar a sua humilhao tal como eles presenciaram a nossa, v-los to subservientes como ns fomos, rastejando de joelhos a nossos ps, quero.
quero que desapaream da face da Terra!
Os gritos da jovem chamaram a ateno de Laurent. Perplexo, o rapaz escutava aquelas palavras horrveis. La no estava longe de uma crise nervosa.
- Oh!
A bofetada de Laurent interrompeu seu delrio verbal. Estupefada ela o fitou. Nunca pensou que ele fosse capaz de bater numa mulher.
- Cuidado! La vai desmaiar! - gritou Albertine de Montpleynet.
Laurent correu para ampar-la, mas La se recomps.
- No  nada. J estou melhor - disse.
- Desculpe-me - balbuciou Laurent.
- No faz mal. No seu lugar eu teria feito a mesma coisa - ela respondeu, olhando pela janela.
- Sabe o que La me dizia h pouco, senhor d'Argilat?
- No, no sei.
- Que vai se alistar na Cruz Vermelha!
Laurent encaminhou-se para a moa e obrigou- a a encar-lo.
- Isso  verdade? - perguntou com ansiedade.
- .
Atraiu-a para si, apertando-a com fora nos braos. Talvez tenha razo disse ele.
Encolhendo os ombros, Albertine de Montpleynet deixou o quarto.
Quando ficaram a ss, La e Laurent permaneceram em silncio durante muito tempo. Depois, aproximando-se dela,
Laurent ergeu-lhe o queixo com doura. Teimosa, La tentou resistir.
- Por qu? - perguntou Laurent.
Oh, aquele olhar de criana perdida! Como gostaria de apagar de sua memria todos os horrores que a assaltavam, restituirlhe aquela despreocupao que fazia parte do seu encanto! Mas ele mesmo estava mergulhado em sofrimento para servir de socorro. Adivinhava que o seu propsito de se alistar na Cruz Vermelha fora ditado apenas pela perplexidade diante de um futuro que La entrevia envolto em sombras e cheio de dificuldades.
- Por qu? - insistiu Laurent.
- Porque quero morrer.
Em outra circunstncia, Laurent teria desatado a rir diante de tanta veemncia juvenil. Mas naquele momento. .
- No diga tolices - censurou. - Voc tem a vida pela frente.
- Voc fala como minhas tias.
- Eu lhe falo com bom senso.
- Ora, o bom senso!. . Sabe, por acaso, o que  isso? Eu no sei. No vi nada que demonstrasse bom senso desde o incio da guerra, mas sim o mais completo absurdo. Ser por acaso o bom senso que leva a multido a linchar e a raspar cabeas?
- Concordo que estamos no reinado do absurdo. Mas no acrescente a esse absurdo uma deciso que no tem nada a ver com voc. Reflita bem no caso. Dentro de alguns meses a guerra estar terminada, tudo dever ser reconstrudo, ser preciso viver como antes.
- E acha que poder viver como antes? Depois do que eles fizeram a Camille?
Uma brusca contrao de dor agitou o rosto de Laurent.
-  preciso. Devo pensar em Charles.
- Voc tem Charles. Mas eu no tenho nada.
- Tem Montillac.
- No quero mais ouvir falar em Montillac! H mortos demais em Montillac. Odeio aquele lugar. Nunca mais voltarei l.
- Como voc mudou desde ontem! - observou Laurent. - Pensei que estivesse feliz por rever Franois Tavernier.  o homem de que voc precisa.
- Franois Tavernier s pensa em...
- E que homem no pensaria ao v-la?
- Voc no!
As imagens da nica noite de amor nos subterrneos de tijolo de Toulouse lhes veio  memria com uma nitidez que os fez corar.
- Franois Tavernier a ama; Camilie me disse. Ela pensava que voc tambm o amasse.
- Enganou-se.
Camilie raramente se enganava.
- No me fale mais nela. Camille est morta. . . morta como Montillac. Agora, deixe-me, Laurent. Deixe-me, por favor.
Laurent saiu fechando a porta de mansinho.
La apertou a cabea entre as mos. Sua boca se abriu num grito mudo que ecoou apenas em seu corpo, fazendo com que ela estremecesse. Caiu de joelhos apoiada na cadeira Voltaire e cravou os dentes na velha tapearia do assento. Resmungava com voz entrecortada;
- Estou doente, no posso mais. . . eles me assediam por todos os lados.. . querem me levar. No! No  verdade o que eu disse a Laurent; no quero morrer! Mas eles. . . oh, eles, todas as noites me chamam tentando me apanhar. Sinto suas mos geladas e ensangentadas. Oh, aqueles dedos! Tenho medo. E aquele cheiro de carne queimada, o corpo calcinado que no pra de se agitar, aqueles gritos! Ah, Sarah, o seu pobre rosto esburacado! Tenho a impresso de que voc me fala do inferno. E
Sidonie. . . sua voz contm o mel de seus doces. Nunca mais deixei de ver o seu velho corpo martirizado. Tenha piedade!
Fique quieta! E Raul? Voc  bom. Sinto que deseja que eu viva. Que voc levou consigo nossos pobres gestos de amor.
Oh, tia Bernadette, por favor, no grite dessa maneira! Ah, as chamas que a envolvem! Raphel, v embora, por piedade!
Tambm um fogo me queima. Perdo, tia Bernadette, perdo! Mame, proteja-me! Expulse-os! Eles querem que eu os siga.
Mame, diga a Pierrot que me largue. . . no  culpa minha no ter morrido quando ele morreu. Agora  Sifflette. . . o sr. e sra.
Debray. . . e o pai Terrible. . . e as duas crianas com a me, em OrIans. . . e. . . no, no, esse homem no! O homem que eu matei. . . Socorro! Mame. . papai. . . ele est me agarrando! No deixem que ele me apanhe! Sangue. . todo esse sangue. . . Eles so tantos! .
- La, acalme-se! La! Tudo acabou dizia Tavernier. Depois, virando-se para os outros, ordenou: Chamem um mdico.
Depressa!
Ergueu o corpo da amiga, inerte e coberto de suor e transportou-o para o quarto, enquanto Laurent d'Argilat, ao telefone, procurava encontrar um mdico.
- Ligue para o dr. Prost, do Ministrio da Guerra.  meu amigo. Pea-lhe para vir imediatamente - recomendou Franois
Tavernier.
Sem cerimnia, expulsou Laure e as senhoras de Montpleynet. Louco de preocupao, olhava para a mulher que amava, inconsciente, o corpo por vezes agitado em sobressaltos violentos. Depois estendeu-se ao lado dela, falando-lhe com suavidade.
- Minha querida. . . querida do meu corao. . . no tenha medo, minha pequenina. Estou aqui ao seu lado, para proteg-la.
A voz apaziguadora pareceu acalm-la. Franois aproveitou para despi-la. Sentiu-se comovido diante da beleza daquele corpo, ao mesmo tempo forte e frgil, cuja posse era a cada vez um deslumbramento.
Mesmo neste instante, apesar da desordem causada pela doena, La continuava emocionante e desejvel. Era absolutamente necessrio afast-la de Paris para que recuperasse o equilbrio emocional. Deus do cu! Que teria acontecido a
Prost?
- D'Argilat - chamou Tavernier.
Laurent empurrou a porta entreaberta.
- Diga.
- Falou com o dr. Prost?
- Deve estar chegando. Como vai La?
- Acalmou-se um pouco. Aconteceu alguma coisa em especial desde ontem?
- Que eu saiba, no. Ela me contou as circunstncias em que Camille morreu.
- Desculpe-me, meu velho - interrompeu Tavernier. - Queria dizer o quanto. . - Sabe eu gostava muito de sua mulher. estimava-a muito. .
- Agradeo-lhe. Falaremos disso depois.
Acho que o mdico est chegando.
- No ouvi a campainha.
- Voc se esquece que continuamos sem energia eltrica. Ouvi baterem na porta.
O som de vozes chegava at eles.
-  aqui. Entre, por favor.
Um homem no muito alto, mas com ombros de lutador e pescoo de touro, envergando farda com gales de capito, entrou no quarto e se encaminhou para Franois Tavernier.
- O que est acontecendo?
- Seus colegas parisienses no respondem. Ento, pensei em voc.
- Est doente?
- Eu no. Esta jovem.
- Muito bonita - elogiou o mdico.
- Pare de fazer gracinhas. No  o momento adequado.
- claro. Onde poderei lavar as mos?
- Aqui, doutor - respondeu Albertine, indicando-lhe a porta do lavabo.
- Pare de andar para l e para c, sr. Tavernier. Isso esta me fazendo mal.
- Desculpe-me, mas estou to preocupado! Faz quase uma hora que o mdico a examina.
- Uma hora no, meu caro senhor. Apenas h dez minutos.
- Dez minutos ou uma hora  a mesma coisa:  tempo demais.
A sala de visitas parecia a sala de espera de um dentista. Laure estava com o beb de Franoise sentado nos joelhos, e Laurent, de p, carregava Charles. A criana no cessava de dizer em voz sumida e cada vez mais ansiosa:
- La no vai morrer, no , papai? No vai morrer.
Lisa abanava-se com o leno molhado de lgrimas, murmurando:
- Virgem Maria, rogai por ns. Quanto a Albertine, mantinha-se muito ereta e de olhos fechados. Pelo tremor de seus lbios adivinhava-se que rezava.
Por fim, a porta se abriu e o capito fez sinal a Albertine de Montpleynet para entrar. Tavernier, porm, correu para o quarto, chocando-se nela.
- Senhor Tavernier!
Sem ouvi-la, Franois correu para a cabeceira da cama e debruou-se sobre a doente, que parecia adormecida. Tranqilizado, endireitou-se, virando-se para Prost.
- E ento?
Sem se dignar a lhe responder, o mdico dirigiu-se  dona da casa.
- Ela  sujeita a sncopes?
- Que eu saiba no,  minha sobrinha, doutor, mas est aqui em casa h apenas dois meses.
- Quando criana, sabe se ela teve alguma coisa desse tipo?
- No, doutor. Ah, sim. . . Quando o noivo morreu. La esteve inconsciente durante dias
- Quantos?
- No me lembro. Talvez dois ou trs.
- Notei que teve ferida na cabea por duas vezes. Algum desses ferimentos teve conseqncias?
- Creio que no.
- Ela tem dores de cabea freqentes? - insistiu o Dr Prosi.
- Raramente, mas so bastante fortes, a ponto de se ver forada a se deitar.
- Ora, tudo isso faz parte do passado - resmungou Franois Tavernier. - Que tem ela agora?
- Coma vigile.
- Qu?
- Entrou em coma vigile.
- Que quer dizer isso?
- Quer dizer que se encontra em estado de coma, mas um coma vigilante, o que significa que reage a certos estmulos, a certas dores. No fique admirada se ela gemer e se agitar, minha senhora. O seu esprito no est completamente adormecido.
- Que devemos fazer? - perguntou Albertine.
- Nada.
- Nada... Como?
- Sim, nada. S esperar.
- Por quanto tempo?
- No sei. Dois dias. . quatro dias. . uma semana ou mais. Depende.
- Mas depende de qu? - perguntou Franois.
- Da natureza ou de Deus, se preferir.
- Deus que v para o diabo e voc tambm. Voc  uma droga de um mdico que nem sequer sabe como trat-la.
- No grite assim. Ela precisa de calma. E a minha receita  que voc desaparea daqui.
- Senhores, por favor - interveio Albertine.
- Desculpe-me, minha senhora. Como j disse, nada mais h a fazer seno esperar. Dem-lhe de beber com regularidade e procurem faz-la engolir um pouco de sopa. Vigiem tambm a temperatura. Tem mdico de famlia?
- Temos, mas no sei o que aconteceu com ele.
- Nesse caso, se at l no conseguir arranjar um dos meus colegas, voltarei aqui amanh. Quero algum permanentemente ao seu lado. Seria bom que contratassem uma enfermeira.
- No  necessrio, doutor. Temos muita gente em casa e nos revezaremos.
- Muito bem. Vamos, Tavernier?
- No, fico mais um pouco. Depois irei encontr-lo.
- No se esquea da reunio com a imprensa dentro de uma hora.
- E eu l quero saber de reunio?
- Diga isso ao general. At depois, minha senhora. E no se preocupe. Sua sobrinha  uma pessoa saudvel; ela sair dessa.
- Que Deus o oua, doutor!

Captulo 25

QUANDO La ABRIU OS olhos pela primeira vez na penumbra de seu quarto, doze dias j haviam se passado. Deu com
Franoise sentada a seu lado, olhando-a atravs de uma franja de cabelos presos num turbante elegante, de cores outonais.
Nem sequer se admirou, os cabelos cresciam to depressa!
- La... voc est me ouvindo?
- Sim. Tenho a impresso de ter dormido durante muito tempo
- observou a jovem.
Franoise explodiu num riso misturado com lgrimas.
- Est dormindo h mais de uma semana.
- O qu?!
- Voc esteve doze dias em coma.
- Doze dias!  verdade? Com certeza aconteceram coisas.
Conte-me.
- Ainda no. Voc no deve se cansar. Vou chamar os outros para lhes dizer que, enfim, voc acordou.
- No, espere. No me sinto cansada. S que no me lembro muito bem. A ltima coisa de que me recordo  de tia Albertine me falando da sua vinda. E, depois, disso, j se passaram doze dias. Quando voc voltou?
- Na mesma tarde em que voc ficou doente. Franois Tavernier foi buscar-me no Vel'D'Hiv. Nem acreditei quando um homem das Foras Francesas do Interior me chamou e disse: Est livre, sua suja! S queria que voc visse a alegria dos outros prisioneiros!
Uma atriz que no tinha sido tosquiada cortou uma mecha de cabelos e a colocou sob meu leno de cabea.
- Compreendo.
- e me deu um beijo. Fiquei to comovida com seu gesto que ca no choro. Incumbiu-me de distribuir diversos recados e cartas a familiares de alguns presos. Felizmente no tiveram tempo para revistar minha bolsa. Franois Tavernier arrancoua das mos de um coronel sujo e verrugunto, famoso por seu prazer em humilhar os prisioneiros. Naquele momento ele estava no maior apuro, virando e revirando o papel com o cabealho do Ministrio da Guerra, onde figuravam trs ou quatro assinaturas e outros tantos carimbos, ordenando a minha libertao imediata. Tavernier empurrou-me para dentro de um carro com uma bandeirinha tricolor com a cruz de Lorraine, conduzido por um motorista uniformizado, e me disse:
- Apressem-se. Tenho medo de que ele descubra que os documentos no so muito regulares.
- Quase ca para trs diante da ousadia de Franois Tavernier. Felizmente a coisa correu bem; assim, o meu nome j est riscado das listas de depurao.
- Listas de depurao?! Que  isso?
- Ah,  verdade! Voc no est sabendo! Eles depuram, isto , prendem, interrogam, julgam e condenam todos os homens e mulheres que, de perto ou de longe, estiveram relacionados com alemes. Tal coisa  igualmente vlida para homens de negcios, escritores, atrizes, diretores de jornal, gerentes de hotel, prostitutas ou datilgrafas. Em resumo, diz respeito a toda a gente - explicou Franoise.
- E que fazem a essas pessoas?
- So libertadas ou presas, conforme os casos, e algumas so fuziladas.
- Quem  que j prenderam?
- Entre as pessoas cujos homens podem lhe dizer alguma coisa esto Pierre Fresnay, Mary Marquet, Arletty, Ginetty
Leclerc, Sacha Guitry, Jrme Carcopino, Brasillach. . . H outras que so procuradas, como Celine, Rebatet e Drieu la
Rocheile. Todos os dias h listas dos depurados no Figaro.
- A maior parte delas merece o que est lhes acontecendo.
- Sem dvida. Mas muita gente  presa em conseqncia de denncias de colegas invejosos, de zeladoras mal-intencionadas ou pelo simples prazer de prejudicar o prximo.
La fechou as plpebras, no querendo entrar nesse tipo de polmica com a irm.
- Voc est cansada. No fale mais. Vou avisar.
- No - interrompeu a irm. - Como est Charles?
- Est bem. No pra de perguntar por voc, sobretudo desde que o pai partiu.
- Laurent j foi embora? - exclamou La, erguendo-se brus camente.
- Acalme-se. Voc pode piorar.
- Onde ele est agora?
Faz parte da 2 Diviso Blindada. Partiu na manh do dia 8.
- E como ele estava?
- No muito bem. Desesperado por partir e por se separar do filho.
- Deixou alguma coisa para mim?
- Deixou. Uma carta.
- V busc-la.
- Est aqui na sua secretria.
Franoise abriu uma das gavetas e estendeu a carta para a irm. La estava to nervosa que no conseguia rasgar o envelope.
- Abra. . . e leia para mim.
"Minha querida La.
Se voc ler estas linhas  sinal de que recuperou a sade. Sofri muito ao v-la inanimada, se debatendo em sua inconscincia, e eu ali, impotente para alivi-la e traz-la de novo para junto de ns.
Entreguei Charles aos cuidados de suas tias e de suas irms, mas, agora que se restabeleceu,  a voc que o confio. No recuse tal pedido, pois ele a ama como a uma me e precisa de voc. Eu sei que  responsabilidade pesada, mas voc  forte o suficiente para assumi-la; j deu prova disso. Espero que tenha abandonado esse louco projeto de se alistar na Cruz Vermelha. O seu lugar  ao lado dos seus, de meu filho e de suas irms.
Volte para Montillac. Escrevi ao notrio que sempre se encarregou dos negcios de meu pai, autorizando-o a vender uma parte das terras para ajud-la na reconstruo.
Estou ao mesmo tempo feliz e triste por voltar a lutar. Feliz porque, na ao militar, quase esqueo o horror de ter perdido
Camille; triste por deix-los, a voc e a Charles.
Um beijo daquele que a ama.
Laurent
P.S. - Logo que puder, comunico quais so as medidas previstas para o envio de correspondncia."
- Laurent tem razo!  loucura voc querer se alistar na Cruz Vermelha.
- Isso no  da conta de vocs. Fao o que quiser.
- Mas por qu?
- No quero ficar aqui; eu me sinto mal. Preciso ver as coisas com maior clareza.
- La, voc voltou a si! A minha sobrinha est curada, doutor!
- exclamou Albertine.
- Tem toda a aparncia disso, na verdade. Ento, minha filha, quis brincar de Bela Adormecida? Lastimo no ser o seu
Prncipe Encantado. Como se sente?
- Bem, doutor.
O velho mdico da famlia, que finalmente fora encontrado, examinou a jovem paciente.
- Perfeito. . . perfeito. A presso est normal, o corao tambm. Dentro de alguns dias, j poder correr pela floresta em companhia do seu Prncipe Encantado. E como esse prncipe se preocupou por sua causa!
La interrogou a irm com o olhar. A resposta silenciosa de Franoise significava: Como se voc no soubesse.
- Gostaria de me levantar.
- Nunca antes de recuperar as foras. Nesse momento no conseguir manter-se em p. Precisa de alimentao sadia e abundante.
- Abundante?! No  assim to fcil - comentou Franoise com amargura.
- Eu sei, minha senhora. Mas tero de se arranjar. Para tanto, podem contar com o Prncipe Encantado.  homem de grandes recursos. Que no far ele pela famlia de sua bem-amada? Bem.
bem... basta de brincadeira. Entendeu, minha senhora? A pequena precisa comer carne todos os dias, laticnios, peixe, ovos.
- Em resumo, doutor: tudo aquilo que no existe no mercado.
- O sr. Tavernier h de encontrar todas essas coisas - garantiu o mdico. - At depois, pequena. E deixe que a papariquem.
- Vou acompanh-lo at a porta, doutor - disse Albertine de Montpleynet.
Depois da partida da tia e do mdico, La riu com gosto, um riso ainda um pouco fraco. Sempre otimista e sagaz o velho apaixonado da tia Lisa!
- Franois veio aqui muitas vezes?
- Muitas vezes!. . . Todos os dias, vrias vezes por dia e, entre cada visita, pelo menos um telefonema para saber como voc estava!
- Mas hoje h pelo menos uma hora que no d sinais de vida
- comentou La emburrada.
- Est sendo injusta com ele. Tavernier passou as noites na sua cabeceira sempre que lhe foi possvel, falando com voc, embalando-a, sem dormir um s instante. Dava pena v-lo sair pela manh, abatido, o rosto por barbear, os olhos vermelhos, depois de engolir, com ar ausente, a xcara de caf que eu lhe trazia. Charles o esperava, por vezes, em frente da porta do seu quarto. Franois mandava-o, ento, entrar e tinham longas conversas aos ps da sua cama. Quando saam, os dois pareciam estar com melhor aspecto. Charles adotou Franois, a quem chama o "seu grande amigo". Voc tem sorte de ser amada assim.
A tristeza do tom de Franoise comoveu La. Censurou-se pela indiferena que sentia em relao aos desgostos de sua irm. Pela primeira vez, desde seu regresso a Paris, olhou para ela verdadeiramente. Como se modificara a antiga enfermeira de Langon, a mulher que, com tanta arrogncia, assumira o seu amor por um alemo! Onde estava aquela aurola de beleza que lhe iluminara o rosto um tanto vulgar de jovem burguesa provinciana da boa sociedade de Bordus? E sua galanteria de apaixonada ao descobrir os prazeres da capital? E aquele reflexo cintilante de jovem me orgulhosa ao exibir o filho pelos cais do Sena? Para onde fora tudo isso?
La fitou a desconhecida que era sua irm, notando-lhe as rugas de amargura desenhadas nos cantos dos lbios apertados, como que retendo um segredo, as faces fundas onde o rouge mal aplicado destacava a palidez, os olhos de expresso inquieta em perptuo movimento, o turbante e a ridcula mecha de cabelos, que parecia uma peruca de velha atriz de cinema mudo.
Depois observou-lhe as mos, as pobres mos convulsivamente fechadas. E foram talvez os dedos trmulos que fizeram
La compreender em toda a plenitude os sofrimentos fsicos e morais pelos quais Franoise passara.
Desejou ento apert-la nos braos, pedir-lhe perdo por seu egosmo, mas uma sbita timidez a impediu. Com o corao cheio de piedade balbuciou:
- Voc teve notcias de Otto?
La quase gritou ao ver a violenta metamorfose da irm. A pele se tornou acinzentada e seu corpo murchou; parecia uma velha.
Num gesto lento, Franoise retirou o turbante da cabea. Depois, assim exposta e ridcula, o crnio raspado, com aspecto de rodo pela traa, de olhos esbugalhados e no entanto cegos, comeou a chorar em silncio.
La foi tomada por um acesso de enjo. Deixou cair a cabea no travesseiro.
As duas ficaram assim prostradas durante muito tempo. Quando a sensao de nusea desapareceu, La soergueu-se e, arrastando-se sobre a cama, aproximou-se daquela de quem tanto judiara em criana e acariciou-lhe o rosto inundado de lgrimas, num gesto onde a compaixo e a repulsa se confundiam.
Mas nenhuma palavra de consolo veio a seus lbios. Ento, em silncio, servindo-se do lenol, enxugou as faces manchadas pela maquilagem at que as lgrimas cessaram.
- Obrigada -. disse Franoise simplesmente, voltando a colocar o turbante. - Vou chamar as tias.
Depois de uma pausa, completou:
- No, no tive notcias de Otto.
La sentiu-se invadida por enorme cansao. Voltou a deitar-se e fechou os olhos.
Quando Albertine e Lisa de Montpleyner chegaram ao quarto, a sobrinha j adormecera novamente.

Captulo 26

 NOITE, foi um outro rosto que La viu inclinado sobre o seu.
- Franois!
Beijaram-se, e aquele beijo lhes revelou tudo aquilo que no podiam ou no sabiam dizer. Quando, por fim, seus lbios se separaram, tanto um como outro tinham readquirido o gosto pela vida que os tornava capazes de superar as mais duras provaes.
- Diga, minha bela amiga,  preciso preencher com carne todos esses espaos vazios. Voc sabe que no gosto de sacos-de-ossos - comentou Franois.
- Com essa penria, no vai ser fcil.
- No se preocupe com esses detalhes caseiros. Deixe-os por minha conta.
- Mas como voc vai se arranjar? Os seus amigos do mercado negro continuam com suas atividades lucrativas?
- Vejo que a doena no afetou a sua veia custica. Gosto disso. Os meus amigos, como os chama, sumiram na fumaa, e, a esta hora, devem estar nos palcios de Baden-Baden ou em estalagens espanholas. Mas foram substitudos por outros igualmente empreendedores. Estelle agora est lhe preparando uma canja de galinha, um ovo quente e queijo branco. Vai gostar! Tudo isto regado a Lafite-Rothschild velho.
- No  com isso que vou preencher os espaos vazios, como voc diz.
- No se esquea de Kipling: "A pressa excessiva perdeu a serpente amarela que queria engolir o soi".
-  muita amabilidade de sua parte comparar-me a uma serpente.
- Voc  a mais encantadora viborazinha que eu j conheci - disse Franois, acariciando-lhe os cabelos. - Vou mandar-lhe um cabeleireiro amanh; isto parece palha. Enquanto isso, tome um banho.
Depois do banho, que Franois lhe deu e que o deixou num estado que tiveram de remediar, no sem antes fecharem a porta a chave, Tavernier deitou-a de novo na cama.
Devoraram ento o repasto preparado por Estelie, esvaziando a garrafa de Lafite-Rothschild. O vinho restituiu as cores a
La e fez seus olhos brilharem. Os de Franois diziam claramente sua inteno de retomar o corpo-a-corpo que o desejo excessivo abreviara. Isso no foi possvel, porm, pois Franoise batia cada vez mais forte na porta, gritando:
- Abram! Abram!
Tavernier correu at a porta e recebeu a jovem nos braos. Com olhos de louca, ela gritava:
Encontraram o casal Fayard no fundo de um poo!
Laure entrou no quarto atrs dela, com o rosto perturbado.
- Foram assassinados e lanados ao poo da vinha de baixo.
- Quem lhes deu a notcia?
- Ruth telefonou.
- E quem fez isso? perguntou La, embora soubesse a resposta.
- Os resistentes.
Durante momentos, apenas se ouviu a respirao ofegante de Franoise.
- Parece que em Langon, em Saint-Macaire e em La Role esto acontecendo coisas terrveis. As mulheres so tosquiadas e exibidas nas ruas diante da hilaridade geral, e cospem nelas. Enforcam pessoas nas rvores, torturam e matam.
- Que horror! - gemeu Lisa, que ningum viu entrar no quarto.
- Mas por que no os impedem de fazer isso? - gritou La.
- O general De Gaulle est empenhado em acabar com isso. Vocs j se esqueceram das torturas dos alemes em mulheres e crianas? No sei se compreenderam, mas estamos  beira de uma revoluo e ser necessria toda a autoridade do general para impedir que estoure, como desejam os comunistas.  com esse objetivo que De Gaulie procedeu  formao de um governo de unidade nacional.
- Com os comunistas? - perguntou Franoise, agressiva.
-  natural, j que tambm contriburam.
- Eu sei. O Partido dos Fuzilados, como eles dizem.
- No zombe. De todos os franceses, foram eles os que melhor combateram os alemes e os que pagaram mais caro.
- Mais da a coloc-los no governo. . . - interveio Lisa em voz sumida.
- Foi necessrio. No seria normal que todas as tendncias existentes dentro da Resistncia fossem representadas? No se estaria justamente surpreso por no encontrar homens politicamente to diferentes como Jeanneney, Freney, Bidault,
Tillon, Capitan, Teitgen, Mends France, Pleven.
- Talvez voc tenha razo, Franois. Somos to ignorantes em matria de poltica! - disse Laure.
- Tiveram notcias do tio Luc e do filho, de Philippe?
- No. . . de verdade - respondeu Laure, hesitante.
- Fale! O que foi que Ruth lhe disse?
- Correm boatos contraditrios. Algumas pessoas dizem que tio Luc est preso no forte de H. Outras, que ele e Philippe foram mortos.
- Como?
- Tambm no se sabe. Dizem que foram enforcados ou ainda que os lincharam e fuzilaram. As ligaes telefnicas entre
Bordus e Langon no foram completamente restabelecidas.
- E do tio Adrien? H notcias?
- No. Absolutamente nenhuma. Mas encontraram Albert.
- Vivo? - gritou La.
No, morto. Torturado pela Gestapo.
- Pobre Mirellie! No sei se a morte de Fayard e da mulher ser suficiente para o vingar. Uma vida perdida no restitui outra,  certo. Mesmo assim, como desejamos matar quem provocou a morte daqueles que amvamos!
- Lembra-se de Maurice? - perguntou Laure a La.
- Acha que poderia me esquecer daquele estrume?
- Foi executado por ordem da Resistncia.
Com que ar indiferente Laure pronunciara tais palavras! Laure que pensava estar apaixonada por aquele assassino! Quantas mortes ainda! Quando isso terminaria?
- Como est Ruth?
- No muito mal, Recompe-se lentamente dos ferimentos. Mas as circunstncias da morte de Albert e depois as dos
Fayard a abateram demais. No cessava de repetir ao telefone. Os homens esto loucos. - . os homens esto loucos. . . Parece que foi horrvel o que aconteceu aos Fayard. Deram-lhes pauladas e os espetaram com forquilhas, arrastando-os atravs das vinhas at o poo. Ali, os amarraram e os atiraram da borda. Soltaram um grito longo ao mesmo tempo.
- Parece que estou ouvindo esse grito nico at o baque final
- sussurrou La. - Ah, Mathias, eu no desejava tal coisa para os seus pais!
Coberta de suor, batendo os dentes, La voltou a cair na cama.
- Somos loucos de falar nisso na frente dela! Vo embora. Deixem-na descansar - disse Franois Tavernier.
As mulheres saram do quarto como em estado de choque.
Franois limpou a fronte de La, murmurando-lhe palavras meigas e tranqilizadoras. Pouco a pouco, a jovem acalmou-se e depois, esgotada, adormeceu.
Apesar dessas emoes sucessivas, La se restabeleceu muito rapidamente.
No domingo, dia 24 de setembro, tirando partido da visita de De Gaulie ao quartel-general de De Lattre de Tassigny, no front, Franois Tavernier levou-a para tomar um pouco de ar na floresta de Marly-le-Roy. Apesar de uma refeio execrvel num restaurante famoso de Saint-Germain-en-Laye, aproveitaram plenamente a atmosfera pura da mata e tambm o musgo que acolheu seus corpos impacientes  noite, durante o jantar - esse sim, excelente - num restaurante luxuoso dos Campos Elseos, Tavernier anunciou a La a sua prxima partida.
- Para onde vai?
- O general incumbiu-me de uma misso.
- Que tipo de misso?
- No posso dizer. Mas no deve durar mais de um ou dois meses.
- Um ou dois meses! Voc no pensou nisso?
- A guerra ainda no terminou.
- No me deixe, Franois - implorou La.
-  preciso.
- Gostaria de ir com voc.
Tavernier deu uma grande gargalhada que fez com que os outros clientes se virassem e um criado se aproximasse.
- Deseja alguma coisa, senhor?
- Sim. Uma garrafa do seu melhor champanhe.
- Para brindarmos a qu? - La perguntou secamente.
- A voc, minha querida. Aos seus belos olhos, ao seu restabelecimento,  vida.
Diante da tristeza de sua amiga, Franois mudou de tom e prosseguiu falando com seriedade.
- No se preocupe. Tudo correr bem.
- No sei por que, mas ainda sinto mais medo agora do que tive durante estes quatro anos de Ocupao.
-  natural. Est prestes a nascer um mundo novo, um mundo com qualidades e defeitos diferentes do anterior, e  esse desconhecido que a assusta. Mas eu a conheo e sei que ir superar isso. Volte para Montillac e reconstrua o que foi destrudo.  essa a tarefa que deve empreender enquanto espera por mim.
- No voltarei a Montillac - declarou La. - S se for daqui a muito, muito tempo. E, depois, quem lhe disse que vou passar o tempo  sua espera? Talvez gostasse de me ver tricotando para prisioneiros, fazendo pacotes para rfos, visitando doentes.
- Claro que sim! Eu bem que a imagino debruada sobre os feridos infelizes, consolando a viva chorosa, sofrendo privaes para arranjar uns doces secos e uns brinquedos. Ai!
O violento pontap de La acabava de acertar em cheio no alvo.
-  para aprender.
- Que bruta! Nunca ser uma verdadeira mulher; no tem vocao para isso.
- Como se atreve a dizer que no sou uma verdadeira mulher?
- disse ela, endireitando-se e arqueando o busto, as narinas frementes de raiva.
Era mais forte que ele - no podia ficar sem provoc-la. Nunca era to desejvel como quando se encolerizava. Era uma autntica mulher, no havia a menor dvida! Uma mulher tal como ele gostava, livre e submissa ao mesmo tempo, coquete e natural, corajosa e fraca, alegre e melanclica, sensual e pudica. Pudica. . . mas seria de fato? No propriamente. Era mais provocante que pudica. No se comportava segundo padres de uma jovem francesa bem-educada. Parecia-se mais com essas heronas das fitas americanas, aquelas com ares de no estarem interessadas na coisa, mas que se sentavam erguendo a saia o suficiente para que se pudesse vislumbrar a ponta das meias, e se inclinavam de modo a exibir a curva dos seios.
La inclua-se entre elas. Franois sabia muito bem at que ponto ela gostava de excitar o desejo dos machos. Desabrochava sob os olhares masculinos. Isso no lhe provocava cimes, mas uma irritao divertida.
- Estava brincando, voc sabe muito bem.
A chegada do garom trazendo o champanhe serviu para distra- los, Beberam em silncio, perdidos nos prprios pensamentos. La foi a primeira a sair do mutismo.
- Quando parte?
- Depois de amanh.
A jovem empalideceu e um frmito doloroso veio perturbar a beleza do rosto. Esvaziou o copo de um gole.
- J!
Diante daquele monosslabo dito com simplicidade, Franois teve de se conter para no se levantar da cadeira e apert-la nos braos.
- Venha!
Pagou a conta e saram.
Na rua, atravessaram correndo os Campos Elseos. Na rua Balzac, La perguntou
- Onde vamos?
- A um hotel.
Um desejo sbito se irradiou em seu corpo. Gostaria de se rebelar, de se sentir chocada com aquela falta de modos, de lhe dizer que no queria ser tratada como uma prostituta. Mas nada do que dissesse seria verdadeiro. Franois Tavernier comportava-se exatamente como ela desejava.
A casa de encontros onde o companheiro a levou estava abarrotada de tapearias cor-de-rosa, de lustres de cristal, de tapetes espessos, de silncios aveludados, de espelhos, de portas com nomes de flores e de empregados de ar indiferente e ao mesmo tempo licencioso No quarto, com uma cama imensa encimada por um dossel, flutuava ainda o perfume da ocupante anterior.
Apareceu uma empregada, insinuante como deve ser, trazendo uma pilha de toalhas cor-de-rosa.
Na parede, pendia uma bonita gravura de Fragonard, representando o Ferrolho, que fez La sorrir. Havia uma igual em
Montillac, no escritrio do pai.
- Venha logo - disse Tavernier.
La compartilhava da impacincia de Franois. Atirou as peas de vesturio ao acaso e encaminhou-se para ele, nua. Sem mesmo dar-se ao trabalho de retirar a colcha de cetim rosa-velho, estendeu-se na cama, oferecendo-se a ele.
A claridade filtrada pelo abajur de seda cor-de-rosa iluminava suavemente os corpos estendidos dos dois amantes, que fumavam em silncio. O de La parecia feito de um material macio e frgil; o de Franois de uma matria-prima bruta, da cor da terracota.
A jovem soergueu-se e seguiu com a ponta dos dedos a longa cicatriz que se estendia da virilha at a regio do corao.
- Desde a Espanha, no foi ferido novamente?
- Nada de grave. Apenas uma bala no ombro. Gostaria de mim se eu estivesse todo costurado?
- As costuras combinam muito bem com o seu tipo. E qual  o meu tipo?
- Mau. . - como diria o tio Luc. Voc precisava ouvi-lo: Esta pequena tem mau jeito.
Sou da opinio dele; voc tem muito mau jeito - gracejou Tavernier - Oh!...
La desferiu-lhe vrios murros no peito, mas logo Franois aprisionou seus pulsos e imobilizou suas pernas com as prprias pernas.
- E agora? Que  que faz? Est  minha merc. Voc me ama?
- Largue-me! - gritou ela. - No lhe respondo enquanto.
- Enquanto o qu?
- No, Franois! Tenho de voltar para casa.
- Tem tempo.
No, no! Tenho medo de ficar grvida!
Tavernier suspendeu a investida.
- E  agora que diz uma coisa dessas?!
- S agora me ocorreu.
Franois deu uma gargalhada que a fez sobressaltar.
- Devia ter pensado nisso antes. Seria maravilhoso ter um filho seu.
- Est doido!
- Doido por voc, minha bela!
- Deixe-me! No quero filhos.
-  tarde demais.
La resistiu a princpio, em seguida simulou debater-se, para logo se entregar por completo quele prazer incessantemente renovado, proporcionado pelo homem que amava sem que verdadeiramente o admitisse.
Depois do amor, a possibilidade de La ficar grvida preocupou Tavernier. Fora sincero ao desejar um filho dela, mas avaliava a loucura de tal desejo naquelas circunstncias.
Tentara preveni-la por duas ou trs vezes. Perguntara-lhe se ela queria que ele tomasse precaues, mas La sempre evitara o assunto. Ento, em atitude egosta, considerava o caso resolvido. E agora ela lhe declarava recear a gravidez. Que criatura mais inconsequente! O que fazer se ela ficasse esperando um beb? Franois conhecia uma aborteira nos arredores da estao do metr de Cambronne, mas por nada desse mundo consentiria que a mulher pusesse suas mos sujas naquele ventre. S restava uma soluo:
casar-se com ela.
Durante muito tempo,  idia de um casamento, tudo se revoltava dentro dele: amava demais as mulheres e a liberdade. No entanto, ao pensar em La, no era essa a primeira vez que lhe ocorria semelhante hiptese. E ela. - - concordaria? No estava certo disso. Nesse aspecto, La era bem diferente das outras moas. No vivia  espera de um marido, e era irrelevante aquele seu desejo de garota por Laurent d'Argilat, desejo que se aguara com o noivado com Camilie.
Em que mulher maravilhosa ela se transformara! Mas to estranha, to imprevisvel! Um temperamento que passava da alegria s lgrimas, da temeridade mais louca ao medo mais irracional. Franois Tavernier atribua isso a tudo o que La havia passado e presenciado no decorrer dos ltimos anos, sem, no entanto, se convencer totalmente de que fosse assim.
- Ajude-me a me alistar na Cruz Vermelha - pediu ela.
De novo a mesma mania! Que diabo pretendia La fazer no meio da lama, do sangue e de todos os tipos de horrores?
- A Cruz Vermelha no precisa de voc. Sei que muitas moas de boas famlias tm se alistado, mas no  para comparecerem a reunies mundanas
- Eu sei.  muito srio. Ajude-me.
Na verdade, a coisa parecia sria. Seu corao se contraiu. E se aquilo no passasse de pretexto para se afastar dele e se aproximar de Laurent?
Mas por que, minha pequenina?
- Prepare-me um banho - ela disse, sem responder  pergunta.
Tavernier obedeceu e ficou durante muito tempo no banheiro olhando-se no espelho, dizendo-se: Cuidado com o que vai fazer neste instante, meu velho! Voc tanto se arrisca a perd-la como a se enforcar.
De volta ao quarto, Franois Tavernier perguntou novamente:
- Por qu?
- No sei ao certo, mas alguma coisa me puxa para isso.
- No sabe, mas faa um esforo. No  deciso que se tome com leviandade.
- No  leviandade, embora eu no saiba por que quero ir. Sem ter de me esforar, poderia apresentar razes de sobra, todas elas excelentes. Uma coisa  certa, porm: no quero mais ver minhas irms, minhas tias.
- Laurent lhe confiou o filho.
-  a nica coisa que poderia me deter. Mas Franoise cuidar dele muito melhor que eu.
-  a voc quem ele ama.
- Eu sei, eu sei. . . no precisa me dizer. Quero ir-me embora. Sinto-me confinada aqui. . . no tenho nada em comum com ningum.
- Nem mesmo comigo?
Com voc . . . como dizer? Algo de maravilhoso enquanto estou nos seus braos. Depois. . . depois  como se todo aquilo que receio fosse cair em cima de mim e me soterrar.
- Isso so apenas fantasmas, La, voc bem sabe.
- Talvez, o que no altera as coisas. Se me ama, ajude-me, eu lhe peo.
Quanta angstia e determinao nesse pedido! Franois puxou-a para si e acariciou-lhe a cabea em que se entrechocavam tantas incoerncias dolorosas.
- Vou fazer o que voc quer. Se tivesse um pouco de pacincia, porm, e um pouco de confiana em mim, eu expulsaria todos esses fantasmas. Meu corao se parte ao v-la nesse estado e no poder fazer nada. Mas, se voc acha que esse  o melhor meio para recuperar o equilbrio, eu vou ajud-la.
- Obrigada, Franois. Oh!. . . o banho!

Captulo 27

NO DIA SEGUINTE, Franois anunciou a La, por telefone, que marcara uma entrevista com a responsvel pela Cruz
Vermelha Francesa, encarregada de examinar as candidaturas. A pedido de Tavernier, o sr. Bourbon-Busset responsabilizava-se por ela.
- Mas quem  esse senhor? - perguntou ela.
- Foi ele quem fuhdou em Paris, em 24 de agosto passado, a delegao-geral para repatriamento de prisioneiros de guerra, deportados e refugiados. Alm disso,  presidente e diretor-geral da Cruz Vermelha Francesa. No h melhor recomendao.
- Diga-lhe que lhe agradeo e que no ter do que se arrepender - garantiu La.
- A entrevista  amanh de manh, s nove horas, na rua Octave-Feuillet, n. 21. Fica no dcimo-sexto bairro. No se esquea de levar todos os seus documentos. Ser recebida pela sra. Peyerimhoff. E seja pontual. Segundo parece, ela  muito rigorosa em matria de horrios.
- Obrigada. Voc  maravilhoso, Franois.
- No me agradea. Estou fazendo isso sem o menor prazer. Compreendi, porm, que no renunciaria a isso;  teimosa como um burro. Vou partir amanh nas primeiras horas do dia e lhe imploro que passe a noite comigo.
- Vai ser difcil convencer minhas tias.
- No se preocupe com isso. Eu cuido do caso. Passo para busc-la s sete horas. Esteja bonita.
O corao de La batia com mais fora ao desligar. No lhe agra dav a idia da partida de Franois. Uma inquietao sorrateira se insinuava em seu esprito, mais forte ainda que a experimentada ao pensar em Laurent na frente de combate. A idia de que algo pudesse acontecer a Franois, uma enorme fraqueza a invadia. Sem notcias de Laurent desde a sua partida, acomodava-se a isso pensando que se ele tivesse sido ferido - recusava-se a encarar a hiptese pior - seriam os primeiros a saber.
As flores e os chocolates operaram maravilhas junto das senhoras de Montpleynet. Como objeo  sada, Albertine limitou-se a dizer que no seria conveniente que La, ainda em convalescena, voltasse muito tarde para casa. Franois
Tavernier prometeu que logo a traria de volta e desapareceu com ela num automvel suntuoso, requisitado de um rico traficante do mercado negro.
Foram jantar num pequeno restaurante recentemente inaugurado em Montparnasse. O lugar se parecia com o restaurante clandestino na rua Saint-jacques.
- Que aconteceu aos seus amigos, Marthe e Marcel Andrieu? E ao filho, Ren?
Depois da deteno de Ren,
- Ah, Ren foi preso?!
Foi. Eles o torturaram e o deportaram. Marthe, Jeannette e o pequeno voltaram a Lot no incio do ano passado. Marcel foi denunciado como colaboracionista pela zeladora do prdio.
Mas, como o comissrio do bairro era um dos melhores fregueses do restaurante, ilibou Marcel, dizendo que ele pertencia 
Resistncia.
- E era verdade?
- Sim e no. Ajudou e acolheu muitos resistentes, mas nunca quis pertencer a nenhuma rede, Ren, ele sim, fazia parte da
Resistncia.
Pobre Marthe!
Bebamos  sade dela - sugeriu Franois. - Isso lhe daria prazer, tenho certeza.
A refeio foi deliciosa e restituiu a alegria a La. Uma vez mais, Tavernier admirou sua vitalidade.
Depois informou-a de que abrira uma conta em seu nome na Sociedade Geral da avenida Saint-Michel. A moa agradeceu sen comentrios. O nico que fez foi para si mesma: Vou poder comprar um par de sapatos.
Nessa noite, amaram-se com uma lentido e uma meiguice nada habitual em suas relaes. Parecia que saboreavam, uma por uma, todas as parcelas do corpo um do outro. O prazer crescia, descuidado, irrefrevel, submergindo-os numa ternura quase dolorosa, que lhes marejava os olhos. Para melhor o reter, La entrelaava as pernas nas dele e s deixava essa posio quando, feliz, sentia intumescer o sexo do amante. E, de novo, o gozo mximo os fez esquecer o presente.
Adormeceram ento, por instantes, enlaados. La foi a primeira a despertar. Contemplou intensamente o homem que iria deix-la dentro de poucas horas. Alguma coisa lhe dizia que no voltaria a v-lo durante muito tempo.
Enchia os olhos da imagem desse rosto que, no abandono do sono, se assemelhava ao de um adolescente. Que idade teria?
Nunca lhe perguntara. Como era possvel ter to poucos dados a seu respeito, conhecendo-se como se conheciam h vrios anos? Que motivos a impeliam a no querer saber quem ele era verdadeiramente?
Agora, porm, ela queria saber tudo: sua infncia, sua juventude. Teria irms e irmos? Como seriam seus pais? Ainda estariam vivos? Por que havia lutado na Espanha? Que papel desempenhara no conflito? Conhecia bem o tio Adrien? Que mulheres havia amado? Qual sua profisso antes da guerra? E que iria fazer em seguida, quando ela terminasse? Perguntas sem resposta, j que Tavernier partiria no dia seguinte.
Como era belo! Belo. . . seria a palavra certa? Sim, era. As feies vincadas, o maxilar rude, mas suavizado pela boca magnfica de lbios cheios e bem delineados, sobrancelhas espessas sublinhando o seu olhar to duro e, no instante seguinte, terno ou irnico. Muitas vezes essa ironia a ferira, embora adivinhasse por detrs dela um interesse apaixonado por tudo o que lhe dizia respeito. Perturbou-a a lembrana daquele seu jeito de olhar.
Os dedos de La acariciaram seus ombros largos e se perderam nos plos do peito. Depois deslizaram ao longo do ventre, onde a mo forte de Franois os imobilizou.
Eu a peguei, meu coraozinho, abusando do sono de um pobre homem.
Atravs das plpebras semicerradas, ele a observava com uma acuidade que no tinha nada a ver com o tom brincalho das palavras. Incomodada pela intensidade desse olhar, La procurou retirar a mo.
- Continue - ele pediu. - Gosto de v-la inclinada sobre mim.
Sem protestar, ela prosseguiu o avano dos dedos at o sexo em repouso. As mos juntaram-se e acariciaram-lhe o pnis at o sentirem duro e ereto. Em seguida, La cavalgou o corpo do amante, envolvendo-o lentamente.
Fez amor com ele, controlando a progresso de seu prazer, diminuindo o ritmo dos movimentos quando o sentia prestes a atingir o orgasmo, observando os efeitos no rosto de Franois.
- Sou sua amante - disse, em tom de desafio.
Ligados pela carne vibrante, de olhar preso um no outro, aceitavam serem vistos um pelo outro em sua manifestao menos refrevel e mais indiscreta, aquela em que o prazer desfigura a fisionomia, sublimando-a.
Irrefrevel, o prazer atingiu La como uma torrente. Sustentada pelos braos de Franois, ele se saciou daquela imagem antes de se saciar dentro dela, os olhos perdidos nos olhos de La.
Quanto tempo teriam ficado assim, como que suspensos? Com um grito, La deixou-se cair sobre Franois, colando-se a ele. Assim entrelaados, ele a fez oscilar enquanto duraram os espasmos.
Enfim, ela se acalmou e, por instantes, pareceu inconsciente. Com uma toalha molhada, Tavernier umedeceu sua fronte e as tmporas. Depois comeou a limpar seu ventre e as coxas.
- Est frio ela murmurou, repelindo-o.
Franois vestiu-a como se veste uma criana. Mas no quis pentear seus cabelos emaranhados. De p, La parecia to mole como uma boneca de pano.
Emocionado, Tavernier carregou-a at o automvel e depois transportou-a pelas escadas at o quarto. Quando a estendeu na cama, nua, La j adormecera com aquele sorriso que s vezes brinca no canto da boca dos bebs que sonham.
Tavernier arrancou-se dessa contemplao que, aos poucos, se transformava em sofrimento, e deixou o apartamento da rua da Universidade como se o perseguissem.

Captulo 28

"Bordus, TERA-FEIRA, 22 de agosto de 1944 Querida La,
Escrevo-lhe esta carta sem saber ao certo se chegar s suas mos, ou porque eu a rasgue antes de termin-la ou porque o correio no funciona mais.
Ns, os colaboracionistas, os militares, os gestapistas e os voluntrios para combater na Alemanha, fazemos os preparativos da partida no meio de uma enorme confuso. Voc precisa ver os que ainda h pouco se pavoneavam pelos Quinconces, pela rua de Sant-Catherine ou pelo Regent, como agora se fazem pequenos e caminham rente s paredes! Alguns procuram passar para as bases de resistentes, mas os rapazes da
Resistncia desconfiam dos recrutas de ltima hora. Depois do desembarque anglo-americano, correm aos mi'hares para se alistar. Quando a guerra terminar, voc ver que os grandes heris das Foras Francesas do
Interior sero os colaboracionistas que agora acabam de virar a casaca. Que nojo! Se houvesse nova mudana de situao, voltariam outra vez para o colo do marechal.
Quanto a mim, tomei uma deciso oposta e farei minha essa causa perdida. Serei como os heris negros dos romances de nossa infncia. Lembra-se de como gostvamos deles, desses cavaleiros errantes que estabeleciam pactos com o Diabo? Tudo perdiam,  verdade, mas com que preo faziam pagar sua derrota.
Eu lhe digo todas essas coisas para que voc saiba que no me alistei nas Waffen SS por ideais polticos. Nada me resta para fazer aqui, todo o futuro est vedado para mim.
Quando a guerra terminar, os novos vencedores tero em mente uma s coisa: a vingana. E eu no serei um carneiro a espera do golpe que me abater. Receio apenas uma coisa
- que se vinguem em meus pais. Meu pai recebeu diversas ameaas e o responsabilizaram injustamente pela morte de sua tia e pelo incndio de Montillac.
Acharam o cadver de Maurice Fiaux. Foi executado pela Resistncia. Aristide tambm mandou matar Grand-Clment e a mulher. Agora so senhores da regio.
Encontrei-me com seu primo Philippe na semana passada e o aconselhei a se esconder em lugar seguro. Segundo o que
Philippe me contou, o pai no pensa em fugir, pois afirma que no fez nada de reprovvel. Mas no  essa a opinio de alguns habitantes de Bordus.
Ali acompanha-se muito de perto o que acontece em Paris. Suponho que voc esteja nas barricadas, lutando. Teria sido necessrio muito pouco para que eu tambm estivesse a a seu lado.
Como talvez esta seja a ltima carta que lhe escrevo, quero lhe dizer o quanto lastimo a maneira como me comportei em relao a voc, mas eu a amo loucamente. Sei que isto no  uma desculpa vlida; fao questo, porm, que voc saiba.
Quero lhe pedir tambm para que conserve de mim apenas as recordaes felizes da nossa infncia. Guardarei de voc aquelas nossas corridas pelos vinhedos, as perseguies em redor do Calvrio de Verdelais, os mergulhos no Garonne e as lutas no feno.
Pense em mim algumas vezes e saiba que voc  a nica mulher que amei e amarei e que, at o fim, sempre estar presente em meu corao.
Seu amigo fiel
Mathias
PS. - Daqui a pouco, s dezessete e dez, sair da estao de Saint-Jacques, com destino  Alemanha, um trem de ferrovirios alemes. Um vago foi reservado para ns."
Mathias! Onde estaria ele nesse momento? Morto ou vivo? A carta havia demorado quase trs meses para chegar s suas mos. A distribuio de correspondncia ainda no fora completamente restabelecida. No recebera carta de Laurent nem de
Franois.
Mas La no se preocupava demais com a falta de notcias, inteiramente absorvida pelos treinos para condutores da Cruz
Vermelha Francesa.
No dia da partida de Tavernier apresentara-se para a entrevista na rua Octave-Feuillet.
Acordara tarde e mal tivera tempo de colocar um vestido. O metr apinhado parecia que se arrastava lentamente ao longo dos tneis onde os DUBO. -. DUBON... DUBONNET ritmavam a viagem. Na estao de Pompe, empurrando os outros passageiros, La havia corrido para a sada. J eram nove horas e dez minutos.
A sra. De Peyerimhoff, impecvel em seu uniforme bem talhado, a recebera com frieza.
- Est atrasada.
- De fato estou, minha senhora. Peo-lhe desculpas.
- Vem recomendada pelo nosso presidente. Conhece-o?
- No, no conheo.
- Estou vendo. . . - observara ela, medindo, a jovem com desdm.
La baixara a cabea.
- Voc sempre se penteia assim?
Como criana apanhada em falta, La se sentira corar.
-  moda nova?  preciso gostar muito, na verdade... No entanto, caso aceitemos a sua candidatura, aconselho-a a usar um penteado mais compatvel com a nossa farda. Sabe dirigir?
- Sei, sim.
- E trocar um pneu? Consertar um motor?
- Isso no.
- Estou vendo.. . teremos de lhe ensinar tudo. Tambm desconhece os primeiros socorros a feridos.
La sentia que sua pacincia comeava a se esgotar. Aquela mulher a irritava com os seus ares de grande dama.
- Na verdade no sei.
- Por que quer se alistar?
- Para servir o meu pas.
Aprendera bem a lio ensinada por Franois. A resposta parecera agradar a sr. De Peyerimhoff, que dissera em tom um pouco menos spero:
- Muito bem. Caso aceitemos a sua candidatura, ter de fazer um estgio de seis semanas, durante as quais lhe sero ministrados rudimentos de mecnica e de primeiros socorros aos feridos que ir transportar. Depois disso, ns a enviaremos aos locais onde for necessria a sua presena.
- Quando saberei se fui ou no aceita?
- Durante esta semana. Temos muitas candidatas e s escolheremos aquelas que nos parecerem mais capazes de desempenhar suas tarefas. Se for aceita, receber uma convocao.
Um aperto de mo vigoroso havia encerrado a entrevista.
Cinco dias mais tarde, La tomava a sua primeira refeio na rua Francisco 1, em companhia das novas recrutas.
Logo de incio ela se mostrara particularmente hbil na desmontagem de rodas, na limpeza de velas e nos pequenos consertos de motor. Alix Auboineau, que imperava na garagem das ambulncias na rua de Passy, a elogiara diante das colegas, o que levou uma delas a comentar com ar entendido:
- O chefe pele-vermelha se engraou com voc.
- Por que o chamam pele-vermelha?
- Foi Claire Mauriac quem lhe deu esse apelido.
- A filha de...?
- Sim. Ela est em Bziers, onde faz um trabalho magnfico. Espero que volte logo.
Foi, sem dvida, graas a esse ambiente de camaradagem e  matria do seu agrado, que La conseguiu superar o medo e o horror contidos na carta de Ruth, que havia chegado no dia 7 de outubro Comeou a ler em voz alta para as irms e as tias.
"Verdelais, 2 de outubro de 1944

Minhas queridas,
H duas semanas que venho adiando o instante de lhes escrever.  to terrvel o que tenho a dizer, que mal consigo segurar a caneta, o que explica essas linhas trmulas,
Vocs precisaro de muita coragem, minhas pequenas, depois de lerem o que vou contar. Albert morreu. Encontraram seu cadver enterrado no jardim da vivenda ocupada pela Gestapo, no Bouscat. A autpsia revelou que ele provavelmente se suicidou, enforcando-se, depois de ter sido torturado. Mireilie demonstra uma coragem admirvel; no derramou nenhuma lgrima e, no entanto, continua sem notcias do filho, O enterro do marido realizou-se em Saint-Macaire, com a presena do presidente da Cmara de Bordus e de inmeros resistentes. Infelizmente, nessa ocasio, assistiu-se a vergonhosas manifestaes: espancamento e insultos a colaboracionistas ou supostos colaboracionistas. Aps a horrvel morte da senhora Bouchardeau e dos Fayard, o menor grito hostil me provoca tremores nervosos que se prolongam por diversas horas. O mdico afirma que isto passar com o tempo.
Seu tio, o advogado Delmas, e o filho foram linchados pela multido, em Bordus..
- Deus do cu! - gritou Lisa.
A nusea fez com que corresse para o banheiro, enquanto as outras mulheres pareciam ter-se apatetado e paralisado diante de sua atitude. Quando Lisa voltou, de rosto plido e desfeito, os cabelos molhados, nenhuma delas ainda havia se mexido.
A velha solteirona pousou a mo no brao da irm. O gesto de afeto arrancou Albertine de sua letargia.
- Continue, La - disse em voz trmula.
S depois de diversas tentativas, a jovem conseguiu articular as palavras que a martirizavam:
". . . e os cadvares levados pelas ruas da cidade antes de os abandonarem no cais da Monnaie. A casa e o escritrio foram pilhados. Foi horrvel!
A senhora Dupuis, a velha criada, veio ver-me no hospital. Contou-me que, aps ter recebido a notcia da morte de Pierrot, seu tio nunca mais foi o mesmo. Em poucos dias, envelheceu dez anos.
Philippe, o sr. Giraud, o mais antigo empregado do escritrio e todos os outros insistiram em vo para que ele se refugiasse em qualquer local onde no o conhecessem.
Recusou, mas aconselhou o filho a partir. Diante da recusa do pai, seu primo tambm ficou. A senhora Dupuis est convencida de que seu tio no fugiu para se deixar matar.
Sei que tudo isto as faz sofrer, minhas queridas, e eu lhes peo que me perdoem. O mais duro, porm, ainda est para ser dito. .
- No, ele no. . . - gemeu La, que tivera de interromper leitura por diversas vezes.
- Quem mais morreu?! - exclamou Franoise.
- Pegue. Leia voc. No quero ver o nome dele.
Os soldados me convocaram para identificar um corpo. L estava tambm um homem no muito alto, uniformizado, na companhia de dois membros das Foras Francesas do Interior. Os trs examinamos o cadver e todos eles o identificaram.
Eu me senti mal quando chegou a minha vez.  necessrio, disse o comandante. A senhora  o nico membro da famlia
Delmas aqui na regio. Ento olhei. Parte do rosto tinha sido roda pelos animais, mas a outra era perfeitamente reconhecvel: o seu tio Adrien.
La soltou um grito e caiu no cho balbuciando:
- Eu sabia. . . eu sabia.
Albertine e Laure ergueram-na e a instalaram no canap.
- Lisa, telefone ao mdico.
- Como ele morreu? - La conseguiu articular, repelindo as mos que a amparavam.
- Franoise terminar a leitura da carta depois. Agora j sabem o mais horrvel. No h necessidade de continuarmos com esta tortura - disse Albertine.
- No. Acabe de ler.
o mdico legista concluiu pelo suicdio.
- Suicdio?! - elas exclamaram ao mesmo tempo.
- Um padre?! No  possvel! - declarou Albertine, fazendo o sinal da cruz.
Esmagada pela dor, enrolada sobre si mesma, La no parava de bater os dentes. Eu sabia, pensava ela. E deveria ter entendido quando ele me dava a entender que perdera a f. Mas por que ter feito isso? Era corajoso. . . E sua ao na
Resistncia era importante. E isso, essa morte que nada tinha a ver com ele.
Tudo nela tentava repelir a idia do suicdio, mas alguma coisa dizia que era verdade.
De joelhos e de mos postas, Albertine e Lisa de Montpleynet rezavam. Para aquelas catlicas fervorosas no existia pecado maior que o suicdio. Ao saberem eternamente condenado aquele homem cujas palavras de amor e de paz tinham ecoado sob as abbadas de Notre-Dame, orientando-lhes a conscincia melhor que as de seu confessor, isso no s lhes causava profundo desgosto como tambm as deixava em dvida quanto ao fundamento dessas palavras. Com esse ato monstruoso, o padre Delmas refutava a existncia do Deus cristo. Isso elas percebiam claramente.
Laure apanhou a carta das mos de Franoise e continuou a leitura:
Ningum queria acreditar, mas logo tivemos de nos render  evidncia, diante das explicaes do comandante e, sobretudo, diante dos esclarecimentos do mdico.
O seu infeliz tio foi sepultado no jazigo da famlia no cemitrio de Verdelais, junto dos despojos de sua tia e de seus pais.
No houve missa nem bno. Um enterro de pria, se as pessoas no tivessem levado tantas flores.
Estou em Verdelais, na casa de minha amiga Simone, e ficarei por aqui at recuperar a sade. Depois disso, se o desejarem, irei encontr-las.
As vindimas comearam h dois dias. A colheita parece abundante, mas o vinho  de qualidade mdia. Tive de contratar prisioneiros de guerra alemes para ajudar nos trabalhos. Tm tanto medo dos resistentes que trabalham com eficcia.
 necessrio tomarem providncias quanto ao futuro da propriedade e quanto  reconstruo da casa. Comecei a vasculhar a documentao dos Fayard, mas isso tudo  muito confuso para mim. O notrio morreu e teremos de arranjar outro. Pensem no caso.
Mais uma vez peo-lhes desculpas, minhas queridas, pelas notcias horrveis e saibam que continuo sempre a sua fiel, devotada e afetuosa
Ruth."
 verdade!  a poca das vindimas, eu tinha me esquecido!, pensou La.
Durante todo o dia, cada uma delas ficou fechada em seu quarto. Charles e Pierre se refugiaram na cozinha, junto de Estelie.
La faltou  aula de topografia. Albertine telefonou  sra. De Peyerimhoff, explicando, em parte, o motivo da ausncia da sobrinha.
Nos dias que se seguiram La conheceu uma solidariedade feminina da qual nunca suspeitara.
Aps os treinos nos caminhos esburacados da floresta de Marlyle-Roi, La revelou-se excelente condutora e excelente mecnica.
O chefe da garagem da rua de Passy garantiu-lhe que, terminada a guerra, obteria sem problemas emprego numa garagem.
Em contrapartida, nos socorros aos feridos, ela se mostrava reticente e desajeitada.
- Cuidado! - gritava o mdico que ministrava os cursos -, se voc levantar dessa maneira um homem ferido no abdmen, ir perder seus intestinos. . . Devagar, senhorita, devagar. . . voc lida com este homem, por certo atingido na coluna vertebral, como se manuseasse um saco de batatas. Eu no gostaria de cair em suas mos...
 noite La encontrava-se com Laure e com os amigos do irmo, que faziam contrabando de cigarros, de usque, de gasolina e de meias com os soldados americanos.
Por vezes, danavam at a uma da madrugada, impelidas pela nsia de viver, de viver rapidamente, uma nsia compartilhada pela maioria dos rapazes e das moas de sua idade.
Embora muito cortejada, La no correspondia s investidas dos jovens soldados vindos de longe para participar na libertao de
Paris. Namoricava, ria e bebia, permanecendo, porm, estranha- mente distante. Fingia-se presente, mas estava longe, em qualquer outro lugar, inacessvel e longnquo.
Nos braos daqueles homens empreendedores, podia mostrar-se lasciva durante uma dana, a ponto de, certo dia, ter recebido uma bofetada de um enorme sargento negro que no apreciara seu coquetismo.
Foi em meio a tal clima que, em 7 de novembro, chegou a primeira carta de Laurent, datada de 28 de outubro.
"Querida La,
Por intermdio de Franois Tavernier, aqui em misso junto do general Leclerc, soube que voc j se restabeleceu. Foi to grande a minha alegria que fiquei sem palavras. Informou-me tambm que voc continuava insistindo em se alistar na Cruz
Vermelha. Voc sabe que no a aprovo inteiramente, mas cada um  dono do seu destino.
Agradea por mim s suas tias tudo o que tm feito por Charles. Pea-lhes que lhe falem sobre mim, e voc, sempre que estiver com ele, no deixe de lhe contar coisas sobre sua me.
Estamos vivendo no meio da lama desde o dia 22 de setembro. Os nibus da T.C.R.P., que serviram para o transporte dos batalhes das Foras Francesas do Interior parisienses incorporadas na 2a Diviso Blindada, afundam at os eixos e j fomos obrigados a abandonar dois deles e a renunciar  idia de faz-los atravessar o Meurthe; outros foram rebocados pelos Sherman. Ao v-los, os operrios parisienses afirmam que j cheiram  atmosfera de Paname.
Voc pensava ver esses pobres diabos patinando na lama, calando sandlias ou sapatos de sola fina, vestidos com as roupas mais diversas, sem capacetes, uma s espingarda para dois homens! Eles patrulham as matas. Embora protestem por qualquer coisa, no recuam diante de nenhuma misso.
Temos de agentar quase ininterruptamente os tiros de morteiro. No falta munio ao inimigo, como aconteceu em agosto.
Ns nos impacientamos  espera de uma ofensiva real.
Ns, os dos tanques, no gostamos disto. Perdemos de maneira estpida dois oficiais notveis que conhecemos na frica e de quem ficamos amigos: os capites Dubut e Geoffry.
O mais enraivecido  o meu camarada Georges Buis. Seus ps comearam a criar razes, como ele diz. E resmunga dizendo que o destino de um militar de cavalaria no pode ser o de se transformar em esttua de barro.
Nas casernas, o moral dos homens chegou ao nvel mais baixo. Todos eles j se vem passando o inverno nesta "terra em decomposio".
Juntamente com Buis, sobrevoamos as linhas, num dos piper-cubs da Artilharia. Viso desmoralizante atravs de uma cortina de chuva.
Estamos mais orgulhosos do nmero de quilmetros que percorremos num dia do que dos prisioneiros capturados ao inimigo. At mesmo o capito Dere, veterano da Tunsia, um cinqento alegre, fala em se alistar no Corpo Expedicionrio de partida para a Indochina, ao menos para conhecer o pas, conforme afirma.
No  mais o entusiasmo da Libertao, mas o desnimo total. J  tempo para que o Estado-Maior nos faa passar  ao, seno a 2. Diviso Blindada ir se liquefazer.
Acabo de ler o que escrevi e constato que pintei um quadro muito pouco glorioso da 2. Diviso Blindada. Mas no  bem assim. Desde que partimos de Paris temos lutado muito. Sem dvida, o tempo execrvel e esta semi-inao so os responsveis pelo meu desencanto.
Da mesa da cozinha onde estou escrevendo,  luz de um lampio, vejo cair, atravs da janela da barraca, esta chuva que corri o moral dos mais endurecidos.
Interrompo aqui a minha tagarelice inspida. Ao dirigir-me a voc por escrito gostaria de sentir o raio de luz da sua beleza, mas tombam sobre mim e sobre estas linhas as trevas da melancolia. Perdoe-me.
D um beijo em meu filho. Com toda a ternura,
Laurent."
Laurent estava bem, graas a Deus, apesar da negra tristeza que transparecia em cada frase.
E Franois, como estaria ele? Por que no dava sinais de vida? La estivera no Ministrio da Guerra, mas no lhe deram nenhuma notcia do comandante Tavernier.
No dia 20 de novembro, La passou no exame, apesar do desastre da prova de remoo dos feridos, quando o enfermeiro que fazia o papel de ferido caiu da maca.
Aps os discursos da sra, De Peyerimhoff, de Alix Auboineau e do mdico que lhe ensinara os primeiros socorros, La guardou com cuidado seu diploma de condutora de ambulncia da Cruz Vermelha Francesa.
Trs dias depois, enviaram-na para Amiens, para o castelo da sra. De Guillencourt, que funcionava como sede da Cruz
Vermelh Ali, La dedicou-se ao socorro de civis: crianas despedaadas por minas, moribundos retirados da frente, famlias belgas e francesas extraviadas, doentes por causa do frio, da fome, de diarrias.
De incio, pensou que no agentaria o golpe, mas uma colega
- Jeanine Ivoy, uma moa to baixinha que fora necessrio lhe fazer uma farda sob medida - tomou-a sob sua proteo e lhe insuflou coragem.
Finalmente, nos ltimos dias de dezembro, La recebeu correspondncia de Paris; uma carta de Franoise, outra de tia
Albertine, uma outra de Laurent e ainda uma quarta, de Franois Tavernier. Correu para o quarto que dividia com Jeanine
Ivoy e abriu em primeiro lugar a carta de Franois Tavernier, de 17 de dezembro.
"Minha queridinha,
No sei onde voc ir receber estas linhas. Laure, com quem falei pelo telefone h momentos, disse-me que voc havia partido para Amiens, mas no sabia se voc ainda estaria l.
Aps a minha primeira misso, o general incumbiu-me de uma outra e agora fui enviado a. . . no posso dizer onde. Mas voc no perde por esperar, pois encontrei um meio de lhe fazer uma surpresa em Amiens ou em qualquer outro lugar onde voc estiver.
Voc me faz muita falta e tenho um desejo furioso de tom-la nos braos e de partir com voc para bem longe da Europa.
Quando tudo isto terminar ir comigo para a casa de uns amigos no Brasil. Passaremos nossos dias na praia, fazendo amor para nos esquecermos destes quatro anos.
Cuide-se e no me queira mal por ser to pouco loquaz, pois o avio que me levar onde tenho de ir est  minha espera.
J lhe disse alguma vez que a amava? Se no disse, digo-o agora. Beijos por toda a parte.
Franois."
 leitura da carta, La evocou as carcias do amante e assaltou-a uma onda de prazer. Tambm o amo, disse baixinho.
Com um suspiro de felicidade, escondeu a carta no decote, em contato com o corpo, a fim de manter contra o peito esse pedao de papel que Franois tocara.
Depois abriu a carta da irm:
"Querida irmzinha,
Por aqui vamos sobrevivendo graas aos negcios de Laure, que consegue nos arranjar um pouco de carvo e de comida. Ela me incumbiu de lhe mandar um beijo e de dizer que vai tudo bem.
Ruth j est aqui conosco. Voc no a reconheceria;  agora uma velha que se assusta com o menor barulho.
Contratamos um novo notrio para se ocupar dos negcios e ele encontrou um homem de confiana, que agora toma conta das vinhas de Montillac. Na prxima primavera, porm, teremos de tomar uma deciso - vender ou no a propriedade.
Laure e eu estamos inclinadas a vend-la, pois essa casa e essas terras esto muito ligadas a lembranas infelizes demais.
No temos dinheiro para mandar reconstruir a casa e nos desesperamos ao sab-la em runas. O que acha que devemos fazer?
Pierre vai bem, sempre aos pulos por todo o lado. Tem apenas seis dentes e me pergunto se isto ser normal. Charles  um rapazinho muito sisudo e calado para a sua idade.
Chama por voc com muita freqncia, sobretudo  noite. Mas, fora isso, vai bem. As tias esto cada vez mais velhinhas, mas nos tratam sempre com uma delicadeza deliciosa.
Os meus cabelos continuam a crescer e dentro em breve poderei sair sem o turbante. No recebi nenhuma notcia de Otto, mas sinto que ele est vivo.  horrvel no saber nada do homem que amo e no poder falar disso a ningum, exceto, por vezes, a Laure.
Ruth acolheu a notcia da libertao de Estrasburgo com a emoo que voc pode calcular.
As depuraes prosseguem de vento em popa. Mas nem sempre os condenados so os que tm as maiores culpas. Todo mundo escuta a emissora francesa de Baden-Baden, onde se ouvem vozes conhecidas: Brinon, Dat, Luchaire etc.
No outro dia, durante um espetculo de gala da Resistncia, na Comdie-Franaise, foi lido um poema de Claudel dedicado  glria do general De Gaulie. Era a minha primeira sada. Observei entre a assistncia duas ou trs cabeas enfeitadas com belos turbantes. . . Ao meu lado, um jornalista dizia a seu vizinho que o poema fora escrito em 1942, em homenagem ao marechal Ptain, e que fora ligeiramente alterado para se adaptar s novas circunstncias:
Eis a Frana entre os seus braos, sr. Marechal, a Frana que tem s ao senhor e que em voz baixa ressuscita.
Frana, escuta este homem idoso que sobre ti se debrua e que te fala como pai!
No  divertido?
Laure forou-me a acompanh-la ao bar do Crilion, onde se comprimia uma verdadeira multido de senhoras uniformizadas e de oficiais ingleses e americanos de diferentes armas, rivalizando em elegncia. Reconheci a antiga amante de um general alemo, agora de brao dado com um coronel britnico. Ela tambm me reconheceu e piscou-me o olho, com ar de quem dizia: Que se h de fazer?  o trabalho!
Petiot foi preso, enfim - era tenente ou capito das Foras Francesas do Interior!
Fazemos os preparativos para o Natal das crianas. Sentiremos a sua falta. Um beijo com ternura da irm que a ama.
Franoise"
Franoise parecia estar superando a situao. Para sua tranqilidade e segurana, seria melhor que Otto estivesse morto, Ela era capaz de educar o filho sozinha.
Que lhe importava o que acontecesse a Montillac? At mesmo a idia de ter de pensar no assunto lhe era desagradvel.
Devia esquecer, passar uma esponja sobre tudo o que antes fora a razo de sua vida.
A carta da tia Albertine continha apenas recomendaes e a no tcia de que iria lhe enviar, pelo Natal, meias de l e roupas ntimas quentes, pois a leve gabardina do uniforme da Cruz Vermelha no era suficiente para proteg-la da brisa cortante que soprava naquela regio descampada.
La virou e revirou entre os dedos a carta de Laurent, sem se decidir a abri-la. Por fim, rasgou o envelope:
"Minha querida La.
Espero que voc sofra menos com o frio que a 2 Diviso Blindada. Diante dos rostos congelados de seus homens, o general
Leclerc mandou confeccionar coletes em pele de coelho, o que lhe valeu a gratido de todos ns. Os veculos tm sofrido tanto como os homens.
Sem dvida tem seguido a nossa progresso por intermdio da imprensa. Depois da tomada de Barracat, bebemos champanhe nas taas gravadas com um punho enluvado, destinadas a Goering.
Travei conhecimento com o coronel Fabien, comunista, antigo membro das Brigadas Internacionais e adjunto do coronel
Rol-Tanguy, chefe das Foras Francesas do Interior, da Ilede-France, na poca da liberao de Paris.  um homem curioso, sempre com calas de bombachas e uma jaqueta abotoada at o pescoo. Com trs mil homens, quase todos vindos da periferia de Paris, ele seguiu a 2. Diviso Blindada em companhia das Foras Francesas do Interior, vindos um pouco de cada lugar, sobretudo os do grupo Janson de Sailly.
Unida ao 3 Corpo do Exrcito Americano (Patton), a Brigada de Paris adotou o nome de Agrupamento Ttico de
Lorraine. A seu pedido foi incorporado ao 1 Exrcito, comandado pelo general De Lattre. No dia 10 de dezembro, em
Vesoul, o general passou em revista os novos recrutas; alguns deles acabam de completar dezessete anos.
A sua integrao nem sempre se faz sem problemas. Dificilmente aceitam ordens de determinados oficiais e de oficiais subalternos, sobretudo daqueles que usam uniformes reluzentes de to novos. Eles os chamam de 'naftalinas", apelido que dispensa comentrios.
Fabien  um homem fascinante. Alistou-se nas Brigadas Internacionais aos dezessete anos e foi ferido. Em 30 de novembro de 1942, matou aquele oficial alemo na estao do metr da Rpublique. Preso e torturado, conseguiu fugir, retomando a luta clandestina. Os alemes fuzilaram seu pai e deportaram sua me.
Os dias que antecederam a marcha sobre Estrasburgo representaram uma provao para todos ns. Segundo Buis afirma,  devido ao mau tempo que os homens arranjam querelas por tudo e por nada. Durante esses dias, o general Leclerc esteve com um humor terrvel, medindo a grandes passadas as salas midas do castelo de Birkenwald, o mesmo em que o futuro pai de Foucauld passava frias. Na alvorada do dia 23 de novembro, chovia a cntaros, e o general batia maquinalmente com sua bengala no assoalho, as sobrancelhas franzidas e uma brusca contrao da ma direita do rosto, um sinal de que estava muito agitado.
S s dez e meia um motociclista entrou na sala onde se reuniam todos os oficiais do P.C. Com os dedos enregelados, estendeu a folha de papel amarelo enviada por Rouvillois. O texto estava em cdigo: "O tecido est no iodo". Isso significava que haviam entrado em Estrasburgo. Ento, o general Leclerc soltou uma gargalhada: 'Vamos partir!', exclamou.
Felizmente tivemos muito poucas baixas, mas uma delas nos consternou: a morte do capito da Diviso, o padre Houchet, que acompanhava Leclerc desde o Chade.
Ao receber a notcia, o general correu para o hospital em plena noite. Eu o vi enxugar uma lgrima em frente dos restos mortais daquele cuja f, alegria, bondade e dedicao incansvel tinham feito dele a pessoa mais querida e respeitada de toda a Diviso. No dia seguinte, como os soldados designados para conduzir o fretro no puderam chegar  capela, fomos ns, os oficiais, que transportamos o corpo.
No domingo, dia 26, o estandarte do 12 Couraado flutuava sobre a praa Kleber, diante de uma multido silenciosa e dispersa. Sentia-se no ar uma grande tenso. Depois, aos poucos, as janelas comearam a se abrir e a se desfraldarem as bandeiras. Os acordes da Marselhesa ergueram-se em surdina ao longo das caladas, para logo cessarem, Com a chegada do general Leclerc, porm, a populao entregou-se ao regozijo.
Depois de cinco dias, partimos ao encontro do 1 Exrcito Francs, que conquistara Belfort e Mulhouse. Os alemes estavam agora isolados e encurralados no Reno. Disse que voltamos a partir. . . mas o fizemos como um burro que recua quando o puxam (meu pai teria dito), pois os Leclerc no tinham nenhum desejo de serem incorporados ao 1 Exrcito.
O tempo est horrvel - chuva, neve, trovoadas. Felizmente, o esprito da 2. Diviso Blindada resiste a tudo. Nem o humor perde os seus direitos. Um exemplo disso: no outro dia, nos abrigamos numa pequena estao da estrada de ferro, onde, de um lado, lia-se partida e do outro chegada. Por cima das linhas do trem, chegou at ns um saraivada de 88, o que era raro, pois os alemes dispoem de pouca artilharia.
Quando nos levantamos, Georges Buis sacudiu o p da farda com uma das mos e apontou com a outra o buraco aberto pelos obuses, comentando comigo e com La Horie:
- Sempre conformistas, estes alemes.
Camos na risada, pois os projteis tinham entrado. . . pela chegada.
Esse tipo de piadas colegiais em meio aos combates mais duros e a camaradagem que antigamente eu qualificaria de caserna, ajudam-me a no enlouquecer ao pensar nos sofrimentos e na morte de Camille. Em certas noites, quando no consigo dormir por causa do frio intenso, vejo o seu rosto suave debruado sobre mim. Tenho a sensao de que ela me chama, dizendo: Vem. . vem me encontrar. . . no me deixe s.
Sinto-me como que atrado por uma fora emanada do almtmulo.
Mas que estupidez a minha! Perdoe-me, querida La, se eu a entristeo. Voc tambm a amava.
Como est Charles? Talvez voc no esteja ao seu lado. Talvez voc tambm esteja num desses lugares onde os homens morrem. Se no for assim, no deixe de lhe falar sobre a me e sobre mim, construindo-lhe as recordaes de sua pequena infncia.
Dentro em breve estaremos no Natal. Voc j notou que nunca passei um Natal com meu filho desde que ele nasceu? Dlhe muitos presentes, e no lhe poupe guloseimas, brinquedos nem velas na rvore de Natal. Diga-lhe que seu papai pensar ainda mais nele durante essa noite.
Para voc, a minha terna amizade.
Laurent."
Ao pensamento de que estaria longe daqueles que amava nesse primeiro Natal da Frana libertada, La comeou a chorar como uma criana. Vieram-lhe  mente todas as suas recordaes de garotinha mimada: o fervor e o frio da missa do galo na baslica de Verdelais ou sob as abbadas medievais de Saint-Macaire; a emoo diante do prespio, com o anjo que abanava a cabea e tocava os primeiros acordes de Nasceu o Menino Jesus. . . quando se introduzia uma moeda na caixa de gesso que ele segurava; o misto de alegria e de espanto diante da viso do pinheiro iluminado, erguido no ptio em frente da casa como que por milagre; o corao palpitando, gritos e risos nervosos quando a porta da sala de visitas se abria e, a, junto da lareira onde crepitava o fogo, os presentes de Natal, um monte de pacotes coloridos.
Depois de um certo tempo paradas, de um instante de falsa surpresa, as trs irms, empurrando-se, corriam, gritando como loucas, para a lareira, para seus sapatos reluzentes.
Com que energia rasgavam os papis, arrancavam as fitas e pulavam de alegria, correndo para beijar os pais e Ruth, que suspeitavam serem cmplices de Papai Noel!
Mais tarde, depois de crescidas, tinham tido outros Natais igualmente felizes e por nada queriam estar fora num dia como esse.
A guerra havia destrudo tudo isso. Graas aos esforos de La em manter a tradio, os Natais da Ocupao, embora tristes, sem exuberncia e com poucos presentes, tinham sido festejados.
Este seria o primeiro Natal que La passaria fora de casa. Nesse instante, nada lhe parecia to terrvel como aquilo, fazendo-a esquecer o sofrimento que a rodeava, a guerra que continuava e todos os mortos que haviam feito parte de sua vida.
- O que voc tem? Ms notcias? - perguntou jeanine Ivoy, entrando no quarto.
Incapaz de responder, soluando, La sacudiu a cabea num gesto negativo.
- Ento, por que est assim?
- Porque. . . porque. . .  Natal! - La conseguiu articular.
Jeanine, de boca aberta, olhava-a perplexa. Depois, subitamente, tambm comeou a chorar.
Como a infncia demora para morrer! Elas choraram durante algum tempo, sem ousarem se fitar. Depois, seus olhos se encontraram e, sem transio, elas comearam a rir, caindo nos braos uma da outra.
Em 24 de dezembro, foram para casa tarde, esgotadas pelo transporte de feridos para os hospitais da regio. Arrastando os ps, subiram os degraus do patamar. O vestbulo estava mergulhado na penumbra, mas, da sala, filtrava-se uma luminosidade forte e chegava at elas o som de vozes alegres e animadas, sobre- pondo-se o som do jazz. O que estava acontecendo? Aquilo no fazia parte dos hbitos da casa.
Intrigadas, empurraram a porta. E viram, ento, um pinheiro enorme, iluminado por lmpadas e enfeitado com pedaos de algodo como se fossem flocos de neve. O fogo crepitava na lareira, em cujo friso um homem estava apoiado, com um copo na mo. Encaminhou-se para elas, sorrindo.
- Vocs so as ltimas a chegar. Entrem depressa e fechem a porta.
La obedeceu com gestos lentos. Depois, voltou-se, com as mos atrs das costas, ainda presas  maaneta de cobre esculpido, cujas arestas machucavam seus dedos.
Para no cair, encostou-se na almofada da porta, incrdula e maravilhada ao ver avanar para ela, como atravs de um nevoeiro, aquele homem que a desconcertava.
Franois Tavernier teve muita dificuldade em conseguir que La soltasse a maaneta da porta. A dona da casa dirigiu-se para eles.
- Est muitssimo plida, senhorita Delmas. Acalme-se. Sem dvida  a emoo de ver o noivo.
O noivo?! A quem a velha se referia?
A senhoria prosseguiu:
- Graas ao comandante Tavernier, vamos ter um autntico Natal. Trouxe no carro tudo o que  necessrio a uma noite como esta. V mudar de roupa, La; est toda suja.
Franois inclinou-se diante da senhora idosa e disse, com o seu sorriso mais encantador:
- Se a senhora me permite, acompanharei a senhorita Delmas.
- Claro, comandante. Enquanto isso, vamos acabar de pr a mesa.
La deixou-se levar como uma sonmbula.
- Onde fica o seu quarto?
- L em cima.
Mal entraram no quarto, Tavernier lanou-se sobre ela, cobrindo-a de beijos. La deixava-o prosseguir, incapaz de reagir.
Franois percebeu, afastou-se um pouco, e a examinou, prendendo-a pelos ombros.
- Eu esperava mais entusiasmo.
La se exaltou imediatamente:
- Voc aparece assim, sem avisar, quando eu o imaginava na casa do diabo. . . voc. . . voc. . . apresenta-se como meu noivo...
pula em cima de mim... e... Por que est rindo?
- Agora  voc de novo. No  do seu jeito ser to passiva. La corou e debateu-se entre os braos que a apertavam novamente.
- Acalme-se. Temos pouco tempo. Arrisco-me a ser levado a conselho de guerra por ter vindo v-la. Devia estar em Colmar neste momento.
- Mas por que disse que era meu noivo?
- Para que ningum se surpreendesse com minha visita imprevista e para que me deixassem ficar a ss com voc. Beije-me.
Eram uma estupidez aquelas suas questes mesquinhas. A verdade  que sua alegria havia sido tanta ao v-lo, que pensou que iria morrer. Ento, correspondeu a seus beijos e o arrastou para uma das camas.
- Venha.
Fizeram amor como se tivessem os minutos contados, desajeitadamente. Mas os corpos acomodaram-se a essa urgncia e logo o clmax do prazer os deixava fora do tempo.
Algumas pancadas discretas na porta os trouxeram de volta  realidade. Recompuseram as roupas, rindo loucamente.
- Entre - La falou.
A cabea pequenina da companheira de quarto apareceu na fresta da porta.
- Desculpem - disse Jeanine Ivoy, sem se atrever a encarlos. - Mas preciso mudar de roupa.
- Sou eu quem deve se desculpar por ter retido La. Vou deix-las.
As duas moas comearam a se despir sem dizer nada.
O champanhe, as ostras e o pat de fgado trazidos por Franois Tavernier fizeram daquela reunio uma festa cheia de alegria. No final da refeio, quase todos os convidados estavam levemente embriagados.
Pouco depois de meia-noite, Tavernier se levantou para sair.
- J!. . . - exclamaram todos em coro, exceto La, que abaixou a cabea.
- Sim, infelizmente. Tenho de estar de volta pela manh. Continuem a festa sem mim - disse Franois. - Quer me acompanhar at o carro, minha querida?
- At depois, comandante. E obrigada por tudo.
L fora, desabava uma tempestade de neve. O veculo de trao dianteira estava coberto por espesso manto branco.
Tavernier abriu a porta e puxou La para dentro. Suas mos frias tatearam sob sua saia at encontrarem o calor de seu ventre.
- Desabotoe - ele pediu.
- No - contrariou La, obedecendo.
Atrapalhados pelas roupas, fizeram amor com violncia, com brutalidade desmentida pelas palavras de carinho que murmuravam.
Depois, com a respirao ainda ofegante, fitaram-se na tnue claridade da lmpada do teto, em silncio, gravando na memria as imagens um do outro. Talvez por causa do frio, pareceu a La que uma lgrima deslizava por sua face e se perdia nos cabelos de seu amante.
Soaram duas da madrugada num campanrio vizinho. Tavernier estremeceu e saiu do carro.
- Preciso ir.
Ligou o motor. Em p, junto da porta, La tremia, envolta numa manta de viagem que cheirava a gasolina. Enquanto o motor funcionava, Franois tomou-a nos braos.
- Onde vai? - ela perguntou.
- Para a Alscia.
- Sozinho?
- No. Meu ordenana ficou  minha espera num caf. Minha querida, no nos veremos durante muito tempo. Depois da
Alscia vou para a Rssia como observador, enviado pelo general De Gaulle.
- Mas por que voc?
- Talvez por uma razo muito simples: porque falo russo.
Franois falava russo! Nunca lhe dissera. Mas havia tanta coisa que ignorava a seu respeito! Talvez uma s vida no bastasse para conhec-las.
- Franois.
- No fale. Se o fizer, certamente no terei coragem para partir. Diga a si mesma que saberei encontr-la onde quer que esteja e, a mim, diga-me apenas algo que me ajude a ter pacincia sempre que pensar em voc.
- Eu te amo.
- Era isso mesmo que eu queria ouvir. Voc  to avara com os seus "eu te amo". Agora entre depressa. Est gelada.
- No. Beije-me.
Franois beijou-a.
- V embora!
Repelida com violncia, La caiu. Tavernier conteve o impulso de correr para ela. O carro arrancou de repente, projetando uma chuva de neve sobre a jovem que no se movera.
Instante depois, preocupada com a ausncia de La, uma de suas colegas foi descobri-la na rua, enrodilhada sobre si mesma e quase sepultada sob a neve.
Auxiliada pelo empregado do castelo, transportou La para o quarto. Obrigaram-na a engolir uma grogue escaldante. Depois a puseram na cama, sob uma pilha de cobertores e com um saco de gua quente nos ps.
Ela dormiu at o meio-dia seguinte.

Captulo 29

EM 6 DE FEVEREIRO, no dia seguinte ao Acordo de Yalta, La recebeu duas cartas amarrotadas, enviadas ao mesmo tempo por intermdio da Cruz Vermelha. Uma delas era de Laurent e vinha datada de 3 de janeiro:
"Minha querida La,
Como de costume, quero lhe desejar um feliz Ano-Novo. Que 1945 lhe traga a felicidade! Voc a merece mais que ningum. H em voc uma fora vital capaz de superar as maiores tormentas. Voc no  como eu, que sinto que a vontade de viver me abandona.  pensando em Charles que luto o mximo possvel contra essa atrao mrbida, mas logo as idias lgubres me conduzem aos dias felizes de um passado perdido para sempre.
Aqui, neste universo de chuva e de lama, a transio da vida para a morte quase se transformou em banalidade.
A dignidade dos homens que aceitaram morrer por uma causa justa  talvez o que mais me comoveu desde que entramos em combate. Nas vsperas de um ataque onde se sabe que grande nmero cair e que ns mesmos podemos fazer parte desse nmero, h pelo acampamento uma espcie de fervor contido. Os soldados trocam cartas, barbeiam-se, falam mais baixo. Sabem quando o ataque est para ocorrer, antes mesmo que o EstadoMaior tenha conhecimento. No precisam de toques de clarim.
Se voc visse como  belo, como fica limpo de toda a imundcie o olhar do homem que sabe que amanh...  como se ele olhasse alm do visvel, mais longe que ele mesmo. Isso tambm faz parte da guerra - a solidariedade muda, a dignidade que transforma em bravos, em criaturas lendrias, em heris, indivduos que, vistos separadamente, talvez no despertassem grande interesse. Aqui, porm, se engrandecem pelo sacrifcio pessoal, indo juntar-se, nas pginas da Histria, s figuras do ano II, de Austerlitz ou do Mame.
Essas palavras em minha boca talvez a surpreendam, como surpreendem a mim mesmo. Se por acaso eu no tivesse me reunido a Leclerc, se eu no me encontrasse na 2 Diviso Blindada,  provvel que minhas idias fossem outras, pacfico convicto que sou. Mas no se vive impunemente junto de pessoas que morrem aos milhares pela liberdade, no apenas pela liberdade da Frana, mas do mundo, sem se rever certos julgamentos favorecidos por uma existncia cor-de- rosa e pelo horror  violncia.
Eu lhe falei sobre o coronel Fabien em minha ltima carta. Foi estupidamente morto por uma mina, junto com trs dos seus camaradas, no dia 27 de dezembro. Pensei muito na filhinha que deixou.
Se me acontecer a mesma coisa, no se esquea de que lhe confiamos o nosso filho, eu e Camille. Por testamento, antes de partir, estipulei que voc seria a sua tutora.
Fale a Charles a respeito da guerra, mas para que ele a odeie. Diga-lhe, no entanto, para no guardar rancor do povo alemo, que foi ludibriado. Antes da guerra, conheci bem esse povo, falava a sua lngua, escutava a sua msica, lia os seus poetas e admirava a sua coragem. Muitas vezes, eu e alguns amigos berlinenses bebemos em homenagem aos Estados Unidos e 
Europa. Depois de tantos horrores, ser necessrio que homens e mulheres retomem a idia e a ponham em prtica.
Neste incio de ano, peo a Deus que a proteja, minha querida La, e que a cumule de benefcios.
Um beijo onde vai tudo o que me resta de amor. Seu amigo,
Laurent."
- Ele vai morrer - La murmurou com um estupor lasso.
Depois, ficou virando e revirando nas mos a segunda carta coberta de carimbos, tal como a anterior. A caligrafia com que fora escrita nada lhe revelara.
Por fim, decidiu-se, e rasgou o envelope. Ao ler o nome  esquerda da folha de papel ordinrio, compreendeu ento do que se tratava. Sem nenhuma lgrima, comeou a ler:
"Senhorita Delmas,
Ningum gosta de ser mensageiro da desgraa. No entanto, por amizade e por respeito  minha palavra, venho lhe dar uma m notcia: o capito d'Argilat morreu no dia 28 de janeiro.
Juntamente com ele, foram mortos dezesseis oficiais do Agrupamento Ttico, assim como o comandante Puig e o tenentecoronel Putz, durante a tomada de Grussenheim, que custou  2 Diviso Blindada mais baixas que a ruptura da frente vosgiana e pr-vosgiana, a tomada de Salernes e de Estrasburgo.
Recebemos ordens para transpor o III, alcanar o Reno e dividir em dois a bolsa de resistncia alem, partindo de Selestat.
Havia cinqenta centmetros de neve e de gelo. A enorme plancie branca, salpicada de pequenos bosques e cortada por canais e por ribeires, oferecia aos Horniss, aos Jagpanther e aos 88 um campo de tiro excelente.
A 3. Companhia foi a primeira a entrar em ao, apoderando-se do famoso cruzamento n 137. A 2a a ultrapassou depois e recebeu ordens para tomar Grussenheim a todo o preo.
Na retaguarda, o resto do regimento seguia com paixo o desenrolar do combate e, embora invejando-os, receava pela sorte dos camaradas.
As unidades no comprometidas na luta se desfaziam das prprias munies em favor da vanguarda, a fim de que ela reconstitusse as suas reservas o mais rapidamente.
O nosso amigo morreu durante esse ataque. Seu tanque explodiu a alguns metros do meu. Seu corpo foi lanado pela exploso.
Ns o recolhemos mais tarde. Parecia adormecido. Tinha o rosto sereno e no corpo no se notavam ferimentos. Repousa agora no cemitrio da aldeia, enquanto no for transladado para o jazigo da famlia.
Todos os amigos sentiram muito a sua perda.
Laurent ia ao encontro da morte. Talvez a procurasse.
Voc acreditaria se lhe contasse o que ele fez em Herbsheim porque seria eu a diz-lo, mas com certeza ficaria atnita.  muito pessoal a maneira como se faz amor com a morte.  um segredo. As pessoas de envergadura que se suicidam, antecipando-se assim aos desgnios divinos, deixam, em geral, um papel, onde se l apenas: No procurem compreender. Eu mesmo no entendo. - - No creio que algum saiba verdadeiramente por que arrisca a vida na guerra. Assim se faz, porque  assim. Laurent no deixou nenhum papel como esse e est bem assim.
Um excelente oficial, elogiou-o certo coronel. Em sua boca de homem ctico, isso era um grande elogio. Para mim, porm,
Laurent era bem mais que isso, era uma criatura suficientemente corajosa para no deixar que ningum notasse suas fraquezas.
Senhorita, estou solidrio com sua dor e compartilho sinceramente do seu desgosto. Acredite na minha tristeza.
Os meus cumprimentos respeitosos.
Georges Buis.
Assim, ele tinha ido ao encontro de Camille! Apesar do desgosto, La achava que aquilo estava certo.  verdade que havia
Charles e que a morte de Laurent poderia ser considerada uma covardia - deixava o filho abandonado, sem famlia, exceto os
Delmas. Mas Laurent desejara a morte.
- Pedimos-lhe que viesse aqui, senhorita Delmas, para inform-la de sua prxima misso. Foi designada para transportar um oficial britnico gravemente ferido, de Bruxelas a Cannes, que ir passar algumas semanas de convalescena  beira do
Mediterrneo.
La mal pde conter sua alegria. A cada dia seu trabalho ficava mais penoso. No era nenhum prazer dirigir em estradas esburacadas. Mas era muito pior, um pesadelo sempre renovado, recolher feridos sem se esquecer de braos e de pernas pendentes e inertes, prestar os primeiros socorros, escutar os gemidos, ver correrem as lgrimas diante dos membros amputados, ouvi-los chamar pelas mes antes de morrerem, arrancar dos escombros os recm-nascidos, viver na lama, no pus, no sangue e entre dejetos.
Os pesadelos de La haviam recomeado com maior intensidade aps a morte de Laurent. No se passava uma noite sem que visse Camille se arrastando para junto do filho, sem que lhe aparecesse o homem de Orlans com a faca de aougueiro ou sem que lhe ecoassem na cabea os gritos de agonia da tia Bernadette Bouchardeau.
Sangue durante o dia, sangue pela noite adentro. La vivia no terror de adormecer e na angstia de despertar.
Talvez ela suportasse sua tarefa se acaso no fosse objeto de inveja e de zombaria por parte das novas colegas - com exceo de Jeanine Ivoy - e sobretudo da chefe do grupo.
Todos os trabalhos maantes lhes eram destinados. Via-se obrigada a limpar calados, a lavar ambulncias, a varrer gabinetes. Aceitara tudo aquilo, de incio, supondo que fizesse parte de suas funes. Mas logo compreendera que no era bem assim.
Diante de suas objees, deram-lhe, ento, a perceber que passariam bem sem os seus servios. Assim, foi grande a sua surpresa ao ver-se incumbida de uma misso que era to importante como agradvel.
- Vejo que ficou admirada - continuara sua interlocutora.
- Mas ns a escolhemos devido a seus conhecimentos de ingls. Fala bem a lngua, no  verdade? Est na sua ficha.
La confirmara, receando que a mandassem pronunciar algumas frases no idioma de Churchill. Suas noes de ingls eram escolares e isso j fazia alguns anos.
- Partir amanh, incorporada num comboio de viaturas que se deslocam para a Blgica. Em Bruxelas, entrar em contato com os organizadores da Cruz Vermelha Belga. Dentro desta pasta esto todos os esclarecimentos necessrios assim como os documentos que a autorizam a circular pela Blgica e pela Frana. Tem carta branca at o momento da partida. Boa viagem.
- Obrigada, minha senhora. At logo.
La aproveitou o meio dia de liberdade para lavar a cabea no salo de cabeleireiro instalado num barraco no muito distante do castelo. Quando saiu, com os cabelos limpos e mais curtos, sentia-se outra mulher e se flagrou encarando o futuro com uma leve esperana. Nessa noite no teve pesadelos.
No dia seguinte, despedia-se das colegas, abandonando sem saudade aquela regio do norte da Frana.

Captulo 30

SEM AQUELES feridos transportados em pequenas viaturas, sem essa confuso onde imperavam os uniformes aliados,
La teria se sentido em frias.
De fato levava uma vida de ociosidade e de diverso h aproximadamente um ms, em companhia do "seu" ferido.
Sir George McClintock, coronel de Exrcito de. Sua Graciosa Majestade Britnica, era um irlands original, grande fumante de grossos charutos, que apreciava mais o bourbon que o ch, e as cartas de pquer mais que as do Estado-Maior. Dotado de um humor nunca desmentido, corajoso at a insensatez, amante de saias como um tenente de Guarda - segundo afirmavam os camaradas
- e, alm disso, muito rico.
Era este o indivduo de quem La deveria supostamente cuidar. McClintock fora ferido nas imediaes de Dinan, durante a ofensiva de Ardenner, e vira a morte perto demais para fazer economia do tempo que lhe restava para viver.
Assim que pde caminhar com a ajuda de muletas, a vida de La se transformara num verdadeiro turbilho coquetis, gardenparties, piqueniques, passeios no mar, excurses ao interior da regio.
O convalescente exigia a presena constante de La a seu lado. Assim que vira a jovem - afirmava McClintock - soubera que sua vida se modificaria devido ao aparecimento daquela francesinha de cabelo sempre desalinhado, de lbios trmulos, de olhar altivo e inquieto e de corpo que se adivinhava cheio de encantos sob o uniforme malfeito.
Ele exigia, mediante alguns punhados de libras, que ela tivesse um quarto perto do seu no Hotel Majestic.
Cansado, McClintock dormira horas a fio nos primeiros dias. Na noite do quinto dia, porm, ordenou que o transportassem para a sala de jantar do hotel. Manifestou certo descontentamento quando viu La se sentar  sua frente vestindo aquela farda impecvel, o n da gravata cuidadosamente feito e os sapatos baixos bem engraxados.
- No tem mais nada a vestir? - perguntou McClintock, com expresso de contrariedade, naquele seu sotaque engraado que, de incio, deliciara a jovem.
La corou, sentindo-se a mulher mais feia do mundo.
- No, no tenho mais nada. Se o envergonho, posso comer no quarto.
- No quis mago-la, my dear. Desculpe-me. Est encantadora nesse traje, mas. . . mas  um pouco montono.
No dia seguinte, La via surgir no hotel os costureiros e os sapateiros da Croisette. No incio, recusou, mas acabou cedendo diante dos vestidos de noite. Ficou com um em musselina preta e outro em tafet verde e tambm um par de magnficos sapatos italianos de couro autntico - um luxo inaudito. E, como as noites estivessem ainda um pouco frescas, o irlands exigiu que La escolhesse uma curta capa de raposa prateada.
Dois dias depois, o acompanhava  garden-party oferecido pelo Clube Americano. O oficial sentiu-se orgulhoso de seu sucesso. Divertia-se ao ver qual dos homens presentes lhe oferecia primeiro uma taa de champanhe, um copo de suco de laranja ou de limonada, um prato de doces com frutas ou com creme!
La ria, tendo recuperado seus trejeitos de menina mimada e sem preocupaes.
No incio de maro, depois da chegada do correio de Londres, George McClintock anunciou a La que fora chamado para a
Inglaterra. A jovem suplicou-lhe que a levasse com ele; por nada no mundo desejava voltar a Amiens.
- Voc ainda precisa de mim - ela argumentava.
- A partir de agora, minha querida, precisarei sempre de voc
- garantiu McClintock, com uma seriedade que no lhe era habitual.
- Est vendo. . . - disse La com simplicidade.
 O irlands sorriu, mencionando as dificuldades administrativas. De fato, no foi fcil obter o consentimento da delegao de
Cannes da Cruz Vermelha Francesa e, depois, da sede em Paris.
A ordem de misso de La ostentava agora um impressionante nmero de carimbos.
Apesar dos bombardeios e dos freqentes alertas, do medo que as Vi e as V2 inspiravam, a semana passada em Londres revelou- se to cheia de loucura como as de Cannes.
Parecia que toda a populao jovem - moas e rapazes dos quais os mais velhos ainda no tinham trinta anos - se dedicava  dana, ao namoro e  bebida com uma bulimia frentica, para recuperar o tempo perdido e esquecer, em meio ao lcool e ao fumo, o fato de que a guerra ainda no havia terminado.
Certa manh, na bandeja do caf da manh, entre o bule do ch e o prato de ovos com presunto defumado, La descobriu uma carta de Mathias. Fora enviada de Paris por Laure, e chegara  Frana por estranhos caminhos que passavam pela
Sua.
No era possvel decifrar as datas dos diversos carimbos impressos no envelope. E Mathias se esquecera de dat-la.
"Minha bem-amada, 'A minha honra chama-se fidelidade'.  esta a frase inscrita no arco de entrada do campo de Wildflecken, onde vim me reunir aos Wafen SS franceses. Ao pensar em voc, fao minha esta divisa, que  igualmente o lema das Waffen SS.
O campo situa-se numa montanha arborizada, no meio de um parque imenso, muito bem cuidado. Pequenos edifcios dispersos entre a vegetao ladeiam caminhos de aspecto impecvel que conduzem  praa Adolf Hitler.
A disciplina  de ferro e os treinos, ferozes. No incio muitos dos soldados se sentiram mal durante os exerccios. Agora, porm, todos ns temos corpos de atleta. Alis, aqueles que no conseguem acompanhar este ritmo so encaminhados para outras unidades. Tal disciplina  absolutamente necessria para conter quatro ou cinco mil jovens ansiosos por lutar. Prefiro que seja assim, pois a constante atividade me ajuda a no pensar demais em voc.
No ms de novembro, vieram juntar-se a ns dois mil soldados. Tiveram de prestar juramento a Hitier, mas alguns deles o fizeram de m vontade. A cerimnia realizou-se no dia 12 de novembro, na presena de Darnand e de Degrelle.
Estava um frio terrvel. No meio de turbilhes de neve, os legionrios da L.V.F. desfilaram em perfeita ordem. O
Brigadefhrer Krukenberg e o Oberfhrer Puaud passaram as tropas em revista.
Mas o que mais impressionou a guarda francesa foi o discurso de monsenhor Mayol de Lup, o nosso capelo, pronunciado do alto de sua montaria, em uniforme de gala de oficial das Waffen SS, onde reluzia sua cruz peitoral. Indiferente  neve que lhe fustigava o rosto, monsenhor Mayol de Lup refereriuse ao Fhrer como se falasse de Deus, e sua bno se assemelhou  saudao hitieriana.
Nesse cenrio impressionante onde flutuavam a bandeira tricolor, a bandeira de guerra do Reich e o estandarte negro das SS, os soldados, de braos estendidos, repetiam as palavras proferidas por trs de seus camaradas que haviam avanado diante de um oficial com uma espada desembainhada:
'juro obedecer fielmente a Adolf Hitler, chefe das Waffen SS, na luta contra o bolchevismo, como um soldado leal'.
Notei que nem todos os braos se ergueram.
Nunca mais esquecerei o dia do meu prprio juramento, cujo texto no foi igual ao anterior. A cerimnia decorreu com grande sobriedade, entre dois carvalhos, tal como o exige a tradio germnica. Os punhais onde se acha inscrita a nossa divisa foram dispostos em cruz e, em nome de todos os militares presentes, um oficial prestou juramento sobre as armas, em alemo. Repetimos em francs.
'Eu lhe juro, Adolf Hitler, Fhrer germnico e reformador da Europa, ser fiel e corajoso. Juro obedec-lo at a morte, ao senhor e aos chefes que me designarem. Que Deus me ajude!'.
Tambm no esquecerei nunca mais a primeira vez em que fiz a saudao hitieriana, gritando: Heil, Hitier! Naquele dia, senti que rompia definitivamente com o passado.
Aqui, no existem diferenas de tratamento entre oficiais e simples soldados. No h privilgios. No h mesas separadas para soldados rasos, oficiais subalternos e oficiais superiores; todos comem a mesma coisa. Se h uma rodada de schnaps, uma forte bebida alcolica. Servem primeiro os soldados, e o resto  distribudo entre os oficiais. Quanto mais graduado  um militar maior a soma de seus deveres.
Durante os jantares semanais que chamamos de Kamaradscha/t, o soldado mais simples tem o direito de troar de seus superiores, e as represlias so proibidas sob pena de graves sanes.
Isto  o que mais nos surpreende, a ns, franceses, habituados a escutar nossos chefes em posio de sentido e a viver em barracas, enquanto nossos superiores circulam pelos sales dourados.
Aqui, fazem de ns homens novos. A vida em Wildfleken  muito dura: despertar s seis horas e final das atividades s vinte. Submetemo-nos a treinamento infernal: ducha gelada ao amanhecer, concentrao geral, saudao hitleriana, caf e, em seguida, uma impiedosa sucesso de exerccios, de marchas, de manobras.
As nicas horas de repouso de que dispomos so aquelas em que nos ministram cursos tericos sobre armamento e estratgia.  noite eu desabo na cama e, invariavelmente, me arrancam dela com apitos, para os exerccios noturnos. Ento, nos equipamos s cegas, no escuro, e somos obrigados a sair para a noite gelada que nos trespassa o corpo. Nestas duas ltimas semanas no consegui dormir mais do que quatro horas seguidas.
Tambm tenho a impresso de no comer nada. Ah, que saudade dos lanches fartos de Montlllac! As nossas refeies constam de sopa de couve e batata ao meio-dia, salsichas s cinco horas e um pouco de margarina num po escuro e pegajoso. Estou espantado que isso seja suficiente para nos alimentar e nos deixar lcidos.
At mesmo os mais franceses parecem se acomodar a esse regime.
No entanto, nem tudo so flores e j h algum tempo que este ambiente est se degradando, sobretudo por causa dos soldados que no conseguem se adaptar. Desde a constituio da Brigada Carlos Magno, quase todos os dias h SS franceses que desertam para se juntarem a unidades em vspera de partida para o Lront. Por isso, alguns deles esto na
Diviso Wiking ou na Diviso Totenkopf.
Nosso comandante  o Oberfiihrer Edgar Puaud, que chefiou a L.V.F. na Rssia.
J faz alguns dias que me transformei num verdadeiro SS - e tenho tatuada, na axila do brao esquerdo, a letra correspondente ao meu tipo sangneo. Com isso, temos maiores chances de nos salvarmos se formos feridos, ou mortos se formos presos. Todos estamos impacientes por partir para a frente de combate. Pensamos que isso seja questo de alguns dias.
Ontem, alguns camaradas conseguiram descobrir garrafas de vinho alemo e traz-la para o campo, o que  expressamente proibido. Quando as abramos, quase fomos apanhados pelo Brigadefhrer Krukenberg. Penso, no entanto, que ele no se deixou enganar, pois, ao sair, eu o ouvi dizer: Ah, estes franceses! Depois da partida de Krukenberg, bebemos  sua sade.
No era mau o vinho, um branco seco, mas muito perfumado. E, claro, no se comparava com o de Montillac. Eu me pergunto como ter sido a colheita e se ela foi feita em melhores condies.
Onde voc est? No consigo imagin-la em nenhum outro lugar que no seja Montillac. Essa terra combina com voc.
Se receber esta carta longa e tiver pacincia de ler at o fim, ser como se tivssemos conversado.
No se esquea de mim e saiba que pensarei em voc at o meu ltimo momento.
Mathias.
O ch estava frio e a compota de laranja tinha um gosto esquisito.
La tentou imaginar Mathias em uniforme das SS, mas no foi capaz. Tinha a sensao de que, na origem de tudo aquilo, houvera uma espcie de incrvel mal-entendido que transformara um rapaz delicado e alegre num bruto disposto a tudo. No entanto seria isso mais absurdo que a sua presena em Londres, naquele hotel antigo e esmerado, de vidraas substitudas por papel oleado?
Bateram na porta.
- Ento. . . recebeu notcias da terra? - perguntou George McClintock, entrando no quarto.
O rosto simptico do irlands provocou em La um sorriso triste.
- Que  que tem? Alguma coisa vai mal?
- No, no. No  nada.
- Nesse caso, de p! Estamos de partida.
- De partida? Para onde?
- Para a Alemanha.
- Para a Alemanha?!
- Yes. Vou me reunir ao 2 Exrcito.
- Mas acaba de restabelecer!
- Um de meus amigos mdicos declarou-me apto para todo o servio. No concebo a idia de ficar aqui enquanto os meus camaradas esto sendo mortos.
- E eu? O que vou fazer durante esse tempo? Espero tranqilamente aqui pelo fim da guerra, volto para Amiens ou para a sede de Paris?
- Nada disso. Voc me acompanha.
- Acompa...
- Sim, me acompanha. Tenho um amigo que ... como  que vocs dizem?. . . presidente da Cruz Vermelha Britnica.
- Pelo jeito, os seus amigos nunca acabam.
- Yes, o que  muito til s vezes. Eu lhe falei sobre seus conhecimentos de material rolante e sobre sua notvel competncia para cuidar de feridos.
-  o senhor que est dizendo. Ser melhor que ele no me ponha  prova.
- A pessoa que se ocupa aqui das condutoras de ambulncias  uma amiga da sra. De Peyerimhoff. Dentro de alguns dias, ir receber a sua vinculao temporria aos servios da nossa Cruz Vermelha - informou McClintock.
La livrou-se dos cobertores e correu para beijar o oficial nas duas faces.
- Voc  maravilhoso, George! Como adivinhou que eu gostaria de ir  Alemanha?
- Ora, voc no tem falado em outra coisa desde que chegamos aqui!
Uma semana depois, La recebia as suas ordens de servio e era colocada  disposio do mdico militar, o general Gughes Glyn Hughes, chefe dos servios mdicos do 2 Exrcito
Britnico.
Na noite de 5 de abril, ela aterrissou perto de Duisburgo, a cinqenta quilmetros do Lront.
Ento, comeou para ela a descida ao inferno.

Captulo 31

A CENTENAS DE quilmetros de Duisburgo, Mathias tambm vivia no inferno.
No dia 12 de janeiro de 1945, trs milhes de soldados russos, muito bem armados, apoiados por carros de assalto e pela aviao, puseram-se em marcha do Bltico  Tchecoslovquia, para esmagar definitivamente o que restava do glorioso exrcito do Reich.
No dia 17 de fevereiro, partiam para o front as Waffen SS da Brigada Carlos Magno, transformada em diviso.
No dia 22, chegavam a Hammerstein, importante povoado da Pomernia.
Fazia muito frio e o vento gelado varria essa paisagem de lagos e de bosques. As tropas instalaram-se no antigo campo da Wehrmacht, ento transformado em campo de concentrao, enquanto aguardavam a chegada do armamento pesado. Ouvia-se ao longe o estrondo dos canhes.
O regimento de Mathias, o 57, instalou-se a sudeste da cidade. Desde sua chegada, o Obersturmfhrer Feunay partiu para inspecionar as posies acompanhado pelo Oberjunker Labourdette e por Mathias.
Depois do frio, houve um sbito degelo, transformando num lamaal os caminhos de terra batida, onde os cavalos e as carroas cheias de material pesado e de caixotes de munies escorregavam. Os homens, s dezenas, viam-se obrigados a erguer os veculos com as mos para os arrancarem do solo de argila.  noite, que descia rapidamente, a geada recomeava a cair.
Ao longo de todo o percurso, deparavam com interminveis comboios de refugiados que fugiam do avano russo. Velhos, mulheres e crianas patinavam na lama, desvairados, no meio de impressionante silncio. Entre eles, viam-se, por vezes, alguns SS detes sujos, de farda desabotoada, as mos nos bolsos e o olhar perdido.
O primeiro embate aconteceu prximo a Heinrichswalde. O massacre foi rpido: cada soldado tinha de lutar contra dez inimigos apoiados por tanques soviticos. Obuses e morteiros esmagavam as posies das SS francesas. Perto de Mathias um de seus camaradas se esvaa em sangue com uma perna desfeita. Feunay deu ordem para resistirem.
Novos comboios chegaram durante toda a noite e foram diretamente para o /ronl. Logo as companhias do regimento 58

viram-se sob um dilvio de fogo.  alvorada, milhares de russos ululantes abateram-se sobre elas. Por duas vezes, conseguiram repeli-los, mas logo foram devastadas pelo nmero elevado dos adversrios.
Foi dada a ordem de retirada. Os sobreviventes reagruparam-se e ficaram  espera. Durante os combates, as comunicaes eram precrias. A Diviso Carlos Magno estava disposta em linha, sem nenhum rdio. Os estafetas iam e vinham de uma companhia a outra, transmitindo as ordens do Estado-Maior.
 meia-noite, o rudo de tanques foi ensurdecedor. Os franceses enterravam-se em buracos camuflados na orla das matas.
Atravs dos bosques, os homens de Feunay procuraram reunir-se ao regimento 58, do qual encontraram apenas alguns grupos errando por entre o arvoredo, arrastando atrs de si os feridos.
 noite, Mathias e os companheiros chegaram ao acampamento prximo de Hammerstein, de onde haviam sado pela manh. Esgotados, dormiram sobre os catres cheios de parasitas nas barracas, depois de terem engolido um creme de ervilhas.
Dos quatro mil e quinhentos homens que deixaram Wildfleken, mil e quinhentos tinham morrido ou desaparecido. Era um balano muito trgico para uma luta que s havia durado dois dias. Os sobreviventes da Diviso Carlos Magno conseguiram reagrupar-se em Neustettin, cidadezinha de dezesseis mil habitantes, apinhada de refugiados e de soldados.
A notcia da morte de Jacques Doriot contribuiu para desmoralizar os seus seguidores. No dia 3 de maro, em Kirlin, lutaram com a fria do desespero ao lado de uma companhia de Wehrmacht. Um carro alemo explodiu no muito longe de
Mathias. Um soldado, com o uniforme em chamas, saiu correndo em sua direo. O tenente mdico da Diviso lanou-se sobre ele, tentando apagar o fogo. Mathias correu tambm e ajudou o mdico a arrastar para um abrigo o homem que gemia baixinho. Perdera o capacete e tinha o dorso completamente carbonizado.
Pobre sujeito!, pensou Mathias, afastando-se para voltar  luta. De repente, porm, ele parou e retrocedeu. Inclinando-se sobre o moribundo, limpou seu rosto com um punhado de neve e depois o enxugou com um trapo engordurado. No tinha dvida.
- Capito Kramer. . . est me ouvindo?
O rosto do ferido estremeceu ao escutar aquelas palavras ditas em francs. Abriu os olhos a custo e fitou esse soldado alemo irreconhecvel sob a camada de sujeira e de barro.
- Sou Mathias, capito Kramer. . . o Mathias de Montillac.
- Montillac.
- Sim, Montillac. No se lembra? La.
- Franoise.
- Sim.
- Franoise... meu filho...
Otto tentou soerguer-se. Depois renunciou a tal propsito e disse em voz cada vez mais fraca
- Do meu bolso. . . tire. . . documentos. . . e uma carta.
para. . . para Franoise. Se. . . se voc sobreviver. . . entreguelhe... assim como os documentos. . . Jure.
- Sim, juro.
Mathias revistou a jaqueta. Retirou do bolso uma carteira cuidadosamente protegida por um pedao de oleado que lhe trouxe  memria aquele que revestia a mesa da cozinha de Montillac. Depois colocou-a dentro da prpria camisa, em contato com sua pele.
O moribundo no deixava de olhar para ele. Com um gesto de cabea, aprovou o que Mathias fazia.
Os russos aproximavam-se; Mathias tinha que sair dali. Otto procurou falar de novo e o rapaz adivinhou-lhe mais as palavras do que as ouviu:
- Por que. . . um francs. . . est aqui?
Mathias encolheu os ombros. O que poderia lhe responder?
Na noite gelada e calma, sob o claro dos incndios que iluminavam toda Kiirlin, os homens do regimento 57 avanavam, escondendo-se de dia e caminhando durante a noite, passando apenas a alguns passos dos Popofs, como eles chamavam os russos.
Os encontros eram breves, mas violentos. Havia pouca munio e os cavalos morriam ou fugiam. H muito tempo que comiam apenas o que podiam roubar nos lares dos civis alemes, onde choravam as mulheres e as moas violadas. Quando j nada restava para roubar nas casas, alimentavam-se de beterrabas cruas, que lhes provocavam disenterias.
Dormiam enroscados e apertados uns contra os outros para se protegerem do frio. Acordavam afligidos pelos piolhos. A sujeira se acumulava nas dobras do corpo. Alguns engraadinhos diziam que a sujeira os ajudava a se manterem quentes e a escaparem s investidas dos parasitas. Caminhavam como autmatos, os rostos transformados em mscaras de cansao, onde cintilavam os olhos raiados de sangue, envoltos em crculos escuros. O inimigo estava em toda a parte, perseguindo-os sem trguas.
O frio cessou de repente e os campos logo se revestiram com um manto verde delicado. No bosque onde pararam, extenuados, caminhava-se sobre um tapete de violetas.
Mathias deitou-se sobre elas, aspirando-lhes o perfume. Pensou em La - sempre fora para ela um grande momento do ciclo da vida, esse das primeiras violetas que cresciam na parte abrigada do Calvrio. Quando criana, ele costumava preparar ramalhetes que iam depois perfumar o quarto da amiga.
Com as mos calosas, Mathias colheu algumas flores sob os olhares zombeteiros dos camaradas. Depois, movidos por um impulso instintivo, os outros tambm comearam a colher violetas, guardando-as com cuidado nos estojos de seus documentos. A colheita elevou o moral, dando-lhes esperana de que a primavera voltasse a florir para eles tambm.
- Estamos nojentos - disse um deles.
Olharam uns para os outros. Estavam nojentos mesmo. Na borda do bosque corria um riacho. Tiraram seus uniformes sujos e sacudiram as roupas de onde caam piolhos enormes.
Depois, atiraram-se  gua.
Como estava fria! No tendo sabo, esfregaram-se vigorosamente com punhados de terra. Lutavam uns com os outros, rindo como crianas. Em seguida, enxugaram o corpo correndo, nus, pelo meio das rvores. Pensativo, Feunay os observava.
H muito tempo que no usavam meias. Todos eles haviam adotado a moda da meia russa: pegava-se um tecido quadrado sobre o qual se colocava o p. Em primeiro lugar cobriam-se os dedos. Dobrava-se a parte esquerda, depois a direita e puxava-se com fora a que ficava por detrs. Com as abas do tecido bem cruzadas, colocavam as botas sem dificuldade.
Isso protegia e amparava os ps de modo admirvel.
s duas da madrugada, chegaram nas imediaes de Belgard e passaram pelo cemitrio, para logo voltarem a desaparecer na noite. Por volta das quatro horas, o Oberfhrer Puaud chegou tambm a Belgard com o grosso da Diviso - cerca de trs mil homens. Os postos russos disseminados pela rea os receberam com tiros de metralhadoras e morteiros. As Waffen SS infiltraram-se na cidade, respondendo. Os que atravessaram a praa central de Belgard,  claridade dos incndios, tiveram de saltar sobre centenas de cadveres de velhos, de mulheres e de crianas.
Puaud, ferido na barriga da perna, caminhava como um sonmbulo, o rosto ainda mais vermelho do que de hbito. Pelos campos, o tiroteio havia cessado, substitudo pelo ronronar dos motores e pelo rangido das lagartas dos tanques, que ressoavam lugubremente na plancie.
O inimigo estava em toda a parte. A Diviso de Carlos Magno movia-se dentro do nevoeiro. Pela manh, quando a bruma se dissipou, constataram, perplexos, que se encontravam bem no centro dos tanques do Exrcito sovitico, no meio de uma vasta rea sem vegetao.
De uma e de outra parte, houve ento uma espcie de estupor, o tempo parou e tudo ficou em silncio. Depois, de repente, comeou a carnificina.
Em menos de duas horas, os russos aniquilaram o grosso da Diviso Carlos Magno. Depois de matarem os feridos, os vencedores reuniram os sobreviventes, que foram encaminhados para campos de concentrao. Alguns prisioneiros conseguiram escapar, fugindo atravs das matas.
Os quinhentos homens do batalho de Mathias chegaram ao castelo de Meseritz em estado lastimvel, feridos e com diarrias. Mas sentiam-se felizes e orgulhosos dos chefes que os haviam livrado temporariamente do "caldeiro".
Voltaram a partir dois dias depois, agora com sol, sem piolhos, barbeados, com armas a tiracolo, sob o comando de
Krukenberg, rumo  foz do Oder, junto com duzentos e cinqenta sobreviventes do regimento 38 da SS Hoistein, do 1.0

Regimento Hngaro e da Diviso SS Nordiand.
Transpuseram o Rega ao sul de Treptow. Depois, no final da tarde, atingiram Horst, no litoral. Por toda a parte, misturados aos soldados exaustos, viam-se refugiados aguardando embarcaes para os conduzirem  Sucia.
 noite, Mathias e alguns companheiros chegaram  pequena estncia balneria de Rewahl. Tal como Horst, tambm a cidadezinha transbordava de refugiados e de militares em fuga.
A multido entregava-se a um desregramento frentico: lado a lado com criaturas apticas e embrutecidas, as moas faziam amor com o primeiro que aparecia, deixando-se acariciar por homens sujos, cobertos de piolhos, bebendo grandes goles de schnaps. As crianas olhavam tais cenas com indiferena, enquanto os pais prosseguiam sua viagem desesperada sem mesmo as notarem.
A atmosfera iodada do Bltico misturava-se agora ao cheiro dos motores, do pus e do sangue dos feridos, ao odor adocicado do esperma, ao fedor de merda, ao de milhares de corpos imundos e, dominando toda aquela massa humana apavorada, o aroma persistente da sopa de couve que lhes era distribuda.
- Os russos esto chegando! Apressem-se!
Ento, homens e mulheres, caminhes, cavalos e carroas, todos se atiraram uns contra os outros, lutando, empurrando, derrubando, esmagando e destruindo qualquer obstculo  sua fuga.
 beira-mar estendia-se uma longa procisso de condenados que procuravam fugir das chamas do inferno - mes enlouquecidas apertando ao peito magro os filhos mortos, moas lanando-se do alto da falsia para escaparem da violao, homens atirando suas esposas sob as lagartas dos tanques, soldados descarregando as armas sobre condutores de caminhes para ocuparem seu lugar, gritos de crianas, relinchos de cavalos, uivos lamentosos de ces, barulho de ondas, ribombo de canhes, assobio de obuses, exploso de minas, morte. . . morte. . . morte.
Os soldados da Diviso Carlos Magno, em sua caminhada, combatiam e se embebedavam se conseguiam encontrar vinho.
Seguindo as hordas de refugiados, avanavam ao longo do litoral em direo oeste. De vez em quando, eram atingidos por disparos de obus, que projetavam para o espao atormentado os corpos desconjuntados de homens misturados com a areia da praia. A multido passava, indiferente aos gritos dos feridos e aos gemidos dos moribundos.
Muito tarde da noite de 9 de maro, alcanaram as linhas alems em Dievenow. No dia seguinte, ao amanhecer, os russos os metralharam e borbardearam, mas foram repelidos.
 tarde, foram abertos os depsitos da intendncia alem. Os homens ficaram maravilhados ao tocarem nas espingardas automticas de trinta e dois tiros e nos uniformes novos, divertindo-se em experiment-los, enquanto fumavam como chamins os cigarros que no queriam deixar ao inimigo.
Enfim, sob suas botas, ressoaram as pranchas de madeira e o ferro da ponte de barcas sobre o Oder. Em boa ordem, com o
Obersturmfhrer Feunay e o Brigadefhrer Krukenberg  frente, com luvas novas, deixaram o "caldeiro" onde tinham ficado noventa por cento dos companheiros.
No dia seguinte, o grande quartel-general do Fhrer assinalava num comunicado o papel dos sobreviventes da Diviso
Carlos Magno na libertao dos refugiados da Pomernia. Esse fato lhes galvanizou o orgulho. Deixaram Swinemnde cantando:
Por onde passamos, tudo treme
E o diabo ri conosco
Ha, ha, ha, ha, ha, ha, ha!
A chama continua pura
A Fidelidade  o nosso lema.
Reagruparam-se, enfim, a trezentos e cinqenta quilmetros de Berlim, na pequena cidade de Neustrelitz e nas aldeias vizinhas de Zinow, Karpin, Goldenbaum e Ridlin; eram cerca de oitocentos voluntrios, dos sete mil que partiram de Wildfleken.
No dia 27 de maro, Krukenberg mandou afixar a seguinte ordem do dia:
Camaradas de armas,
Acabamos de viver dias de combates entremeados com penosas caminhadas. No lutamos como unidade fundida no Exrcito alemo, mas sim como diviso francesa autnoma. A fama da bravura e da resistncia francesa renovou-se agora sob o nome de Carlos Magno. Por diversas vezes a dureza dos combates nos unificou.
 com orgulho que nos lembramos que, ao sul de Brenwald, detivemos o inimigo que rompera as linhas da
Wehrmacht, destrumos, em menos de uma hora, nos arredores da cidade, perto de Elsenau e de Bdrenhutte, quarenta carros T34 e J.S. Em Neustettin, a Flak-Batterie fez em pedaos os grandes contingentes inimigos.
Ns, os SS, temos sempre dado provas de grande coragem, mas foi em Kiirlin, sobretudo, que demonstramos que sabamos combater at o fim, quando o interesse do Exrcito alemo assim o exigia. O fato de havermos largado e retomado por trs vezes a aldeia, e de termos mantido a posio at as primeiras horas da manh do dia 5 de maro, nos permitiu e a uma parte dos exrcitos alemes nos libertarmos do cerco russo.
Este xito se deveu no apenas ao nosso esprito combativo, mas tambm  nossa grande disciplina.
No devemos esquecer os nossos camaradas SS e L.V.F. que, em Kiilberg, foram vrias vezes citados por ordem do Fhrer pelo general-comandante da fortaleza da cidade, devido  bravura particularmente notvel dos franceses.
Neste exato momento, elementos da nossa Diviso defendem a cidade de Dantzig, ao lado dos seus irmos de armas alemes. Ns, os SS, ns, L.V.F., contribumos para deter ou para retardar por toda a parte a onda avassaladora do bolchevismo. Esta luta difcil no se travou sem srias e inmeras perdas, entre elas as dos nossos camaradas que caram prisioneiros nas mos do inimigo e que ainda no conseguiram alcanar as nossas linhas. Esperamos que o Oberfhrer Puaud esteja entre eles e que, ao lado de outros combatentes hericos, retome o seu lugar entre ns.
A luta nos unificou. A nossa Diviso, reduzida por gloriosos combatentes, dever nos incitar ainda mais a constituirmos um nico bloco, um s conjunto. Assim esmagaremos tudo o que se opuser a Adolf Hitier. A nossa bandeira tremula sobre mais uma glria; ns sabemos que os franceses que lutam ao nosso lado pela liberdade da ptria adotiva desejam uma nova ordem europia e nos olham com orgulho.
Sempre afirmamos que somente poderiam colaborar no ressurgimento da Frana aqueles que foram postos a prova como alemes nas situaes mais difceis. Os nossos prprios inimigos reconheceram o valor dos soldados SS.
Franceses, aps longos meses de instruo, pudemos demonstrar o esprito que nos anima, esprito que, nos dias futuros, nos conduzir a novos sucessos at o instante to ansiosamente esperado de intervirmos na libertao do nosso pas. No teremos piedade para com os traidores. A histria nos ensina que no devemos sentir cansao aps a batalha, mas reunir todas as nossas energias para novos combates.
O momento que vivemos  decisivo; animados por novo ardor, vamos assegurar nossa vingana pelos camaradas desaparecidos das fileiras.
A glria de que L.V.F. se cobriu a leste, os sucessos da Sturmbrigade Frankreich nos Crpatos, os combates travados pela polcia em outros locais cimentam o bloco amassado com o sangue francs vestido em prol do
Nacional-Socialismo, e ele dar origem a uma tradio digna dos ideais revolucionrios por que lutamos.
Nossa f na vitria  inabalvel, mesmo que tenhamos de lutar ferozmente na sombra e sabotar, ao lado dos nossos irmos de armas alemes, todos os empreendimentos dos inimigos.
Seguiremos o Fhrer, decididos a vencer ou a morrer.
Heil, Hitier!
As SS marcham em pas inimigo
Entoando o cntico do diabo
Na margem do Volga
Uma sentinela trauteia a meia voz:
Assobiamos por montes e vales
E tanto nos faz que o mundo
Nos louve ou nos maldiga
A seu bel-prazer.
Onde quer que estejamos, ser sempre uma vanguarda
E  a que o diabo continua a rir
Ha, ha, ha, ha, ha!
Lutamos pela liberdade
Lutamos por Hitler
E os vermelhos nunca tero sossego.
Krukenberg convocou os oficiais pedindo-lhes que ficassem apenas com voluntrios para futuros combates.
Os outros formariam um batalho de trabalhadores que deixaria Karpin imediatamente. Partiram ento trezentos homens, acompanhados por um s oficial.
Os que optaram por ficar assinaram uma frmula de compromisso onde juraram ao Fhrer fidelidade absoluta at a morte.
A Diviso Carlos Magno no escapava ao tdio e ao mau humor que assaltam as tropas  espera de entrar em combate. Aqueles homens que haviam se mostrado to solidrios durante as provaes por que acabavam de passar, que tinham sido corajosos at a temeridade diante do inimigo, agora criavam conflitos sob o menor pretexto.
O maior motivo de discrdia era agora a alimentao: duzentos gramas de po, vinte gramas de margarina, uma sopa to condimentada quanto doce demais, um ersatz de caf e dois cigarros por dia.
A rgida disciplina militar germnica no bastava para conter os franceses quando gracejavam a respeito das armas secretas dos alemes pra salvar a Alemanha. J ningum acreditava na vitria do Reich.
O moral da Diviso caiu at o nvel mais baixo quando, em meados de abril, quatro voluntrios foram fuzilados por roubo no depsito de vveres. Os soldados morreram sem soltar um grito, depois de receberem a absolvio do padre da L.V.F., que substitua monsenhor Mayol de Lup, retirado para um mosteiro alemo.
No dia 20 de abril, em homenagem ao aniversrio de Hitler, os militares tiveram direito a biscoitos, a uma coisa esquezita designada pelo nome de chocolate e a trs cigarros. Festejaram os cinqenta e seis anos do Fhrer cantando e bebendo vinho, que Krukenberg conseguira obter da intendncia.
Projetaram um filme de Zarh Leander, cuja voz rouca os virava do avesso. Depois, viram um documentrio de atualidades.
O apresentador alemo comentava imagens onde se via a multido correndo em todos os sentidos pelo ptio de NotreDame, tentando escapar aos atiradores emboscados nos telhados, durante a entrada de De GaulIe em Paris. Atribua o tiroteio aos comunistas.
Os SS franceses deixaram a sesso de cinema ainda mais convencidos de que eram o ltimo reduto contra a invaso bolchevista. Alguns deles viam-se mesmo acolhidos como heris pelos compatriotas, e desfilando pelos Campos Elseos, aclamados por quem os considerava os defensores do Ocidente.
Os mais lcidos, porm, no tinham iluses - de uma maneira ou de outra estaria  sua espera o peloto de execuo ou, na melhor das hipteses, muitos anos de encarceramento.
Na noite de 23 para 24 de abril, foi dada ordem ao Brigadefhrer Krukenberg para seguir para Berlim com os SS franceses da Diviso Carlos Magno.
Os oficiais dirigiram-se aos acantoamentos e mandaram alinhar os soldados, ordenando:
- Voluntrios para Berlim, um passo  frente!
Todos os homens avanaram.
Pela manh, distribuiu-se o armamento: granadas, Sturmgewehr e Panzerfaust. Os militares carregavam muito peso: cartucheiras cruzadas sobre o peito, granadas de pinha penduradas nos botes e granadas de cabo seguras no cinturo. Nunca estiveram to bem munidos. Os quatrocentos voluntrios embarcaram nos oito caminhes cedidos pela Lutfwaffe, felizes com a idia de defenderem o Fhrer.
Os berlinenses que fugiam da capital olhavam atnitos para esse grupo de rapazes que ali entrava cantando.

Captulo 32

EM SEGUIDA AO pacto franco-sovitico, o governo russo concordou com a presena, no momento da entrada das tropas soviticas na Alemanha, de um certo nmero de observadores encarregados de verificar o material conquistado aos arsenais franceses, para que fosse inventariado. De uma ou de outra parte, fingia-se levar a srio tais misses.
Franois Tavernier, j conhecido pelos servios de informao russos, foi um dos oficiais escolhidos pelo governo francs. Antes da sua partida de Paris, o professor Joliot-Curie lhe definiu exatamente o objetivo de sua misso: era uma coisa mais sria do que simplesmente correr atrs de material enferrujado.
At 15 de maro, na Rssia, o comandante Tavernier disputou muitas partidas de xadrez, enriqueceu o seu vocabulrio russo com expresses obscenas e embebedou-se de vodca com tamanha aplicao, que isso lhe valeu a estima de Gheorghi Malenkov, chefe do Departamento Especial, incumbido de recuperar na Alemanha os equipamentos industriais e cientficos, particularmente as armas secretas.
As semanas passadas por Franois Tavernier em Moscou, percorrendo os Estados-Maiores dos diferentes exrcitos soviticos, quase lhe esgotaram a pacincia.
Nomeado pelo Estado-Maior do 1.0 Exrcito da Bielo-Rssia, deslocara-se para o /ront nos ltimos dias de maro e, desde ento, consumia-se de tdio, tendo por nico divertimento as partidas de xadrez e as conversas com o general Vassillev, que conhecera em Argel, onde fora adido militar.
Soou, enfim, a hora da grande ofensiva sobre Berlim.
s quatro da manh de 15 de abril, sob as ordens de Jukov, trs foguetes de sinal vermelhos iluminaram as margens do
Oder durante um tempo que pareceu a todos muito longo, tingindo o cu e a terra com sua luz prpura. De repente, acenderam-se alguns projetores potentes assim como os faris dos tanques e dos caminhes, enquanto os feixes luminosos dos projetores antiareos varriam as linhas inimigas. Reinava grande silncio diante de toda essa luz que prenunciava o fim do mundo.
Em seguida, riscaram o espao trs novos foguetes sinalizantes, agora verdes, e a terra comeou a tremer. Vinte mil canhes vemtavam fogo. Um vento quente varreu tudo  frente, inflamando as florestas, as aldeias, as colunas de refugiados. Nesse pesadelo terrificante, o chiado agudo das katiucbkas cortava o ar.
O primeiro Front da Bielo-Rssia, comandado por Jakov, o 2 Front da Bielo-Rssia, chefiado por Rokossovski e o 1

Front da Ucrnia, dirigido por Koniev, passaram ao ataque. Um milho e seiscentos mil homens, na sua maioria desejosos de vingar um pai, um irmo, um amigo tombado sob os golpes dos nazis, avanavam atravs das plancies.
As cidades alems esvaziaram-se de seus habitantes, que deixavam apenas cinzas atrs de si. Tavernier compreendia o dio que animava os combatentes russos de Stalingrado, de Smolensk, de Leningrado e de Moscou que haviam atravessado toda a Rssia para chegar ao Oder. O tributo que pagaram  guerra era um dos mais pesados da Europa. Para se vingarem do que suas mes, suas mulheres e as filhas tinham sofrido, instituiu-se em todo o Exrcito russo a lei do Talio e a vingana foi completa.
O oficial francs sentia amizade por aqueles soldados rudes e corajosos, que lutavam com total desprezo pelo perigo e dividiam com os prisioneiros as raes magras. Os russos, por sua vez, olhavam curiosos o homem que lhes falava em sua lngua, que bebia como uma esponja e que, embora sem combater, sempre estava onde a luta era mais intensa. Isso lhe valeu uma coxa trespassada por uma bala.
- Fique tranqilo - aconselhou o general Vassillev quando foi visitar Franois Tavernier na enfermaria de campanha, onde acabavam de cuidar de seu ferimento.
- Gostaria de v-lo em meu lugar - resmungou Tavernier.
- No s no consigo encontrar nenhum material que nos pertena, como tambm o senhor me deixa de lado. Eu me pergunto o que estou fazendo aqui se no tenho o direito de combater a seu lado.
- So ordens, sabe disso muito bem - respondeu o general.
- Todos os oficiais aliados em misso de observao junto de nossas foras esto na mesma situao que voc.
Tavernier deu-lhe as costas, aborrecido. Morrer por morrer, antes de armas na mo. Aquele trabalho de funcionrio burocrtico no fora feito para ele.

Captulo 33

SE LA TIVESSE tido dvidas quanto  necessidade de esmagar a Alemanha nazista, as cenas que viu naquele

15 de abril de 1945 confirmariam seu dio e seu desgosto.
George McClintock tentara em vo opor-se a que a jovem acompanhasse o grupo de mdicos e de enfermeiros do dr. Hughes, chefe dos servios mdicos do 2 Exrcito Britnico, ao campo de concentrao de BergenBelsen, que acabava de ser libertado. O irlands se rendeu diante de seu argumento:
- O pessoal no  suficiente. Tenho de ir tambm.
Prados e pinhais estendiam-se a perder de vista, O caminho subia em direo ao campanrio pontiagudo que dominava o casario da aldeia de Bergen. As casas eram rodeadas por macios de flores. Sem os tanques, os caminhes e os soldados estacionados ao longo da estrada, parecia que a guerra se desenrolava bem longe dali.
De repente, depois de uma curva do caminho, numa plancie nua, surgiu a viso de um universo de pesadelo, com as barreiras de arame farpado, torres de vigia e filas de barraces esverdeados.
Criaturas esquelticas, vestidas com sacos listrados, erravam sobre a areia cinzenta. Alguns dos fantasmas aproximaram-se da cerca para vir ao encontro dos recm-chegados. Estendiam-lhes os braos descarnados e procuravam sorrir, enquanto as lgrimas lhes deslizavam pelos rostos desfeitos. Mas os sorrisos eram de tal forma horrveis que amendrontavam os soldados. Ficaram imveis por instantes, como se temessem o que iriam descobrir.
O dr. Hughes mandou distribuir caf quente. Depois entraram no campo.
Presos ao arame farpado viam-se cadveres seminus. Pelo cho, mais cadveres de homens, de mulheres e de crianas, despidos ou cobertos de farrapos, msera escria da humanidade.
Lentamente, os ingleses penetravam num mundo alm da imaginao, povoado de criaturas que recuavam erguendo um brao diante do rosto, ou que se adiantavam, eretas, transportando com dificuldade o peso do prprio corpo e emitindo um som leve, semelhante ao roar de milhares de patas de insetos.
La caminhava muito ereta, sem conseguir despregar os olhos dos rostos de cores inslitas - bistre, verde, cinzento, ou violeta.
A multido de mortos-vivos abria alas diante deles. Entraram por um caminho de ronda,  esquerda, depois  direita. Esmagador e sombrio, todo o horror do campo de concentrao se revelava a eles.
Entre os barraces, a certa distncia da cerca de arame farpado, alguns seres sem idade definida estavam agachados. Outros, deitados no cho, no se mexiam mais.
O dr. Hughes entrou num dos barraces, fazendo sinal aos companheiros para que ficassem na porta. Quando saiu, um bom tempo depois, suas feies pareciam uma mscara, seus olhos rolavam nas rbitas, enlouquecidos, e suas mos tremiam.
- Faam com que saiam dali - balbuciou
McClintock impediu que La entrasse.
- V buscar a ambulncia. E diga aos outros que venham tambm e tragam o caminho dos cobertores.
Quando La voltou, dezenas de mulheres estavam estendidas no cho. De todos aqueles corpos exalava um cheiro pestilento. Tiraram seus andrajos infectos e enrolaram em cobertores as pobres carcaas cobertas de chagas e de imundcie.
Passou-se o dia transportando as infelizes, lavando-as e alimentando-as. Quase todas sofriam de disenteria. Como no tinham foras para se erguer, chafurdavam nos prprios excrementos. Uma centena delas morreu em pouco tempo.
Durante toda a noite, mdicos, enfermeiras e soldados ajudaram a retirar as prisioneiras das suas cloacas. Sob a luz dos projetores, OS quarenta e cinco barraces pareciam o cenrio de um filme de terror: esqueletos oscilantes e dementes, danando em volta dos faris, desarticulados, babando, deixando atrs de si rastros escuros, rostos que eram apenas ossos pontiagudos e grandes olhos dilatados, que seguiam com lentido os movimentos de seus libertadores.
O doutor Hughes pediu ao Estado-Maior que lhe instalasse um hospital de catorze mil leitos e que lhe enviasse urgentemente mais mdicos, enfermeiras e milhares de toneladas de material e de produtos farmacuticos, para que pudesse tentar salvar as cinqenta e seis mil pessoas internadas no campo de Bergen-Belsen, que sofriam de fome, de gastrenterite, de tifo, de febre tifide ou de tuberculose.
No dia seguinte, ao amanhecer, constatou-se que havia mil mortos entre os que receberam os primeiros cuidados.
Todo o ambiente parecia banhado em cinzas. Eram cinzentos o cu, as pessoas e os barraces, o cho se transformara em lodaal, os ouropis pendiam por todo o lado e havia detritos de todo o tipo sobre a lama. Chovia.
Os gestos eram de cansao. Homens e mulheres morriam quietos, sem as ltimas convulses.
La, acompanhada por George, dirigiu-se para a sada do campo de concentrao para descansar um pouco. Passaram ao lado de um fosso a cu aberto, transbordante de cadavres nus, de uma magreza assustadora.
A moa imobilizou-se em sua borda e observou avidamente o espetculo sem que um s msculo de seu rosto se mexesse.
Aqueles braos, pernas e faces pertenciam a homens e mulheres que haviam rido, amado e sofrido. Isso lhe parecia inconcebvel. O amontoado disforme nada tinha de humano, no podia dizer respeito a seres vivos como ela. Algo fugia  sua compreenso. Por qu? Por que isso? Por que eles?
- Venha, La - disse McClintock. - Vamos dar uma volta pela mata.
La o seguiu sem resistir.
- Ali! - ela gritou, apontando com o dedo.
Entre os pinheiros novos, alinhavam-se centenas de corpos. Um grupo de civis alemes comandados por militares ingleses transportava mais cadveres, colocando-os ao lado dos anteriores.
La e o companheiro aproximaram-se. Lvidos, os alemes colocaram no cho, perto deles, o corpo de uma mulher cuja roupa rasgada deixava a descoberto as pernas cheias de equimoses e os ossos saltados por entre a pele. A chuva que caa dava ao rosto um aspecto de afogado.
- La...
A jovem virou-se para George. Mas ele se afastara e conversava com um dos soldados.
- La...
Quem a chamava com voz to sumida que parecia brotar do interior da terra? Baixou a vista, olhando o cho a seus ps. A mulher com aspecto de afogada abrira as plpebras e a fitava. Um medo terrvel a paralisou.
- La...
No estava sonhando, no. Era mesmo essa mulher que a chamava.
Fazendo um esforo enorme, La debruou-se sobre aquele ser prostrado. Os olhos imensos, profundamente encovados nas rbitas, prenderam-se ento nos seus, Quem seria aquela morta-viva que murmurava o seu nome? No lhe parecia familiar nenhum dos traos desse pobre rosto. Os lbios chupados, as faces fundas, com marcas de... No!
- Sarah! - exclamou a jovem.
O grito de La fez com que George e os soldados se voltassem em sua direo. O oficial britnico dirigiu-se precipitadamente para ela.
- O que voc tem?
- Sarah!  Sarah!
- Mas esta mulher ainda est viva! - exclamou um soldado que tambm se aproximara.
McClintock ergueu o corpo, transportando-o correndo para a tenda instalada s pressas e que servia de hospital improvisado. Estenderam a enferma sobre um leito de campanha, libertando-a dos farrapos antes de a protegerem com um cobertor.
La ajoelhou ao lado da amiga e pegou em sua mo.
- Est viva, Sarah! Est viva! Vamos lev-la para longe daqui e cuidar de voc.
- Nenhum dos prisioneiros est autorizado a deixar o campo, senhorita.
- Mas por qu?
- Para que as epidemias no se propaguem - explicou o mdico. - Observamos muitos casos de tifo. Alm disso, a doente no resistir ao transporte.
- Mas...
- No insista, La - interveio McClintock. - Devemos obedecer s ordens do mdico. Venha descansar. Voltaremos mais tarde.
- No quero deix-la.
- Vamos, seja razovel.
La inclinou-se sobre Sarah e beijou cada uma das faces que Masuy havia queimado.
- Descanse, Sarah. O pesadelo acabou. Eu volto depois.
Dirigiram-se em silncio para a cantina. Serviram-lhes ch e um pedao de bolo. Mas nenhum deles conseguiu comer.
McClintock ento lhe estendeu um mao de Players.
- Ajude-me a tir-la daqui, George.
- Tal como eu, voc tambm ouviu o que o mdico disse. No devemos.
- No quero saber o que devemos ou no devemos fazer!  preciso tir-la daqui.
- Mas para lev-la para onde?
- Para a Inglaterra.
- Para a Ingla...
Sim. Deve existir um meio.
- Mas...
- Ache-o, George, eu lhe suplico.
- Oh! La, estamos vivendo um pesadelo e tenho a impresso de que vou enlouquecer!
- No  momento para gemer. Consiga um avio para a Inglaterra.
- Como voc quer. . .? H muitos.
H muitos o qu? Diga depressa.
- H muitos avies que esto repatriando os feridos - informou McClintock.
- Isso msmo!  uma excelente idia! Voc se arranjar para me nomearem acompanhante do grupo.
- Talvez no seja impossvel. E, depois, o mais difcil ainda ser tir-la do campo. A vigilncia da sada certamente ser reforada por ordem dos servios sanitrios.
- Vamos encontrar um jeito. Informe-se sobre a data da partida do prximo avio.
- Vou cuidar disso. Mas prometa que ir descansar um pouco.
- Prometo.
- Nos encontramos no final da tarde, junto de sua amiga.
La no teve oportunidade de descansar.  sada da cantina, Miss Johnson, a chefe, enviou-a para ajudar no transporte dos doentes. S muito tarde da noite  que pde ver Sarah. Encontrou George ao lado da doente. A infeliz dormia.
- At que enfim chegou, La! H um vo depois de amanh
- ele cochichou. - O comandante  meu amigo desde que lhe salvei a vida. Concordou em nos ajudar. Tambm arranjei um uniforme de um dos nossos companheiros mortos. Amanh, quando escurecer, vestiremos Sarah com a farda e a levaremos para a ambulncia que voc trar aqui durante o dia. J est requisitada para o transporte de feridos, La. Ir acompanh-los  Inglaterra, onde sero distribudos pelos diversos hospitais do pas.
- Mas vo descobrir que  uma mulher!
- Um de meus amigos, mdico da rainha, estar  sua espera na chegada do avio. Por ordem de Sua Majestade, ir se encarregar de um certo nmero de feridos.
- Voc  formidvel, George!
- No cante vitria antes do tempo. Ainda falta conseguir o mais difcil: tir-la daqui viva.
- Viva...?! Viva.., como?
- O dr. Murray acha que Sarah no sobreviver a esta noite.
- No acredito - disse La, aproximando-se do leito.
A respirao de Sarah estava difcil e suas mos descarnadas queimavam devido  febre. Debruada sobre ela, La a olhava intensamente. A enferma abriu as plpebras devagar. Teve um sobressalto de medo e um movimento de recuo ao perceber um rosto to perto do seu.
- No tenha medo, Sarah. Sou eu.
Alguma coisa, como a sombra de um sorriso, pairou sobre seus lbios.
- Vamos lev-la daqui. Mas  preciso que nos ajude, que recupere um pouco de foras.  preciso, est entendendo?  preciso.
- Senhorita, no a canse. Deixe-a repousar - advertiu o mdico.
- Adeus, Sarah - despediu-se La. - Volto amanh. Vamos. . . deixe-me ir embora.
A custo conseguiu libertar as mos dos dedos que se agarravam aos seus.
Antes de abandonar a barraca, La aproximou-se do mdico que examinava uma criana de uns dez anos, salva do Revier, o hospital onde o sinistro Kari havia trabalhado.
- Doutor Murray, do que sofre minha amiga? - perguntou a jovem.
O mdico cobriu a criana com suavidade antes de se virar para La. Ela recuou diante de sua expresso encolerizada.
- Do que sofre a sua amiga? - repetiu ele, arremedando La.
- Mas que pergunta interessante! Sofre de tudo! Ainda no tem tifo, ao contrrio deste aqui, a quem foi inoculado. Mas a ela talvez lhe tenham dado uma injeo de bacilos de varola, de peste ou de sfilis. Ou talvez a tenham esterilizado. A menos que hajam implantado em seu tero um embrio de chimpanz.
- Oh, no diga isso, doutor! - exclamou La.
- Se no quer ouvir, ento no me pergunte do que ela sofre. Ela sofre.  tudo.
E lhe deu as costas, inclinando-se sobre outra cama.
George aguardava La, mordendo o cano do cachimbo curto e apagado.
- O dr. Murray  completamente doido.
No , mas arrisca-se a ficar dentro de pouco tempo. Nunca lhe passou pela cabea que pudesse existir tudo o que tem visto aqui nem, sobretudo, imaginou que outros mdicos concordassem com certas experincias.  todo o seu mundo que se desmorona
- disse McClintock. - Nunca deixar que levemos Sarah.
- Voc oviu o que ele disse: Sarah no tem tifo. Pedirei ao dr. Hughes que a transfira para um hospital de doenas no contagiosas.
- E se ele no concordar?
- Ns acharemos outra soluo.
E, de fato, arranjaram. s cinco da tarde, o coronel McClintock apresentou-se na barraca-hospital do dr. Murray acompanhado por umas dez pessoas.
- Trago comigo o grupo que vem substitu-los para que descansem um pouco. Doutor Murray, apresento-lhe o doutor
Collins.
- Mas, meu coronel.
McClintock interrompeu as objees de Murray.
- So ordens do mdico chefe - declarou.
- Muito bem - cedeu Murray. - Venha comigo, dr. Colins. Vou deix-lo a par dos casos mais prementes.
Por sorte, Sarah no fora includa nesse nmero.
Aps a partida do dr. Murray, McClintock manobrou de modo a desviar as atenes do grupo dos recm-chegados. La, auxiliada pelo ajudante-de-campo do coronel, vestiu em Sarah o uniforme roubado. Sem se manifestarem, as suas companheiras de infortnio acompanhavam com o olhar todo aquele movimento.
Apesar dos esforos, Sarah no foi capaz de se manter em p. La e o ajudante-de-campo a sustentaram pelos braos.
- Mais um dos nossos homens que no conseguiu suportar tantos horrores - mentiu George, interpondo-se entre o dr.
Collins e Sarah.
La s respirou livremente quando chegaram ao local de embarque. Junto com uma enfermeira, deitou Sarah na maca e transportou-a para o avio.
Apesar dos gritos e dos gemidos, no interior do aparelho quase reinava um clima de partida para frias. A guerra terminara para a maior parte daqueles rapazes.
Durante toda a viagem, La conservou a mo de Sarah presa nas suas.

Captulo 34

EM SILNCIO, os berlinenses observavam a passagem dos caminhes cedidos pela Diviso Nordland, transportavam tropas SS, em cujos uniformes podia-se ver o escudo tricolor.
Em altos brados, os soldados cantavam ora em francs ora em alemo, e marcavam o compasso batendo com os punhos contra as bordas dos veculos:
Os carros ardem por onde passamos
E o diabo ri conosco
Ha, ha, ha, ha, ha, ha, ha!
A chama continua pura
A Fidelidade  o nosso lema.
Mulheres vestidas de preto corriam para eles e lhes estendiam as crianas ou lhes ofereciam pedaos de po escuro. As moas atiravam beijos. Os militares acenavam com grandes gestos, para logo desaparecerem no meio das runas. Ao longe, troavam os canhes.
Na noite de 25 de abril, Mathias comeu uma lata de aspargos antes de dormir sobre um banco de uma cervejaria de Hermann Platz.
Nesse mesmo dia, no Elba, ao sul de Berlim, os soldados do 5 Exrcito da 1 a Frente da Ucrnia, comandada pelo marechal Koniev, fizeram sua juno com os americanos do 1.0 Exrcito, nas proximidades de Torgau.
Durante a noite, em vagas poderosas, a aviao russa bombardeou a cidade. O rudo das exploses despertou os defensores de Berlim, que correram para suas armas dispostos a repelir um ataque sovitico. Mas os avies desapareceram, dando lugar a um silncio opressivo.
No dia seguinte, antes dos primeiros clares da aurora, os soldados dirigiram-se para a Cmara Municipal de Neuklln. O dia que despontava anunciava-se magnfico. Finalmente, receberam ordem de ataque.
Os russos disparavam de todos os lados. Rentes s paredes, os SS franceses saltavam de portal em portal.
Com a ajuda de um Panzerfaust, Mathias destruiu o seu primeiro tanque.
Durante toda a manh, a batalha foi violenta, morrendo uma centena de voluntrios. Tudo rua  sua volta. Um pouco em cada lugar, os incndios tingiam o cu de vermelho. Logo, a poeira era to densa que no se via nada a uma distncia de meio metro. O estrondo dos motores e das lagartas fazia com que a terra trepidasse, abafando os gritos dos moribundos e os pedidos de socorro dos feridos.
Atingido no p, o Hauptsturmfhrer Feunay continuava a comandar as operaes.
Na Cmara Municipal de Neukilln, transformada em fortaleza, as tropas da Diviso Carlos Magno, apoiadas por rapazes da Juventude Hitleriana e por velhos soldados de cabelos brancos, disparavam atravs de todas as aberturas do edifcio.
Mas logo tiveram de se render  evidncia - estavam cercados. No podiam mais contar com os tanques da Diviso
Nordland, sem gasolina nem munio. Com o corao oprimido, viram que se afastavam no meio da poeira.
Feunay deu ento ordem de evacuar a Cmara Municipal e de se dirigirem a Hermann Platz. A noite terminou com os soldados ocupando os pores do pera.
A desordem era total e nenhuma ao eficaz fora prevista para assegurar a defesa de Berlim. Restavam apenas alguns resduos de divises estrangeiras das Waffen SS, garotos e velhos, para enfrentar centenas de milhares de soldados soviticos.
Na tarde de 27 de abril, Mathias explodiu trs tanques de assalto T34. Ferido na cabea, foi tratado na enfermaria do bunker de Hitier. Depois conseguiu atingir a estao do metr de
Stadmitte, para onde Krukenberg havia transferido o seu P.C.
A maioria dos sobreviventes da Diviso Carlos Magno estava reunida ali. Os vages de vidros quebrados serviam como enfermaria, como escritrios e como depsitos de vveres. Mathias fumou o seu primeiro cigarro depois de dois dias.
Na plataforma da estao do metr, o Brigadefhrer imps a Cruz de Guerra queles que se distinguiram particularmente durante os combates em Neukislln. Mathias olhou a sua com emoo.
Ao amanhecer de sbado, dia 28 de abril, a presso russa tornou-se cada vez mais forte. Escondidos nos portais e nas janelas, os SS franceses esperavam. Na claridade cinzenta da manh, os tanques soviticos avanaram.
O disparo de um Panzerfaust atingiu em cheio o primeiro. Irromperam dele as chamas, seguidas de uma srie de pequenas exploses. Depois, houve uma deflagrao enorme que projetou para o ar fragmentos de ao. Do T34 restava apenas um monte de ferragens retorcidas de onde saam corpos carbonizados.
Mas os tanques prosseguiam o seu avano inexorvel. Choviam projteis por todos os lados. Mathias, de Sturmgewher ao ombro, disparou contra o grupo de soldados de infantaria. Cinco homens tombaram no solo.
- Belo trabalho, Fayard! - elogiou o capito Feunay, dando- lhe uma pancada amigvel nas costas.
Ferido no ombro, Mathias foi conduzido ao Hotel Adion, transformado em hospital. Deixou o hotel  noite, ou melhor, no momento em que deveria ser noite, pois a luz do dia j desaparecera h muito. Todos tinham perdido a noo do tempo.
O edifcio onde os franceses tinham se emboscado continuava em p como por milagre. Aos canhes antitanques russos juntavam-se agora os morteiros. Os andares despencavam, soterrando uma dezena de voluntrios.
Meio asfixiado, com os pulmes cheios de poeira amarela, Mathias conseguiu libertar-se dos escombros. Seu ombro ferido doa. Os incndios se alastravam por toda a parte.
Os sobreviventes foram ocupar novas posies, evitando as vigas em chamas, os pedaos de parede que rufam e as balas que assobiavam em seus ouvidos. Ao romper do dia, haviam recuado at Puttkammerstrasse.
 noite estavam nas proximidades da estao de metr de Kochstrasse, posto avanado de defesa da Chancelaria. Depois de alguns instantes de repouso no comando do batalho, instalado numa enorme livraria devastada, reiniciaram a luta em meio  bruma cor de sangue.
O dia 30 decorreu como os anteriores nesse universo dantesco para onde os sonhos os haviam impelido - os sonhos ou as desiluses. Lutavam, convictos de estarem protegendo o chefe a quem haviam jurado fidelidade ou morte. Mas a verdade  que apenas protegiam um bunker juncado de cadveres. Hitler suicidara-se s quinze horas e trinta minutos juntamente com Eva Braun, com quem casara pouco antes de morrer.
 tarde, os russos tomaram o Reichstag, depois de violentos combates. O tenente Berest e dois sargentos ergueram a bandeira sovitica no topo de um monumento. Durante essa mesma noite, o general Krebs, chefe do Estado-Maior da
Wehrmacht, props ao general Tchukov negociar a capitulao de Berlim.
Na tarde do dia 1 de maio, os SS franceses viram-se obrigados a evacuar a livraria, indo se refugiar no subsolo do
Ministrio da Segurana.
 luz de velas presas em ultum - espcie de candelabros em terracota, utilizados na noite do solstcio de inverno -,
Feunay distribuiu novas Cruzes de Guerra, que pregou nos uniformes de camuflagem rasgados, muitos deles manchados de sangue.
Mathias foi ferido novamente no peito e nas pernas, desta vez com gravidade. Junto com outros fugitivos, arrastou-se at a estao de metr de Kaiserhof. Ajudado pelos camaradas, escondeu-se depois na estao de Potsdamerplatz, onde assistiu, oculto por um monte de entulho,  captura de Feunay e de meia dzia de companheiros.
Ardendo em febre, foi encontrado por uma adolescente alem que, com a ajuda do pai, o escondeu no poro de seu edifcio.

Captulo 35

A AMIZADE DO comandante Klimenko possibilitou a Franois Tavernier seguir apaixonadamente o desenrolar do avano dos russos em Berlim, admirando sua coragem ao longo dos combates. Com eles, gritou de alegria quando viu a bandeira vermelha flutuando sobre o Reichstag: a besta agora estava morta.
Na tarde de 4 de maio, Tavernier errava pelas ruas devastadas da capital. A atmosfera estava suave, embora infestada pelo odor dos cadveres em decomposio sepultados sob as runas. Incongruentes, os esqueletos calcinados dos prdios destacavam-se contra o cu claro.
Uma moa de rosto escuro de fuligem saiu do meio dos escombros piscando e chocou-se com Tavernier.
- Cuidado, pequena! - ele exclamou em francs.
A adolescente olhou-o, incrdula.
- Voc  francs? - ela perguntou em alemo.
- Sim.
- Venha.
Pegou-o pela mo e o guiou por entre as runas. Saltaram por cima de montes de entulho, esgueirando-se depois atravs de uma passagem. Em seguida, desceram alguns degraus atulhados de detritos. Por fim, desembocaram num poro, iluminado por uma vela.
Ali estavam reunidas muitas pessoas prostradas no cho. Uma jovem me embalava o filho que chorava e uma outra prendia uma atadura em volta da cabea de uma menininha.
Ao reconhecer o uniforme sovitico que Tavernier vestia desde que seguia o Exrcito Vermelho, houve um momento de medo. Mas a mocinha disse algumas palavras que devolveram a serenidade ao grupo. Encaminhou ento Franois para o lugar onde o ferido gemia.
- Francs - esclareceu ela, apontando com o dedo o vulto humano estendido, com a cabea apoiada numa cesta de vime.
Tavernier aproximou-se, inclinando-se sobre um homem com o rosto oculto pela barba, olhos cintilantes de febre, o peito envolto numa atadura suja e embebida de sangue. De uma das pernas coberta de farrapos desprendia-se um cheiro pestilento. O infeliz delirava.
-  preciso lev-lo a um hospital - disse a adolescente.
-  tarde demais. Ele vai morrer - respondeu Tavernier em alemo.
- No. Precisa ajud-lo.
- Est me ouvindo, meu velho? - perguntou Tavernier dirigindo-se em francs ao doente.
Ele parou de gemer e virou a cabea devagar.
- Estou com sede.
Franois Tavernier olhou para a mocinha, que esboou um gesto de impotncia.
- No temos mais gua. Meu pai foi procurar um pouco.
No ponto em que este sujeito est, no  um pouco de vodca que vai lhe fazer mal, pensou Tavernier. Tirou do bolso um recipiente de prata ganho no pquer de um oficial russo e, com cuidado, derramou algumas gotas de bebida sobre os lbios do ferido.
- Obrigado. .. Fidelidade. . . eu me. . . sinto mal.
- No se mexa - disse Tavernier. - Vou procurar socorro. A guerra terminou. No tem nada a temer.
- No. - O ferido se ops, agarrando-se  sua manga. - Os russos me mataro.
Franois Tavernier olhou-o mais atentamente. Sim, claro! Era um daqueles canalhas franceses que combatiam com uniforme alemo!
- Waffen SS?
- Sim. . . Carlos Magno. Diviso Carlos Magno.. . Perdi os camaradas. . . todos mortos.  estupido morrer aqui. .. bebendo...
Engoliu mal o lquido e comeou a tossir. Gritou, sentindo que a dor rasgava seu peito, enquanto um fio de sangue lhe escorria por entre os lbios.
A moa alem enxugou-lhe o rosto com doura.
- La. . . - ele murmurou.
- No sou La. Chamo-me Erika.
- La... perdo...
- Como se chama? - perguntou Tavernier ao ferido.
- La...
- Ele se chama Mathias. Mas no me disse o seu nome de famlia.
Tavernier revistou-lhe o bolso interno da jaqueta rasgada. Encontrou um embrulho cuidadosamente envolto em tecido impermevel e preso por um elstico. O volume continha duas cadernetas militares.
Otto Kramer, leu ele. Aquele nome lhe dizia qualquer coisa.
- Otto Kramer - pronunciou em voz alta.
- Morreu. .. Eu o vi morrer. .. deu-me. . . uma carta.. para Franoise. . . tem de envi-la.
De dentro da segunda caderneta caiu uma fotografia. Erika apanhou-a.
- Como  bonita! - exclamou.
Franois Tavernier arrancou-lhe a foto das mos. La o olhava, sorridente, com a cabea apoiada ao ombro de um rapaz. Sua atitude e sua expresso indicaram claramente seu orgulho de t-la junto a si. No verso da foto, La havia escrito: Mathias e eu em Montillac
- agosto de 1939.
Tavernier nunca soube verdadeiramente o que se passara entre La e o rapaz. Sabia apenas que Mathias era para ela o mais querido dos companheiros de infncia.
Nesse momento, ouviu-se um vozerio na entrada do poro. Segundos depois, cinco ou seis soldados russos irrompiam pelo subterrneo.
As mulheres ergueram-se aos gritos, apertando os filhos contra o peito. Um oficial aproximou-se de Tavernier. Fez-lhe continncia ao reconhecer o uniforme sovitico.
- Saudaes, camarada! Quem  ele?
- No sei.  preciso lev-lo para um hospital. Est gravemente ferido.
O outro gracejou.
- Vai esticar. No vale a pena.
Mandaram sair os civis. Ao partir, Erika lanou a Tavernier um olhar de splica.
Ficando sozinho, ele contemplou Mathias com expresso pensativa.
- La. . - balbuciou o rapaz novamente.
Tavernier percebeu que continuava com a foto na mo. Guardou- a no bolso, junto com as duas cadernetas militares.
Depois, sentou-se ao lado do moribundo. Acendeu um cigarro e o colocou entre seus lbios.
- Obrigado - Mathias falou num sopro.
Fumaram em silncio, os pensamentos de ambos voltados para a mesma mulher. De vez em quando, o ferido deixava escapar um gemido.
Instantes depois, um acesso de tosse obrigou-o a cuspir o cigarro. Franois, inclinado sobre ele, enxugava-lhe a testa.
- Escreva a La. . . O endereo. . . est. . . na minha caderneta militar. . . diga-lhe que. . . morri pensando nela.
Soergueu-se e, com uma fora incrvel num moribundo, agarrou- se ao companheiro.
- Diga-lhe tambm. . . que eu a amava. . . que. . . s a ela. amei. La. . . perdo.
As mos de Mathias se soltaram, tombando inertes. Ele nunca mais veria as colinas cheias de sol por onde correra em companhia daquela que fora a sua alegria e o seu tormento. Na morte, estampava-se em seu rosto uma expresso de criana perplexa.
Com gestos suaves, Franois Tavernier cerrou-lhe as plpebras e cobriu seu corpo com um farrapo de cobertor. E saiu.

Captulo 36

NA NOITE DE 7 de maio, um telegrama anunciava a Franois Tavernier a chegada em Berlim do general De Lettre de Tassigny, nomeado pelo general De Gaulle para participar da cerimnia da capitulao da Alemanha. Pedialhe para receb-lo no aeroporto de Tempelhof.
Chegou de jipe por volta das dez horas da manh. Esperou o avio com um grupo de oficiais russos e com o general Sokolovski, adjunto do marechal Jukov, incumbido de acolher as delegaes aliadas vindas para comparecer  assinatura da rendio alem.
O batalho da guarda de honra manobrava impecavelmente, dividido em fileiras de doze homens, com os fuzis voltados para a frente sobre o ombro do camarada precedente.
Ao meio-dia em ponto, escoltado por caas soviticos, o DC3 aterrissou na pista, trazendo a bordo a delegao britnica, O almirante Burrough e o marechal-de-ar Tedder desceram, seguidos por trs pessoas uniformizadas. Uma delas era uma mulher. O general Sokolovski adiantou-se ento para receber os recmchegados. Num gesto galante, beijou a mo da mulher.
Aps as apresentaes, o batalho fez a saudao militar de praxe.
Ao meio-dia e dez, o DC3 dos americanos tambm pousava na pista. Sokolovski deixou os delegados ingleses para ir ao encontro do general da aviao Spaatz.
Tal como antes, o batalho prestou-lhe as honras militares, enquantos os representantes britnicos se encaminhavam para os carros que os conduziriam a Karlshorst, nos subrbios de Berlim.
Maquinalmente, Tavernier seguia com os olhos a esbelta silhueta da inglesa, dizendo-se que era uma das raras mulheres a manter a graa feminina, apesar do uniforme. Mas havia algo de familiar na maneira como caminhava.
- O avio francs est quase aterrissando, comandante Tavernier. Est me ouvindo, comandante?
Mas Tavernier empurrou o homem, correndo atrs dos ingleses. Retardado pela confuso, ele chegou  sada do aeroporto apenas para ver que a porta do automvel se fechava sobre um par de bonitas pernas. O carro arrancou antes que conseguisse se aproximar.
- Meu comandante...
Tavernier passou a mo pela testa. Vejo-a em toda a parte, pensou. Afinal, o que La faria em Berlim, na companhia dos ingleses?
- Meu comandante...
- Sim, j vou.
No era sem tempo; o general De Lettre de Tassigny, escoltado pelo coronel Demetz e pelo capito Bondoux, j se encaminhava para o general Sokolovski.
Os automveis corriam a toda velocidade por entre as runas fumegantes da capital do Reich. Nas esquinas, moas russas envergando uniformes impecveis, com os joelhos  mostra acima das botas altas, orientavam o trnsito, servindo-se de pequenas bandeiras vermelhas e amarelas. Por toda a parte formavam filas civis de aspecto miservel e bestificado, tentando recolher gua nas fontes ou nos hidrantes.
Tavernier escutava, distrado, a conversa de Bondoux. Quando chegou a Karlshorst, a delegao francesa foi conduzida a uma escola de oficiais que continuava praticamente intacta e onde estava o quartel-general do marechal Jukov. Dali, passou para um dos pavilhes dos quadros da escola, onde ficou instalada. As acomodaes eram bastante sumrias mas os colches, colocados diretamente no cho, ostentavam lenis de brancura imaculada.
O general Vassillev apareceu e cumprimentou o general De Lettre, seu conhecido desde os tempos de Argel. Os dois homens se reencontraram com prazer.
Tavernier aproveitou essa oportunidade para sair em busca da delegao britnica. De fato, encontrou o marechal Tedder e o almirante Burrough, mas nenhum vestgio da jovem que os acompanhara. Estava fora de questo perguntar a to insgnes personagens o que fora feito dela.
Consagrou o resto do dia a fabricar uma bandeira tricolor que pudesse figurar ao lado das bandeiras aliadas, na sala onde iria ter lugar a cerimnia da assinatura da capitulao. Cheios de boa vontade, os russos confeccionaram uma com um pedao de tecido vermelho retirado de um pavilho hitieriano e com dois outros pedaos de algodo branco e de uma sarja azul, cortada do uniforme de um mecnico. Infelizmente, o resultado foi. . . a bandeira holandesa!
Tiveram de recomear tudo de novo. Finalmente, s vinte horas, a bandeira francesa foi ocupar o seu posto entre a da GrBretanha e a dos Estados Unidos, encimadas pelo emblema sovitico.
A meia-noite em ponto, o marechal Jukov, com o peito coberto por todas as suas condecoraes, abriu a sesso. Em primeiro lugar, dirigiu algumas palavras de boas-vindas aos representantes aliados. Em seguida, deu ordem para que se apresentasse a delegao alem. Entrou ento na sala o marechal Keitel, em uniforme de gala e com uma bengala com que saudou a assistncia mergulhada num silncio glacial. Ningum se levantou.
Seus olhos percorreram os presentes, detiveram-se por momentos sobre as bandeiras, e depois pousaram no general De
Lettre de Tassigny
- Ah - resmungou -, os franceses tambm esto aqui! S me faltava isso.
Com um gesto irritado, atirou a bengala e o quepe sobre a mesa e sentou-se.  sua direita instalou-se o general Stumpfe,  esquerda, o almirante Von Frendenburg. Atrs deles, foram postar-se em posio de sentido seis outros oficiais alemes, todos eles ostentando a cruz de ferro com gldios e diamantes. Soaram os estalos das cmeras dos fotgrafos autorizados a assistir  cerimnia.
 meia-noite e quarenta e cinco, o marechal Keitel abandonou a sala. Acabara de assinar a capitulao incondicional da
Alemanha nazista. Os seis oficiais de rostos perturbados mal conseguiam conter as lgrimas.
A noite terminou com o banquete oferecido pelo marechal Jukov s delegaes aliadas. Passava das sete da manh quando os participantes se dispersaram, Tavernier ainda no conseguira descobrir a jovem do aeroporto de Tempelhof.
s nove horas, os russos acompanharam os hspedes ao campo de aviao engalanado com as cores soviticas, onde se desenrolou uma cerimnia idntica  da chegada.
S nesse momento Tavernier soube que os membros da delegao britnica e da delegao americana tinham partido logo aps o banquete.
Despediu-se dos representantes e retomou o seu posto.
De volta a Berlim, cuidou do enterro de Mathias Fayard.
Um ms mais tarde, era novamente chamado a Paris.
Mal chegou, Franois Tavernier correu imediatamente para a rua da Universidade. Mas ali ningum soube lhe dar notcias de La. Sua ltima carta viera de Londres e tinha a data de 30 de abril.
Na Cruz Vermelha, a senhora De Peyerimhoff comunicou a Tavernier o deslocamento de La para a Alemanha.
Segundo os ltimos dados, estava em Luneburgo e passava por noiva de um oficial britnico.
Tavernier entregou a Franoise a caderneta de Otto Kramer, encontrada com Mathias, assim como a ltima carta que lhe era endereada. Franoise no chorou. Agradeceu a Tavernier e fechou- se no quarto.
"Minha bem-amada.
Estou com vontade de conversar com voc esta noite e de esquecer os horrores que me rodeiam: meus camaradas mortos, o meu pas destrudo, para s pensar nos momentos felizes que passamos juntos.
Momentos curtos demais, infelizmente roubados da guerra.
Voc me deu tudo o que um homem pode desejar: o seu amor e um filho. Esse filho a quem no pude dar o meu nome, educ-lo nos paradigmas da honra e da dignidade. Ensine-o a amar o meu desventurado pas e a contribuir para a reconstruo de nossas duas naes.
Neste exato momento, combatemos em conjunto com estrangeiros alistados nas Waffen SS. No consigo compreender o que esses pobres diabos vieram procurar numa luta que no lhes diz respeito.
Sonho com a hora do nosso reencontro, quando tudo estiver terminado, nessa regio de Bordus que aprendi a amar. Fico imaginando voc e nosso filho, na velha casa ou no terrao que domina os vinhedos.
Volte para Montillac, l voc encontrar a paz. Nas longas noites de inverno, sente-se ao piano para tocar nossas msicas preferidas. A msica constitui um imenso lenitivo para a alma.
Tenho de deix-la, minha querida. Os russos se aproximam do prdio em runas onde nos abrigamos. Vou para o meu posto, para o meu tanque. Estes breves minutos passados com voc deram-me uma paz profunda e eliminaram a angstia destes ltimos dias. Vou para a luta fortificado pelo nosso amor. Adeus,
Otto."

Captulo 37

Aps A RPIDA incurso a Berlim, La foi reintegrada na Cruz Vermelha Francesa. Fora ela, de fato, quem
Franois Tavernier vira no aeroporto de Tempelhof; como o DC3 que transportara a delegao britnica dispunha de um lugar vago, pensou em estabelecer contatos com os organismos da Cruz Vermelha dos outros pases aliados. Isso, porm, se revelou impossvel.
Depois do "seqestro" de Sarah Mulstein, La se transformara numa verdadeira herona para o crculo de militares prximos do marechal Montgomery. Eles intercederam junto ao marechal e a seus superiores imediatos para evitar que ela fosse demitida.
De quarentena para que se evitasse um surto de tifo, Sarah se restabelecia na Inglaterra. Nada restava da bela judia que tanto havia encantado La. Sarah Muistein era agora uma mulher arruinada, precocemente envelhecida, que tremia se algum levantava um pouco a voz. Recusava-se a contar o que sofrera. Mas evocava sem cessar o instante em que La a descobrira, como por milagre, e falava disso com um reconhecimento pungente.
Aps a quarentena, George McClintock a recebeu no seio de sua famlia. O oficial britnico confiou-lhe sua inteno de se casar com La, mas Sarah lhe respondeu com uma voz suave e cansada:
- La no foi feita para voc, George.
McClintock deixou-a, triste e magoado. Depois de pouco tempo, regressou  Alemanha.
Aps a conversa com Sarah, McClintock passou a observar La com muita ateno. Ela havia mudado. Estava ao mesmo tempo mais terna e mais provocante, aturdindo-se durante noites inteiras, bebendo e danando na companhia de jovens oficiais. Vivia rodeada de uma verdadeira corte de admiradores devotados, que seduzia com desenvoltura irritante.
George mostrava-lhe a deselegncia de tal comportamento, mas a jovem o beijava, chamando-o de antiquado, embora pensasse que ele daria um marido ideal. Por vezes, uma certa nsia de repouso levava-a mesmo a pensar que poderia se casar com McClintock.
Enviada pela Cruz Vermelha a Bruxelas e, em seguida, a Luneburgo, La encontrou-se de novo com Jeanine Ivoy e conheceu Claire Mauriac e Mistou Nou de la Houplire.
Juntas, transportavam os deportados, em quem, atravs de sua juventude e de sua beleza, incutiam a esperana de uma vida nova.
Substituram os quepes por chapus redondos, depois de terem percebido que aquela cobertura vulgar lembrava as de seus carrascos. Apesar do horror dos campos de concentrao - ou talvez por causa dele -, reinava grande alegria na seo francesa da Cruz Vermelha.
Chegaram a Berlim no comeo de agosto e se instalaram no 96 de Kurfrstendamm, no setor britnico, um dos raros edif cios que no sofreram demais com os bombardeios. Apenas ela e suas colegas belgas tiveram autorizao para circular pelo territrio ocupado pelos russos  procura de pessoas de seus pases nos campos de concentrao.
Mais de uma vez transportaram ingleses nas ambulncias, o que lhes valeu combustvel e vveres por parte dos britnicos.
De todas as tarefas, a mais penosa era, sem dvida, tirar dos alemes as crianas nascidas de pais franceses ou belgas.
Quando era possvel, passavam a noite no clube ingls, danando com os oficiais, ou bronzeavam-se  beira da piscina do
Blue and White.
Mistou, Claire e La dividiam o mesmo quarto. Chamavam-no "o quarto das cortess" por causa dos esforos que faziam para torn-lo atraente e, sobretudo, por causa da beleza das trs jovens, que provocava inveja nas outras.
Bastava que entrassem num dos clubes militares aliados para que os homens logo abandonassem suas parceiras e viessem convid-las para danar.
Os olhos risonhos e o sorriso radiante de Mistou provocavam verdadeiras devastaes. Claire, bela e melanclica, s tinha olhos para o capito Wiazemsky, libertado pelos russos, junto de quem terminara a guerra. Apesar de lhe terem pedido, ele se recusava a voltar ao seu pas e retomar o seu posto no Exrcito francs.
Quanto a La, j se perdia a conta dos homens a quem havia levado ao desespero.
Certa noite, ao voltar de uma misso particularmente dolorosa, em companhia de Claire e do capito Wiazemsky, La chocou-se com um oficial francs.
- Desculpe-me.
Cansada demais para responder, ela continuou seu caminho, sem mesmo olhar para ele.
La!
Ela estancou, paralisada como na noite de Natal em Amiens. No se mexer, no se voltar, para no destruir aquela felicidade to frgil!
- La!
Franois estava ali,  sua frente, mais alto do que se lembrava dele. Esquecera-se tambm de como o seu olhar era lmpido, e sua boca...
No havia mais runas, nem alemes magros e obsequiosos, nem esqueletos ambulantes, nem crianas abandonadas, nem sangue, nem mortos, nem pavor! S Franois, ali, junto dela, vivo, vivo e palpitante em seus braos. Mas. . . por que ele chorava? Que louco.
chorando num dia como esse! E ela. . . tambm chorava? Sim, chorava e ria ao mesmo tempo e todos em volta deles faziam a mesma coisa.
Mistou, que se aproximara, assoava-se sem cerimnia, murmurando;
- Oh, como  belo o amor!
- Pobre McClintock! - suspirou Jeanine.
Claire apertava com fora a mo do seu belo capito Wiazemsky.
- Desde maio que eu a procuro em todo lugar - Franois murmurou com o rosto escondido em seus cabelos.
- No tinha notcias suas. Pensei que tivesse morrido.
- Suas irms no lhe disseram que fui procur-la quando estive em Paris?
No, La indicava com um gesto de cabea, fungando. Mistou estendeu-lhe o leno.
- No fiquem aqui. Se o patro v vocs, vai ser uma festa.  muito severo quanto ao comportamento das suas meninas.
Venha nos encontrar daqui a pouco no clube ingls, Tavernier. Vamos tomar um banho. Estamos cheirando a carne morta que  uma coisa!
- Mistou! - Claire gritou.
- E no  verdade?  to verdade que voc at me disse que ia ter uma das suas famosas dores de cabea.
- Gostaria que estivesse em meu lugar - disse Claire.
- Obrigada, mas pode ficar com elas. S de pensar nas suas enxaquecas eu j fico com dor de cabea.
- Parem de brigar - La interveio.
Virou-se para Jeanine e perguntou:
- Voc se lembra de Franois Tavernier?
- Se me lembro! Graas a ele tive a melhor noite de Natal de toda a minha vida. Como est, comandante? Tenho muito prazer em rev-lo.
- Como vai?
- Vamos, meninas! Ao relatrio! No pensem que o dia j acabou. At depois, comandante.
Quando ficaram a ss, Tavernier e Wiazemsky mediram-se com o olhar e, por fim, combinaram de se encontrar s oito da noite, no clube britnico.
Nessa noite, todos os homens que viram La rir e danar com Tavernier compreenderam que no tinham mais nenhuma chance. McClintock a olhava com o corao oprimido. Mistou o notou e aproximou-se do oficial.
- No faa essa cara, coronel - disse ela. -  melhor que me convide para danar.
Quando os dois pares se cruzaram, La endereou  amiga um sorriso agradecido.
Franois apertava-a com tanta fora que La mal podia respirar. Mas por nada no mundo se queixaria disso, sem dizer nada, muito alm das palavras. Deslizavam sem pensar em seus movimentos seguindo a msica instintivamente ou alterando-os de forma maquinal, convertidos num s corpo.
Como em Paris, na Embaixada da Alemanha, continuaram a danar mesmo depois que o ltimo acorde se perdera no espao. Risos e aplausos os trouxeram de volta  realidade. Depois de beberem um pouco, deixaram o clube.
A noite estava suave. Subiram no jipe estacionado prximo da sada. Rodaram durante muito tempo em silncio atravs de extenses de escombros. Depois, atravessaram um parque devastado onde,  claridade da lua, os troncos retorcidos e calcinados se assemelhavam a um exrcito em marcha.
Franois parou o veculo na Charlottenburgerstrasse. Parecia que a lepra corroera a paisagem ao redor da coluna da Vitria. Apenas o smbolo dourado de asas abertas se erguia intacto, intil naquela cidade em runas, naquele pas vencido.
Com suavidade, Tavernier atraiu La para si. Ficaram abraados, sem um gesto, deixando-se invadir aos poucos pelo calor um do outro, de plpebras fechadas para melhor saborearem aquela felicidade surpreendente: a de estar aniquilado de amor, de sentir seus coraes contrados num corpo que no lhes pertencia mais.
Seria provavelmente a primeira vez, naqueles locais sinistros, que sua ternura amorosa se desabrochava, arrastando-os no lento turbilho das sensaes aguadas. Nesse momento, no experimentavam o desejo sexual, to submersos que estavam na alegria transbordante de seus coraes.
O canto prximo de uma ave noturna os fez rir ao mesmo tempo.
- As aves noturnas voltaram.  bom sinal - La comentou.
- Vamos voltar.
Passaram diante da igreja construda em homenagem ao imperador Guilherme. Os quatro campanrios erguiam suas torres na entrada de Kurfrstendamm, semidestrudas, ainda dominadas pelo campanrio central, que parecia ter sido decapitado.
- J vai me levar de volta?
- No, minha querida. S se voc quiser. Quando a deixei h pouco fui alugar um quarto no muito longe daqui, na casa de uma velha senhora.
- Como  que conseguiu? No h nada para alugar.
- Eu me virei . .
Tavernier parou o carro numa ruazinha perto de Hohenzollerndamm. As casas baixas haviam sido poupadas da fria dos bombardeios.
Com uma chave enorme, Tavernieabriu a porta envidraada de uma das casas. Uma lamparina de leo iluminava o vestbulo. Um grande gato veio se esfregar em suas pernas. Cada um pegou uma das velas que haviam sido deixadas sobre uma cmoda, e subiram as escadas rindo muito.
No quarto reinava um perfume de rosas murchas.  luz vacilante das velas, Franois desembaraou-se do uniforme.
Depois, lenta- mente, fez deslizar as alas da combinao cor-de-rosa de La. O rudo da seda exaltou-lhes os sentidos. A pele de La estremeceu sob a carcia do tecido.
La saltou sobre a lingerie morna, onde Tavernier mergulhou o rosto, aspirando com avidez o odor daquela mulher. Teve de se conter para no lhe arrancar imediatamente a calcinha debruada de renda.
Quando La ficou nua, ele ainda continuou ajoelhado a seus ps, contemplando-a. Ela deixava que ele a percorresse com esse olhar que a devorava, deixando-a trmula e obrigando-a a dobrar os joelhos.
Estremeceu quando os lbios de Franois procuraram o interior de suas coxas. Sentiu seu sexo se abrir e ir ao encontro dos beijos de seu amante. Atingiu o orgasmo assim em p, as mos convulsamente agarradas aos cabelos de Franois.
Depois, ele a carregou para a cama e acabou de se despir sem deixar de fit-la. Penetrou-a com doura. Confiante, La deixava-se conduzir. Quando sentiu que o prazer irrompia, gritou:
- Mais depressa. . . mais depressa!
Franois Tavernier levou-a para casa antes do amanhecer. La entrou silenciosamente no quarto das cortess, sem acordar as companheiras.
No dia seguinte, Franois e La contaram um ao outro o que viveram desde o Natal passado em Amiens. Com uma alegria to grande que quase provocou os cimes da jovem, Tavernier soube da libertao de Sarah Muistein e do seu lento restabelecimento na Inglaterra.
No se atrevia a anunciar a La a morte de Mathias Fayard. Comeou lhe dizendo o que acontecera a Otto e contou sobre sua visita a Franoise.
- Voc estava l quando ele morreu?
- No. Encontrei sua caderneta militar no bolso de um SS francs que o conhecia.
La fechou os olhos.
- E que aconteceu a esse francs? - ela perguntou com voz sumida.
- Morreu.
Uma lgrima deslizou pelo seu rosto bonito.
- Como ele se chamava?
Franois abraou-a e depois, baixinho, lhe contou tudo.
- Morreu chamando por voc e lhe pedindo perdo. Chore, minha querida, chore.
La soluava como uma garotinha. Como era difcil deixar a infncia!
A tarde, La quis ir ao tmulo de Mathias. Deixou ali algumas flores compradas na floricultura da esquina da
Konstanzerstrasse.
- Podemos translad-lo para a Frana, se voc quiser.
- No. Ele morreu aqui e  aqui que deve ficar.
- O que est fazendo?
- Pegando um pouco desta terra para misturar com a de Montillac - disse La, sentindo-se de repente assaltada por uma felicidade melanclica.
- Mas o que voc tem?
La no tinha nada. Apenas, pela primeira vez desde h muito tempo, acabava de encarar o eventual regresso  sua terra adorada. E era Mathias quem o sugeria.
Com frenesi, La encheu o seu chapeu com terra. Quando se ergueu, um novo brilho cintilava em seus olhos.
Viram-se todos os dias durante uma semana. Na medida do possvel, Claire e Mistou encobriam dos outros as ausncias e os desvarios da colega. Apesar disso, a tarefa desempenhada em Berlim pelas jovens da Cruz Vermelha Francesa causava a admirao de todos.
Jeanine Ivoy, chefe da seo, escreveu  senhora De Peyerimhoff:
"Segundo os relatrios dirios de servios, poder constatar o bom andamento de nossos trabalhos.
Conseguimos obter dos ingleses a prorrogao da nossa interveno neste setor, graas ao trabalho que lhes prestamos. Como lhes foi negada autorizao para entrar na zona russa a fim de procurarem sditos britnicos desaparecidos (cerca de trinta mil), assim, durante nossos trabalhos, fazemos por eles o que faramos pelos nossos. Por vezes, oltamos com centenas de certides de bito ou de listas de sepulturas encontradas nas menores aldeias e as separamos por nacionalidade. Quanta papelada!
Estamos reduzidas a cinco condutoras e a uma enfermeira em cada grupo, pois os ingleses insistiram no corte do pessoal devido a dificuldades de abastecimento.
Os alsacianos e os lorrainenses continuam chegando e  com alegria que os encaminhamos: pobres sujeitos, sofreram tanto! Durante dez dias, nossas jovens vestiram, alimentaram e cuidaram sete mil deles. Seu devotamento  inesgotvel e tem despertado a admirao das autoridades francesas e britnicas.
Outros trens com alsacianos e lorrainenses (perto de trs mil) so continuamente esperados, e as autoridades inglesas nos avisaro por telefone. Seu estado de sade  extremamente precrio e ficamos felizes, como Cruz
Vermelha Francesa, em poder lhes dar esse apoio moral e material de que tanto necessitam.
Vemos com freqncia o general Keller, quando ele vem de Moscou. Ele nos avisa da passagem dos trens. H muitos internados em campos de concentrao nos confins da Rssia.
Na verdade tivemos muita sorte de poder circular pela zona russa. Ganhamos a sua confiana e por toda a parte nos recebem de forma encantadora. Durante a ltima passagem do trem dos servios de sade, fizemos uma diligncia junto a um importante general sovitico, para trazermos os doentes mais graves.
Diante de ns, o general telefonou para Moscou. A resposta foi negativa mas, pelo menos, tentamos. O pedido no foi totalmente em vo, pois nesta semana, iro nos entregar os doentes graves e eles partiro no trem sanitrio que acaba de chegar.
Reina aqui um ambiente magnfico. S tenho elogios a tecer a todo o pessoal e, muito particularmente, s senhoritas
Mauriac, Nou de la Houplire, Delmas, Farret d'Astier e d'Alvery, que formam um s bloco, sempre de mos dadas no esforo. . . ".
Franois Tavernier recebeu ordem para voltar a Paris, de onde partiria para os Estados Unidos.
Depois de mais uma noite passada na pequena casa da velha alem, La acompanhou Franois ao aeroporto de Tempelhof.
Comeou a tremer quando o viu entrar a bordo do Dakota e quase desmaiou, presa do medo de nunca mais voltar a v-lo.
Aps sua partida, as amigas tudo fizeram para a distrarem. Mistou e Claire saram-se to bem que conseguiram faz-la recuperar uma parte da antiga alegria.
Junto com o capito Wiazemsky, visitaram a Chancelaria e o bunker de Hitler. Saram dali oprimidas por aquele lugar juncado de telegramas, de jornais meio consumidos pelo fogo, de retratos rasgados do Fhrer, de caixotes revolvidos, de condecoraes manchadas.

Captulo 38

EM MEADOS DE setembro, La recebeu ordem para conduzir um grupo de crianas a Paris. Deixou Berlim e as colegas com tristeza, mas, ao mesmo tempo, com certo alvio - ali havia runas demais, sofrimento demais, mortos demais.
Quando chegou em Paris, a sra. De Peyerimhoff concedeu-lhe uma licena. La correu para a rua da
Universidade. Mas encontrou a porta fechada.
A zeladora lhe entregou as chaves do apartamento, informando-a de que todos haviam partido para Gironde.
La no compreendia o que poderia ter acontecido.
Nessa mesma noite, ela, que se preparava com satisfao para passar alguns dias na capital, viu-se correndo para a estao de Austerlitz.
O trem estava superlotado e os vages eram muito desconfortveis. La passou a noite espremida entre um militar atrevido e uma mulher gorda e rabugenta.
Cada vez que cochilava, ouvia invariavelmente os gritos de dor de tia Bernadette ou os gemidos de Raul.
Durante quanto tempo esses fantasmas iriam persegui-la?
Era loucura aquela sua volta a Montillac. O que esperava encontrar? Depois de ter visto tantos destroos para que acrescentar mais um nessa lista de misrias acumuladas ano aps ano? Para que voltar atrs, se nada ressuscitaria os mortos nem a velha casa?
Chegou em Bordus esgotada e decidida a embarcar de novo no prximo trem para Paris. Na plataforma vizinha, o velho trem partia para Langon. Sem pensar, La correu para ele. Pela porta aberta, algum lhe estendeu a mo e ela saltou.
A estao de Langon no havia mudado. Carregando sua mala, La dirigiu-se para o centro da pequena cidade.
Era dia de feira. Dois soldados conversavam na frente do Hotel Oliver.
- Mas. . .  a senhorita Delmas! . . . Senhorita!
La se voltou.
- No nos reconhece, senhorita? Ns a levamos at a casa de Sifflette, com seu tio e aquela pobre senhora baixinha.
Claro que La se lembrava!
- Ento, voltou para sua terra? Ah, quantas coisas aconteceram por aqui! E no foram coisas boas! No tem mais a sua famosa bicicleta? Nesse caso, ns vamos lev-la. No queremos que se sinta em dificuldade. No , Laffont?
- Que pergunta, Renault! Ningum poder dizer que a polcia francesa no  corts.
La no sabia como recusar a oferta. Foi obrigada a subir no carro oficial.
Os dois homens tagarelavam sem parar, mas La no ouvia o que eles diziam. Invadida pela emoo, enchia os olhos vidos dessa paisagem to querida, que pensara nunca mais rever.
Renault e Laffont no insistiram quando a jovem pediu para que a deixassem embaixo, na ladeira da Prioulette. Ficou esperando que o veculo se afastasse e s depois comeou a subir.
Era uma daquelas tardes bonitas de final de estao, com o sol dourando os cachos de uvas e tingindo os vinhedos daquela luz que anunciava o outono.
A subida da encosta pareceu a La bastante ngreme, fazendo com que ela diminusse o passo. Por detrs dos macios de rvores estava Montillac, ainda invisvel. Com o corao palpitante, chegou at a cerca pintada de branco.
Pairava no ar um cheiro novo, pouco habitual naquelas paragens - um odor de madeira recentemente cortada. Sons familiares chegaram a seus ouvidos: o cacarejar de galinhas, latidos de um co, o arrulhar de pombos e relinchos de um cavalo.
Por detrs das instalaes da propriedade deveriam estar as runas da casa. Uma ligeira brisa despenteou seus cabelos. La retomou a caminhada, sofrendo a cada passo.
Depois ouviu o rudo lancinante de uma serra. . . as pancadas de um martelo. . . E a voz do rapaz que cantava:
 uma flor de Pris
Do velho Pris que sorri
Pois  a flor do regresso
Do regresso aos belos dias.
Operrios colocavam ardsia sobre a estrutura nova do telhado do castelo. Uma de suas guas j estava toda recoberta. Uma porta escancarada mostrava o interior inalterado da cozinha.
Vacilante, La recuou naquele pedao do terreno que ela e suas irms antigamente chamavam de rua.
Gritos de crianas e o som de risos chegavam a seus ouvidos. La queria fugir, escapar daquela miragem, mas uma fora irresistvel a impelia para aqueles gritos e aqueles risos.
O balano oscilava entre as traves recobertas de glincia. O tempo parou e, de repente, ela saltou para o passado. Montada no balano, havia agora uma menina de cabelos revoltos que dizia:
- Mais alto, Mathias. . . mais alto!
Depois a imagem se desvaneceu e tudo retomou o seu lugar: as carpas imveis, as roseiras da alameda, as vinhas por entre os ciprestes, o trem passando ao longe, o toque de um sino. . . Ela reconheceu a voz de suas irms.
Nada parecia ter mudado.
La avanou um pouco mais. . . Um homem, trazendo Charles pela mo, vinha ao seu encontro.

Fim do livro
